domingo, 30 de outubro de 2011

Instantes Possíveis

Um gesto que o olho percebe, um sorriso não ensaiado, uma dor que não tem nome, um pensamento fugidio... reflexos soltos, instantes espontâneos e fugazes que, registrados, tornam-se preciosos, vitais. São instantes de liberdade... são instantes possíveis.

E essa vontade enorme de segurar forte, de não deixar escapar nenhum destes instantes, de possuir cada cheiro que eles ventilam. Essa vontade eu sempre quis pra mim. Por isso pego imagens, músicas e poesias emprestadas, arrisco algumas novas porque, nos mínimos detalhes, eu quero me traduzir.

Mas não adianta! Em cada chance que eu tenho de exercitar meu ato inocente de me possuir, o tempo me arranca. Como em uma brincadeira de esconde-esconde, tendo me moldar em frases curtas e imagens sem foco. Tento agarrar a memória do que eu era... do que eu sou.

Paro um momento e faço silêncio porque daqui a pouco tudo muda e acabo me sujando com o barro molhado que vivo tentando moldar os pensamentos escritos aqui.

Não tenho certeza se esse é um texto sobre os labirintos que desenham meu campo de desejos. Para tanto, falta um pouco de ironia, um pouco de brincadeira, de poesia e sagacidade. Na verdade o 999º texto deste blog é só pra dizer que estou construindo um rosto novo para meus instantes. Um texto sobre arrumações de toda ordem.

Para marcar a milésima postagem, programada para o próximo Dia dos Mortos, faço questão dos ritos encharcados de afetos e das brincadeiras que tiram sorrisos do olhar. Uma única certeza para um monte de dúvidas que continuarão descritas aqui, ao sabor de minhas vontades... a todo instante.

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Isto e Aquilo

Foi assim em 1991, 1994, 1997, 2000, 2004, 2009 e agora: navego em uma sensação muito forte de que esse tempo é próprio das transições. Meus ritos pessoais de passagem não são fáceis e eu nunca decoro a cartilha das escolhas. E olha que nem estou falando daquelas entre o bem e o mal, mas toda pequena escolha [água com ou sem gás? camisa vermelha ou azul? casa ou academia? direita ou esquerda?...] ainda carrega um tantinho de dificuldade.

"Ou guardo o dinheiro e não compro o doce, 
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo".*

Cecília Meireles que me perdoe, mas melhor do que "Ou isto ou aquilo" seria "Isto e aquilo".

Pensar sobre as transições me deixa com vontade de silêncios. Continuo completamente normal por fora, mas por dentro coisas graves acontecem. Muitas vezes coisas até obscuras, dessas que não se revelam em realidade. Destas que tiram a vontade de atender ao telefone ou dizer bom dia no trabalho.

Em dias assim evito o espelho. É que perder a inocência nada tem a ver com a primeira vez. É original a cada troca de pele, a cada nova folhagem. Fico sério quando estou só, mas também experimento uma felicidade bem particular. Um estado de espírito quase egoísta, que não se permite compartilhar. E assim, me fecho sem chaves, procurando me revelar quase inteiro pra mim.

Foto de Jesús González. Olhei aqui.
(*) Trecho do poema "Ou Isto ou Aquilo" de Cecília Meireles

terça-feira, 18 de outubro de 2011

A vida em coisinhas de nada


- "Estranho seria se você, adulto, gostasse do Justin Bieber. A música dele não é feita pra você!" Ao ouvir isso em uma entrevista pela TV, eu até entendi, mas estranhei. Só se pode gostar de coisas feitas para a idade da gente?

- Atravesso a rua e ouço o motorista buzinar insistentemente em frente ao prédio.

- A beleza dela é daquelas difíceis de descrever, mas aquele vestido verde e aquela boca cor de goiaba só podia ser combição para que todos os olhares se voltassem para ela.

- A música que você adora foi parar na novela das oito e ainda tem gente que não gosta de saber da notícia.

- Comprei a capa para o celular às 10h30. Às 11h, sem perceber, joguei a sacolinha com a capa novinha no lixo! Voltei ao meio dia para ver se ainda a encontrava, mas já tinham recolhido o lixo às 11h45.

- E o motorista insiste em buzinar em frente à portaria, mesmo o prédio tendo 104 apartamentos.

- Pergunto ao moço da banca se a Revista Trip deste mês já chegou. Ele diz que não e me indaga: "Só hoje, você é a quinta pessoa que procura por esta revista. O que ela tem neste mês que todo mundo quer?" - Eu sorrio por dentro e digo bem tranquilo: "Dois homens se beijando na capa".

