sábado, 31 de dezembro de 2011
Na dança do tempo, o balanço dos meses...
Eu, aqui, versão dois mil e onze:
Janeiro - Criei um blog de imagens que chegou ao fim hoje (31/12/2011) e tive vontade de nada.
Fevereiro - Troquei desenhos pelo correio e procurei por minhas frugalidades.
Março - Registrei e dancei os encantamentos da saída do Afoxé na cidade de Goiás e sumi do blog por uns tempos.
Abril - Uma pedra nos rins me tirou de circulação. Perdi pessoas queridas.
Maio - Arrisquei para me encontrar em poéticas urbanas, afetivas e cotidianas.
Junho - Fiz festa para celebrar tatuagens invisíveis. Inaugurei amizades e cotidianos de pura poesia.
Julho - Conheci o México e fiquei embriagado com suas cores e situações de contrastes variados.
Agosto - Organizei minhas vontades em traçados de mudanças para o futuro do presente.
Setembro - Fui premiado no SPA das Artes no Recife em uma parceria que rendeu amizade de vida longa. Entre lembranças e desatinos conheci o Rio de Janeiro pela primeira vez.
Outubro - Escrevi minha milésima postagem, arrumei o blog e chamei gente amiga para celebrar.
Novembro - Caminhei pelas ruas de São Luís no Maranhão e fui aprovado na seleção do doutorado na UFG para pesquisar as memórias que tenho sobre meu avô.
Dezembro - Comecei a registrar meus dias dezessetes.
Imagem: Wolney Fernandes
Cinema 2011
Os melhores filmes do ano:
1. A Árvore da Vida
2. Cópia Fiel
3. O Palhaço
4. Meia Noite em Paris
5. Namorados para Sempre
Os melhores filmes que ninguém viu:
1. Além da Estrada
2. Poesia
3. Hanami - Cerejeiras em Flor
4. Um Lugar Qualquer
5. O Mágico
Constrangimentos do ano:
1. A Pixar em sua primeira derrapada com "Carros 2"
2. Começo, meio e fim de "Amanhecer - parte 1"
3. A trama de Crepúsculo disfarçada de "A Garota da Capa Vermelha"
4. As reviravoltas de causar bocejos de "O Turista"
5. A trama ruim e o nada carismático "Lanterna Verde"
Cenas inesquecíveis:
1. A tragédia com imigrantes ilegais em "Biutiful".
2. A fuga de dentro da casa do vampiro em "A Hora do Espanto"
3. Dean (Ryan Gosling) procurando pela aliança de casamento, depois de tê-la jogado fora durante uma briga em "Namorados para Sempre".
4. Juliet Binoche encarando o marido na cena do café em "Cópia Fiel".
5. O suspiro da cena final de "A Pele que Habito"
Os cartazes mais incríveis do ano:
1. A Árvore da Vida
2. Eu Matei minha Mãe
3. Meia Noite em Paris
4. Além da Estrada
5. Hanami - Cerejeiras em Flor
Imagens de cair o queixo:
1. A dança final de "Hanami - Cerejeiras em Flor"
2. Tom Cruise escalando o edifício mais alto do mundo em "Missão Impossível 4"
3. Os deuses do Olimpo de "Imortais"
4. As cenas em slow-motion de "Melancolia"
5. Natalie Portman encarnando (e se transformando) em cisne no último ato de "Cisne Negro".
Personagens inesquecíveis:
1. O Lionel Logue de Geoffrey Rush em "O Discurso do Rei"
2. A Ree Dolly de Jennifer Lawrence em "Inverno da Alma"
3. O Magneto de Michael Fassbender em "X-Men: Primeira Classe"
4. O Salvador Dalí de Adrien Brody em "Meia Noite em Paris"
5. O palhaço sem identidade de "Selton Mello" em "O Palhaço"
Os filmes que me fizeram escrever:
01. Além da Estrada
02. A Árvore da Vida
03. Meia-Noite em Paris
04. O Vencedor
05. Namorados para Sempre
Foto: Wolney Fernandes
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Casamentos na Calçada
Enquanto os noivos assinam a papelada junto com as testemunhas dentro do cartório, os convidados se ajeitam na calçada e misturam risos com o barulho do trânsito na avenida.
Saltos, lisuras, sedas e gravatas sinalizam que a ocasião é solene e a celebração se dá em meio ao passa-passa de transeuntes. Feito convidado penetra, atravesso o meio da festa com aquela vontade de ficar mais um pouquinho, de perguntar das histórias, de cumprimentar os noivos depois da cerimônia...
Contaminado por felicidade alheia, meu sorriso brota sem dificuldade porque todo sábado tem casamento na calçada da Avenida Tocantins.
Foto: Wolney Fernandes
domingo, 18 de dezembro de 2011
Vontade de Dançar
Tenho um monte de razões para adorar esse clipe. A vontade que tenho de sair dançando pela rua é a principal delas. E isso, por si só, já é muita coisa.
sábado, 17 de dezembro de 2011
Dezessete de Dezembro de 2011 - Sábado
Na saída, recebi encomenda para passar no supermercado e acabei não resistindo ao cheiro e ao roxo das uvas de caixinha. Chupei uma às escondidas e decidi que aquele seria o sabor da minha arrumação de mais tarde.
