quinta-feira, 26 de abril de 2012
Outro jeito de ser feliz
Minha felicidade anda assim, sem muitos subterfúgios ou atalhos. Pela primeira vez, ela vem num envelope fácil, sem babados e descaminhos. Ela existe em olhos tão doces e permanece em sorrisos estratégicos, daqueles que desabrocham quando o telefone toca ou quando o braço enlaça o corpo no meio da noite.
Minha felicidade anda de um outro jeito. Sem perceber caminha com certa leveza. Entre encantos e estranhamentos, ela se mostra quase por instinto entre rugas estratégicas e um jeitinho meio cafajeste, meio sexy de superar as coisas com desejo, música, cinema e maturidade.
Dá vontade de fazer planos porque os dias seguem numa sucessão de [re]descobrimentos. Porque não há nada mais lindo do que felicidade misturada ao cotidiano, que desliza, entre altos e baixos, sem sobressaltos... a mostrar um jeito bom de caminhar.
Imagem capturada aqui.
quarta-feira, 25 de abril de 2012
Sempre alerta?
Enquanto as nuvens de chuva encobriam o último pedaço de céu azul, meninos e meninas se organizavam segundo a orientação do guia. O espaço do parque, tão vasto de possibilidades exploratórias, era demarcado em funções relacionadas a hierarquia daquele grupo de escoteiros.
Lobinhos, guias, pais e responsáveis eram orientados com rigor sobre o local do lanche e a posição que deveriam ocupar no grupo. Em torno da bandeira, o respeito em forma de postura deveria ficar evidente enquanto dois dos escoteiros hasteavam a flâmula que fôra instalada provisoriamente em uma árvore do parque.
A cena parecia deslocada em tempo e espaço porque aquela dinâmica de caráter tão institucional não deixava brechas para as deambulações e seus improvisos.
Os atrasadinhos, por terem burlado a precisão dos ponteiros, eram renegados ao final da equipe. Ofegantes, logo eram incorporados ao silêncio sistemático daquela cerimônia de sábado à tarde. Só o escoteiro sênior tinha o poder da fala.
Solenemente, aquele espaço de interação era transformado em espaço de patentes e filas demarcadas. Os pais exibiam, com orgulho, os filhos obedientes, alinhados e alinhavados por aquele poder cartesiano, um tanto quanto efêmero, de moldar a pessoa para ser boa o tempo inteiro.
Discursos bradados com veemência pareciam querer demarcar o amor pelo escotismo e se prolongariam tarde afora, imagino eu, não fosse a chuva que começou a cair naquele instante.
Não houve fila indiana e nem patentes que suportassem a imprecisão do temporal. "O salve-se quem e o que puder" diante da dinâmica da chuva, deixou à mostra toda a falácia daquele discurso desprovido de vivência. A bandeira, tão amada e respeitada, foi abandonada sem o menor constrangimento. Sozinha no meio do temporal, depois da debandada geral, parecia sinalizar a fragilidade daquele modelo de educação que não dá conta das intempéries e nem da complexidade do nosso tempo.
terça-feira, 17 de abril de 2012
Dezessete de abril de 2012 - Terça
"Há algo em mim que não desaprende esse caminho.
Que segue, quando, aparentemente, eu paro. Que continua a luzir, mesmo quando eu tropeço nas minhas sombras.
Além dos meus tempos de muda. Algo que me mostra uma paz intensa e verdadeira.
Que não me deixa esquecer que continuo a ter asas, mesmo quando eu não voo..."
[Ana Jácomo]
Terminei de reproduzir o poema aqui e esta canção perfumou minha manhã. E o dia segue assim, corrido como de costume, mas misturado a desejos, imagens, poemas e canções.