Imagem: Capa da Revista Trip do mês de outubro de 2011 cujo tema é a diversidade sexual.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O alvo que eu escolhi ser

Havia um tempo, e não faz muito, que meu sorriso não tinha vincos nos cantos e sabia ocupar-se da língua, sempre insana.
Havia um tempo, e não faz muito, que a minha boca, destemperada em sua cor de nascença insistia em buscar semelhanças em outras bocas, outras moças, outros moços, outros tantos, comunhão.
Havia um tempo, e não faz muito, que meu corpo rijo oferecia céus e infinitudes, e sabia correr o estado do risco, e sabia parar sob ordens que só ele, ele mesmo, dava a si.
Havia um tempo, e não faz muito, que vivia o meu coração gerando as ideias que minha cabeça executaria sem pudores.
Hoje, reservo dores para os começos. Vou vivendo. Troco dias por cicatrizes. No final dos tempos, vou ser um mapa delas, cada uma indicando um caminho, uma trincheira, uma saraivada de tiros em posição de alvo. O alvo que eu escolhi ser.

Foto: Wolney Fernandes

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Musa


O adolescente dentro de mim parou de dançar uma música legal e ficou olhando pra TV sem som, assistindo aquele filme da sessão da tarde de 25 anos atrás. Como era fácil olhar para a Molly Ringwald sem ter que pensar no dia seguinte. Meu erro de adulto é querer continuar procurando os sentidos. Por que eu simplesmente não saio assoviando e pensando nas sardas da Molly, como se os assuntos estivessem resolvidos? Por que não?

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Tudo vai dar certo?

Tudo errado. Passo o dia com aquela vontade de passar o dia de boca aberta, perguntando "por quê?"
Daí um passarinho bem miudinho pousa na minha janela.
E não importa mais que esteja tudo errado. Não importa mais o corte de cabelo ridículo e estas medidas inexplicáveis.
O passarinho pousou na minha janela.
Mesmo que tenha sido só nos últimos acordes da música, posso considerar um sinal de que tudo vai dar certo?

Foto: Wolney Fernandes

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A beleza dos finais

"Além da Estrada" é um daqueles filmes que transcorre sem os rompantes típicos dos dramas hollywoodianos. Para ver o filme, assim como os protagonistas, é preciso ter tempo para simplesmente sentar à beira do caminho e apreciar a paisagem. O filme traz lugares e ambientes incríveis garimpados na geografia do Uruguai.

Apesar de ser um road movie, o roteiro não se resume apenas em mostrar os lugares por onde transitam Santiago e Juliete - dois jovens que passam dos desconhecimentos aos apaixonamentos pelo ritmo do encontro com as pessoas que habitam aquelas paisagens.

Além de silencioso, o filme possui um dos finais mais evocativos e poéticos que eu já experimentei. Foi à partir dele que me veio a ideia de listar aqui os cinco finais mais bonitos que eu já vi no cinema. Para quem não gosta de spoilers, recomendo que pare de ler a postagem aqui. Aos que já conhecem os filmes listados a seguir, deixem sua opinião. Adoro listas quando delas brotam conversas sem fim.

Além da Estrada (Por el Camino, 2010)
Santiago e Juliete fazem planos para o futuro enquanto caminham por uma ponte inacabada. A continuação de suas histórias permanece imprecisa como a vida. Junto com os passos dos protagonistas, espaços são articulados para além do previsível, dando a nós, espectadores, a possibilidade de completar aquela ponte de possíveis...

Antes do Pôr-do-Sol (Before Sunset, 2004)
Jéssie e Celine se reencontram em Paris, nove anos depois dos acontecimentos do primeiro filme. Como antes, eles têm poucas horas antes que o voo dele parta de volta para os Estados Unidos. Nos minutos finais, Celine dança imitando Nina Simone e diz com a voz rouca: "Baby, você vai perder aquele avião!". Ele responde com um sorriso nos lábios: "Eu sei!" - Ela continua dançando...
Veja a cena aqui.


Abril Despedaçado (2001)
Uma rivalidade familar cria um ciclo de mortes onde a hora de matar ou morrer é determinada quando a mancha de sangue da camisa do rival amarelar. A tradição é encerrada quando o irmão mais novo troca de lugar com o irmão mais velho e é morto. O engano desfaz o ciclo. Tonho, libertado pelo irmão caçula, segue ao encontro do sonho em uma cena em que vê o mar pela primeira vez.
Veja aqui.

