Nina Simone pertence. Essa frase é assim
mesmo, com o verbo pedindo complemento, mas seu sentido já está
completo. Nina reinventa uma música de pertencimento. Quando sinto as
palavras reverberadas na sua voz saio de qualquer vazio e passo a
pertencer, ainda que não saiba direito a quem ou ao quê. Atravessar
"Wild is the wind" de mãos dadas com Nina é uma espécie de maratona
sentimental. Díficil chegar a linha de chegada porque
selvagem é o vento e talvez seja a ele que pertencemos.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Pequenas realizações
Abandonei minha ambiciosa lista de ano novo para abraçar pequenas listas mensais: terminar de ver a série "A Sete Palmos", não abandonar a academia, fazer mais piqueniques no parque, ler menos notícias e mais Manoel de Barros, aprender as 117 funções extras que o celular oferece, não deixar e-mails acumulados na caixa de entrada, organizar a coleção de DVDs... foram alguns dos desafios do mês de Maio.
A satisfação é quase imediata, pois quando chega o dia 30 e vejo que cumpri apenas três dos itens listados já me sinto um homem feliz.
Tudo bem que isso não vai mudar a crise na Europa e nem vai ajudar a acabar com a corrupção no país, mas arrisco dizer que esse movimento de mudança torna possível uma vida mais tranquila, recheada de realizações... destas pequenas, mas reais, que cabem até em textos com três parágrafos.
Foto: Wolney Fernandes
domingo, 27 de maio de 2012
Segunda Tese
Eu insisto na segunda tese. Repare: uma mensagem assim não pode ser conjugada no passado.
Foto: Wolney Fernandes
sexta-feira, 25 de maio de 2012
Mistérios Gozosos
A seleção que faço dos pensamentos vagos para postar aqui no blog pode até parecer toda a composição do meu horizonte pessoal, mas felizmente não é. Eu próprio, perante minhas escolhas, por vezes, ao escrever, me faço autor de uma escrita bonitinha, varrendo as farpas daquilo que me faz um cara normal para debaixo do tapete. Tudo como um filminho, todo "inho", tipo apresentação brega em Power Point.
Outro dia escrevi "punheta" em meio a palavras sobre as delícias da boca, e uma boa parte dos/as leitores/as conhecidos se empertigaram dizendo do estranhamento de ver expressão dessa natureza por aqui. Por minha culpa [minha tão grande culpa] mostro sensatez ao invés de confusão, sobriedade em vez de porraloquice, calmaria mesmo quando o peito parece um vulcão. Equilibrista em corda bamba, tudo suporto numa falsa inocência, tão linda que nem tenho noção.
Aliás, tenho sim! É, a verdade é que não consigo deixar de admirar as pessoas que têm o mundo dividido em dois. Aquela lição dicotômica e católica de bem e mal. Aquela coisa dos filmes de vilões e mocinhos que eu vivo tentando instaurar na vida real com minha parca pretensão de que os finais sejam sempre felizes.
No entanto, que a vida não tem cura, o tempo me ensina, dia após dia. Preciso mesmo é relativizar mais. Profanar mais ainda. Achar lógica na postura insensata e não me culpar por ser tão maleável, mesmo sabendo que nem todo mundo vai ficar satisfeito com minhas atitudes.
Sempre me mostro pelas idealizações. Platonismos. Exercício de suposições doces, irreais - mas tão boas para se matar o tempo e, assim, ser colocado em altares de pura ilusão. Sempre preferi dizer de um mundo edulcorado enquanto o coração, amargo, conjura pragas e maldições.
A verdade é que, silenciosamente, fito as pessoas e os problemas e as tempestades e as intempéries com olhos de-não-estou-nem-aí. Porque ninguém é só inocência, integridade e candura.
Pergunto: continuamos bonitos apesar das cicatrizes e das obscuridades que fazemos quando ninguém está olhando?
Leviano, sinto como se a beleza escorresse por meus dedos em mistérios gozosos. Porque minhas mãos, na verdade, são ásperas, duras, insensíveis. Quase estéreis. A não ser quando embalam punhetas de pura sacanagem e induzem a luxúrias e devassidões difíceis de nomear.
Imagem: Wolney Fernandes
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Dias silenciosos
De repente há tanta coisa na minha cabeça e nenhuma palavra que dê conta. Elas se recusam. Elas fogem para um lugar onde não consigo alcançar, num esforço teimoso e completamente inédito de autopreservação.