Joguei montes de papéis acumulados e guardei outro tanto que fui encontrando pelo quarto. Terminei de ler "Um Dia" com aquela sensação de que a vida acontece na urgência do presente. Deixei a arrumação pela metade depois de olhar pela janela e perceber uma vontade de voar por um céu cor de rosa e frio. O céu de todo dia deveria ser rosado, nublado ou ensolarado, mas ainda rosado. Só para trazer frio pra ser sentido na pele e causar o aquecimento interno de cada um. Enquanto caminhava, a ideia de registrar todos os meus dias dezessetes se desenhou na minha cabeça.
Na saída do cinema, fiquei sabendo que o mundo já não tem mais Cezaria Evora, Joãozinho Trinta e Sérgio Brito. Coloquei "Sodade" pra tocar no iPod enquanto caminhava pra casa. Sábado cheio de perdas... Sábado cheio de achados: um bilhete encontrado na arrumação sussurra baixinho [e incessantemente] o que eu tento, por vezes, não escutar: "O amor é inevitável!".
De noite, saí para ver as luzes do Natal espalhadas por Goiânia e foi divertido como se estivesse em uma brincadeira. Porque o ideal é brincar. Brincar com a idéia de si mesmo.
Suspiro...
Suspiro...
Foto: Wolney Fernandes
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Sob laranjeiras
Tínhamos andado muito. Cansados, sentamos debaixo do pé de laranja e ficamos por uma hora. Pareceu naquele momento que dava sim para ser feliz.
Foto: Wolney Fernandes
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Antes de terminar
Dei beijos mornos e doces debaixo de chuva gelada e beijos que são enganos feitos de sono, de embriaguez e alguma estupidez. Esqueci finalmente quem me ocupava partes de mim mesmo sem razão, partes de Peter Pan e pedaços amargos de limão gelado que em dias de sol sabe bem.
Vi o sol se pôr fora de Goiânia enquanto falava do nada e de todas as coisas que vagueiam em mim. Passeei pelas ruas do Centro deixando que a luz amarelada cubrisse de cor os caminhos pelos quais me perco. Fotografei jardins estrelados em tardes quentes e abafadas de um tempo que não volta a ser o mesmo.
Procurei memórias para descansar. Desiludi-me uma vez apenas e acreditei vezes sem conta. Por vezes é fácil, às vezes difícil, mas nunca impossível. Clichê, eu sei, mas vou grifar isso para usar como meu lema em 2012.
Foto: Wolney Fernandes
domingo, 4 de dezembro de 2011
Arco-Íris Portátil
A Todo Instante por Gláucio Henrique Chaves
Gláucio Henrique Chaves é filho dedicado às belezas que só a mãe natureza sabe oferecer. Vive prestando atenção em paisagens e marcas do tempo lá para os lados das Minas Gerais. Para saber mais: EFGoyaz
A Todo Instante por Gláucio Henrique Chaves
Gláucio Henrique Chaves é filho dedicado às belezas que só a mãe natureza sabe oferecer. Vive prestando atenção em paisagens e marcas do tempo lá para os lados das Minas Gerais. Para saber mais: EFGoyaz
O Semeador
A Todo Instante por Marcos Vinícius Ramos
Saiu o semeador a semear...
A Todo Instante por Marcos Vinícius Ramos
Saiu o semeador a semear...
Dentre uma variedade de sementes
visíveis e invisíveis por aí, qual semear?
Minhas mãos, acostumadas, pedem trigo ou algodão.
Trigo para os moinhos-dragões,
na luta por um existência diária;
mais um poente, outro nascente,
à espera de fartura, de pão.
Algodão para os teares da história,
com repassos e tramas tão sutis.
Fio a fio se faz uma vida,
sem paixão e com alma ferida.
Uma parte da semente caiu na beira da estrada...
Não mais as mesmas sementes.
Pois os pássaros ficaram famintos;
e os espinhos não sufocam ninguém.
Meu coração anseia por uma nova semente,
como teus olhos por uma nova imagem.
Semente nova,
imagem nova,
e uma história humana de sempre,
sem panos e sem pão.
Marcos Vinícius Ramos é poeta de natureza. Para mergulhos em versos de pura beleza, clique aqui.
domingo, 27 de novembro de 2011
Sobre o grande amor
"Eu sempre achei que o amor, o grande amor fosse incondicional. Que quando houvesse um grande encontro entre duas pessoas, tudo pudesse acontecer. Porque se aquele fosse o grande amor, ele sempre voltaria triunfal. Mas nem todo amor é incondicional. Acreditar na eternidade do amor é precipitar o seu fim. Porque você acha que esse amor aguenta tudo, então, de um jeito ou de outro você acaba fazendo esse amor passar por tudo. Um grande amor não é possível. E talvez por isso é que seja grande - para que nele caiba o impossível."
Texto da série "Afinal, o que querem as mulheres?"