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004)
Depois de se submeter a um procedimento que apagaria as lembranças de sua ex-namorada, Joel decide que não quer esquecê-la. A decisão é tomada no meio do processo e ele tem que esconder as memórias que tem de Clementine em algum lugar do seu cérebro. No fim, um [re]encontro acontece e eles travam um diálogo, que não precisa de maiores explicações:
"-Não consigo ver nada que eu não goste em você.
Agora não consigo.
-Mas verá! Mas verá.
Sabe, você vai pensar nas coisas, e eu vou me entediar com você e me sentir presa, porque é isso que acontece comigo!
-Tudo bem.
-Tudo bem."
Para ver a cena inteira, clique aqui.

O Céu de Suely (2006)
Depois da rifa cujo prêmio é uma noite de amor, Hermila deixa o filho com a avó e parte do Nordeste para o Sul do Brasil. Da janela do ônibus, ela vê João que segue o veículo em sua motocicleta. Ao atravessar a placa que diz "Aqui começa a saudade de Iguatu", os dois somem estrada afora. Depois de minutos de um silêncio cortado apenas pelo canto de passarinhos vemos João voltar na sua moto. Sozinho.
Veja aqui.

domingo, 25 de setembro de 2011

20 anos depois


Oi Pai!
Faz 20 anos desde que nos falamos pela última vez! Tempo demais para caber em uma carta só, mas a vontade de conversar contigo, sempre pulsante, me fez arriscar linhas de pura saudade. Tanta coisa aconteceu desde aquele setembro de 1991. Lembra? Eu tinha saído de casa para estudar em outra cidade, fato que você, demorou para aceitar. Eu não te contei na época, mas eu era só medo por dentro e apesar do desejo de abraçar o mundo, eu chorei baixinho no ônibus assim que você e o restante da família sumiram de vista.

Depois que você se foi, não me parecia muito animador ter que amadurecer. Tive que voltar pra casa, pois era chegada a hora de tomar todas as decisões que, antes, eram suas. Foi ali que aprendi que, para vislumbrar o futuro, seria preciso olhar para trás. É que, antes disso, o passado era tão próximo que nem mudava de cor.

Levou ainda mais 5 anos para que eu conseguisse me mudar para a capital. Desta vez, com minha mãe e minha irmã me acompanhando. Confesso que foi difícil me conformar com esse hiato até que eu conseguisse fazer o que eu desejava. E te culpei várias vezes por isso. Sua ausência me "furtou" o prazer das descobertas, para além das responsabilidades de quem só queria aproveitar a vida pra valer. Desde então, muita coisa aconteceu. Passei reto pelas drogas. Deixei de namorar garotas. Vendi as aulas de direção que você me deu junto com seu Corcel 77 e adiei os estudos para depois do trabalho.

E foi contrariando sua premissa (e de certa forma, a minha também) de que arte não poderia levar ninguém a lugar nenhum, que meu gosto por desenhar me trouxe até aqui. Você acredita que foram meus desenhos que me deram alguma substância? O seu lado desenhista, que você insistia em soterrar com as durezas que a vida te impôs, só começou a brotar em mim. Hoje, desenhar não é o que faço, é o que sou.

Sabe, pai, eu ainda tenho medo, muito medo. Volta e meia choro com saudade de uma vida que já não há. Mas o tempo me ensinou a não ter medo de ter medo. E é um alívio não ter mais que ficar submetido ao que os outros consideram sucesso ou fracasso. Mas é inevitável, olho para frente e me dá um frio na barriga de pensar no que virá. Hoje, aos 37, não deixo de pensar que faltam apenas 5 anos para eu ter a idade que você tinha quando se foi. E é tão pouco tempo, e ainda há tanto para viver...

Eu agora já carrego seus traços embaixo de uns poucos cabelos brancos que insistem em aparecer mais e mais a cada dia que passa. Espero ter a tranquilidade e o desapego para acompanhar cada um dos meus tempos no que eles tiverem para oferecer. Aceitar minhas marcas como parte da história dessa vida que sigo construindo.

Ah, queria dizer também que você iria gostar de ver como tenho cuidado da nossa família e da sua viola. Sim! Tanto a família quanto a viola, reluzem os acordes que você tanto repetia em canções que hoje, vez por outra, embalam nosso dia a dia. No final das contas, estamos bem!

Nestes 20 anos sem você, tenho aprendido a transformar algo da matéria volátil dos meus sonhos em existência concreta. Cada dia, decido que para ser feliz eu preciso me enforcar nas cordas da liberdade que a sua morte escondeu de mim por muito tempo. Para isso, preciso me reinventar com tudo aquilo que já é meu. Só a saudade é que não encontro jeito de abrandar. Com ela, mesmo [ar]riscando cartas como esta, ao final das linhas, há sempre o desejo incontrolável de falar contigo mais uma vez. E na conversa, não dizer nada, só deixar um abraço infinito falar por mim.

