terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Datas marcadas pelas estrelas
Como estariam as estrelas no dia do meu nascimento? Que roupas as pessoas usavam naquela época? Quais as canções que embalaram meus choros de criança? Que acontecimentos foram traçados naquele ano? Que fatos marcaram o mês de junho de 1974?
Dia desses, com aquela vontade de cruzar minha vida com a do meu avô [que nunca conheci] me passei a repetir estas mesmas perguntas em torno do dia que ele nasceu. Comecei a investigar.
O nome Jorge indicava uma data: 23 de Abril. "Naquela época era comum batizar as crianças com o nome do santo do dia". E ninguém tinha dúvidas, afinal cresci aprendendo de minha mãe e parentes que meu avô tinha nascido no dia de São Jorge. O ano ninguém lembrava.
Abri a caixa de papéis deixados por meu avô e o primeiro documento que encontrei foi a certidão de casamento. Supresa nº 1: A data do nascimento era 20 de Abril de 1914. Levei ao conhecimento de minha mãe que pacientemente me explicou que não dava para confiar na certidão de casamento. Ela se lembrava de um arranjo para que as datas de nascimento de meu avô e de minha avó fossem trocadas. Naquele período, o marido não poderia ser mais jovem que a esposa, como era o caso. Então a solução foi colocar meu avô nascido em 1914 e minha avó em 1916. No entanto, nem o dia era o mesmo que minha mãe se lembrava.
Segui remexendo os papéis e encontrei uma escritura cuja data de nascimento do Vô Jorge estava registrada em 23 de Abril de 1911. Confusão total! Continuei a busca até que encontrei sua certidão de nascimento lavrada dois dias depois do fato e a surpresa foi maior ainda: a data correta do nascimento do meu avô é 20 de Junho de 1912.
Junho é o mês que eu também nasci e 2012 é o ano que meu avô faria 100 anos se estivesse vivo. Cruzamentos como estes me fazem pensar que o desenho que as estrelas traçam no céu é capaz de sulcar destinos em nossas mãos e deixar o tempo marcado com linhas misteriosas. Um tempo que não cristaliza os acontecimentos, mas os reconstrói pelo perfume das lembranças. Marcas que aprofundam relações, pois reforçam vínculos identitários espelhados nos objetos e nas histórias de pessoas que precisam ser contadas.
Foto: Wolney Fernandes
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Para hoje apenas
Para hoje, eu quero o melhor poema e não o livro inteiro. Dos textos longos eu só quero a primeira página, um cheiro suave de sexo e o medo de mim mesmo. Preciso insistir no refrão para que a melodia não cresça e queira ser trilha sonora.
Meu decreto profano é que a felicidade não seja um lugar, nem um instante e sim um movimento que eu faço com meu corpo. Faço silêncio porque prefiro que o movimento permaneça na memória sem o risco do compromisso.
Foda é perceber que a memória é amante da imaginação, e pode me trair mesmo permanecendo fiel.
Imagem de Egon Schiele. Olhei aqui.
Reinvenções
Numa espécie de epifania, recolho os fragmentos de uma realidade sem muitas novidades para trazer pra cá. Se fico longe por uns tempos significa que vou guardando os pedacinhos em vontades, saudades e inquietudes. Com o coração arfante e com um medo do inapreensível, recolho os resíduos dos meus dias e misturo com o pó dos meus sonhos. Nesse céu virtual, meu desespero por uma unidade e alguma coesão sucumbe frente aos cacos, memórias, rastros e índices com suas ventanias e aleatoriedades.
Uma vez, alguém me disse que quem se perde em devaneios, perde a capacidade de manter o foco e se reinventar. Eu discordo! Solto meus fragmentos e deixo que os alinhavos que os unem me reinventem sempre! Passei estes dias desenhando. Isso é mais ou menos o que eu faço fora da internet, onde, além de tudo, eu posso abraçar.
Imagem: Wolney Fernandes
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Dias com Meu Pai
Após a morte da mãe em 2006, o fotógrafo Philip Toledano fez um registro tocante sobre seu pai. A cada dia o fotógrafo alimentava um blog [que virou o livro] com imagens e relatos de sua experiência de convivício com seu projenitor.