Imagem: Ilustração de Olaf Hajek
Delícias em papel pólen
02. Dois Rios - Tatiana Salem Levy
03. A Arte de Viajar - Alain de Botton
04. Reflexos e Sombras - Saul Steinberg
05. Nada a Dizer - Elvira Vigna
06. Coração - Edmondo De Amicis
07. Quando eu Nasci - Isabel Minhós Martins
08. Liberdade - Jonathan Franzen
09. Na Estrada - Marcos Strecker
10. Asterios Polyp - David Mazzuchelli
Foto: Wolney Fernandes
Sede
A Todo Instante por Adriano Antunes
Longo é o caminho que percorro a procura de respostas para indagações antigas. Percurso intransferível que gera desconforto, totalmente compreensível, como sentir sede no deserto. O viver ensina, e a todo instante surge nova peça desse quebra-cabeça gigante, composto por inúmeros efeitos sem aparente causa. Sigo a dica dos testados, ato contínuo, inicio pelos cantos sem noção de centro, remonto a causa pelos efeitos, esforço paciente. Ontem, asas amarradas ao solo; hoje, tentativas de vôo raso, rápido, observo maravilhado, a sede de busca que sempre habitou em mim.
Adriano Antunes ventila escritas vindas do sul com a propriedade de quem deixa pegadas difíceis de apagar. Para seguir seus rastros, clique aqui.
Imagem: Marcelo Fedrizzi, fotógrafo
A Todo Instante por Adriano Antunes
Longo é o caminho que percorro a procura de respostas para indagações antigas. Percurso intransferível que gera desconforto, totalmente compreensível, como sentir sede no deserto. O viver ensina, e a todo instante surge nova peça desse quebra-cabeça gigante, composto por inúmeros efeitos sem aparente causa. Sigo a dica dos testados, ato contínuo, inicio pelos cantos sem noção de centro, remonto a causa pelos efeitos, esforço paciente. Ontem, asas amarradas ao solo; hoje, tentativas de vôo raso, rápido, observo maravilhado, a sede de busca que sempre habitou em mim.
Adriano Antunes ventila escritas vindas do sul com a propriedade de quem deixa pegadas difíceis de apagar. Para seguir seus rastros, clique aqui.
Imagem: Marcelo Fedrizzi, fotógrafo
Onde começa a saudade
A saudade não começa no aeroporto e nem quando o carro desaparece estrada afora. A saudade não começa no adeus ou no último suspiro compartilhado. A saudade não começa quando tento mapear os cheiros pelo abraço. A saudade começa quando o fim se desenha no horizonte. A saudade começa quando, desajeitadamente, começo a vivenciar rotinas que a minha vida terá durante a ausência.
Foto: Wolney Fernandes
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Desassossego
A vontade de escrever foi mal educada comigo hoje. Tanta coisa pra acabar, mas precisava registrar em escrita borrada, um desassossego. Não espero ser inteiramente preenchido, mesmo tentando de várias formas cruas me sentir aquecido por dentro.
Em minha reabilitação particular, fico com preguiça dos planos que eu próprio tracei e, para esquecê-los, eu durmo. Se pudesse, não sairia do meu quarto, mas a vida me apressa. Pareço não ter direito a folgas. E eu que sonho tirar uma pequena folga das minhas ansiedades causadas pelos projetos riscados ou de risco, não sei...
Nos últimos dias eu busco uma doce sensação de uma noite durante a chuva, quando a ansiedade é banhada pelo frescor dos sossegos. Daqueles despidos de pretensões, mas tatuados com liberdades.
Foto: Wolney Fernandes
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Para meu querido Wolney, com amor.
A Todo Instante por Gwavira Gwayá
A Todo Instante por Gwavira Gwayá
A todo instante, a vida pode nos surpreender. Qual a melhor maneira para estarmos receptivos às surpresas? Será preciso andar distraídos por veredas pouco familiares? Ou seria melhor nos colocarmos atentos, observadores obstinados? Não nos é dado saber, jamais... Quando a vida explodirá a poucos passos de nós, rompendo cascas, ali, à beira da via movimentada, na forma de uma ninhada de quero-queros? Como saber qual sobreviverá à difícil travessia dos primeiros dias? E, de repente, a breve visão da luz da manhã banhando a cria nova, depois da chuva, sob os olhos atentos do casal de quero-queros, prontos a atacar qualquer visitante indesejado... Pronto: o dia já terá valido a pena!
Gwavira Gwayá
Terra Gwayá, 9 de novembro de 2011
Gwavira Gwayá borda delicadezas e trança alegrias com risos soltos. Possui a voz mais linda que eu já ouvi e tem um blog de notas e rabiscos. Para conhecer mais, clique aqui.
Mapeando abandonos
São Luís em ruas de pura poesia e abandono:
Rua do Alecrim, Rua dos Prazeres, Rua dos Afogados, Rua da Viração, Rua do Veado, Rua da Palma, Rua do Giz, Rua da Alegria, Rua da Estrela, Rua do Sol, Rua Azul, Rua das Flores, Rua da Saudade...
