sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Eclética e Compartilhada

A vontade de que uma canção deixasse minha tarde mais levinha, acabou virando uma brincadeira boa no Facebook e no Twitter. Eu pedi, amigos/as atenderam e uma playlist bem eclética foi sugerida para embalar o restinho do dia. Para quem adora apertar a tecla shuffle como eu, segue abaixo a lista das canções na [des]ordem que foram sugeridas!

01. Não fosse o Cabral - Raul Seixas
02. Like You Do - Angel Taylor
03. Boas Notícias - Wander Wildner
04. The Show - Lenka
05. Concrete Wall - Zee Avi
06. Ai se eu te pego - Cangaia de Jegue
07. Gonna Get Over You - Sara Bareilles
08. Mary Cristo - Tribalistas
09. Êta Vida - Sociedade da Grã-Ordem Kavernista
10. Imensidão - Flávia Wenceslau
11. Age of Adz - Sufjan Stevens
12. The Melody of a Fallen Tree - Windsor for the Derby

Bônus - Chicago - Sufjan Stevens

Foto: Wolney Fernandes

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Recife, "um dia qualquer..."


  • Passamos o dia todo caminhando. Dor nos pés, mochila pesada nas costas e um cansaço acumulado no peito. Bastou só um convite - ao som do frevo e do maracatu - para que eu, sem titubear, entrasse no giro da ciranda na festa que estava rolando na praça.
  • Tínhamos acabado de atravessar a Rua dos Martyrios e paramos na esquina para fazer anotações. De repente, uma meleca destampou do céu dos pombos direto na minha calça clara. Depois disso, a tarde virou um filme de Hitchcock com pássaros conspirando e atentando contra mim.
  • A moça sentada ao meu lado no ônibus olha para a Praça do "Marco Zero", vê aquele monte de turistas fazendo fotos e dispara: "Não sei do que esse povo tira tanta foto. Não tem nada nessa porra aí". Eu me fiz de desentendido e coloquei minha carapuça de turista na mochila junto com a câmera fotográfica.
  • No balão que o vento soprou até mim, tinha a palavra "gratidão" escrita em um papelzinho dentro dele.
  • Entrei na exposição sem saber quem era Paulo Bruscky e deixei um pedaço do meu coração lá! Bem dentro de um envelope rabiscado com caneta Bic.
  • Em Recife, a Boa Viagem começa no bairro, se estende pela praia e enfeita as fachadas dos ônibus.
  • Na primeira sinagoga da América Latina uma carta terminava assim: "Nada é nosso e tudo é nosso, pois somos: UM com o TODO. Lá de onde eu estiver, mando meu carinho e agradeço termos sido amigos".
O título da postagem foi decalcado dessa mesma carta. 
A foto é minha e foi feita na praia de Boa Viagem

domingo, 18 de setembro de 2011

Sobre medos, incertezas e desatinos

Me falta coragem. E sei que se eu parasse menos para indagar meus próprios medos, eu estaria adiante. É que eles, os medos, falam uma língua embolada e me silenciam com um olhar de reprovação. Uma indelicadeza só! Por eles, sou Leão da Montanha porque plantam em mim vontades de saídas estratégicas. Pela direita ou pela esquerda, não importa! E tem mais, meus medos detestam apelidos e ameaçam pulos em cada passo que resolvo empreender.

A incerteza, essa sim, é minha parceira mais fiel. Me inspira desatinos e sussurra baixinho, com a convicção necessária, para eu continuar me movendo vida afora. Ela me beija na boca só pra deixar meus medos roxos de ciúmes. Um charme só!

Imagem capturada aqui.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Monumentos Notáveis

"Monumentos Notáveis" é uma ação motivada pelo desejo de convivência desenhada por Manoela Afonso e eu. Seu caráter colaborativo é conduzido pela experiência de uma produção artística compartilhada com pessoas de um determinado local, à partir da vontade de revelar sentidos de alguns lugares da cidade.

Quais são os elementos que marcam o cotidiano das pessoas e que merecem ser destacados? As respostas, dadas pelos/as moradores/as do local são oficializadas em uma cerimônia de inauguração com todas as pompas e honras típicas desse tipo de celebração: anúncio oficial, corte de fita, certificação, festa etc.

Inaugurar para tornar visível, para questionar e [re]configurar relações com os espaços/lugares da cidade. Inaugurar para festejar em grupo, solenizar, cercar de cuidado e de estima o que, muitas vezes, é coberto por certa invisibilidade. A Barraca de roupas da Dona Divina, o Fusca abandonado na calçada, os pastéis do "seu" Maurício (...) são presenças notáveis que imprimem identidade a determinado cotidiano e, por isso, merecem honra e mérito popular.