“Isto é um diário. Um registro em andamento de meu pai e de nossa relação. Independente do tempo que ainda temos juntos”.
O livro, que você pode ver em imagens incríveis aqui, conta os últimos anos de convivência de um filho com um pai sem memória para eventos recentes. A narrativa, apesar de delicada, é punjente o bastante para desfiar as dores e alegrias que esse tipo de convivência pode gerar. Imagens e textos se cruzam em complementaridades que emocionam e incitam reflexões sobre a vida, seus afetos e limites.
A vida [ela de novo!] se revela pelas situações mais corriqueiras... nas sutilezas de um olhar, na dor de uma memória perdida, nas palavras esquecidas em pedaços de papel, no risco e no riso contidos no ato de poder cuidar de quem já cuidou de você. Bonito, difícil, verdadeiro!
Foto: Wolney Fernandes
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Dezessete de Janeiro de 2012 - Terça
Meu primeiro 17 de 2012 em cinco breves linhas:
- Durmo pouco por conta de uma gripe que custa a sarar.
- A madrugada parece desfiar inquietudes e a manhã no trabalho escorre motivações de poeira e vento.
- O almoço é regado a sopa e boa companhia.
- À tarde vago pelo Centro, de guarda-chuva na mão, à procura de uma máquina fotográfia para um amigo.
- Tiro a foto da postagem anterior. Sinto fome! Como uma goiaba e durmo cedo!
Foto: Wolney Fernandes
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Habitar
Foto: Wolney Fernandes
sábado, 31 de dezembro de 2011
Na dança do tempo, o balanço dos meses...
Eu, aqui, versão dois mil e onze:
Janeiro - Criei um blog de imagens que chegou ao fim hoje (31/12/2011) e tive vontade de nada.
Fevereiro - Troquei desenhos pelo correio e procurei por minhas frugalidades.
Março - Registrei e dancei os encantamentos da saída do Afoxé na cidade de Goiás e sumi do blog por uns tempos.
Abril - Uma pedra nos rins me tirou de circulação. Perdi pessoas queridas.
Maio - Arrisquei para me encontrar em poéticas urbanas, afetivas e cotidianas.
Junho - Fiz festa para celebrar tatuagens invisíveis. Inaugurei amizades e cotidianos de pura poesia.
Julho - Conheci o México e fiquei embriagado com suas cores e situações de contrastes variados.
Agosto - Organizei minhas vontades em traçados de mudanças para o futuro do presente.
Setembro - Fui premiado no SPA das Artes no Recife em uma parceria que rendeu amizade de vida longa. Entre lembranças e desatinos conheci o Rio de Janeiro pela primeira vez.
Outubro - Escrevi minha milésima postagem, arrumei o blog e chamei gente amiga para celebrar.
Novembro - Caminhei pelas ruas de São Luís no Maranhão e fui aprovado na seleção do doutorado na UFG para pesquisar as memórias que tenho sobre meu avô.
Dezembro - Comecei a registrar meus dias dezessetes.
Imagem: Wolney Fernandes
Cinema 2011
Os melhores filmes do ano:
1. A Árvore da Vida
2. Cópia Fiel
3. O Palhaço
4. Meia Noite em Paris
5. Namorados para Sempre
Os melhores filmes que ninguém viu:
1. Além da Estrada
2. Poesia
3. Hanami - Cerejeiras em Flor
4. Um Lugar Qualquer
5. O Mágico
Constrangimentos do ano:
1. A Pixar em sua primeira derrapada com "Carros 2"
2. Começo, meio e fim de "Amanhecer - parte 1"
3. A trama de Crepúsculo disfarçada de "A Garota da Capa Vermelha"
4. As reviravoltas de causar bocejos de "O Turista"
5. A trama ruim e o nada carismático "Lanterna Verde"
Cenas inesquecíveis:
1. A tragédia com imigrantes ilegais em "Biutiful".
2. A fuga de dentro da casa do vampiro em "A Hora do Espanto"
3. Dean (Ryan Gosling) procurando pela aliança de casamento, depois de tê-la jogado fora durante uma briga em "Namorados para Sempre".