Faço isso porque a sensação que tenho é de que tudo me afeta, tudo me atinge, tudo é uma pequena prévia do apocalipse. As coisas que me dizem, as coisas que não me dizem, as coisas que dizem, mas puxa vida! eu gostaria ter ouvido de outro jeito...
E assim, meus dias se tornam mais silenciosos do que o normal.
Imagem capturada em minhas navegações pela internet. Infelizmente sem os devidos créditos. Se alguém souber a autoria é só gritar!
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Prece pelos contornos de uma nuca
Nesta semana matei minha vontade de assistir "Asas do Desejo" do Wim Wenders no cinema. Na sala escura, enquanto o calor de uma mão me aquecia, repeti baixinho a seguinte prece:
"Às vezes me canso dessa existência espiritual. Não quero pairar para sempre. Quero sentir um certo peso que ponha fim à falta de limite e me prenda ao chão.
Eu gostaria de dizer 'agora' a cada passo, a cada rajada de vento. 'Agora' e não mais para sempre e eternamente.
Ter febre, dedos pretos por causa do jornal. Não vibrar apenas pelo espírito, mas por uma refeição, pelos contornos de uma nuca, de uma orelha.
Sentir os ossos se movendo enquanto caminho. Supor em vez de saber sempre.
Poder dizer 'ah!', 'oh!' em vez de 'sim' e 'amém!'. Poder me empolgar com o mal, atrair todos os demônios da terra e sair pelo mundo".
Trechos do filme "Asas do Desejo" (Der Himmel über Berlin, ALE, 1987)
Imagem capturada aqui.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Dezessete de maio de 2012 - Quinta
Seir eu conheci em 1994 quando começamos a trabalhar juntos na escola da minha cidade-natal.
Manoela eu conheci em 2006 quando ensaiava voltar para a faculdade no desejo de fazer mestrado.
De cara, Seir e eu, sonhadores com um cotidiano escolar repleto de experimentações, nos aproximamos para pensar projetos, organizar desfiles históricos culturais e planejar inúmeras festas do calendário escolar encenadas em palcos montados nas carrocerias de caminhão.
Em 2006, Manoela me ensinou a carimbar imagens com borrachas brancas tirando o princípio da gravura de dentro dos ateliês para colocá-lo na palma da minha mão. Quatro anos depois, em 2010, em uma aula inaugural do mestrado, percebemos o quanto nossos desejos poéticos eram parecidos. Das muitas coisas em comum, o fato de nascermos no mesmo dia, 17 de junho, nos motivou a combinarmos um café que só se tornaria realidade um ano mais tarde.
De 1994 a 1997, Seir e eu compartilhamos risos frouxos, escrevemos juntos e encenamos entrevistas, brigas de mãe e filho e dirigimos as produções escolares mais divertidas daquela época. Depois disso eu me mudei para Goiânia e Seir, algum tempo depois, mudou-se para a Irlanda.
No ano passado, Manoela e eu firmamos parceria em uma disciplina de Poéticas Urbanas, pensada e ministrada em conjunto, e inauguramos uma amizade que rendeu um coletivo de arte, orgulhosamente nomeado de DUPLICATA17. Tudo isso para oficializar desejos e criar opções coletivas de encontros ligados a experiência de convívio e troca de afetos. Agora, em 2012, Manoela está partindo para Londres.
Hoje, 17 de maio de 2012:
Seir voltou da Irlanda e, embora ainda não tenhamos nos encontrado pessoalmente, hoje pela manhã ela me ligou e conversamos como se o tempo não tivesse passado desde que nos vimos pela última vez.
À tarde, Manoela e eu nos encontramos, por acaso, naquele que certamente foi nosso encontro de despedida, já que ela parte em dois dias para as terras da rainha.
Pelos [re]encontros e despedidas, os cruzamentos misteriosos que a vida traça cartografam uma geografia de sentimentos que me atravessa e tatua afetos em meu peito. São marcas que aprofundam relações e que reforçam vínculos de amizade e sincronicidade. As vidas destas duas amigas estarão [e]ternamente trançadas à minha própria história e, é por estas idas e vindas, que sigo celebrando o agora, o antes e todos os dias dezessetes que estão por vir!
Imagem: Manoela e eu na Praça 17 (Recife/PE) diante do monumento que marcou a chegada de aviadores no Brasil no dia 17 de junho de 1922. Foto de Alexandre Strapasson
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Delícias da boca
A boca é um paraíso pouco sagrado por onde a maioria absoluta dos desejos humanos precisam passar em algum momento.