Para registrar estas inaugurações criamos um escritório ficcional, chamado Tabelionato de Ações Ordinárias, com livros de registro, carimbos, certificados e papeladas ligadas a uma burocracia poética. Tudo isso para oficializar desejos individuais e, a partir deles, criar opções coletivas que abram espaço para novos olhares!



Foto: Imagens da ação feita em Cezarina-GO em julho de 2011.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Rua de Dentro


O menino morava na rua que tinha um pé de Flamboyant bem no meio. As cartas cheias de vergonhas, medos e saudades ele pendurava em cada um dos galhos pintados com o fogo que a primavera trazia. Era lá que ensaiava vôos e onde tinha Venda de comprar suspiro.

Mas ele saiu daquela rua faz tempo e deixou escondida uma caixa cheia de suspiros e papéis que vão se amarelar um dia... Só que o menino continua. Nunca ele vai se mudar da rua de dentro de mim.

Imagem: Wolney Fernandes

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A Árvore da Vida

Em 1991, eu voltava de um fracassado teste de datilografia, às 10 da manhã de uma quarta-feira, quando topei com minha tia no meio do caminho que, assustada, tinha ido me avisar da suposta morte do meu pai que se confirmou logo em seguida quando falei com minha irmã pelo telefone. Tudo que me lembro, além da falta de ar, era a pergunta que eu fazia internamente: "Por que Deus deixou isso acontecer?"

E é essa uma das tantas perguntas que o protagonista de "A Árvore da Vida" também faz. Com ele, pelas vias da beleza e da doçura fui conduzido às minhas reflexões internas sobre a própria natureza da vida. Os arcos da narrativa, sem a estrutura de começo-meio-fim, parecem memórias fragmentadas, dúvidas e impressões que se desgrudaram da tela para se instaurarem do lado de cá.

Embora fale, exalte e questione o sentido da vida usando muitas referências religiosas [com inteligência, diga-se de passagem], o filme não é sobre religião e, tampouco pedante a ponto de nos incitar a escolher o caminho do bem em detrimento do mal, como os preceitos dogmáticos insistem em fazer.

A história(?) mostra partes da vida de Jack, vivido por Hunter McCracken no passado e por Sean Penn no presente. Um garoto e um homem, ao mesmo tempo, atravessando ciclos muito específicos da existência. A maior parte do roteiro se concentra no período que o menino vive com os pais e dois irmãos mais novos em uma pequena cidade no interior do Texas, nos Estados Unidos.

"Pai... Mãe...vocês estão sempre lutando dentro de mim"

Deus, materializado pela figura do pai e vivido por Brad Pitt, é um sujeito cheio de regras, dogmas, que pune e ainda exige devoção e amor em troca. Me fez lembrar das aulas de catecismo quando, no auge das minhas incertezas, todos os domingos eu era questionado pela primeira pergunta do livrinho branco: "Quem é Deus?". Some a isso a pressão feita pela minha catequista que insistia em dizer que eu deveria saber a resposta e, ao mesmo tempo, temê-la por ter conhecido e experimentado tal revelação.

Em contrapartida, o filme também apresenta Deus materializado na figura da Mãe (Jessica Chastain - soberba!) como ventania que comunga com o mundo ao seu redor, que brinca com os filhos e estende as mãos para abraçá-los com o carinho e a delicadeza de um perfume bom, daqueles que embalam feito brincadeira de criança. É por ela que passamos a questionar as relações dentro de um panorama mais holístico e embarcarmos na dança da criação, habilmente orquestrada por imagens e sons que conduzem nossas próprias reflexões acerca do nosso papel no planeta.

E nesse ponto, o filme lembra "2001 - Uma Odisséia no Espaço", pois nos dá tempo e nos incita a um mergulho em nossas dúvidas, memórias e anseios: Deus existe? Quem somos nós para Ele? Como podemos conhecer as coisas sem olhar? O que existe do outro lado da vida? Qual o nosso papel dentro da dinâmica da criação?

Habilmente recriada, a origem da vida no filme se espalha de ponta a ponta, nas citações, na trilha sonora, na resolução e em metáforas tantas que fica difícil enumerá-las. Reparem, por exemplo, no formato de vagina e pênis que os primeiros seres aquáticos apresentam ou mesmo na espiral de vitrais religiosos que faz referência ao movimento do DNA.