Imagem: cena do filme "Asas do Desejo"
Paisagens
Brigas
Cansaço
No sinal vermelho, uma mulher corre entre os carros deixando um saquinho com 7 balinhas onde se lê: "Ajude uma mãe de família. R$ 1,00". Procuro por moedas antes do sinal abrir. Ela vem em minha direção no último segundo antes do carro detrás começar a buzinar e consegue pegar o dinheiro de minhas mãos. Pelo retrovisor vejo a mulher se encostar na palmeira do canteiro central, arfante... quase sem fôlego.
Lei Seca
Do outro lado do lago eu vejo a moto visitar cada grupo que está fazendo piquenique no parque. Não demora muito até o segurança chegar onde estamos para avisar: "Há uma lei que proíbe o uso de bebida com qualquer teor alcóolico aqui no parque. Então, por favor, escondam a garrafa para que não sejam abordados."
Desfile
A mulher vai na frente tentando ajeitar a saia que lhe sobe às coxas. Os joelhos arqueados e as pernas separadas mostra sua inaptidão em se equilibrar no salto que lhe aperta os pés. Atrás dela, a menina segue em um ritmo mais lento porque carrega uma caixa e uma sacola. O cabelo despenteado esconde um olhar triste que parece encontrar no chão o rumo para seus passos curtos.
Nada é por acaso
Peço gasolina e o frentista, distraído, enche o tanque com álcool. Sem acreditar que aquele engano vai me atrasar 45 minutos demonstro minha indignação e impaciência enquanto um outro funcionário organiza os preparativos para que o mal feito seja desfeito. Percebendo meu estado de irritação latente, pacientemente, ele explica: "Ser escravo do tempo pode ter um preço muito alto. Na vida, nada é por acaso".
Imagem capturada aqui.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Abril Despedaçado - A possibilidade de ver maio chegar
"A mãe costuma dizer que Deus não manda um fardo maior do que a gente costuma carregar. Conversa fiada! Às 'veiz' ele manda um peso tão grande que ninguém 'guenta'!"
No seio daquela família não se pode observar qualquer esperança, pois a vida é regida pela relação com a morte. O engenho, única fonte de sustento, marca o giro repetitivo daquela condição. Um relógio que contabiliza o tempo que parece não passar, os bois que giram e jamais saem do lugar demarcam um movimento onde as palavras e a visão são limitadas.
No entanto, à medida que a história avança, percebemos que a roda de bois começa a mostrar sinais de fadiga e desgaste. O menino aponta e Tonho, angustiado pela perspectiva da morte, passa então a questionar a lógica da violência e da tradição.
"Nessa história de olho por olho, todo mundo ficou cego!"
Esse questionamento ganha força com a chegada de Clara e Salustiano, dois saltimbancos que enxergam além do sépia e do horizonte conhecido por Tonho e Pacu. No chão árido, a jovem do circo anda leve de pernas de pau e mostra um pedaço do céu, de mar, de amor e alegria aos dois. Ao ganhar um livro da moça, o menino imagina a história de uma sereia e, de tão absorto, esquece de levar a cana para moer - seus sonhos o deixam afastado de alimentar a engrenagem que move toda aquela organização familiar e social.
A possiblidade de ver maio chegar é dada pelo olhar que vem de fora e que prenuncia a ruptura de um ciclo, subvertendo toda uma ordem. Depois de assistir ao filme pela quinta vez, saio com a certeza de que na vida real é preciso estar atento às oportunidades de renovação, de liberdade de escolha, de encontro com o mar aberto e todo um oceano de possíbilidades. Que este seja o efeito de beleza que me liberte de eixos aprisionantes, que me faça sair do lugar comum e me incite a cultivar verdades apaixonadas.
Imagens capturadas aqui.
domingo, 8 de abril de 2012
Profissão de Fé
As lições de catecismo eu subverto em minutos de sabedoria, de riso e ironia. Os santos viraram estampas de camiseta e para suas histórias eu invento finais profanos. Prefiro a devassidão soturna dos quartos paroquiais às falas de púlpitos e presbitérios. Meu hino de louvor é entoado fora dos templos para cada pedacinho de céu que a realidade, mesmo dura, deixa entrever.