Escrevi a frase acima umas 15 vezes antes de lhe colocar um ponto final. No final dos pontos é sempre assim: escrevo, apago, refaço. Redigo, repenso, até conseguir me distrair dos dias atarefados e abarrotados de leituras, acidentes no trânsito e rotinas que sufocam. Escrevo sobre as delícias da boca para que elas me tirem das obrigatoriedades e me levem a tentar outra coisa: tv, sofá, punheta, piquenique ou download de músicas aleatórias.
Outro dia, percebi que o luxo dos nossos dias é ter tempo para olhar para o tempo. Feito criança de interior que se diverte contando vagalumes ou tentando advinhar a sequência de acendimento das lâmpadas que iluminam a pequena cidade onde vive.
Ainda bem que, apesar das correrias, sempre dá tempo de conjurar pedidos para não lamentar os amores que desfiz com os próprios dedos e não esquecer a inutilidade que é correr de sol-a-sol perseguindo os desejos dos outros.
Se tenho obrigações? Muitas. Mas até arrisco dizer que há tanta vida para se enfrentar por aí que bom mesmo é cultivar essa vontade de bocas profanas. Daquelas que plantam oxigênio nos mergulhos do dia a dia e deixam ardências e sabores nos lugares mais inusitados. Daquelas que nos ajudam a perceber os próprios desejos sem o desvio natural da vergonha e da civilidade.
Foto: Wolney Fernandes
terça-feira, 15 de maio de 2012
Passageiro do fim do dia*
Nota falsa
Peço um vale transporte com duas viagens e pago com uma nota de cinco reais. Minutos depois o vendedor me interpela com cara de bravo, estendendo a nota em minha direção, diz: "Essa nota é falsa. Essa não aceito, não!" Calmamente eu pego a nota de volta e finjo trocar por outra na carteira. Sem perceber que lhe devolvi a mesma nota de antes, ele dobra os cinco reais e guarda no bolso todo satisfeito.
Educação
O ônibus pára e uma mulher corre da esquina até a porta do veículo. Sem fôlego, mas muito educada pergunta ao motorista: "Será que eu posso entrar?"
Sobre garotas
No banco detrás, dois adolescentes com pouco mais de doze anos conversam sobre garotas. Um deles cita uma menina nova que o amigo não conhece ao passo que esse pergunta: "E ela é bonita?". O garoto pensa um pouco e responde: "Comestível".
A Torta
A mulher sobe com dificuldade os degraus e se esgueira entre as pessoas para chegar à catraca. Em uma das mãos, um embrulho parece lhe tirar o equilíbrio. Ao conseguir dar dois passos em direção a uma cadeira desocupada, o ônibus freia bruscamente e o embrulho vai ao chão revelando seu conteúdo: uma torta doce que se despedaça corredor afora.
A pé
Apressado, subo no ônibus e respiro aliviado por conseguir um lugar vago para a viagem. O veículo dá a volta na Praça Cívica e não entra na avenida que eu achei que ele fosse virar. Puto de raiva, desço no ponto seguinte e resolvo ir a pé para o trabalho.[*] Título emprestado do ótimo livro de Rubens Figueiredo
Imagem: recorte da capa do livro "Passageiro do Fim do Dia"
Românticos como antigamente
01. I'll Be Seeing You - Jimmy Durante
02. Back In The Crowd - Tom Waits
03. Autumn Leaves - Nat King Cole
04. A Song for You - Donny Hathaway
05. Não Precisa Chorar - Roberto Carlos
06. For Your Precious Love - Otis Redding
07. Strangers in The Night - Frank Sinatra
08. Peito Vazio - Cartola
09. For You - Johnny Cash
10. Ultimo Desejo - Wilson das Neves
Imagem capturada aqui.
sábado, 5 de maio de 2012
Agridoce
Percebo tantos defeitos ao olhar no espelho do outro - e tenho medo de faltar, de não ser bom o suficiente. De escancarar o coração e parar em lugares onde nada sei dizer, onde nada me faz sorrir [de novo!]. Mas no inquérito dos dias partilhados, as respostas são dadas pelas ações que ultrapassam a efemeridade das palavras. E isso me basta!