4. Juliet Binoche encarando o marido na cena do café em "Cópia Fiel".
5. O suspiro da cena final de "A Pele que Habito"
Os cartazes mais incríveis do ano:
1. A Árvore da Vida
2. Eu Matei minha Mãe
3. Meia Noite em Paris
4. Além da Estrada
5. Hanami - Cerejeiras em Flor
Imagens de cair o queixo:
1. A dança final de "Hanami - Cerejeiras em Flor"
2. Tom Cruise escalando o edifício mais alto do mundo em "Missão Impossível 4"
3. Os deuses do Olimpo de "Imortais"
4. As cenas em slow-motion de "Melancolia"
5. Natalie Portman encarnando (e se transformando) em cisne no último ato de "Cisne Negro".
Personagens inesquecíveis:
1. O Lionel Logue de Geoffrey Rush em "O Discurso do Rei"
2. A Ree Dolly de Jennifer Lawrence em "Inverno da Alma"
3. O Magneto de Michael Fassbender em "X-Men: Primeira Classe"
4. O Salvador Dalí de Adrien Brody em "Meia Noite em Paris"
5. O palhaço sem identidade de "Selton Mello" em "O Palhaço"
Os filmes que me fizeram escrever:
01. Além da Estrada
02. A Árvore da Vida
03. Meia-Noite em Paris
04. O Vencedor
05. Namorados para Sempre
Foto: Wolney Fernandes
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Casamentos na Calçada
Enquanto os noivos assinam a papelada junto com as testemunhas dentro do cartório, os convidados se ajeitam na calçada e misturam risos com o barulho do trânsito na avenida.
Saltos, lisuras, sedas e gravatas sinalizam que a ocasião é solene e a celebração se dá em meio ao passa-passa de transeuntes. Feito convidado penetra, atravesso o meio da festa com aquela vontade de ficar mais um pouquinho, de perguntar das histórias, de cumprimentar os noivos depois da cerimônia...
Contaminado por felicidade alheia, meu sorriso brota sem dificuldade porque todo sábado tem casamento na calçada da Avenida Tocantins.
Foto: Wolney Fernandes
domingo, 18 de dezembro de 2011
Vontade de Dançar
Tenho um monte de razões para adorar esse clipe. A vontade que tenho de sair dançando pela rua é a principal delas. E isso, por si só, já é muita coisa.
sábado, 17 de dezembro de 2011
Dezessete de Dezembro de 2011 - Sábado
Na saída, recebi encomenda para passar no supermercado e acabei não resistindo ao cheiro e ao roxo das uvas de caixinha. Chupei uma às escondidas e decidi que aquele seria o sabor da minha arrumação de mais tarde.
Joguei montes de papéis acumulados e guardei outro tanto que fui encontrando pelo quarto. Terminei de ler "Um Dia" com aquela sensação de que a vida acontece na urgência do presente. Deixei a arrumação pela metade depois de olhar pela janela e perceber uma vontade de voar por um céu cor de rosa e frio. O céu de todo dia deveria ser rosado, nublado ou ensolarado, mas ainda rosado. Só para trazer frio pra ser sentido na pele e causar o aquecimento interno de cada um. Enquanto caminhava, a ideia de registrar todos os meus dias dezessetes se desenhou na minha cabeça.
Na saída do cinema, fiquei sabendo que o mundo já não tem mais Cezaria Evora, Joãozinho Trinta e Sérgio Brito. Coloquei "Sodade" pra tocar no iPod enquanto caminhava pra casa. Sábado cheio de perdas... Sábado cheio de achados: um bilhete encontrado na arrumação sussurra baixinho [e incessantemente] o que eu tento, por vezes, não escutar: "O amor é inevitável!".
De noite, saí para ver as luzes do Natal espalhadas por Goiânia e foi divertido como se estivesse em uma brincadeira. Porque o ideal é brincar. Brincar com a idéia de si mesmo.
Suspiro...
Suspiro...
Foto: Wolney Fernandes
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Sob laranjeiras
Tínhamos andado muito. Cansados, sentamos debaixo do pé de laranja e ficamos por uma hora. Pareceu naquele momento que dava sim para ser feliz.