Creio que alegria não seja pecado e que a infelicidade de hoje não garante recompensas futuras. Não quero saber de paraíso se, para adentrá-lo, não puder ser quem eu sou. Ainda tenho medo da morte porque acredito que morrer é retornar ao que eu era antes de nascer: nada.
No entanto, acredito que esse nada que eu tanto temo se conecta ao infinito e a vastidão desse universo cheio de mistérios e estrelas. Pensando bem, ainda tenho medo da morte porque, na verdade, eu nunca sonhei ser astronauta.
sábado, 7 de abril de 2012
Arejamentos
Pelo caminho, tropeço numa vontade de arejamento que estava esquecida feito sapato perdido. Devia ter acendido a luz, mas tenho essa mania de andar às escuras pelos lugares. Tiro uma teia de aranha da fresta que prenuncia claridades, desejando que a aranha já tenha encontrado outro canto, outra morada. Olho pela janela enquanto tento adivinhar quem terá regado as flores de "amor perfeito" no período de ausência.
Ouço alguém bater delicadamente: toc.. toc...
Sorrindo, atravesso minhas ausências para abrir a porta do meu próprio coração.
Imagem capturada aqui.
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Revelações
A fotografia é a imagem em busca de eternidade. Talvez por isso, fotografar a própria vida em ação nos permita infinitas revelações.
Foto: Wolney Fernandes
Seres Incompletos
Reencontro, aqui e ali, pessoas do meu passado [como se meu passado fosse um lugar] que me atribuem frases e gestos de que não me recordo, embora acredite ter sido o seu autor. Vencido um certo desconforto - parece que falamos de uma terceira pessoa, ausente - sobra uma sensação de quase culpa por não ter guardado essas memórias devidamente, a que se junta a súbita consciência de que a memória não nos pertence.
O nosso passado assemelha-se a uma civilização perdida, da qual se encontram espalhados pelo mundo vestígios arqueológicos que nos transformam para sempre em seres incompletos.
Imgem capturada aqui.
terça-feira, 3 de abril de 2012
Guia
Daquilo que só o prazer pode dar conta em 15 passeios por Goiânia.
01. Comer empada na barraca do "seu" Alberto no Mercado Central.
02. Escutar o coral de domingo da Igreja Batista no centro.
03. Apreciar a vista da cidade do Campus Samambaia da UFG.
04. Visitar os sebos da Rua 04 à procura de livros antigos (se possível, com dedicatória).
05. Tomar vinho, à noite, em um dos parques da cidade.
06. Assistir um filme qualquer no Cine Ritz.
07. Madrugar comendo delícias em uma padaria 24h.
08. Desenhar o movimento das pessoas no Bosque dos Buritis.
09. Mapear casinhas charmosas e antigas que ainda resistem à especulação imobiliária.
11. Tomar café fora de casa e caminhar pelas ruas do centro no sábado pela manhã.
12. Passar a tarde em livrarias no shopping.
13. Participar do ensaio dos grupos de percursão na Praça Universitária.
14. Comer na "Esfiha Quente" da rua 04 no centro e lembrar que não há outra igual na cidade.
15. Sentar em um dos bares do Morro do Além só pra ver a cidade e suas luzes noturnas.
Foto: Wolney Fernandes
domingo, 1 de abril de 2012
[des]arrumações
A vida bem poderia ser mais simples. Seria possível deixar essa eterna inquietação das madrugadas e inaugurar de repente uma vida de acordar bem cedo?
Para instaurar uma vida mais simples e sábia, então seria preciso desenhá-la de outro jeito, não assim, nesse rabisco de pequenas pilhas de palavras, esse oficio absurdo e vão de dizer coisas. Talvez aprender, com ações, a cumprir os versos de Adélia Prado:
"Tudo que não fala, faz"
"Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é."