Tenho vontade de fazer planos, mas eles se diluem porque talvez eu queria mesmo é uma epifania, destas óbvias, brilhantes e simples. Mas apesar desse desejo, sei que a vida não é assim. Sei disso pelo afeto que me atravessa não apenas pelas vias do prazer, mas também pela racionalização dos movimentos cotidianos, suas sombras e por aquilo que não é dito.
Acredito numa espécie de fé: de que tudo irá se resolver. Mesmo sabendo que, às vezes, este caminho não seja de todo indolor. Tentam me convencer que vivo numa irrealidade otimista e que logo logo virá a vida cobrar o seu preço: desde as horas de estudo que estrategicamente negligencio enquanto vou ao cinema ou até percebendo que a consciência dos outros talvez seja muito mais estreita do que se prega.
Dizem que me iludo. Daí me questiono: será? O mundo é tão grande que não acredito que não exista um quinhão para eu ser feliz. Não exijo muito, acho. E se tudo der errado, sempre existe o fôlego pra recomeçar.
Tem dias que fecham assim, agridoces. No decorrer destes dias ando pé ante pé, silenciando a respiração e esperando que o que vem, o que será, aí sim, arrebentará em doçuras indizíveis.
Imagem capturada aqui.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Asas de Papelão
Estes dias pelos versos de Amália Rodrigues
Talvez que o anjo esquecido,
O anjo da poesia,
Se tenha de mim perdido
Sem reparar que o fazia...
Por isso me faltam asas
E me sobejam as penas
De um desejo inalcançado:
Que eu gostava de voar
Até ao anjo perdido
O anjo de mim esquecido,
Que por mim é tão lembrado.
Ai se eu tivesse voado
Aonde queria voar
Não estava agora a rimar
Versos de asas cortadas.
Voava junto de si
Assim fico aonde me vê
Mesmo pregadinha ao chão
Com asas de papelão
E sem entender porquê.
Texto: Trecho do poema de Amália Rodrigues
Imagem capturada aqui
terça-feira, 1 de maio de 2012
Eu, leitor
Eu aprendi a ler em uma cartilha azul com uma fada na capa. O título eu não lembro, mas sei dizer das volutas que moldavam cada cacho do cabelo da fadinha que eu desenhava exaustivamente.
Meu primeiro gibi era um do Chico Bento, de 1982, que eu mantenho até hoje com certo orgulho. A porta de entrada no mundo dos quadrinhos foi pela Turma da Mônica, mas transitei pelos clássicos Disney - de Tio Patinhas a Urtigão - passando por uma fascinação pelo Homem-Aranha e toda legião de heróis dos universos Marvel e DC.
Na escola, mergulhei na literatura pela Ciranda de Livros e sei de cor e salteado os títulos que lia e relia sem me cansar: O Menino Maluquinho do Ziraldo, Caçadas de Pedrinho de Monteiro Lobato e A Bolsa Amarela da Ligya Bojunga só para citar os que me atravessam até hoje.
As revistas de moda e fotonovelas da minha mãe ajudaram a cultivar meu amor pelos periódicos e meu sonho em trabalhar numa banca de revista para poder ler o dia inteiro.
Na adolescência conheci os livros de bolso da literatura pulp e devorei histórias de amor aos moldes dos romances açucarados do tipo Júlia, Sabrina e Bianca. Dos mistérios de Agatha Chistie eu nunca conseguia descobrir quem era o assassino, mas me deleitava em saber cada detalhe dos crimes ardilosamente calculados e tão bem descritos nos livros da autora.
Pelos livros da Ediouro [que podiam ser encomendados pelo correio] me aventurei nas histórias em que eu podia decidir o final e passeei por cavernas com Ali Babá! Quando entrei em uma biblioteca pela primeira vez, meu amor pela literatura nacional estava latente. Foi nessa época que me encantei por Machado de Assis, José de Alencar e tantos outros figurões da nossa história.
Ainda hoje, toda vez que entro em uma livraria, minha vontade é sair de lá com um livro que me rouba o olhar pela capa ou que me seduz pelas linhas das sinopses tão bem escritas em orelhas cada vez mais sofisticadas. Assim, a pilha de livros vai aumentando, naquele movimento lento que, sem pressa ou hora para terminar, vai desfiando leituras de todo dia... de dia inteiro.