Foto: Wolney Fernandes
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Antes de terminar
Dei beijos mornos e doces debaixo de chuva gelada e beijos que são enganos feitos de sono, de embriaguez e alguma estupidez. Esqueci finalmente quem me ocupava partes de mim mesmo sem razão, partes de Peter Pan e pedaços amargos de limão gelado que em dias de sol sabe bem.
Vi o sol se pôr fora de Goiânia enquanto falava do nada e de todas as coisas que vagueiam em mim. Passeei pelas ruas do Centro deixando que a luz amarelada cubrisse de cor os caminhos pelos quais me perco. Fotografei jardins estrelados em tardes quentes e abafadas de um tempo que não volta a ser o mesmo.
Procurei memórias para descansar. Desiludi-me uma vez apenas e acreditei vezes sem conta. Por vezes é fácil, às vezes difícil, mas nunca impossível. Clichê, eu sei, mas vou grifar isso para usar como meu lema em 2012.
Foto: Wolney Fernandes
domingo, 4 de dezembro de 2011
Arco-Íris Portátil
A Todo Instante por Gláucio Henrique Chaves
Gláucio Henrique Chaves é filho dedicado às belezas que só a mãe natureza sabe oferecer. Vive prestando atenção em paisagens e marcas do tempo lá para os lados das Minas Gerais. Para saber mais: EFGoyaz
A Todo Instante por Gláucio Henrique Chaves
Gláucio Henrique Chaves é filho dedicado às belezas que só a mãe natureza sabe oferecer. Vive prestando atenção em paisagens e marcas do tempo lá para os lados das Minas Gerais. Para saber mais: EFGoyaz
O Semeador
A Todo Instante por Marcos Vinícius Ramos
Saiu o semeador a semear...
A Todo Instante por Marcos Vinícius Ramos
Saiu o semeador a semear...
Dentre uma variedade de sementes
visíveis e invisíveis por aí, qual semear?
Minhas mãos, acostumadas, pedem trigo ou algodão.
Trigo para os moinhos-dragões,
na luta por um existência diária;
mais um poente, outro nascente,
à espera de fartura, de pão.
Algodão para os teares da história,
com repassos e tramas tão sutis.
Fio a fio se faz uma vida,
sem paixão e com alma ferida.
Uma parte da semente caiu na beira da estrada...
Não mais as mesmas sementes.
Pois os pássaros ficaram famintos;
e os espinhos não sufocam ninguém.
Meu coração anseia por uma nova semente,
como teus olhos por uma nova imagem.
Semente nova,
imagem nova,
e uma história humana de sempre,
sem panos e sem pão.
Marcos Vinícius Ramos é poeta de natureza. Para mergulhos em versos de pura beleza, clique aqui.
domingo, 27 de novembro de 2011
Sobre o grande amor
"Eu sempre achei que o amor, o grande amor fosse incondicional. Que quando houvesse um grande encontro entre duas pessoas, tudo pudesse acontecer. Porque se aquele fosse o grande amor, ele sempre voltaria triunfal. Mas nem todo amor é incondicional. Acreditar na eternidade do amor é precipitar o seu fim. Porque você acha que esse amor aguenta tudo, então, de um jeito ou de outro você acaba fazendo esse amor passar por tudo. Um grande amor não é possível. E talvez por isso é que seja grande - para que nele caiba o impossível."
Texto da série "Afinal, o que querem as mulheres?"
Imagem: Ilustração de Olaf Hajek
Delícias em papel pólen
02. Dois Rios - Tatiana Salem Levy
03. A Arte de Viajar - Alain de Botton
04. Reflexos e Sombras - Saul Steinberg
05. Nada a Dizer - Elvira Vigna
06. Coração - Edmondo De Amicis
07. Quando eu Nasci - Isabel Minhós Martins
08. Liberdade - Jonathan Franzen
09. Na Estrada - Marcos Strecker
10. Asterios Polyp - David Mazzuchelli
Foto: Wolney Fernandes
Sede
A Todo Instante por Adriano Antunes
Longo é o caminho que percorro a procura de respostas para indagações antigas. Percurso intransferível que gera desconforto, totalmente compreensível, como sentir sede no deserto. O viver ensina, e a todo instante surge nova peça desse quebra-cabeça gigante, composto por inúmeros efeitos sem aparente causa. Sigo a dica dos testados, ato contínuo, inicio pelos cantos sem noção de centro, remonto a causa pelos efeitos, esforço paciente. Ontem, asas amarradas ao solo; hoje, tentativas de vôo raso, rápido, observo maravilhado, a sede de busca que sempre habitou em mim.