Foto: Wolney Fernandes
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
[a]guardando instantes
A Todo Instante por Odailso Berté
Instantaneamente vários deles desfilam pela minha memória: o poço onde fios de cabelo viravam cobras, o açude rodeado por pés de ariticum e guavirova, o parreiral onde a cobra verde me assustou, os canteiros de flores que ajudei minha mãe fazer, a xícara de café com leite sobre a mesa na manhã em que acordei sozinho, o dia em que calcei uma sandália feminina envergonhando meu pai perante amigos, a flor amarela que avistei perto do limoeiro, as garças brancas na aveia verde, o lapso entre o músico e o policial, amor e título, exigência e displicência, o medo de...
Desde sempre os movemos e somos movidos por eles. Revendo-os me abraço e me [co]movo. Vou e volto neles, pois me constituem. Os que foram e os que virão, com suas cobras, flores, sandálias e amores.
Parafraseando Cazuza, o instante não pára. O mundo não pára, nos não paramos. Quer dizer, um dia vamos parar, depois de [a]guardarmos muitos instantes. Mas eles seguirão acontecendo.
Odailso Berté veio do sul e vive inventando passos de dança para levantar a poeira e as folhas do cerrado. Para conhecer mais: Dançamentos
A Todo Instante por Odailso Berté
Instantaneamente vários deles desfilam pela minha memória: o poço onde fios de cabelo viravam cobras, o açude rodeado por pés de ariticum e guavirova, o parreiral onde a cobra verde me assustou, os canteiros de flores que ajudei minha mãe fazer, a xícara de café com leite sobre a mesa na manhã em que acordei sozinho, o dia em que calcei uma sandália feminina envergonhando meu pai perante amigos, a flor amarela que avistei perto do limoeiro, as garças brancas na aveia verde, o lapso entre o músico e o policial, amor e título, exigência e displicência, o medo de...
Desde sempre os movemos e somos movidos por eles. Revendo-os me abraço e me [co]movo. Vou e volto neles, pois me constituem. Os que foram e os que virão, com suas cobras, flores, sandálias e amores.
Parafraseando Cazuza, o instante não pára. O mundo não pára, nos não paramos. Quer dizer, um dia vamos parar, depois de [a]guardarmos muitos instantes. Mas eles seguirão acontecendo.
Odailso Berté veio do sul e vive inventando passos de dança para levantar a poeira e as folhas do cerrado. Para conhecer mais: Dançamentos
Na hora do lanche
Um dia antes, Dona Biga entrava nas salas de aula para avisar da sopa do dia seguinte. Das hortas cultivadas no quintal das casas, saíam tomates, cebolinha, batata doce, cenoura e até giló. O caldo da sopa ficava bem mais consistente com a contribuição da meninada.
Sirene não havia. A marcação do recreio era feita pela entrada da merendeira com as tijelas de plástico azul em um grande tabuleiro. Nessa hora, todos entoavam desafinadamente "Bom dia, merendeira como vai?..."
O cardápio, variado, era sempre intercalado por lanches gostosos: sopa, arroz com carne, paçoca, macarrão com sardinha e feijão tropeiro [quem levasse ovo, tinha direito de ter a iguaria inteira cozida no meio do feijão]. Nos dias fracos eram servidos leite com bolacha ou mingau [que de gostoso só tinha a cor].
O sabor dessas lembranças eu encontrei dentro da mesma vasilha azul que ainda serve a merenda em muitas escolas por aí.
Foto: Wolney Fernandes
Quando
Roberto Carlos eu descobri há pouco em lindas canções dos anos 60.
01. Não precisas chorar
02. Eu te darei o céu
03. Ar de moço bom
04. Quando
05. Eu te amo, te amo, te amo
06. Quero ter você perto de mim
07. Eu não vou deixar você tão só
08. É tempo de amar
09. Como é grande o meu amor por você
10. O tempo vai apagar
Imagem: detalhe da capa do LP "O Inimitável" de 1968.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Perca=Encontre
A Todo Instante por Cristian Mossi
Cristian Mossi vive em Santa Maria no Rio Grande do Sul. Para conhecer mais: meus(des)enredos
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Autorretrato*
Me colaram no tempo, me puseram uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo, a leste pela impossibilidade de voar, a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, fluido... mesmo assim, me puseram o rótulo de sério, centrado. Vou rindo, vou andando aos solavancos. Desenho, rio e choro. Estou aqui e ali em desarticulações de dar dó.
Sou um cemitério pelo avesso, pois meus mortos estão em covas rasas. Carrego minhas saudades com o carinho de quem vive pelas memórias. São elas que me revelam o sentido verdadeiro das coisas. A morte só pesa por fora, tudo por dentro tem intenção de vida.
Toda segunda eu deixo de lado minhas imperfeições para, então, recolhê-las na terça. Ô caminho longo esse que coloca na vida o gosto de brevidade. Escrevo, agora, querendo terminar logo, no desejo tardio de ainda escrever muito.
Gosto do vento que me suspende os passos e, vez por outra, bagunça todas as agonias. No espelho, fico aliviado quando não me reconheço. Tenho vontade de inaugurar no mundo o estado de bagunça transcendente. Mas sou a presa do homem que fui há vinte anos passados, dos amores raros que tive, de uma vida de planos ardentes, de desertos vibrando por instantes de felicidade.
(*) Postagem de número 1000.