Foto: Wolney Fernandes
Ainda hoje, toda vez que entro em uma livraria, minha vontade é sair de lá com um livro que me rouba o olhar pela capa ou que me seduz pelas linhas das sinopses tão bem escritas em orelhas cada vez mais sofisticadas. Assim, a pilha de livros vai aumentando, naquele movimento lento que, sem pressa ou hora para terminar, vai desfiando leituras de todo dia... de dia inteiro.
Foto: Wolney Fernandes
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Outro jeito de ser feliz
Minha felicidade anda assim, sem muitos subterfúgios ou atalhos. Pela primeira vez, ela vem num envelope fácil, sem babados e descaminhos. Ela existe em olhos tão doces e permanece em sorrisos estratégicos, daqueles que desabrocham quando o telefone toca ou quando o braço enlaça o corpo no meio da noite.
Minha felicidade anda de um outro jeito. Sem perceber caminha com certa leveza. Entre encantos e estranhamentos, ela se mostra quase por instinto entre rugas estratégicas e um jeitinho meio cafajeste, meio sexy de superar as coisas com desejo, música, cinema e maturidade.
Dá vontade de fazer planos porque os dias seguem numa sucessão de [re]descobrimentos. Porque não há nada mais lindo do que felicidade misturada ao cotidiano, que desliza, entre altos e baixos, sem sobressaltos... a mostrar um jeito bom de caminhar.
Imagem capturada aqui.
quarta-feira, 25 de abril de 2012
Sempre alerta?
Enquanto as nuvens de chuva encobriam o último pedaço de céu azul, meninos e meninas se organizavam segundo a orientação do guia. O espaço do parque, tão vasto de possibilidades exploratórias, era demarcado em funções relacionadas a hierarquia daquele grupo de escoteiros.
Lobinhos, guias, pais e responsáveis eram orientados com rigor sobre o local do lanche e a posição que deveriam ocupar no grupo. Em torno da bandeira, o respeito em forma de postura deveria ficar evidente enquanto dois dos escoteiros hasteavam a flâmula que fôra instalada provisoriamente em uma árvore do parque.
A cena parecia deslocada em tempo e espaço porque aquela dinâmica de caráter tão institucional não deixava brechas para as deambulações e seus improvisos.
Os atrasadinhos, por terem burlado a precisão dos ponteiros, eram renegados ao final da equipe. Ofegantes, logo eram incorporados ao silêncio sistemático daquela cerimônia de sábado à tarde. Só o escoteiro sênior tinha o poder da fala.
Solenemente, aquele espaço de interação era transformado em espaço de patentes e filas demarcadas. Os pais exibiam, com orgulho, os filhos obedientes, alinhados e alinhavados por aquele poder cartesiano, um tanto quanto efêmero, de moldar a pessoa para ser boa o tempo inteiro.
Discursos bradados com veemência pareciam querer demarcar o amor pelo escotismo e se prolongariam tarde afora, imagino eu, não fosse a chuva que começou a cair naquele instante.
Não houve fila indiana e nem patentes que suportassem a imprecisão do temporal. "O salve-se quem e o que puder" diante da dinâmica da chuva, deixou à mostra toda a falácia daquele discurso desprovido de vivência. A bandeira, tão amada e respeitada, foi abandonada sem o menor constrangimento. Sozinha no meio do temporal, depois da debandada geral, parecia sinalizar a fragilidade daquele modelo de educação que não dá conta das intempéries e nem da complexidade do nosso tempo.
terça-feira, 17 de abril de 2012
Dezessete de abril de 2012 - Terça
"Há algo em mim que não desaprende esse caminho.
Que segue, quando, aparentemente, eu paro. Que continua a luzir, mesmo quando eu tropeço nas minhas sombras.
Além dos meus tempos de muda. Algo que me mostra uma paz intensa e verdadeira.
Que não me deixa esquecer que continuo a ter asas, mesmo quando eu não voo..."
[Ana Jácomo]
Terminei de reproduzir o poema aqui e esta canção perfumou minha manhã. E o dia segue assim, corrido como de costume, mas misturado a desejos, imagens, poemas e canções.
Imagem: cena do filme "Asas do Desejo"
Paisagens
Brigas
Cansaço
No sinal vermelho, uma mulher corre entre os carros deixando um saquinho com 7 balinhas onde se lê: "Ajude uma mãe de família. R$ 1,00". Procuro por moedas antes do sinal abrir. Ela vem em minha direção no último segundo antes do carro detrás começar a buzinar e consegue pegar o dinheiro de minhas mãos. Pelo retrovisor vejo a mulher se encostar na palmeira do canteiro central, arfante... quase sem fôlego.