Fazer da mudança algo de sólido e singelo. Remover a barragem do rio e deixar a água correr, serena e mansa. Penso nisso, tirando um lápis do bolso para tomar nota. E paro apenas um instante... Para que tomar nota?
Não precisamos tomar nota de nada, precisamos apenas viver - sem notas, nem pressa, mas doces, distraídos, bons... como os pássaros, as mangueiras e o ribeirão.
sábado, 31 de março de 2012
Depois das 23h
Tenho poucas fichas, mas aposto todas até onde a sua boca me levar... porque depois das 23h, há um cantinho da sua língua que me faz acreditar no mundo.
Imagem capturada aqui.
Abordagens Acadêmicas - A Mona Lisa do Diabo
Em 2002, por ocasião da minha graduação, havia uma matéria chamada “Aspectos sócio-culturais da imagem”. Um dos exercícios propostos pelo professor, na época, foi fazer uma análise semiótica do filme "O Advogado do Diabo".
Das tantas cenas do filme, uma em especial, conseguiu levantar uma discussão acalorada na turma. Nela, a mocinha aparecia nua de braços abertos e, dentro do contexto daquela narrativa, parecia referenciar a tradicional "pose" de Cristo na cruz.
Depois de várias conjecturas e referências a pensadores do naipe de Saussure, Pierce e outros tantos, alguém sugeriu que seria interessante chamar para a roda, uma pessoa que não estivesse a par da discussão que estava rolando para contribuir com a análise.
O guarda da Faculdade Artes Visuais foi eleito e convidado para fazer uma "leitura" da cena estudada e, indagado sobre o que ele via na imagem, colocou a mão no queixo e matutou durante vários minutos sem dizer uma palavra.
Acuado por uma sala inteira de alunos do curso de artes que o observava atentamente, depois de muito pensar, arriscou:
- "É a Mona Lisa?"
Abordagens acadêmicas - O balde de caju
O balde que ela trazia na mão estava cheio de cajus do cerrado, a roupa toda colorida não lhe escondia a magreza e o cabelo, preso, era ornamentado por fios brancos. Foi assim que aquela senhora entrou no restaurante e, de súbito, foi abordada por uma jovem estudante de prancheta na mão e caneta em punho:
- Eu sou estudante da universidade, estou fazendo uma pesquisa aqui em Pirenópolis e queria saber se eu posso lhe fazer algumas perguntas para a minha pesquisa.
O olhar daquela senhora se empertigou diante da afobação da moça e de uma talagada só, respondeu:
- Posso não! Tenho que vender "meus" caju.
Na mesa ao lado, eu observava a cena com um tanto de curiosidade. Ainda com o riso escapando pelos meus lábios, ao ver a senhora dar as costas para a estudante, aproveitei para perguntar:
- Dona, quanto é o caju?
De cara, consegui que o interesse daquela senhora se voltasse pra mim. Dito o preço, comprei um litro da fruta e a conversa se desenrolou sem muito esforço sobre os cajueiros que ela cultivava no quintal da própria casa e outras particularidades que talvez seriam o conteúdo almejado para dar conta do questionário que a jovem estudante de prancheta na mão carregava.
Foto: Wolney Fernandes
- Eu sou estudante da universidade, estou fazendo uma pesquisa aqui em Pirenópolis e queria saber se eu posso lhe fazer algumas perguntas para a minha pesquisa.
O olhar daquela senhora se empertigou diante da afobação da moça e de uma talagada só, respondeu:
- Posso não! Tenho que vender "meus" caju.
Na mesa ao lado, eu observava a cena com um tanto de curiosidade. Ainda com o riso escapando pelos meus lábios, ao ver a senhora dar as costas para a estudante, aproveitei para perguntar:
- Dona, quanto é o caju?
De cara, consegui que o interesse daquela senhora se voltasse pra mim. Dito o preço, comprei um litro da fruta e a conversa se desenrolou sem muito esforço sobre os cajueiros que ela cultivava no quintal da própria casa e outras particularidades que talvez seriam o conteúdo almejado para dar conta do questionário que a jovem estudante de prancheta na mão carregava.