Foto: Wolney Fernandes
domingo, 30 de outubro de 2011
Instantes Possíveis
Um gesto que o olho percebe, um sorriso não ensaiado, uma dor que não tem nome, um pensamento fugidio... reflexos soltos, instantes espontâneos e fugazes que, registrados, tornam-se preciosos, vitais. São instantes de liberdade... são instantes possíveis.
E essa vontade enorme de segurar forte, de não deixar escapar nenhum destes instantes, de possuir cada cheiro que eles ventilam. Essa vontade eu sempre quis pra mim. Por isso pego imagens, músicas e poesias emprestadas, arrisco algumas novas porque, nos mínimos detalhes, eu quero me traduzir.
Mas não adianta! Em cada chance que eu tenho de exercitar meu ato inocente de me possuir, o tempo me arranca. Como em uma brincadeira de esconde-esconde, tendo me moldar em frases curtas e imagens sem foco. Tento agarrar a memória do que eu era... do que eu sou.
Paro um momento e faço silêncio porque daqui a pouco tudo muda e acabo me sujando com o barro molhado que vivo tentando moldar os pensamentos escritos aqui.
Não tenho certeza se esse é um texto sobre os labirintos que desenham meu campo de desejos. Para tanto, falta um pouco de ironia, um pouco de brincadeira, de poesia e sagacidade. Na verdade o 999º texto deste blog é só pra dizer que estou construindo um rosto novo para meus instantes. Um texto sobre arrumações de toda ordem.
Para marcar a milésima postagem, programada para o próximo Dia dos Mortos, faço questão dos ritos encharcados de afetos e das brincadeiras que tiram sorrisos do olhar. Uma única certeza para um monte de dúvidas que continuarão descritas aqui, ao sabor de minhas vontades... a todo instante.
Foto: Wolney Fernandes
E essa vontade enorme de segurar forte, de não deixar escapar nenhum destes instantes, de possuir cada cheiro que eles ventilam. Essa vontade eu sempre quis pra mim. Por isso pego imagens, músicas e poesias emprestadas, arrisco algumas novas porque, nos mínimos detalhes, eu quero me traduzir.
Mas não adianta! Em cada chance que eu tenho de exercitar meu ato inocente de me possuir, o tempo me arranca. Como em uma brincadeira de esconde-esconde, tendo me moldar em frases curtas e imagens sem foco. Tento agarrar a memória do que eu era... do que eu sou.
Paro um momento e faço silêncio porque daqui a pouco tudo muda e acabo me sujando com o barro molhado que vivo tentando moldar os pensamentos escritos aqui.
Não tenho certeza se esse é um texto sobre os labirintos que desenham meu campo de desejos. Para tanto, falta um pouco de ironia, um pouco de brincadeira, de poesia e sagacidade. Na verdade o 999º texto deste blog é só pra dizer que estou construindo um rosto novo para meus instantes. Um texto sobre arrumações de toda ordem.
Para marcar a milésima postagem, programada para o próximo Dia dos Mortos, faço questão dos ritos encharcados de afetos e das brincadeiras que tiram sorrisos do olhar. Uma única certeza para um monte de dúvidas que continuarão descritas aqui, ao sabor de minhas vontades... a todo instante.
Foto: Wolney Fernandes
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Isto e Aquilo
Foi assim em 1991, 1994, 1997, 2000, 2004, 2009 e agora: navego em uma sensação muito forte de que esse tempo é próprio das transições. Meus ritos pessoais de passagem não são fáceis e eu nunca decoro a cartilha das escolhas. E olha que nem estou falando daquelas entre o bem e o mal, mas toda pequena escolha [água com ou sem gás? camisa vermelha ou azul? casa ou academia? direita ou esquerda?...] ainda carrega um tantinho de dificuldade.
"Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo".*
Cecília Meireles que me perdoe, mas melhor do que "Ou isto ou aquilo" seria "Isto e aquilo".
Pensar sobre as transições me deixa com vontade de silêncios. Continuo completamente normal por fora, mas por dentro coisas graves acontecem. Muitas vezes coisas até obscuras, dessas que não se revelam em realidade. Destas que tiram a vontade de atender ao telefone ou dizer bom dia no trabalho.
Em dias assim evito o espelho. É que perder a inocência nada tem a ver com a primeira vez. É original a cada troca de pele, a cada nova folhagem. Fico sério quando estou só, mas também experimento uma felicidade bem particular. Um estado de espírito quase egoísta, que não se permite compartilhar. E assim, me fecho sem chaves, procurando me revelar quase inteiro pra mim.
Foto de Jesús González. Olhei aqui.
(*) Trecho do poema "Ou Isto ou Aquilo" de Cecília Meireles
"Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo".*
Cecília Meireles que me perdoe, mas melhor do que "Ou isto ou aquilo" seria "Isto e aquilo".
Pensar sobre as transições me deixa com vontade de silêncios. Continuo completamente normal por fora, mas por dentro coisas graves acontecem. Muitas vezes coisas até obscuras, dessas que não se revelam em realidade. Destas que tiram a vontade de atender ao telefone ou dizer bom dia no trabalho.