O filme começa quando uma vida termina e seu final é marcado por um novo começo.

No início, a narrativa nos coloca diante de uma bifurcação: De um lado, o caminho da natureza - mundano - que satisfaz a si mesmo e, do outro, o caminho da graça, absoluta e universal. Ao longo do amadurecimento do menino Jack, contudo, a trama nos sugere que esses dois rumos são faces de uma mesma esfera e, portanto, complementares.

Eu até poderia afirmar, erroneamente, que quem nunca foi tocado por uma situação de morte tão próxima como a perda de um pai, uma mãe ou um irmão, talvez não se deixe envolver pela dinâmica que "A Árvore da Vida" propõe. No entanto, o filme também me trouxe à memória, um balanço feito com corda de sisal montado na sala de casa ou quando eu, com quatro anos, vi minha irmã entrar pra dentro da família carregada nos braços de minha mãe que tinha saído grávida alguns dias antes.

Aquele balanço e aquela chegada me fazem entender, agora com um pouco mais de clareza, que a vida se evidencia em instantes que ajudam a construir nossas histórias e nossas relações uns com os outros. Se a morte nos faz questionar o sentido da vida, a própria vida segue disposta a encontrar sorrisos mesmo sabendo que caminha rumo ao fim. E, isso, já é razão suficiente para que não fique ninguém sem se emocionar diante dela.

Imagem capturada aqui.

sábado, 3 de setembro de 2011

Memórias com nota de rodapé

Funciona mais ou menos assim: Mesmo quando a lembrança é ruim, minha vontade não é apagá-la. Mesmo quando dói, meu desejo é completá-la. Continuar pequenos trechos, escrever comentários, fazer desenhos ou acrescentar notas de rodapé.

Minhas lembranças parecem estar dispostas de maneira a constituir uma fresta por onde dores e alegrias entram de mãos dadas.

Imagem: Cenas do filme "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças". Achei aqui.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Estudos em Preto e Cinza

Para os dias acinzentados que antecedem a primavera e celebram a chegada de setembro.

Foto: Wolney Fernandes

terça-feira, 30 de agosto de 2011

DonAna

Desabusada
DonAna sentou na calçada para escolher os queijos.
- Quero 14! - pediu ao moço que havia oferecido as iguarias na porta da minha casa em Lagolândia. Selecionou cada um com o cuidado de quem já fabricou o produto por muito tempo e, quando questionada sobre a quantidade exagerada, respondeu:
- Pra "desabusar" o vendedor de queijos da feira lá em Goiânia! Mostrar pra ele o que é queijo de verdade!

Perna aberta
Estávamos no banco de trás do carro indo para Anápolis. Sentada no meio, entre mim e uma prima, DonAna remexia inquieta. De supetão arrancou o cinto feito com o mesmo tecido do vestido estampado e perguntou:
- Advinha o que vou fazer com isso?
Sem ter a mínima ideia desistimos de tentar advinhar e ela, enlaçando as pernas, explicou:
- Vou amarrar minhas pernas senão elas não páram quietas aqui no meio!
E seguiu tagarelando de pernas amarradas até o destino da viagem.

Caminhada
Toquei a campainha e ouvi, de dentro do apartamento, DonAna perguntar:
- Quem é?
- Sou eu, DonAna! O Wolney!
- Peraí que vou vestir uma roupa, pois estou só de calcinha fazendo caminhada pelo apartamento.

Giro
Encantada com o movimento circular que a máquina de lavar fazia, DonAna resolveu acompanhar a lavagem olhando fixamente para o giro das roupas. Acordou 5 minutos depois, ainda tonta pela movimentação que a fez desmaiar.

Dor na Coluna
A cadeira para ver televisão era de encosto reto e feita sob medida para ajudar com as dores na coluna. O problema era o cochilo que DonAna empreendia sempre que ia assistir a RedeVida. Acordava "emborcada" com o nariz entre os joelhos. Incomodada com a postura e zelando por seu sono, não teve dúvidas: amarrou uma meia calça velha na cabeça e prendeu na janela atrás da cadeira. Desse modo, a coluna ficava ereta, mesmo durante o sono diante da TV.

Maloca
DonAna chegou na porta do meu quarto e, diante da minha estante de livros e DVDs suspirou:
- Êeeeeeeeeeehhh maloca danada!

DonAna era minha tia-avó, destas que a gente perde e fica sempre com aquela vontade de ter um tempinho a mais para conviver, pois ao seu lado a vida era só alegria.