Lei Seca
Do outro lado do lago eu vejo a moto visitar cada grupo que está fazendo piquenique no parque. Não demora muito até o segurança chegar onde estamos para avisar: "Há uma lei que proíbe o uso de bebida com qualquer teor alcóolico aqui no parque. Então, por favor, escondam a garrafa para que não sejam abordados."
Desfile
A mulher vai na frente tentando ajeitar a saia que lhe sobe às coxas. Os joelhos arqueados e as pernas separadas mostra sua inaptidão em se equilibrar no salto que lhe aperta os pés. Atrás dela, a menina segue em um ritmo mais lento porque carrega uma caixa e uma sacola. O cabelo despenteado esconde um olhar triste que parece encontrar no chão o rumo para seus passos curtos.
Nada é por acaso
Peço gasolina e o frentista, distraído, enche o tanque com álcool. Sem acreditar que aquele engano vai me atrasar 45 minutos demonstro minha indignação e impaciência enquanto um outro funcionário organiza os preparativos para que o mal feito seja desfeito. Percebendo meu estado de irritação latente, pacientemente, ele explica: "Ser escravo do tempo pode ter um preço muito alto. Na vida, nada é por acaso".
Imagem capturada aqui.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Abril Despedaçado - A possibilidade de ver maio chegar
"A mãe costuma dizer que Deus não manda um fardo maior do que a gente costuma carregar. Conversa fiada! Às 'veiz' ele manda um peso tão grande que ninguém 'guenta'!"
No seio daquela família não se pode observar qualquer esperança, pois a vida é regida pela relação com a morte. O engenho, única fonte de sustento, marca o giro repetitivo daquela condição. Um relógio que contabiliza o tempo que parece não passar, os bois que giram e jamais saem do lugar demarcam um movimento onde as palavras e a visão são limitadas.
No entanto, à medida que a história avança, percebemos que a roda de bois começa a mostrar sinais de fadiga e desgaste. O menino aponta e Tonho, angustiado pela perspectiva da morte, passa então a questionar a lógica da violência e da tradição.
"Nessa história de olho por olho, todo mundo ficou cego!"
Esse questionamento ganha força com a chegada de Clara e Salustiano, dois saltimbancos que enxergam além do sépia e do horizonte conhecido por Tonho e Pacu. No chão árido, a jovem do circo anda leve de pernas de pau e mostra um pedaço do céu, de mar, de amor e alegria aos dois. Ao ganhar um livro da moça, o menino imagina a história de uma sereia e, de tão absorto, esquece de levar a cana para moer - seus sonhos o deixam afastado de alimentar a engrenagem que move toda aquela organização familiar e social.
A possiblidade de ver maio chegar é dada pelo olhar que vem de fora e que prenuncia a ruptura de um ciclo, subvertendo toda uma ordem. Depois de assistir ao filme pela quinta vez, saio com a certeza de que na vida real é preciso estar atento às oportunidades de renovação, de liberdade de escolha, de encontro com o mar aberto e todo um oceano de possíbilidades. Que este seja o efeito de beleza que me liberte de eixos aprisionantes, que me faça sair do lugar comum e me incite a cultivar verdades apaixonadas.
Imagens capturadas aqui.
domingo, 8 de abril de 2012
Profissão de Fé
As lições de catecismo eu subverto em minutos de sabedoria, de riso e ironia. Os santos viraram estampas de camiseta e para suas histórias eu invento finais profanos. Prefiro a devassidão soturna dos quartos paroquiais às falas de púlpitos e presbitérios. Meu hino de louvor é entoado fora dos templos para cada pedacinho de céu que a realidade, mesmo dura, deixa entrever.
Creio que alegria não seja pecado e que a infelicidade de hoje não garante recompensas futuras. Não quero saber de paraíso se, para adentrá-lo, não puder ser quem eu sou. Ainda tenho medo da morte porque acredito que morrer é retornar ao que eu era antes de nascer: nada.
No entanto, acredito que esse nada que eu tanto temo se conecta ao infinito e a vastidão desse universo cheio de mistérios e estrelas. Pensando bem, ainda tenho medo da morte porque, na verdade, eu nunca sonhei ser astronauta.
sábado, 7 de abril de 2012
Arejamentos
Pelo caminho, tropeço numa vontade de arejamento que estava esquecida feito sapato perdido. Devia ter acendido a luz, mas tenho essa mania de andar às escuras pelos lugares. Tiro uma teia de aranha da fresta que prenuncia claridades, desejando que a aranha já tenha encontrado outro canto, outra morada. Olho pela janela enquanto tento adivinhar quem terá regado as flores de "amor perfeito" no período de ausência.