Imagem: Wolney Fernandes

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Eclética e Compartilhada

A vontade de que uma canção deixasse minha tarde mais levinha, acabou virando uma brincadeira boa no Facebook e no Twitter. Eu pedi, amigos/as atenderam e uma playlist bem eclética foi sugerida para embalar o restinho do dia. Para quem adora apertar a tecla shuffle como eu, segue abaixo a lista das canções na [des]ordem que foram sugeridas!

01. Não fosse o Cabral - Raul Seixas
02. Like You Do - Angel Taylor
03. Boas Notícias - Wander Wildner
04. The Show - Lenka
05. Concrete Wall - Zee Avi
06. Ai se eu te pego - Cangaia de Jegue
07. Gonna Get Over You - Sara Bareilles
08. Mary Cristo - Tribalistas
09. Êta Vida - Sociedade da Grã-Ordem Kavernista
10. Imensidão - Flávia Wenceslau
11. Age of Adz - Sufjan Stevens
12. The Melody of a Fallen Tree - Windsor for the Derby

Bônus - Chicago - Sufjan Stevens

Foto: Wolney Fernandes

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Recife, "um dia qualquer..."


  • Passamos o dia todo caminhando. Dor nos pés, mochila pesada nas costas e um cansaço acumulado no peito. Bastou só um convite - ao som do frevo e do maracatu - para que eu, sem titubear, entrasse no giro da ciranda na festa que estava rolando na praça.
  • Tínhamos acabado de atravessar a Rua dos Martyrios e paramos na esquina para fazer anotações. De repente, uma meleca destampou do céu dos pombos direto na minha calça clara. Depois disso, a tarde virou um filme de Hitchcock com pássaros conspirando e atentando contra mim.
  • A moça sentada ao meu lado no ônibus olha para a Praça do "Marco Zero", vê aquele monte de turistas fazendo fotos e dispara: "Não sei do que esse povo tira tanta foto. Não tem nada nessa porra aí". Eu me fiz de desentendido e coloquei minha carapuça de turista na mochila junto com a câmera fotográfica.
  • No balão que o vento soprou até mim, tinha a palavra "gratidão" escrita em um papelzinho dentro dele.
  • Entrei na exposição sem saber quem era Paulo Bruscky e deixei um pedaço do meu coração lá! Bem dentro de um envelope rabiscado com caneta Bic.
  • Em Recife, a Boa Viagem começa no bairro, se estende pela praia e enfeita as fachadas dos ônibus.
  • Na primeira sinagoga da América Latina uma carta terminava assim: "Nada é nosso e tudo é nosso, pois somos: UM com o TODO. Lá de onde eu estiver, mando meu carinho e agradeço termos sido amigos".
O título da postagem foi decalcado dessa mesma carta. 
A foto é minha e foi feita na praia de Boa Viagem

domingo, 18 de setembro de 2011

Sobre medos, incertezas e desatinos

Me falta coragem. E sei que se eu parasse menos para indagar meus próprios medos, eu estaria adiante. É que eles, os medos, falam uma língua embolada e me silenciam com um olhar de reprovação. Uma indelicadeza só! Por eles, sou Leão da Montanha porque plantam em mim vontades de saídas estratégicas. Pela direita ou pela esquerda, não importa! E tem mais, meus medos detestam apelidos e ameaçam pulos em cada passo que resolvo empreender.

A incerteza, essa sim, é minha parceira mais fiel. Me inspira desatinos e sussurra baixinho, com a convicção necessária, para eu continuar me movendo vida afora. Ela me beija na boca só pra deixar meus medos roxos de ciúmes. Um charme só!

Imagem capturada aqui.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Monumentos Notáveis

"Monumentos Notáveis" é uma ação motivada pelo desejo de convivência desenhada por Manoela Afonso e eu. Seu caráter colaborativo é conduzido pela experiência de uma produção artística compartilhada com pessoas de um determinado local, à partir da vontade de revelar sentidos de alguns lugares da cidade.

Quais são os elementos que marcam o cotidiano das pessoas e que merecem ser destacados? As respostas, dadas pelos/as moradores/as do local são oficializadas em uma cerimônia de inauguração com todas as pompas e honras típicas desse tipo de celebração: anúncio oficial, corte de fita, certificação, festa etc.

Inaugurar para tornar visível, para questionar e [re]configurar relações com os espaços/lugares da cidade. Inaugurar para festejar em grupo, solenizar, cercar de cuidado e de estima o que, muitas vezes, é coberto por certa invisibilidade. A Barraca de roupas da Dona Divina, o Fusca abandonado na calçada, os pastéis do "seu" Maurício (...) são presenças notáveis que imprimem identidade a determinado cotidiano e, por isso, merecem honra e mérito popular.