Foto: Wolney Fernandes

domingo, 28 de agosto de 2011

Mudança

Outro dia fui fazer minha mala e me senti em casa, como há tempos não acontecia. Quando não é possível mudar de casa, eu mudo de mim. Estou morando num Wolney de dois quartos agora.

Foto de Logan Cyrus.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Cantinho de guardar sentidos

Esta é minha 980ª postagem. Olho para este número e penso nas vinte que virão depois dela para que se complete mil instantes registrados aqui.

Antes, qualquer imagem, perfume ou rabisco que se alojava em mim eu guardava no blog. Agora, demoro mais para voltar neste espaço porque há outros lugares (leia-se: redes sociais) onde posso compartilhar com dois ou três cliques apenas, aquilo que me encanta cotidianamente.

Sensações diferenciadas me fazem encarar estas duas possibilidades. Na primeira, relacionada àquilo que mostro nas redes sociais, a impressão que tenho é que estou na janela do meu apartamento lançando imagens, canções, textos e pensamentos ao sabor do vento em uma rua movimentada. Umas vão... outras voltam em um movimento que se expande, mas nem sempre se aprofunda. Na segunda, aqui no blog, é como se guardasse preciosidades em uma caixinha que pode ser acessada sempre que eu desejar. Por ela, memórias são saboreadas e lembranças reativadas nesse meu cantinho de guardar sentidos.

Eu demoro porque não me obrigo a ter sempre algo para guardar. Afinal, toda obrigatoriedade acaba por tirar um pouquinho do sabor que a vida tem.

Foto: Wolney Fernandes

domingo, 14 de agosto de 2011

No fone

Motivação perfeita para uma postagem é o pedido de uma amiga para sugerir discos que eu estivesse ouvindo recentemente. Dois dias depois e aí está a lista com sete deles.

Uma banda
Bodies of Water
Disco - "Twist Again"
Faixa de bis - Like a Stranger

Uma cantora internacional
Russian Red
Disco - Fuerteventura
Faixa de bis - Everyday Everynight

Uma cantora nacional
Tiê
Disco - A Coruja e o Coração
Faixa de bis - Piscar o Olho

Um cantor
Ibrahim Ferrer
Disco - Mi Sueño
Faixa de bis - Melodia del Rio

Uma dupla
The Swell Season
Disco - Strick Joy
Faixa de bis - In These Arms

Uma trilha sonora
Half Nelson 
Faixa de bis -Can't You See

Bônus 
Cantor - Thurston Moore
Disco - Demolished Thoughts
Faixa de bis - Benediction

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

domingo, 7 de agosto de 2011

Há tanto tempo que te amo

Cinco atrizes francesas e meus filmes preferidos.

Audrey Tautou
Meu filme predileto: O fabuloso destino de Amélie Poulain

Marion Cotillard
Meu filme predileto: Piaf - Um Hino ao Amor

Julie Delpy
Meu filme predileto: Antes do Amanhecer

Juliette Binoche
Meu filme predileto: Cópia Fiel

Catherine Deneuve
Meu filme predileto: Indochina

sábado, 6 de agosto de 2011

Asas do Desejo

"Quando a criança era criança, andava balançando os braços. Desejava que o riacho fosse rio, que o rio fosse torrente e essa poça, o mar.
Quando a criança era criança, não sabia que era criança. Tudo era cheio de vida e a vida era uma só.
Quando a criança era criança, não tinha opinião, não tinha hábitos, sentava-se de pernas cruzadas, saía correndo, tinha um redemoinho no cabelo e não fazia poses para fotos."

Prólogo do filme "Asas do Desejo" (Wings of Desire, GER, 1987). Imagem capturada aqui.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Asas para Voar

"Fratura tripla da coluna vertebral, fratura da cravícula, fratura de duas costelas, luxação do ombro esquerdo, tripla fratura da bacia, perfuração do abdômen e da vagina, 11 fraturas na perna direita e deslocamento do pé direito."

Texto: Diagnóstico de Frida Kahlo após o acidente de 1925.
Imagem do Diário de Frida Kahlo.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Vontades

Os olhos de Frida Kahlo caçoam das minhas arrumações e remendos de organização no quarto. Do lado de fora, a vida volta à sua apressada normalidade. Do lado de dentro, só essa vontade de silêncio que os meus lábios não pronunciam. Tudo parece bem ao final das contas. "Agosto não será difícil", repito pelos cantos dos meus últimos textos. Então, o que explica essa vontade louca de sair daqui?