Ouço alguém bater delicadamente: toc.. toc...
Sorrindo, atravesso minhas ausências para abrir a porta do meu próprio coração.
Imagem capturada aqui.
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Revelações
A fotografia é a imagem em busca de eternidade. Talvez por isso, fotografar a própria vida em ação nos permita infinitas revelações.
Foto: Wolney Fernandes
Seres Incompletos
Reencontro, aqui e ali, pessoas do meu passado [como se meu passado fosse um lugar] que me atribuem frases e gestos de que não me recordo, embora acredite ter sido o seu autor. Vencido um certo desconforto - parece que falamos de uma terceira pessoa, ausente - sobra uma sensação de quase culpa por não ter guardado essas memórias devidamente, a que se junta a súbita consciência de que a memória não nos pertence.
O nosso passado assemelha-se a uma civilização perdida, da qual se encontram espalhados pelo mundo vestígios arqueológicos que nos transformam para sempre em seres incompletos.
Imgem capturada aqui.
terça-feira, 3 de abril de 2012
Guia
Daquilo que só o prazer pode dar conta em 15 passeios por Goiânia.
01. Comer empada na barraca do "seu" Alberto no Mercado Central.
02. Escutar o coral de domingo da Igreja Batista no centro.
03. Apreciar a vista da cidade do Campus Samambaia da UFG.
04. Visitar os sebos da Rua 04 à procura de livros antigos (se possível, com dedicatória).
05. Tomar vinho, à noite, em um dos parques da cidade.
06. Assistir um filme qualquer no Cine Ritz.
07. Madrugar comendo delícias em uma padaria 24h.
08. Desenhar o movimento das pessoas no Bosque dos Buritis.
09. Mapear casinhas charmosas e antigas que ainda resistem à especulação imobiliária.
11. Tomar café fora de casa e caminhar pelas ruas do centro no sábado pela manhã.
12. Passar a tarde em livrarias no shopping.
13. Participar do ensaio dos grupos de percursão na Praça Universitária.
14. Comer na "Esfiha Quente" da rua 04 no centro e lembrar que não há outra igual na cidade.
15. Sentar em um dos bares do Morro do Além só pra ver a cidade e suas luzes noturnas.
Foto: Wolney Fernandes
domingo, 1 de abril de 2012
[des]arrumações
A vida bem poderia ser mais simples. Seria possível deixar essa eterna inquietação das madrugadas e inaugurar de repente uma vida de acordar bem cedo?
Para instaurar uma vida mais simples e sábia, então seria preciso desenhá-la de outro jeito, não assim, nesse rabisco de pequenas pilhas de palavras, esse oficio absurdo e vão de dizer coisas. Talvez aprender, com ações, a cumprir os versos de Adélia Prado:
"Tudo que não fala, faz"
"Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é."
Fazer da mudança algo de sólido e singelo. Remover a barragem do rio e deixar a água correr, serena e mansa. Penso nisso, tirando um lápis do bolso para tomar nota. E paro apenas um instante... Para que tomar nota?
Não precisamos tomar nota de nada, precisamos apenas viver - sem notas, nem pressa, mas doces, distraídos, bons... como os pássaros, as mangueiras e o ribeirão.
sábado, 31 de março de 2012
Depois das 23h
Tenho poucas fichas, mas aposto todas até onde a sua boca me levar... porque depois das 23h, há um cantinho da sua língua que me faz acreditar no mundo.
Imagem capturada aqui.
Abordagens Acadêmicas - A Mona Lisa do Diabo
Em 2002, por ocasião da minha graduação, havia uma matéria chamada “Aspectos sócio-culturais da imagem”. Um dos exercícios propostos pelo professor, na época, foi fazer uma análise semiótica do filme "O Advogado do Diabo".
Das tantas cenas do filme, uma em especial, conseguiu levantar uma discussão acalorada na turma. Nela, a mocinha aparecia nua de braços abertos e, dentro do contexto daquela narrativa, parecia referenciar a tradicional "pose" de Cristo na cruz.