Em dias assim evito o espelho. É que perder a inocência nada tem a ver com a primeira vez. É original a cada troca de pele, a cada nova folhagem. Fico sério quando estou só, mas também experimento uma felicidade bem particular. Um estado de espírito quase egoísta, que não se permite compartilhar. E assim, me fecho sem chaves, procurando me revelar quase inteiro pra mim.
Foto de Jesús González. Olhei aqui.
(*) Trecho do poema "Ou Isto ou Aquilo" de Cecília Meireles
terça-feira, 18 de outubro de 2011
A vida em coisinhas de nada
- "Estranho seria se você, adulto, gostasse do Justin Bieber. A música dele não é feita pra você!" Ao ouvir isso em uma entrevista pela TV, eu até entendi, mas estranhei. Só se pode gostar de coisas feitas para a idade da gente?
- Atravesso a rua e ouço o motorista buzinar insistentemente em frente ao prédio.
- A beleza dela é daquelas difíceis de descrever, mas aquele vestido verde e aquela boca cor de goiaba só podia ser combição para que todos os olhares se voltassem para ela.
- A música que você adora foi parar na novela das oito e ainda tem gente que não gosta de saber da notícia.
- Comprei a capa para o celular às 10h30. Às 11h, sem perceber, joguei a sacolinha com a capa novinha no lixo! Voltei ao meio dia para ver se ainda a encontrava, mas já tinham recolhido o lixo às 11h45.
- E o motorista insiste em buzinar em frente à portaria, mesmo o prédio tendo 104 apartamentos.
- Pergunto ao moço da banca se a Revista Trip deste mês já chegou. Ele diz que não e me indaga: "Só hoje, você é a quinta pessoa que procura por esta revista. O que ela tem neste mês que todo mundo quer?" - Eu sorrio por dentro e digo bem tranquilo: "Dois homens se beijando na capa".
Imagem: Capa da Revista Trip do mês de outubro de 2011 cujo tema é a diversidade sexual.
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
O alvo que eu escolhi ser
Havia um tempo, e não faz muito, que meu sorriso não tinha vincos nos cantos e sabia ocupar-se da língua, sempre insana.
Havia um tempo, e não faz muito, que a minha boca, destemperada em sua cor de nascença insistia em buscar semelhanças em outras bocas, outras moças, outros moços, outros tantos, comunhão.
Havia um tempo, e não faz muito, que meu corpo rijo oferecia céus e infinitudes, e sabia correr o estado do risco, e sabia parar sob ordens que só ele, ele mesmo, dava a si.
Havia um tempo, e não faz muito, que vivia o meu coração gerando as ideias que minha cabeça executaria sem pudores.
Hoje, reservo dores para os começos. Vou vivendo. Troco dias por cicatrizes. No final dos tempos, vou ser um mapa delas, cada uma indicando um caminho, uma trincheira, uma saraivada de tiros em posição de alvo. O alvo que eu escolhi ser.
Foto: Wolney Fernandes
Havia um tempo, e não faz muito, que a minha boca, destemperada em sua cor de nascença insistia em buscar semelhanças em outras bocas, outras moças, outros moços, outros tantos, comunhão.
Havia um tempo, e não faz muito, que meu corpo rijo oferecia céus e infinitudes, e sabia correr o estado do risco, e sabia parar sob ordens que só ele, ele mesmo, dava a si.
Havia um tempo, e não faz muito, que vivia o meu coração gerando as ideias que minha cabeça executaria sem pudores.
Hoje, reservo dores para os começos. Vou vivendo. Troco dias por cicatrizes. No final dos tempos, vou ser um mapa delas, cada uma indicando um caminho, uma trincheira, uma saraivada de tiros em posição de alvo. O alvo que eu escolhi ser.
Foto: Wolney Fernandes
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Musa
O adolescente dentro de mim parou de dançar uma música legal e ficou olhando pra TV sem som, assistindo aquele filme da sessão da tarde de 25 anos atrás. Como era fácil olhar para a Molly Ringwald sem ter que pensar no dia seguinte. Meu erro de adulto é querer continuar procurando os sentidos. Por que eu simplesmente não saio assoviando e pensando nas sardas da Molly, como se os assuntos estivessem resolvidos? Por que não?
terça-feira, 11 de outubro de 2011
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Tudo vai dar certo?
Tudo errado. Passo o dia com aquela vontade de passar o dia de boca aberta, perguntando "por quê?"
Foto: Wolney Fernandes
Daí um passarinho bem miudinho pousa na minha janela.
E não importa mais que esteja tudo errado. Não importa mais o corte de cabelo ridículo e estas medidas inexplicáveis.
O passarinho pousou na minha janela.
Mesmo que tenha sido só nos últimos acordes da música, posso considerar um sinal de que tudo vai dar certo?
Mesmo que tenha sido só nos últimos acordes da música, posso considerar um sinal de que tudo vai dar certo?
Foto: Wolney Fernandes
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
A beleza dos finais
"Além da Estrada" é um daqueles filmes que transcorre sem os rompantes típicos dos dramas hollywoodianos. Para ver o filme, assim como os protagonistas, é preciso ter tempo para simplesmente sentar à beira do caminho e apreciar a paisagem. O filme traz lugares e ambientes incríveis garimpados na geografia do Uruguai.