Adriano Antunes ventila escritas vindas do sul com a propriedade de quem deixa pegadas difíceis de apagar. Para seguir seus rastros, clique aqui.
Imagem: Marcelo Fedrizzi, fotógrafo
A Todo Instante por Adriano Antunes
Longo é o caminho que percorro a procura de respostas para indagações antigas. Percurso intransferível que gera desconforto, totalmente compreensível, como sentir sede no deserto. O viver ensina, e a todo instante surge nova peça desse quebra-cabeça gigante, composto por inúmeros efeitos sem aparente causa. Sigo a dica dos testados, ato contínuo, inicio pelos cantos sem noção de centro, remonto a causa pelos efeitos, esforço paciente. Ontem, asas amarradas ao solo; hoje, tentativas de vôo raso, rápido, observo maravilhado, a sede de busca que sempre habitou em mim.
Adriano Antunes ventila escritas vindas do sul com a propriedade de quem deixa pegadas difíceis de apagar. Para seguir seus rastros, clique aqui.
Imagem: Marcelo Fedrizzi, fotógrafo
Onde começa a saudade
A saudade não começa no aeroporto e nem quando o carro desaparece estrada afora. A saudade não começa no adeus ou no último suspiro compartilhado. A saudade não começa quando tento mapear os cheiros pelo abraço. A saudade começa quando o fim se desenha no horizonte. A saudade começa quando, desajeitadamente, começo a vivenciar rotinas que a minha vida terá durante a ausência.
Foto: Wolney Fernandes
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Desassossego
A vontade de escrever foi mal educada comigo hoje. Tanta coisa pra acabar, mas precisava registrar em escrita borrada, um desassossego. Não espero ser inteiramente preenchido, mesmo tentando de várias formas cruas me sentir aquecido por dentro.
Em minha reabilitação particular, fico com preguiça dos planos que eu próprio tracei e, para esquecê-los, eu durmo. Se pudesse, não sairia do meu quarto, mas a vida me apressa. Pareço não ter direito a folgas. E eu que sonho tirar uma pequena folga das minhas ansiedades causadas pelos projetos riscados ou de risco, não sei...
Nos últimos dias eu busco uma doce sensação de uma noite durante a chuva, quando a ansiedade é banhada pelo frescor dos sossegos. Daqueles despidos de pretensões, mas tatuados com liberdades.
Foto: Wolney Fernandes
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Para meu querido Wolney, com amor.
A Todo Instante por Gwavira Gwayá
A Todo Instante por Gwavira Gwayá
A todo instante, a vida pode nos surpreender. Qual a melhor maneira para estarmos receptivos às surpresas? Será preciso andar distraídos por veredas pouco familiares? Ou seria melhor nos colocarmos atentos, observadores obstinados? Não nos é dado saber, jamais... Quando a vida explodirá a poucos passos de nós, rompendo cascas, ali, à beira da via movimentada, na forma de uma ninhada de quero-queros? Como saber qual sobreviverá à difícil travessia dos primeiros dias? E, de repente, a breve visão da luz da manhã banhando a cria nova, depois da chuva, sob os olhos atentos do casal de quero-queros, prontos a atacar qualquer visitante indesejado... Pronto: o dia já terá valido a pena!
Gwavira Gwayá
Terra Gwayá, 9 de novembro de 2011
Gwavira Gwayá borda delicadezas e trança alegrias com risos soltos. Possui a voz mais linda que eu já ouvi e tem um blog de notas e rabiscos. Para conhecer mais, clique aqui.
Mapeando abandonos
São Luís em ruas de pura poesia e abandono:
Rua do Alecrim, Rua dos Prazeres, Rua dos Afogados, Rua da Viração, Rua do Veado, Rua da Palma, Rua do Giz, Rua da Alegria, Rua da Estrela, Rua do Sol, Rua Azul, Rua das Flores, Rua da Saudade...