Foto: Wolney Fernandes
sexta-feira, 30 de março de 2012
Pequenas Ternuras
"Quem não se envergonha da beleza do pôr-do-sol ou da perfeição de uma concha; quem se desata em riso à visão de uma cascata; quem não se fecha à flor que se abriu de manhã; quem se impressiona com as águas nascentes, com os transatlânticos que passam, com os olhos de animais ferozes; quem se perturba com o crepúsculo; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem se sente leve perto da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga perceber o "pensamento" do boi e do cavalo; todos eles são presidiários da ternura e, mesmo aparentemente livres como os outros, andarão por toda parte acorrentados, atados aos pequenos amores da grande armadilha terrestre."
[Paulo Mendes Campos]
Imagem: Wolney Fernandes
sexta-feira, 23 de março de 2012
Meio Amores
Imagem de Mark Rothko. Olhei aqui.
quarta-feira, 21 de março de 2012
No Final das Contas
"Thaise, te escrevo esta carta cheio de emoção porque não posso viver sem você mais. Minha vida acabou depois que te conheci no Goianão. Vou aí só para matar a saudade de você. Sei que não posso fazer isso porque sou casado, tenho três filhas: duas minhas e uma outra que peguei para criar porque meu cunhado morreu. Sei que não vai me dar uma chance, mas fique sabendo que te amo e não vou te esquecer.
Te amo demais e não durmo à noite só pensando em você.
Beijos e abraços de um homem apaixonado.
Até um dia!"
Texto encontrado em um pedaço de papelão jogado pelas ruas da cidade.
segunda-feira, 19 de março de 2012
Sobre enchentes de São José
Choveu a noite toda. Uma chuva que não era forte, mas que também não era uma chuvinha qualquer. Chuva destas que embalam o sono quando o som do telhado e seus respingos fazem a gente puxar a coberta de algodão e dormir rebuçado.
Na manhã seguinte, aquela chuva constante virou chuvisco e a cidade acordou com um som diferente. O ronco surdo das águas podia ser ouvido de qualquer ponto de Lagolândia. Era o rio de águas barrentas que avançava ameaçadoramente em ondas nunca vistas e que faziam aquele movimento que o mar faz na praia. A diferença era que ondas vinham e não voltavam mais. E assim, o Rio do Peixe engolia tudo à sua volta.
Árvores centenárias, vacas e outros animais passavam frente aos olhos dos moradores e moradoras que se amontoavam à beira daquela enchente de proporções inimagináveis. O ano era 1992, o mês era março e o dia era ali bem perto do dia 19. Sei porque alguém sempre lembrava: "É a enchente de São José!".
Logo as casas foram atingidas. Correrias para retirar a mobília e levá-la para um lugar seguro. O tempo era muito pouco. A água parecia ter pressa e, em menos de 40 minutos, atingiu a praça central do vilarejo e construções ali perto. Das casas do lado de baixo só se viam os telhados, inclusive do Salão da Santa Dica. Todos se aglomeraram no lado de cima da praça assistindo a tudo sem ter muito o que fazer. Lembro-me que algumas pessoas conjuravam suas profecias:
- "O mundo vai acabar em água".
- "Se a água chegar no cruzeiro da praça é sinal de que o fim chegou!".
- "Quem quiser se salvar terá que subir para o morro da torre de TV!".
Diante daquela cena dantesca, a surpresa se instaurou entre os presentes quando, frente aos olhos temerosos de todos/as, um jovem passou deitado em sua bóia gigante, fazendo da quadra de esportes sua piscina de água suja. Ali não cabia medo, pois mesmo conduzido pela fúria das águas, ele era só alegria.