Apesar de ser um road movie, o roteiro não se resume apenas em mostrar os lugares por onde transitam Santiago e Juliete - dois jovens que passam dos desconhecimentos aos apaixonamentos pelo ritmo do encontro com as pessoas que habitam aquelas paisagens.
Além de silencioso, o filme possui um dos finais mais evocativos e poéticos que eu já experimentei. Foi à partir dele que me veio a ideia de listar aqui os cinco finais mais bonitos que eu já vi no cinema. Para quem não gosta de spoilers, recomendo que pare de ler a postagem aqui. Aos que já conhecem os filmes listados a seguir, deixem sua opinião. Adoro listas quando delas brotam conversas sem fim.
Além da Estrada (Por el Camino, 2010)
Santiago e Juliete fazem planos para o futuro enquanto caminham por uma ponte inacabada. A continuação de suas histórias permanece imprecisa como a vida. Junto com os passos dos protagonistas, espaços são articulados para além do previsível, dando a nós, espectadores, a possibilidade de completar aquela ponte de possíveis...
Antes do Pôr-do-Sol (Before Sunset, 2004)
Jéssie e Celine se reencontram em Paris, nove anos depois dos acontecimentos do primeiro filme. Como antes, eles têm poucas horas antes que o voo dele parta de volta para os Estados Unidos. Nos minutos finais, Celine dança imitando Nina Simone e diz com a voz rouca: "Baby, você vai perder aquele avião!". Ele responde com um sorriso nos lábios: "Eu sei!" - Ela continua dançando...
Veja a cena aqui.
Abril Despedaçado (2001)
Uma rivalidade familar cria um ciclo de mortes onde a hora de matar ou morrer é determinada quando a mancha de sangue da camisa do rival amarelar. A tradição é encerrada quando o irmão mais novo troca de lugar com o irmão mais velho e é morto. O engano desfaz o ciclo. Tonho, libertado pelo irmão caçula, segue ao encontro do sonho em uma cena em que vê o mar pela primeira vez.
Veja aqui.
Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004)
Depois de se submeter a um procedimento que apagaria as lembranças de sua ex-namorada, Joel decide que não quer esquecê-la. A decisão é tomada no meio do processo e ele tem que esconder as memórias que tem de Clementine em algum lugar do seu cérebro. No fim, um [re]encontro acontece e eles travam um diálogo, que não precisa de maiores explicações:
"-Não consigo ver nada que eu não goste em você.
Agora não consigo.
-Mas verá! Mas verá.
Sabe, você vai pensar nas coisas, e eu vou me entediar com você e me sentir presa, porque é isso que acontece comigo!
-Tudo bem.
-Tudo bem."
Para ver a cena inteira, clique aqui.
O Céu de Suely (2006)
Depois da rifa cujo prêmio é uma noite de amor, Hermila deixa o filho com a avó e parte do Nordeste para o Sul do Brasil. Da janela do ônibus, ela vê João que segue o veículo em sua motocicleta. Ao atravessar a placa que diz "Aqui começa a saudade de Iguatu", os dois somem estrada afora. Depois de minutos de um silêncio cortado apenas pelo canto de passarinhos vemos João voltar na sua moto. Sozinho.
Veja aqui.
Apesar de ser um road movie, o roteiro não se resume apenas em mostrar os lugares por onde transitam Santiago e Juliete - dois jovens que passam dos desconhecimentos aos apaixonamentos pelo ritmo do encontro com as pessoas que habitam aquelas paisagens.
Além de silencioso, o filme possui um dos finais mais evocativos e poéticos que eu já experimentei. Foi à partir dele que me veio a ideia de listar aqui os cinco finais mais bonitos que eu já vi no cinema. Para quem não gosta de spoilers, recomendo que pare de ler a postagem aqui. Aos que já conhecem os filmes listados a seguir, deixem sua opinião. Adoro listas quando delas brotam conversas sem fim.
Além da Estrada (Por el Camino, 2010)
Santiago e Juliete fazem planos para o futuro enquanto caminham por uma ponte inacabada. A continuação de suas histórias permanece imprecisa como a vida. Junto com os passos dos protagonistas, espaços são articulados para além do previsível, dando a nós, espectadores, a possibilidade de completar aquela ponte de possíveis...
Antes do Pôr-do-Sol (Before Sunset, 2004)
Jéssie e Celine se reencontram em Paris, nove anos depois dos acontecimentos do primeiro filme. Como antes, eles têm poucas horas antes que o voo dele parta de volta para os Estados Unidos. Nos minutos finais, Celine dança imitando Nina Simone e diz com a voz rouca: "Baby, você vai perder aquele avião!". Ele responde com um sorriso nos lábios: "Eu sei!" - Ela continua dançando...
Veja a cena aqui.
Abril Despedaçado (2001)
Uma rivalidade familar cria um ciclo de mortes onde a hora de matar ou morrer é determinada quando a mancha de sangue da camisa do rival amarelar. A tradição é encerrada quando o irmão mais novo troca de lugar com o irmão mais velho e é morto. O engano desfaz o ciclo. Tonho, libertado pelo irmão caçula, segue ao encontro do sonho em uma cena em que vê o mar pela primeira vez.