Foto: Wolney Fernandes

sábado, 30 de julho de 2011

Registrar para existir?

Na última viagem que fiz, minha primeira promessa era não me deixar enforcar pela alça da câmera fotográfica. Segundo meu próprio direcionamento, o registro seria feito só depois de saborear cada pedacinho de vista, pessoa ou situação que perfumasse meus olhos. Tudo que eu queria era viver a experiência sem uma lente se interpondo entre mim e o fato vivenciado. Ainda assim, cerca de mil e duzentas(!) fotografias foi o saldo dos 15 dias que fiquei fora.

Para quê tudo isso? É sempre a pergunta que me faço ao descarregar as fotos no computador. Será que deixar de documentar minhas experiências e emoções fará com que eu me esqueça delas de forma mais rápida? E mais! Se não divulgar estes momentos em redes sociais, blogs e outras traquitanas por aí, eles deixam de existir?

Claro que a resposta é não, mas pelo andar da carruagem, me parece que tudo que não for registrado e divulgado desaparecerá de nossa memória. Aniversários, sorrisos, namoros, sessões de cinema, despedidas, desenhos rabiscados no caderninho, passeios, estranhamentos, bonitezas... ocasiões importantes que, por vezes, se transmutam em situações fugidias, pela necessidade de documentação.

Escrevo isso e a urgência desse tempo que vivemos me faz ter a sensação de que sou um velho saudosista sem a noção da revolução que as novas tecnologias fizeram no campo da imagem. No entanto, mesmo em dias como os nossos, é preciso pensar que a vida também acontece sem provas documentais.

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Nesses dias...

























1. Si ti Contara - Ibrahim Ferrer
2. Buildings & Mountains - The Republic Tigers
3. Nina - Chico Buarque
4. Rapture - Blondie
5. Mundo Abisal -  Jorge Drexler
6. I've Got a Crush On You - Ella Fitzgerald
7. Price Tag - Jessie J. ft. B.O.B.
8. Chances Are - Garrett Hedlund
9. Moves like Jagger - Marron 5 ft. Christina Aguilera
10. Amazing - One Eskimo

Foto capturada em navegações por aí. Se alguém souber a autoria, é só gritar!

domingo, 24 de julho de 2011

Ynés e Ricardo

Quatro cartas de amor trocadas por dois amantes nos meses de janeiro e fevereiro de 1907. Ela, Ynés de la Torre, moradora de Puebla. Ele, Ricardo Farias, da Cidade do México. Juras de amor, pedidos de desculpa, gestos e palavras apaixonadas descritas em atravessamentos atemporais.

Caminhos desconhecidos fizeram estas cartas atravessarem um século inteiro para repousarem, agora, em sentidos variados que eu, por alguma razão, começo a [re]construir.

Foto: Wolney Fernandes

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Umbigo da Lua

Meu olhar de turista, desajustado, encontra repouso naquilo que é fugaz. Esse mesmo olhar, cansado das permanências, na maioria das vezes já não consegue brincar nos museus e nem ouvir com atenção as repetidas explicações pedagógicas dos guias diante dos grandes monumentos.

Em artimanhas imprecisas, meus olhos se iluminam em cantos, detalhes e texturas abandonadas, onde o tempo desenha marcas mutantes a cada nova mirada. Me interessa olhar para a vida que acontece pelas frestas do cotidiano e, tão só, me deixar surpreender.

A mulher no canto do metrô pinta com rímel os cílios já carregados de tinta. Os números do portão, desenhados à mão, delineam outros modos de escrita e a cor contrastante dos carros estacionados em direções opostas me roubam instantes de puro contentamento.

Foi assim nos dias que estive na Cidade do México. Por tantas vezes, marquei o mesmo trieiro só para ir [re]descobrindo nuances novas em lugares já visitados: o mercado da Ciudadela, a Casa da Frida Kahlo, a Feira de Antiguidades, as ruas da Zona Rosa...

As tardes em museus eu troquei por passeios de carrossel, as fotos dos grandes monumentos eu substituí por imagens dos engraxates e as cores que me tatuaram vieram das bandeirolas recortadas em papel de seda. Meu lugar de descanso era a sombra das laranjeiras plantadas em pátios desconhecidos.