Para registrar estas inaugurações criamos um escritório ficcional, chamado Tabelionato de Ações Ordinárias, com livros de registro, carimbos, certificados e papeladas ligadas a uma burocracia poética. Tudo isso para oficializar desejos individuais e, a partir deles, criar opções coletivas que abram espaço para novos olhares!



Foto: Imagens da ação feita em Cezarina-GO em julho de 2011.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Rua de Dentro


O menino morava na rua que tinha um pé de Flamboyant bem no meio. As cartas cheias de vergonhas, medos e saudades ele pendurava em cada um dos galhos pintados com o fogo que a primavera trazia. Era lá que ensaiava vôos e onde tinha Venda de comprar suspiro.

Mas ele saiu daquela rua faz tempo e deixou escondida uma caixa cheia de suspiros e papéis que vão se amarelar um dia... Só que o menino continua. Nunca ele vai se mudar da rua de dentro de mim.

Imagem: Wolney Fernandes

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A Árvore da Vida

Em 1991, eu voltava de um fracassado teste de datilografia, às 10 da manhã de uma quarta-feira, quando topei com minha tia no meio do caminho que, assustada, tinha ido me avisar da suposta morte do meu pai que se confirmou logo em seguida quando falei com minha irmã pelo telefone. Tudo que me lembro, além da falta de ar, era a pergunta que eu fazia internamente: "Por que Deus deixou isso acontecer?"

E é essa uma das tantas perguntas que o protagonista de "A Árvore da Vida" também faz. Com ele, pelas vias da beleza e da doçura fui conduzido às minhas reflexões internas sobre a própria natureza da vida. Os arcos da narrativa, sem a estrutura de começo-meio-fim, parecem memórias fragmentadas, dúvidas e impressões que se desgrudaram da tela para se instaurarem do lado de cá.

Embora fale, exalte e questione o sentido da vida usando muitas referências religiosas [com inteligência, diga-se de passagem], o filme não é sobre religião e, tampouco pedante a ponto de nos incitar a escolher o caminho do bem em detrimento do mal, como os preceitos dogmáticos insistem em fazer.

A história(?) mostra partes da vida de Jack, vivido por Hunter McCracken no passado e por Sean Penn no presente. Um garoto e um homem, ao mesmo tempo, atravessando ciclos muito específicos da existência. A maior parte do roteiro se concentra no período que o menino vive com os pais e dois irmãos mais novos em uma pequena cidade no interior do Texas, nos Estados Unidos.

"Pai... Mãe...vocês estão sempre lutando dentro de mim"

Deus, materializado pela figura do pai e vivido por Brad Pitt, é um sujeito cheio de regras, dogmas, que pune e ainda exige devoção e amor em troca. Me fez lembrar das aulas de catecismo quando, no auge das minhas incertezas, todos os domingos eu era questionado pela primeira pergunta do livrinho branco: "Quem é Deus?". Some a isso a pressão feita pela minha catequista que insistia em dizer que eu deveria saber a resposta e, ao mesmo tempo, temê-la por ter conhecido e experimentado tal revelação.

Em contrapartida, o filme também apresenta Deus materializado na figura da Mãe (Jessica Chastain - soberba!) como ventania que comunga com o mundo ao seu redor, que brinca com os filhos e estende as mãos para abraçá-los com o carinho e a delicadeza de um perfume bom, daqueles que embalam feito brincadeira de criança. É por ela que passamos a questionar as relações dentro de um panorama mais holístico e embarcarmos na dança da criação, habilmente orquestrada por imagens e sons que conduzem nossas próprias reflexões acerca do nosso papel no planeta.

E nesse ponto, o filme lembra "2001 - Uma Odisséia no Espaço", pois nos dá tempo e nos incita a um mergulho em nossas dúvidas, memórias e anseios: Deus existe? Quem somos nós para Ele? Como podemos conhecer as coisas sem olhar? O que existe do outro lado da vida? Qual o nosso papel dentro da dinâmica da criação?

Habilmente recriada, a origem da vida no filme se espalha de ponta a ponta, nas citações, na trilha sonora, na resolução e em metáforas tantas que fica difícil enumerá-las. Reparem, por exemplo, no formato de vagina e pênis que os primeiros seres aquáticos apresentam ou mesmo na espiral de vitrais religiosos que faz referência ao movimento do DNA.

O filme começa quando uma vida termina e seu final é marcado por um novo começo.

No início, a narrativa nos coloca diante de uma bifurcação: De um lado, o caminho da natureza - mundano - que satisfaz a si mesmo e, do outro, o caminho da graça, absoluta e universal. Ao longo do amadurecimento do menino Jack, contudo, a trama nos sugere que esses dois rumos são faces de uma mesma esfera e, portanto, complementares.