Depois de várias conjecturas e referências a pensadores do naipe de Saussure, Pierce e outros tantos, alguém sugeriu que seria interessante chamar para a roda, uma pessoa que não estivesse a par da discussão que estava rolando para contribuir com a análise.
O guarda da Faculdade Artes Visuais foi eleito e convidado para fazer uma "leitura" da cena estudada e, indagado sobre o que ele via na imagem, colocou a mão no queixo e matutou durante vários minutos sem dizer uma palavra.
Acuado por uma sala inteira de alunos do curso de artes que o observava atentamente, depois de muito pensar, arriscou:
- "É a Mona Lisa?"
Abordagens acadêmicas - O balde de caju
O balde que ela trazia na mão estava cheio de cajus do cerrado, a roupa toda colorida não lhe escondia a magreza e o cabelo, preso, era ornamentado por fios brancos. Foi assim que aquela senhora entrou no restaurante e, de súbito, foi abordada por uma jovem estudante de prancheta na mão e caneta em punho:
- Eu sou estudante da universidade, estou fazendo uma pesquisa aqui em Pirenópolis e queria saber se eu posso lhe fazer algumas perguntas para a minha pesquisa.
O olhar daquela senhora se empertigou diante da afobação da moça e de uma talagada só, respondeu:
- Posso não! Tenho que vender "meus" caju.
Na mesa ao lado, eu observava a cena com um tanto de curiosidade. Ainda com o riso escapando pelos meus lábios, ao ver a senhora dar as costas para a estudante, aproveitei para perguntar:
- Dona, quanto é o caju?
De cara, consegui que o interesse daquela senhora se voltasse pra mim. Dito o preço, comprei um litro da fruta e a conversa se desenrolou sem muito esforço sobre os cajueiros que ela cultivava no quintal da própria casa e outras particularidades que talvez seriam o conteúdo almejado para dar conta do questionário que a jovem estudante de prancheta na mão carregava.
Foto: Wolney Fernandes
- Eu sou estudante da universidade, estou fazendo uma pesquisa aqui em Pirenópolis e queria saber se eu posso lhe fazer algumas perguntas para a minha pesquisa.
O olhar daquela senhora se empertigou diante da afobação da moça e de uma talagada só, respondeu:
- Posso não! Tenho que vender "meus" caju.
Na mesa ao lado, eu observava a cena com um tanto de curiosidade. Ainda com o riso escapando pelos meus lábios, ao ver a senhora dar as costas para a estudante, aproveitei para perguntar:
- Dona, quanto é o caju?
De cara, consegui que o interesse daquela senhora se voltasse pra mim. Dito o preço, comprei um litro da fruta e a conversa se desenrolou sem muito esforço sobre os cajueiros que ela cultivava no quintal da própria casa e outras particularidades que talvez seriam o conteúdo almejado para dar conta do questionário que a jovem estudante de prancheta na mão carregava.
Foto: Wolney Fernandes
sexta-feira, 30 de março de 2012
Pequenas Ternuras
"Quem não se envergonha da beleza do pôr-do-sol ou da perfeição de uma concha; quem se desata em riso à visão de uma cascata; quem não se fecha à flor que se abriu de manhã; quem se impressiona com as águas nascentes, com os transatlânticos que passam, com os olhos de animais ferozes; quem se perturba com o crepúsculo; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem se sente leve perto da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga perceber o "pensamento" do boi e do cavalo; todos eles são presidiários da ternura e, mesmo aparentemente livres como os outros, andarão por toda parte acorrentados, atados aos pequenos amores da grande armadilha terrestre."
[Paulo Mendes Campos]
Imagem: Wolney Fernandes
sexta-feira, 23 de março de 2012
Meio Amores
Imagem de Mark Rothko. Olhei aqui.
quarta-feira, 21 de março de 2012
No Final das Contas
"Thaise, te escrevo esta carta cheio de emoção porque não posso viver sem você mais. Minha vida acabou depois que te conheci no Goianão. Vou aí só para matar a saudade de você. Sei que não posso fazer isso porque sou casado, tenho três filhas: duas minhas e uma outra que peguei para criar porque meu cunhado morreu. Sei que não vai me dar uma chance, mas fique sabendo que te amo e não vou te esquecer.
Te amo demais e não durmo à noite só pensando em você.
Beijos e abraços de um homem apaixonado.
Até um dia!"
Texto encontrado em um pedaço de papelão jogado pelas ruas da cidade.
Assinar:
Postagens (Atom)
