Foto: Wolney Fernandes
Citação de Manoel Ferreira
sábado, 17 de março de 2012
Dezessete de março de 2012 - Sábado
Na saída, silenciosamente, me veio a consciência que carinho bom é o carinho de agora, aquele que se leva ao cinema e suporta toda a exaustão de um dia de trabalho, que ri do comportamento mais habitual que passaria despercebido em olhares menos atentos, que vem para nos redimir, retornar, remoçar e mostrar o caminho mais curto para a felicidade... daquela que rima com simplicidade.
Imagem capturada aqui.
quarta-feira, 14 de março de 2012
Breve Receita para Levitar
É preciso lembrar das vozes, das marcas, das coisas, dos sonhos.
É preciso lembrar de tudo: das dores, das partidas, das distâncias, do que foi dito e ouvido.
É preciso limpar as manchas, as farpas, os cortes.
É preciso guardar-se num canto, numa carta, poema ou estrofe.
E depois, apesar das marcas, abrir a mala das coisas sem nome e flutuar.
Imagem capturada aqui.
terça-feira, 13 de março de 2012
Conselhos
Em um gibi dos anos 60, Charlie Brown dá os seguintes conselhos para que a vida seja melhor: "Não deixa teus crayons no sol, joga a bola bem baixinho e alimenta teu cão duas vezes por dia".
Assistindo ao Poderoso Chefão, ouvi montes de conselhos sensacionais: "Leave the gun, take the cannoli" é o melhor deles.
Um tio avô vivia repetindo sem parar: "se gravou a fita, você vai ter que escutar!"
Ontem alguém me alertou: "Seja sempre você sua prioridade!"
Falar é fácil. Escrever em blog então...
Imagem capturada aqui.
segunda-feira, 12 de março de 2012
Espera
De frente para a parede eu era rei absoluto daquele império bege. 114 era o número de azulejos daquela sala. Terminei de contar, mas ninguém veio me parabenizar pela proeza. Ningúem conseguiu contar quanto tempo durou aquela espera. Só sei que foi o tempo necessário para perder a conta.
Em minhas divagações, azulejos inauguraram exercícios íntimos de criação.
Imagem capturada aqui.
domingo, 11 de março de 2012
Beginners
Cada cena de Beginners ("Toda Forma de Amor" no Brasil) parece conjugar a máxima de Nietzsche: "na solidão inerente a cada ser humano reside uma tragédia". O filme é composto de pequenas estranhezas, de minúsculos deslocamentes dos esteriótipos de histórias de amor e, por sua perspicácia, parece perguntar a todo momento sobre o quanto a solidão pode ser subestimada.
Oliver (Ewan McGregor) é um designer gráfico de 37 anos que, após quatro relacionamentos fracassados, acredita estar predestinado a passar o resto da vida sozinho, até conhecer Anna (Mélanie Laurent), uma atriz que não cria raízes, físicas e emocionais, como uma forma de autoproteção.
Até aqui, essa sinopse seria a mais comum de todas, não fosse Hal (Christopher Plummer), pai de Oliver, que resolve assumir a homossexualidade aos 75 anos. Após a morte da esposa, ele quer viver intensamente tudo que não pode viver até então: faz amigos gays, vai a baladas, arranja um namorado, junto a tudo isso, aproxima-se do filho em busca da relação que nunca tiveram.
"Eu não quero ser teoricamente gay. Eu quero fazer algo a respeito disso."
Ao misturar passado e presente, o filme mostra como a nova vida do pai vai modificando a melancolia presente no cotidiano do filho e, mesmo que de forma insesperada e extremamente complicada, faz com que ele reconheça sopros de felicidade em sua vida marcada pela tristeza.
É bonito ver as conexões estabelecidas entre a vida de Oliver com fatos que marcaram o mundo e de como ele vai trançando fios entre a história do pai e a sua própria. Não por acaso, o filme me fez lembrar o livro "Dias com meu pai" que mostrei aqui no blog há um tempo atrás.