Foto: Wolney Fernandes
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
[a]guardando instantes
A Todo Instante por Odailso Berté
Instantaneamente vários deles desfilam pela minha memória: o poço onde fios de cabelo viravam cobras, o açude rodeado por pés de ariticum e guavirova, o parreiral onde a cobra verde me assustou, os canteiros de flores que ajudei minha mãe fazer, a xícara de café com leite sobre a mesa na manhã em que acordei sozinho, o dia em que calcei uma sandália feminina envergonhando meu pai perante amigos, a flor amarela que avistei perto do limoeiro, as garças brancas na aveia verde, o lapso entre o músico e o policial, amor e título, exigência e displicência, o medo de...
Desde sempre os movemos e somos movidos por eles. Revendo-os me abraço e me [co]movo. Vou e volto neles, pois me constituem. Os que foram e os que virão, com suas cobras, flores, sandálias e amores.
Parafraseando Cazuza, o instante não pára. O mundo não pára, nos não paramos. Quer dizer, um dia vamos parar, depois de [a]guardarmos muitos instantes. Mas eles seguirão acontecendo.
Odailso Berté veio do sul e vive inventando passos de dança para levantar a poeira e as folhas do cerrado. Para conhecer mais: Dançamentos
A Todo Instante por Odailso Berté
Instantaneamente vários deles desfilam pela minha memória: o poço onde fios de cabelo viravam cobras, o açude rodeado por pés de ariticum e guavirova, o parreiral onde a cobra verde me assustou, os canteiros de flores que ajudei minha mãe fazer, a xícara de café com leite sobre a mesa na manhã em que acordei sozinho, o dia em que calcei uma sandália feminina envergonhando meu pai perante amigos, a flor amarela que avistei perto do limoeiro, as garças brancas na aveia verde, o lapso entre o músico e o policial, amor e título, exigência e displicência, o medo de...
Desde sempre os movemos e somos movidos por eles. Revendo-os me abraço e me [co]movo. Vou e volto neles, pois me constituem. Os que foram e os que virão, com suas cobras, flores, sandálias e amores.
Parafraseando Cazuza, o instante não pára. O mundo não pára, nos não paramos. Quer dizer, um dia vamos parar, depois de [a]guardarmos muitos instantes. Mas eles seguirão acontecendo.
Odailso Berté veio do sul e vive inventando passos de dança para levantar a poeira e as folhas do cerrado. Para conhecer mais: Dançamentos
Na hora do lanche
Um dia antes, Dona Biga entrava nas salas de aula para avisar da sopa do dia seguinte. Das hortas cultivadas no quintal das casas, saíam tomates, cebolinha, batata doce, cenoura e até giló. O caldo da sopa ficava bem mais consistente com a contribuição da meninada.
Sirene não havia. A marcação do recreio era feita pela entrada da merendeira com as tijelas de plástico azul em um grande tabuleiro. Nessa hora, todos entoavam desafinadamente "Bom dia, merendeira como vai?..."
O cardápio, variado, era sempre intercalado por lanches gostosos: sopa, arroz com carne, paçoca, macarrão com sardinha e feijão tropeiro [quem levasse ovo, tinha direito de ter a iguaria inteira cozida no meio do feijão]. Nos dias fracos eram servidos leite com bolacha ou mingau [que de gostoso só tinha a cor].
O sabor dessas lembranças eu encontrei dentro da mesma vasilha azul que ainda serve a merenda em muitas escolas por aí.
Foto: Wolney Fernandes
Quando
Roberto Carlos eu descobri há pouco em lindas canções dos anos 60.
01. Não precisas chorar
02. Eu te darei o céu
03. Ar de moço bom
04. Quando
05. Eu te amo, te amo, te amo
06. Quero ter você perto de mim
07. Eu não vou deixar você tão só
08. É tempo de amar
09. Como é grande o meu amor por você
10. O tempo vai apagar
Imagem: detalhe da capa do LP "O Inimitável" de 1968.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Perca=Encontre
A Todo Instante por Cristian Mossi
Cristian Mossi vive em Santa Maria no Rio Grande do Sul. Para conhecer mais: meus(des)enredos
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Autorretrato*
Me colaram no tempo, me puseram uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo, a leste pela impossibilidade de voar, a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, fluido... mesmo assim, me puseram o rótulo de sério, centrado. Vou rindo, vou andando aos solavancos. Desenho, rio e choro. Estou aqui e ali em desarticulações de dar dó.