Eu até poderia afirmar, erroneamente, que quem nunca foi tocado por uma situação de morte tão próxima como a perda de um pai, uma mãe ou um irmão, talvez não se deixe envolver pela dinâmica que "A Árvore da Vida" propõe. No entanto, o filme também me trouxe à memória, um balanço feito com corda de sisal montado na sala de casa ou quando eu, com quatro anos, vi minha irmã entrar pra dentro da família carregada nos braços de minha mãe que tinha saído grávida alguns dias antes.

Aquele balanço e aquela chegada me fazem entender, agora com um pouco mais de clareza, que a vida se evidencia em instantes que ajudam a construir nossas histórias e nossas relações uns com os outros. Se a morte nos faz questionar o sentido da vida, a própria vida segue disposta a encontrar sorrisos mesmo sabendo que caminha rumo ao fim. E, isso, já é razão suficiente para que não fique ninguém sem se emocionar diante dela.

Imagem capturada aqui.

sábado, 3 de setembro de 2011

Memórias com nota de rodapé

Funciona mais ou menos assim: Mesmo quando a lembrança é ruim, minha vontade não é apagá-la. Mesmo quando dói, meu desejo é completá-la. Continuar pequenos trechos, escrever comentários, fazer desenhos ou acrescentar notas de rodapé.

Minhas lembranças parecem estar dispostas de maneira a constituir uma fresta por onde dores e alegrias entram de mãos dadas.

Imagem: Cenas do filme "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças". Achei aqui.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Estudos em Preto e Cinza

Para os dias acinzentados que antecedem a primavera e celebram a chegada de setembro.

Foto: Wolney Fernandes

terça-feira, 30 de agosto de 2011

DonAna

Desabusada
DonAna sentou na calçada para escolher os queijos.
- Quero 14! - pediu ao moço que havia oferecido as iguarias na porta da minha casa em Lagolândia. Selecionou cada um com o cuidado de quem já fabricou o produto por muito tempo e, quando questionada sobre a quantidade exagerada, respondeu:
- Pra "desabusar" o vendedor de queijos da feira lá em Goiânia! Mostrar pra ele o que é queijo de verdade!

Perna aberta
Estávamos no banco de trás do carro indo para Anápolis. Sentada no meio, entre mim e uma prima, DonAna remexia inquieta. De supetão arrancou o cinto feito com o mesmo tecido do vestido estampado e perguntou:
- Advinha o que vou fazer com isso?
Sem ter a mínima ideia desistimos de tentar advinhar e ela, enlaçando as pernas, explicou:
- Vou amarrar minhas pernas senão elas não páram quietas aqui no meio!
E seguiu tagarelando de pernas amarradas até o destino da viagem.

Caminhada
Toquei a campainha e ouvi, de dentro do apartamento, DonAna perguntar:
- Quem é?
- Sou eu, DonAna! O Wolney!
- Peraí que vou vestir uma roupa, pois estou só de calcinha fazendo caminhada pelo apartamento.

Giro
Encantada com o movimento circular que a máquina de lavar fazia, DonAna resolveu acompanhar a lavagem olhando fixamente para o giro das roupas. Acordou 5 minutos depois, ainda tonta pela movimentação que a fez desmaiar.

Dor na Coluna
A cadeira para ver televisão era de encosto reto e feita sob medida para ajudar com as dores na coluna. O problema era o cochilo que DonAna empreendia sempre que ia assistir a RedeVida. Acordava "emborcada" com o nariz entre os joelhos. Incomodada com a postura e zelando por seu sono, não teve dúvidas: amarrou uma meia calça velha na cabeça e prendeu na janela atrás da cadeira. Desse modo, a coluna ficava ereta, mesmo durante o sono diante da TV.

Maloca
DonAna chegou na porta do meu quarto e, diante da minha estante de livros e DVDs suspirou:
- Êeeeeeeeeeehhh maloca danada!

DonAna era minha tia-avó, destas que a gente perde e fica sempre com aquela vontade de ter um tempinho a mais para conviver, pois ao seu lado a vida era só alegria.

Foto: Wolney Fernandes

domingo, 28 de agosto de 2011

Mudança

Outro dia fui fazer minha mala e me senti em casa, como há tempos não acontecia. Quando não é possível mudar de casa, eu mudo de mim. Estou morando num Wolney de dois quartos agora.

Foto de Logan Cyrus.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Cantinho de guardar sentidos

Esta é minha 980ª postagem. Olho para este número e penso nas vinte que virão depois dela para que se complete mil instantes registrados aqui.