O gostinho de realidade (o roteiro é baseado na história real de Mike Mills, diretor do filme) faz a gente se identificar com os personagens e, principalmente, fugir do eterno "romance fácil" para trazer perguntas do tipo "Como funciona o amor?" ou "Como fazê-lo dar certo?" sem nunca trazer uma resposta pronta e fácil.
Se os sentimentos são o sujeito de predileção do roteiro, eles não são sentimentos quaisquer. Além disso, Beginners mostra que muito mais que um coração apaixonado, uma relação se sustenta em confiança, segurança e a liberdade de ser quem você é e se sentir confortável em deixar o outro conhecê-lo de verdade.
Imagens: cenas do filme
Oliver (Ewan McGregor) é um designer gráfico de 37 anos que, após quatro relacionamentos fracassados, acredita estar predestinado a passar o resto da vida sozinho, até conhecer Anna (Mélanie Laurent), uma atriz que não cria raízes, físicas e emocionais, como uma forma de autoproteção.
Até aqui, essa sinopse seria a mais comum de todas, não fosse Hal (Christopher Plummer), pai de Oliver, que resolve assumir a homossexualidade aos 75 anos. Após a morte da esposa, ele quer viver intensamente tudo que não pode viver até então: faz amigos gays, vai a baladas, arranja um namorado, junto a tudo isso, aproxima-se do filho em busca da relação que nunca tiveram.
"Eu não quero ser teoricamente gay. Eu quero fazer algo a respeito disso."
Ao misturar passado e presente, o filme mostra como a nova vida do pai vai modificando a melancolia presente no cotidiano do filho e, mesmo que de forma insesperada e extremamente complicada, faz com que ele reconheça sopros de felicidade em sua vida marcada pela tristeza.
É bonito ver as conexões estabelecidas entre a vida de Oliver com fatos que marcaram o mundo e de como ele vai trançando fios entre a história do pai e a sua própria. Não por acaso, o filme me fez lembrar o livro "Dias com meu pai" que mostrei aqui no blog há um tempo atrás.
O gostinho de realidade (o roteiro é baseado na história real de Mike Mills, diretor do filme) faz a gente se identificar com os personagens e, principalmente, fugir do eterno "romance fácil" para trazer perguntas do tipo "Como funciona o amor?" ou "Como fazê-lo dar certo?" sem nunca trazer uma resposta pronta e fácil.
Se os sentimentos são o sujeito de predileção do roteiro, eles não são sentimentos quaisquer. Além disso, Beginners mostra que muito mais que um coração apaixonado, uma relação se sustenta em confiança, segurança e a liberdade de ser quem você é e se sentir confortável em deixar o outro conhecê-lo de verdade.
Imagens: cenas do filme
sexta-feira, 9 de março de 2012
Infinitivos
Rir de mim mesmo.
Ver seriado antigo.
Olhar nos olhos até tremer as pernas.
Escutar a chuva depois de apagar a luz para dormir.
Acordar e descobrir que ainda posso dormir por mais algumas horas.
Receber ligações depois da meia noite que duram duas horas.
Cantarolar letras de música na ponta da língua.
Abrir a janela e dar de cara com a lua.
Brigar quando a vontade pedir.
Tomar água com gás.
Dizer "não" sem me culpar.
Chorar no cinema.
Desenhar no parque.
Gastar tempo com amigos.
Ter alguém mexendo no meu cabelo.
Datilografar cartas de amor.
Sonhar com coisas boas.
Sorrir ao ver o telefone tocar.
Viajar para lugares que nunca fui.
Ouvir música no modo aleatório.
Imagem capturada aqui.
Ver seriado antigo.
Olhar nos olhos até tremer as pernas.
Escutar a chuva depois de apagar a luz para dormir.
Acordar e descobrir que ainda posso dormir por mais algumas horas.
Receber ligações depois da meia noite que duram duas horas.
Cantarolar letras de música na ponta da língua.
Abrir a janela e dar de cara com a lua.
Brigar quando a vontade pedir.
Tomar água com gás.
Dizer "não" sem me culpar.
Chorar no cinema.