Sou um cemitério pelo avesso, pois meus mortos estão em covas rasas. Carrego minhas saudades com o carinho de quem vive pelas memórias. São elas que me revelam o sentido verdadeiro das coisas. A morte só pesa por fora, tudo por dentro tem intenção de vida.
Toda segunda eu deixo de lado minhas imperfeições para, então, recolhê-las na terça. Ô caminho longo esse que coloca na vida o gosto de brevidade. Escrevo, agora, querendo terminar logo, no desejo tardio de ainda escrever muito.
Gosto do vento que me suspende os passos e, vez por outra, bagunça todas as agonias. No espelho, fico aliviado quando não me reconheço. Tenho vontade de inaugurar no mundo o estado de bagunça transcendente. Mas sou a presa do homem que fui há vinte anos passados, dos amores raros que tive, de uma vida de planos ardentes, de desertos vibrando por instantes de felicidade.
(*) Postagem de número 1000.
Foto: Wolney Fernandes
domingo, 30 de outubro de 2011
Instantes Possíveis
Um gesto que o olho percebe, um sorriso não ensaiado, uma dor que não tem nome, um pensamento fugidio... reflexos soltos, instantes espontâneos e fugazes que, registrados, tornam-se preciosos, vitais. São instantes de liberdade... são instantes possíveis.
E essa vontade enorme de segurar forte, de não deixar escapar nenhum destes instantes, de possuir cada cheiro que eles ventilam. Essa vontade eu sempre quis pra mim. Por isso pego imagens, músicas e poesias emprestadas, arrisco algumas novas porque, nos mínimos detalhes, eu quero me traduzir.
Mas não adianta! Em cada chance que eu tenho de exercitar meu ato inocente de me possuir, o tempo me arranca. Como em uma brincadeira de esconde-esconde, tendo me moldar em frases curtas e imagens sem foco. Tento agarrar a memória do que eu era... do que eu sou.
Paro um momento e faço silêncio porque daqui a pouco tudo muda e acabo me sujando com o barro molhado que vivo tentando moldar os pensamentos escritos aqui.
Não tenho certeza se esse é um texto sobre os labirintos que desenham meu campo de desejos. Para tanto, falta um pouco de ironia, um pouco de brincadeira, de poesia e sagacidade. Na verdade o 999º texto deste blog é só pra dizer que estou construindo um rosto novo para meus instantes. Um texto sobre arrumações de toda ordem.
Para marcar a milésima postagem, programada para o próximo Dia dos Mortos, faço questão dos ritos encharcados de afetos e das brincadeiras que tiram sorrisos do olhar. Uma única certeza para um monte de dúvidas que continuarão descritas aqui, ao sabor de minhas vontades... a todo instante.
Foto: Wolney Fernandes
E essa vontade enorme de segurar forte, de não deixar escapar nenhum destes instantes, de possuir cada cheiro que eles ventilam. Essa vontade eu sempre quis pra mim. Por isso pego imagens, músicas e poesias emprestadas, arrisco algumas novas porque, nos mínimos detalhes, eu quero me traduzir.
Mas não adianta! Em cada chance que eu tenho de exercitar meu ato inocente de me possuir, o tempo me arranca. Como em uma brincadeira de esconde-esconde, tendo me moldar em frases curtas e imagens sem foco. Tento agarrar a memória do que eu era... do que eu sou.
Paro um momento e faço silêncio porque daqui a pouco tudo muda e acabo me sujando com o barro molhado que vivo tentando moldar os pensamentos escritos aqui.
Não tenho certeza se esse é um texto sobre os labirintos que desenham meu campo de desejos. Para tanto, falta um pouco de ironia, um pouco de brincadeira, de poesia e sagacidade. Na verdade o 999º texto deste blog é só pra dizer que estou construindo um rosto novo para meus instantes. Um texto sobre arrumações de toda ordem.