Antes, qualquer imagem, perfume ou rabisco que se alojava em mim eu guardava no blog. Agora, demoro mais para voltar neste espaço porque há outros lugares (leia-se: redes sociais) onde posso compartilhar com dois ou três cliques apenas, aquilo que me encanta cotidianamente.

Sensações diferenciadas me fazem encarar estas duas possibilidades. Na primeira, relacionada àquilo que mostro nas redes sociais, a impressão que tenho é que estou na janela do meu apartamento lançando imagens, canções, textos e pensamentos ao sabor do vento em uma rua movimentada. Umas vão... outras voltam em um movimento que se expande, mas nem sempre se aprofunda. Na segunda, aqui no blog, é como se guardasse preciosidades em uma caixinha que pode ser acessada sempre que eu desejar. Por ela, memórias são saboreadas e lembranças reativadas nesse meu cantinho de guardar sentidos.

Eu demoro porque não me obrigo a ter sempre algo para guardar. Afinal, toda obrigatoriedade acaba por tirar um pouquinho do sabor que a vida tem.

Foto: Wolney Fernandes

domingo, 14 de agosto de 2011

No fone

Motivação perfeita para uma postagem é o pedido de uma amiga para sugerir discos que eu estivesse ouvindo recentemente. Dois dias depois e aí está a lista com sete deles.

Uma banda
Bodies of Water
Disco - "Twist Again"
Faixa de bis - Like a Stranger

Uma cantora internacional
Russian Red
Disco - Fuerteventura
Faixa de bis - Everyday Everynight

Uma cantora nacional
Tiê
Disco - A Coruja e o Coração
Faixa de bis - Piscar o Olho

Um cantor
Ibrahim Ferrer
Disco - Mi Sueño
Faixa de bis - Melodia del Rio

Uma dupla
The Swell Season
Disco - Strick Joy
Faixa de bis - In These Arms

Uma trilha sonora
Half Nelson 
Faixa de bis -Can't You See

Bônus 
Cantor - Thurston Moore
Disco - Demolished Thoughts
Faixa de bis - Benediction

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

domingo, 7 de agosto de 2011

Há tanto tempo que te amo

Cinco atrizes francesas e meus filmes preferidos.

Audrey Tautou
Meu filme predileto: O fabuloso destino de Amélie Poulain

Marion Cotillard
Meu filme predileto: Piaf - Um Hino ao Amor

Julie Delpy
Meu filme predileto: Antes do Amanhecer

Juliette Binoche
Meu filme predileto: Cópia Fiel

Catherine Deneuve
Meu filme predileto: Indochina

sábado, 6 de agosto de 2011

Asas do Desejo

"Quando a criança era criança, andava balançando os braços. Desejava que o riacho fosse rio, que o rio fosse torrente e essa poça, o mar.
Quando a criança era criança, não sabia que era criança. Tudo era cheio de vida e a vida era uma só.
Quando a criança era criança, não tinha opinião, não tinha hábitos, sentava-se de pernas cruzadas, saía correndo, tinha um redemoinho no cabelo e não fazia poses para fotos."

Prólogo do filme "Asas do Desejo" (Wings of Desire, GER, 1987). Imagem capturada aqui.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Asas para Voar

"Fratura tripla da coluna vertebral, fratura da cravícula, fratura de duas costelas, luxação do ombro esquerdo, tripla fratura da bacia, perfuração do abdômen e da vagina, 11 fraturas na perna direita e deslocamento do pé direito."

Texto: Diagnóstico de Frida Kahlo após o acidente de 1925.
Imagem do Diário de Frida Kahlo.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Vontades

Os olhos de Frida Kahlo caçoam das minhas arrumações e remendos de organização no quarto. Do lado de fora, a vida volta à sua apressada normalidade. Do lado de dentro, só essa vontade de silêncio que os meus lábios não pronunciam. Tudo parece bem ao final das contas. "Agosto não será difícil", repito pelos cantos dos meus últimos textos. Então, o que explica essa vontade louca de sair daqui?

Foto: Wolney Fernandes

sábado, 30 de julho de 2011

Registrar para existir?

Na última viagem que fiz, minha primeira promessa era não me deixar enforcar pela alça da câmera fotográfica. Segundo meu próprio direcionamento, o registro seria feito só depois de saborear cada pedacinho de vista, pessoa ou situação que perfumasse meus olhos. Tudo que eu queria era viver a experiência sem uma lente se interpondo entre mim e o fato vivenciado. Ainda assim, cerca de mil e duzentas(!) fotografias foi o saldo dos 15 dias que fiquei fora.