Desenhar no parque.
Gastar tempo com amigos.
Ter alguém mexendo no meu cabelo.
Datilografar cartas de amor.
Sonhar com coisas boas.
Sorrir ao ver o telefone tocar.
Viajar para lugares que nunca fui.
Ouvir música no modo aleatório.
Imagem capturada aqui.
Passagem das Horas*
Penso que valeu a pena ter ignorado o medo algumas vezes: atravessar a ponte que separa o interior da capital, voltar de ônibus pra casa sem saber o próprio endereço, cruzar o Atlântico na primeira viagem de avião, gaguejar na aula de História da Arte, pronunciar um "não" sem saber o som que ele tem...
"Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso que é tanto, é pouco para o que quero."
[Álvaro de Campos]
Lendo Álvaro de Campos, desenhando e vendo filmes [são tantos], tenho a segurança de me apegar a essas lembranças de olhos fechados, sem receios.
E é esse passado tão presente que me faz tão bem e tão cheio de vontades. Sei que vai parecer frase de autoajuda, mas pronuncio com a autoridade de quem vive beijando incertezas: Já tendo vivido momentos únicos, há a certeza de que eles existem e que sempre voltarão num futuro próximo.
[*] Título retirado do poema de Álvaro de Campos.
Foto: Wolney Fernandes
Prelúdio
Te encontrei 10 dias depois. O peito cheio de gás hélio e as estrelas, risonhas, salpicando o estômago. E naquela noite do dia mais quente do ano, em palavras sussurradas você pronunciou o que eu já sabia desde a primeira vez.
A ansiedade por não ter um endereço para onde enviar cartas cessou. Foi então que percebi o quanto era bom sentir aquela paz silenciosa da vigília do sono alheio.
Imagem capturada aqui.
quarta-feira, 7 de março de 2012
Friday I'm in Love
Na última sexta-feira, pedi aos amigos no facebook que me sugerissem músicas para a manhã daquele dia. Uma playlist bem variada foi construída para embalar os dias da semana inteira.
01. O Leãozinho - Caetano Veloso e Maria Gadú
02. Ainda Bem - Marisa Monte
03. Baile de Ilusão - Céu
04. Let's Groove - Dr. Kucho! vs The Lost Fingers
05. Won't be Long - Aretha Franklin
06. Cara Estranho - Los Hermanos
07. Sonnet - The Verve
08. In The Jungle (The Lion Sleeps Tonight)
09. Mr. Maker - The Kooks
10. Mundaréu de Papel - Luiz Salgado
11. Mapa-Mundi - Thiago Pethit
12. Friday I'm in Love - The Cure
Bônus: U.A - Galinha Preta
Imagem capturada aqui.
A céu aberto
Tenho olhado para o céu mais vezes desde que a quaresma começou. Os roxos penitenciais eu transformei em azuis de mar e cores que só o céu de Goiânia consegue pintar.
Se antes, todas as brincadeiras eram recolhidas em tempos quaresmais, hoje experimento a leveza ofegante de uma pipa que navega sem peso a deslizar a céu aberto. Um pontinho colorido preso somente por um fio na fragilidade perigosa das coisas livres.
Como há tempos desejei, posso abrir os braços longamente, sentir o vento soprar e subir, subir... Tão leve que mal consigo ver o chão.
E na liberdade do vento que sopra, hei de aproveitar um dia de cada vez...
Imagem capturada aqui.
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Ficar aqui
Que não me falte descanso e que não me escape a pausa, pois a vida não fugirá se eu me distrair. Quero estar sempre alerta para reverter minha respiração curta em cochilos de cama e sofá.
Na madrugada quero beijar silêncios para que no dia seguinte eu possa fazer o pensamento caber na fala. Quero ter tempo para escutar a vida que sempre me diz "Não tente me controlar". E se a pressa for condição para chegar lá, eu quero mesmo é fazer bonito ficando aqui!
Foto: Wolney Fernandes
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