Veja aqui.
Depois de se submeter a um procedimento que apagaria as lembranças de sua ex-namorada, Joel decide que não quer esquecê-la. A decisão é tomada no meio do processo e ele tem que esconder as memórias que tem de Clementine em algum lugar do seu cérebro. No fim, um [re]encontro acontece e eles travam um diálogo, que não precisa de maiores explicações:
"-Não consigo ver nada que eu não goste em você.
Agora não consigo.
-Mas verá! Mas verá.
Sabe, você vai pensar nas coisas, e eu vou me entediar com você e me sentir presa, porque é isso que acontece comigo!
-Tudo bem.
-Tudo bem."
Para ver a cena inteira, clique aqui.
O Céu de Suely (2006)
Depois da rifa cujo prêmio é uma noite de amor, Hermila deixa o filho com a avó e parte do Nordeste para o Sul do Brasil. Da janela do ônibus, ela vê João que segue o veículo em sua motocicleta. Ao atravessar a placa que diz "Aqui começa a saudade de Iguatu", os dois somem estrada afora. Depois de minutos de um silêncio cortado apenas pelo canto de passarinhos vemos João voltar na sua moto. Sozinho.
Veja aqui.
domingo, 25 de setembro de 2011
20 anos depois
Oi Pai!
Faz 20 anos desde que nos falamos pela última vez! Tempo demais para caber em uma carta só, mas a vontade de conversar contigo, sempre pulsante, me fez arriscar linhas de pura saudade. Tanta coisa aconteceu desde aquele setembro de 1991. Lembra? Eu tinha saído de casa para estudar em outra cidade, fato que você, demorou para aceitar. Eu não te contei na época, mas eu era só medo por dentro e apesar do desejo de abraçar o mundo, eu chorei baixinho no ônibus assim que você e o restante da família sumiram de vista.
Depois que você se foi, não me parecia muito animador ter que amadurecer. Tive que voltar pra casa, pois era chegada a hora de tomar todas as decisões que, antes, eram suas. Foi ali que aprendi que, para vislumbrar o futuro, seria preciso olhar para trás. É que, antes disso, o passado era tão próximo que nem mudava de cor.
Levou ainda mais 5 anos para que eu conseguisse me mudar para a capital. Desta vez, com minha mãe e minha irmã me acompanhando. Confesso que foi difícil me conformar com esse hiato até que eu conseguisse fazer o que eu desejava. E te culpei várias vezes por isso. Sua ausência me "furtou" o prazer das descobertas, para além das responsabilidades de quem só queria aproveitar a vida pra valer. Desde então, muita coisa aconteceu. Passei reto pelas drogas. Deixei de namorar garotas. Vendi as aulas de direção que você me deu junto com seu Corcel 77 e adiei os estudos para depois do trabalho.
E foi contrariando sua premissa (e de certa forma, a minha também) de que arte não poderia levar ninguém a lugar nenhum, que meu gosto por desenhar me trouxe até aqui. Você acredita que foram meus desenhos que me deram alguma substância? O seu lado desenhista, que você insistia em soterrar com as durezas que a vida te impôs, só começou a brotar em mim. Hoje, desenhar não é o que faço, é o que sou.
Sabe, pai, eu ainda tenho medo, muito medo. Volta e meia choro com saudade de uma vida que já não há. Mas o tempo me ensinou a não ter medo de ter medo. E é um alívio não ter mais que ficar submetido ao que os outros consideram sucesso ou fracasso. Mas é inevitável, olho para frente e me dá um frio na barriga de pensar no que virá. Hoje, aos 37, não deixo de pensar que faltam apenas 5 anos para eu ter a idade que você tinha quando se foi. E é tão pouco tempo, e ainda há tanto para viver...
Eu agora já carrego seus traços embaixo de uns poucos cabelos brancos que insistem em aparecer mais e mais a cada dia que passa. Espero ter a tranquilidade e o desapego para acompanhar cada um dos meus tempos no que eles tiverem para oferecer. Aceitar minhas marcas como parte da história dessa vida que sigo construindo.
Ah, queria dizer também que você iria gostar de ver como tenho cuidado da nossa família e da sua viola. Sim! Tanto a família quanto a viola, reluzem os acordes que você tanto repetia em canções que hoje, vez por outra, embalam nosso dia a dia. No final das contas, estamos bem!
Nestes 20 anos sem você, tenho aprendido a transformar algo da matéria volátil dos meus sonhos em existência concreta. Cada dia, decido que para ser feliz eu preciso me enforcar nas cordas da liberdade que a sua morte escondeu de mim por muito tempo. Para isso, preciso me reinventar com tudo aquilo que já é meu. Só a saudade é que não encontro jeito de abrandar. Com ela, mesmo [ar]riscando cartas como esta, ao final das linhas, há sempre o desejo incontrolável de falar contigo mais uma vez. E na conversa, não dizer nada, só deixar um abraço infinito falar por mim.
Imagem: Wolney Fernandes
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