Para quê tudo isso? É sempre a pergunta que me faço ao descarregar as fotos no computador. Será que deixar de documentar minhas experiências e emoções fará com que eu me esqueça delas de forma mais rápida? E mais! Se não divulgar estes momentos em redes sociais, blogs e outras traquitanas por aí, eles deixam de existir?

Claro que a resposta é não, mas pelo andar da carruagem, me parece que tudo que não for registrado e divulgado desaparecerá de nossa memória. Aniversários, sorrisos, namoros, sessões de cinema, despedidas, desenhos rabiscados no caderninho, passeios, estranhamentos, bonitezas... ocasiões importantes que, por vezes, se transmutam em situações fugidias, pela necessidade de documentação.

Escrevo isso e a urgência desse tempo que vivemos me faz ter a sensação de que sou um velho saudosista sem a noção da revolução que as novas tecnologias fizeram no campo da imagem. No entanto, mesmo em dias como os nossos, é preciso pensar que a vida também acontece sem provas documentais.

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Nesses dias...

























1. Si ti Contara - Ibrahim Ferrer
2. Buildings & Mountains - The Republic Tigers
3. Nina - Chico Buarque
4. Rapture - Blondie
5. Mundo Abisal -  Jorge Drexler
6. I've Got a Crush On You - Ella Fitzgerald
7. Price Tag - Jessie J. ft. B.O.B.
8. Chances Are - Garrett Hedlund
9. Moves like Jagger - Marron 5 ft. Christina Aguilera
10. Amazing - One Eskimo

Foto capturada em navegações por aí. Se alguém souber a autoria, é só gritar!

domingo, 24 de julho de 2011

Ynés e Ricardo

Quatro cartas de amor trocadas por dois amantes nos meses de janeiro e fevereiro de 1907. Ela, Ynés de la Torre, moradora de Puebla. Ele, Ricardo Farias, da Cidade do México. Juras de amor, pedidos de desculpa, gestos e palavras apaixonadas descritas em atravessamentos atemporais.

Caminhos desconhecidos fizeram estas cartas atravessarem um século inteiro para repousarem, agora, em sentidos variados que eu, por alguma razão, começo a [re]construir.

Foto: Wolney Fernandes

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Umbigo da Lua

Meu olhar de turista, desajustado, encontra repouso naquilo que é fugaz. Esse mesmo olhar, cansado das permanências, na maioria das vezes já não consegue brincar nos museus e nem ouvir com atenção as repetidas explicações pedagógicas dos guias diante dos grandes monumentos.

Em artimanhas imprecisas, meus olhos se iluminam em cantos, detalhes e texturas abandonadas, onde o tempo desenha marcas mutantes a cada nova mirada. Me interessa olhar para a vida que acontece pelas frestas do cotidiano e, tão só, me deixar surpreender.

A mulher no canto do metrô pinta com rímel os cílios já carregados de tinta. Os números do portão, desenhados à mão, delineam outros modos de escrita e a cor contrastante dos carros estacionados em direções opostas me roubam instantes de puro contentamento.

Foi assim nos dias que estive na Cidade do México. Por tantas vezes, marquei o mesmo trieiro só para ir [re]descobrindo nuances novas em lugares já visitados: o mercado da Ciudadela, a Casa da Frida Kahlo, a Feira de Antiguidades, as ruas da Zona Rosa...

As tardes em museus eu troquei por passeios de carrossel, as fotos dos grandes monumentos eu substituí por imagens dos engraxates e as cores que me tatuaram vieram das bandeirolas recortadas em papel de seda. Meu lugar de descanso era a sombra das laranjeiras plantadas em pátios desconhecidos.

Os estranhamentos, tão comuns em viagens do tipo, também fazem parte do aprendizado que os olhos me proporcionam. Cada cabelo cuidadosamente esculpido em gel ou aplique virava meu pescoço. O trânsito, terra sem lei, ressignificou a palavra "caos" e o Vale das Bonecas tornou real um passeio de encantamento. Os cheiros fortes  fizeram meu estômago dar cambalhota por diversas vezes. A ardência da pimenta e o feijão no café da manhã tornaram meu paladar um tanto seletivo.

Sabores, cores, odores e amores remexidos eram refletidos em corações de lata que ornavam as portas das casas. Cravos vermelhos pelas esquinas deixaram meus olhos com aquela vontade de ficar mais um pouquinho para dançar em animadas festas descobertas nos becos da cidade.

Meu olhar de turista, mesmo depois da volta, parece refletir o brilho dos deslocamentos em nuances que a boca não consegue pronunciar. Como quem chega do "Umbigo da Lua", despido da armadura e vestido de [des]conhecimentos, o retorno mostra saudades e vontades que, em pulsação tranquila, podem desenhar realidades.

Fotos: Wolney Fernandes e Rosi Martins