Para marcar a milésima postagem, programada para o próximo Dia dos Mortos, faço questão dos ritos encharcados de afetos e das brincadeiras que tiram sorrisos do olhar. Uma única certeza para um monte de dúvidas que continuarão descritas aqui, ao sabor de minhas vontades... a todo instante.
Foto: Wolney Fernandes
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Isto e Aquilo
Foi assim em 1991, 1994, 1997, 2000, 2004, 2009 e agora: navego em uma sensação muito forte de que esse tempo é próprio das transições. Meus ritos pessoais de passagem não são fáceis e eu nunca decoro a cartilha das escolhas. E olha que nem estou falando daquelas entre o bem e o mal, mas toda pequena escolha [água com ou sem gás? camisa vermelha ou azul? casa ou academia? direita ou esquerda?...] ainda carrega um tantinho de dificuldade.
"Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo".*
Cecília Meireles que me perdoe, mas melhor do que "Ou isto ou aquilo" seria "Isto e aquilo".
Pensar sobre as transições me deixa com vontade de silêncios. Continuo completamente normal por fora, mas por dentro coisas graves acontecem. Muitas vezes coisas até obscuras, dessas que não se revelam em realidade. Destas que tiram a vontade de atender ao telefone ou dizer bom dia no trabalho.
Em dias assim evito o espelho. É que perder a inocência nada tem a ver com a primeira vez. É original a cada troca de pele, a cada nova folhagem. Fico sério quando estou só, mas também experimento uma felicidade bem particular. Um estado de espírito quase egoísta, que não se permite compartilhar. E assim, me fecho sem chaves, procurando me revelar quase inteiro pra mim.
Foto de Jesús González. Olhei aqui.
(*) Trecho do poema "Ou Isto ou Aquilo" de Cecília Meireles
"Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo".*
Cecília Meireles que me perdoe, mas melhor do que "Ou isto ou aquilo" seria "Isto e aquilo".
Pensar sobre as transições me deixa com vontade de silêncios. Continuo completamente normal por fora, mas por dentro coisas graves acontecem. Muitas vezes coisas até obscuras, dessas que não se revelam em realidade. Destas que tiram a vontade de atender ao telefone ou dizer bom dia no trabalho.
Em dias assim evito o espelho. É que perder a inocência nada tem a ver com a primeira vez. É original a cada troca de pele, a cada nova folhagem. Fico sério quando estou só, mas também experimento uma felicidade bem particular. Um estado de espírito quase egoísta, que não se permite compartilhar. E assim, me fecho sem chaves, procurando me revelar quase inteiro pra mim.
Foto de Jesús González. Olhei aqui.
(*) Trecho do poema "Ou Isto ou Aquilo" de Cecília Meireles
terça-feira, 18 de outubro de 2011
A vida em coisinhas de nada
- "Estranho seria se você, adulto, gostasse do Justin Bieber. A música dele não é feita pra você!" Ao ouvir isso em uma entrevista pela TV, eu até entendi, mas estranhei. Só se pode gostar de coisas feitas para a idade da gente?
- Atravesso a rua e ouço o motorista buzinar insistentemente em frente ao prédio.
- A beleza dela é daquelas difíceis de descrever, mas aquele vestido verde e aquela boca cor de goiaba só podia ser combição para que todos os olhares se voltassem para ela.
- A música que você adora foi parar na novela das oito e ainda tem gente que não gosta de saber da notícia.
- Comprei a capa para o celular às 10h30. Às 11h, sem perceber, joguei a sacolinha com a capa novinha no lixo! Voltei ao meio dia para ver se ainda a encontrava, mas já tinham recolhido o lixo às 11h45.
- E o motorista insiste em buzinar em frente à portaria, mesmo o prédio tendo 104 apartamentos.
- Pergunto ao moço da banca se a Revista Trip deste mês já chegou. Ele diz que não e me indaga: "Só hoje, você é a quinta pessoa que procura por esta revista. O que ela tem neste mês que todo mundo quer?" - Eu sorrio por dentro e digo bem tranquilo: "Dois homens se beijando na capa".
Imagem: Capa da Revista Trip do mês de outubro de 2011 cujo tema é a diversidade sexual.
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