Os estranhamentos, tão comuns em viagens do tipo, também fazem parte do aprendizado que os olhos me proporcionam. Cada cabelo cuidadosamente esculpido em gel ou aplique virava meu pescoço. O trânsito, terra sem lei, ressignificou a palavra "caos" e o Vale das Bonecas tornou real um passeio de encantamento. Os cheiros fortes  fizeram meu estômago dar cambalhota por diversas vezes. A ardência da pimenta e o feijão no café da manhã tornaram meu paladar um tanto seletivo.

Sabores, cores, odores e amores remexidos eram refletidos em corações de lata que ornavam as portas das casas. Cravos vermelhos pelas esquinas deixaram meus olhos com aquela vontade de ficar mais um pouquinho para dançar em animadas festas descobertas nos becos da cidade.

Meu olhar de turista, mesmo depois da volta, parece refletir o brilho dos deslocamentos em nuances que a boca não consegue pronunciar. Como quem chega do "Umbigo da Lua", despido da armadura e vestido de [des]conhecimentos, o retorno mostra saudades e vontades que, em pulsação tranquila, podem desenhar realidades.

Fotos: Wolney Fernandes e Rosi Martins

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Barcas de Xochimilco

Linda Rosita, Naomi Alejandra, Karla Margarita, Maria Fernanda, Linda Yoselin, Dulce Adriana, Sofia Karen, Karla Patrícia, Lupita Margarita, Chapis Conchita, Magali Consuelito, Linda Salomé, Dulce Maricruz, Paola Viridiana, Maria Teresita...

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Zona Rosa

Segundo o guia da Cidade do México, a Zona Rosa é o triângulo perigoso da região. Desavisado, foi aqui que vim parar no desenho elaborado pela agência de viagem. Por aqui, menino com menino andam de mãos dadas, casais de meia idade trocam afetos no cantinho da estação e as namoradas, sentadas na beirinha da calçada, dizem juras de amor.

É por aqui também que famílias inteiras fazem fotos no "Monumento a la Independencia" em tardes de domingo. Em quase toda esquina, sem nenhum estranhamento, há uma Sex Shop dividindo parede com farmácias e restaurantes. As avenidas, cortadas ao meio por canteiros, têm o fluxo de trânsito em um mesmo sentido e imagens da Virgem de Guadalupe guardam as portas das casas noturnas.

Se há perigo, ainda não sei, ainda não vi... Só sei que de rosa não se pinta a palavra "perigo". Aqui, de rosa se pintam as fachadas e o algodão-doce do moço da esquina.



Fotos: Wolney Fernandes

domingo, 10 de julho de 2011

Trindade Mexicana

A Trindade que rege a Cidade do México é formada por três figuras femininas:

Catrina


Frida Kahlo


Virgem de Guadalupe

sábado, 9 de julho de 2011

Olhar embriagado

Depois da esquina, na barraquinha do engraxate, homens e mulheres interrompem seus itinerários diários para fazer os sapatos reluzirem o embaraçado da cidade. Engraxar e lustrar sapatos por aqui é lei. No banheiro do hotel, parecendo um inciso silencioso deste código, há entre os sabonetes e xampus, uma pomada para tal operação. Meu tênis, desenchavido, parece me lembrar que o ideal seria andar pelas ruas com sapato de couro reluzente.

Na banca para cortar cabelo, há dezenas de cortes-modelo dispostos em fotos coladas uma ao lado da outra. Cliente chega, escolhe o corte pela foto e sai alinhado a caminhar entre as buzinas que cruzam as ruas caóticas da Cidade de México. Na viela antes do metrô, o sex-shop é vizinho das barracas com comidas variadas de cores contrastantes, cheiros inconfundíveis e gostos desconhecidos. No metrô, enquanto a personagem de uma novela mexicana embebe os cílios com rímel preto, uma senhora mendiga, canta dolorosamente as dores de uma vida de privações.

Os policiais, verdadeiros bufões, empertigados em cima de caixotes, olham de cima o casal de namoradas em demonstrações públicas de afeto. Se há funcionários marchando pelos corredores do aeroporto [um! dois! um! dois! um...), há também os dançarinos que enfeitam as fachadas de salsa e merengue das casas noturnas da Zona Rosa. Os mariachis, de terno e gravata, embalam almoços de final de tarde com canções de amor que desenham os dramas de um povo muito acolhedor.

Vista de cima, o traçado cartesiano das ruas pode até esconder o embaraçado e o colorido da cidade. Porém, bastam dois dias para que as cores, situações e pessoas de contrastes variados, surjam em generosas doses que embriagam o olhar. Dame otro tequila, por favor!

Fotos: Wolney Fernandes