sábado, 30 de junho de 2012

Quando a poesia é corte em carne viva*


"Que dor, se sabe dor, e não se extingue?"
[Drummond]

Aprendi que para tirar a dor daqui de dentro é preciso deixar que ela se transmute em variações cotidianas, sem ópio nem analgésicos. Não quero virar o rosto enquanto a ferida, ainda aberta, expele secreções pungentes.

Para me ajudar a calcular o peso da dor e ter ânimo para caminhar com ela - até que ela fique para trás - misturarei imagens minhas à poesia de Drummond em registros de todo dia e de noites inteiras.

(*) Título da Postagem: Agno Flávio
Imagem: Wolney Fernandes

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O que se constitui na ausência


A última vez foi precedida de uma tarde inteira trocando delícias no parque. Na despedida, as mãos cheias de perfume eram incapazes de prever o último toque. 

Então acordo, e de novo, meu coração foi partido com vagar e silêncio. Por aqui, sigo aos tropeços entre tentativas frustradas, nostalgias dolorosas e um bocado de boas intenções sem porto para escoar. Não há rotina, não há nada. Há vazios, pausas, silêncios. Uma dúzia de planos que agora ficam sem onde ir. Uma caixa sem ter onde colocar.

Sentindo essa espécie de entorpecimento, ainda não sei o que construirei das ausências, dos espaços que, abruptamente, foram colocados. E talvez eu não saiba nada disso porque estou cansado de sempre acabar num relicário dos amores inconclusos. Cansado de escrever as cartas mais belas para não ter para quem enviá-las pelo correio.

Estou cansando da minha falta de percepção, da minha falta de timing, de desenhar cinematografias para nada acontecer. Cansado de caminhar junto para tudo terminar tão melancolicamente em telefonemas perdidos, pesares descritos em mensagens de três linhas e qualquer outro tipo de banalidade cotidiana.

Eu sei que meu coração sempre bate mais forte pelas coisas desimportantes: o riso frouxo diante de um desejo escancarado, a saudade impressa em olhar sonolento, o jeito de pronunciar a palavra "também"sem a letra "b"... Gosto mesmo é das miudezas. É que esse cansaço, que muitos chamam de realidade, está desconstruindo lentamente, uma a uma, minhas esperanças e minha capacidade de reter coisa alguma por entre os dedos.

Por hora, há uma dor que torna mais difícil esquecer todo mar que poderia se abrir. Por hora, só uma ideia fixa me acompanha: preciso de esquecimentos para lembrar da minha imensa capacidade de cicatrização, pois se o tempo não tem fim, só ele é o fim.

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Onde vivem os monstros


A verdade é um duelo de percepções. As pessoas só enxergam o que podem enfrentar. Não importa o que você vê, mas sim o que você enxerga.

Quando diferentes percepções duelam entre si, a verdade tem um jeito de se perder e os monstros encontram um jeito de sair.

Sigo assim.

Imagem do filme "Onde vivem os monstros" [Where The Wild Things Are, EUA, 2009]

quarta-feira, 27 de junho de 2012

O tempo não tem fim


01. Tic tac do meu coração - Nara Leão
02. 1901 - Birdy
03. Friday Night - Lily Allen
04. 130 anos - Pitty
05. 1973 - James Blunt
06. 100 years - Nancy Sinatra
07. Sunday Smile - Beirut
08. Monday Morning 5.19 - Rialto
09. Your Winter - Sister Razel
10. 31 Days - Zee Avi
11. Spending my Time - Roxette
12. End of Time - Beyoncé

Imagem de uma das instalações da exposição "A volta ao dia em 80 mundos".

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Manuseie com cuidado!


Avisos de posse e uso:

1. A posse desse caderno, de todos os desenhos, sentimentos e poéticas contidos no mesmo pertencem a Wolney Fernandes.

2. A reprodução física ou digital ou sorridente do conteúdo deste caderno é de direito daquele que detém a posse do mesmo.

3. À partir do momento em que a tinta, os cheiros, o suor e o café secaram no papel, os desenhos aqui contidos deixaram de pertencer à sua criadora.

4. O caderno deverá ser acompanhado pelos seguintes itens:
     - Um peixe de celofane com instruções de como dar vida ao mesmo.
     - Uma lixa para sentir a asperidade das quintas-feiras e dos domingos à tarde.
     - Um pedaço de azul da minha segunda-feira.
     - Um pedaço de fio encerado para amarrar os problemas da vida.
     - Um timão para a navegação dos sonhos.
     - Uma concha para lembrar do fragmento de mar que há em todos nós.
     - Um botão para a casa solitária da camisa.
     - Uma ficha telefônica para o caso de voltar ao tempo das ligações de orelhão e precisar ligar para alguém.
     - Um peixe-pássaro para nadar até a lua.
     - Grãos de café do quintal da minha avó.
 .................................................................

Ana eu conheci na aula de desenho. Sua vontade de desenhar o mundo e rabiscar a vida era tão grande que me contagiava. Ana era aluna, eu, professor. Ana confiou a mim sua história que é uma das mais lindas que eu já ouvi. Por ela, eu sei que é possível um amor que se constrói por encontros e delicadezas, destes que cartografam geografias afetivas em realidades possíveis. Este mês, Ana me presenteou com um caderninho recheado de afetos e carinhos que ventilaram belezas guardadas no coração. Ana é amiga, eu, seu eterno admirador!

Foto: Wolney Fernandes

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Cartografia de afetos



20 de junho de 1912
No céu, estrelas bordavam constelações geminianas. Na casa de "Seu" Antônio e Dona Joana, nascia Jorge.

17 de junho de 1974
62 anos depois, Jorge se tornou meu avô.

20 de junho de 2012
Sob um céu azul desprovido de nuvens, à sombra do pé de Tarumã, celebrei os 100 anos daquele nascimento respigando sussurros, memórias e saudades de um avô que eu nunca cheguei a conhecer.

Imagem: Wolney Fernandes

domingo, 17 de junho de 2012

Dezessete de junho de 2012 - Domingo


"Por que as pessoas precisam morrer?"

Nunca obtive resposta satisfatória para esta pergunta. Apesar disso, ela sempre me assola por ocasião do meu aniversário e, à medida que o tempo passa, transito entre a inquietude e a indiferença debochada ao tentar respondê-la. É irônico imaginar que nossa única certeza é também nossa maior dúvida.

Curioso falar de morte quando se celebra a vida, mas dentro de tantas lembranças de coisas que não voltam mais, fica essa estranheza e um certo medo [confesso!] daquilo que virá a ser indubitavelmente.

Hoje, 17 de junho de 2012, obtive uma resposta ao assistir o último episódio da série "A Sete Palmos" [Six Feet Under, 2001-2005]. Ao confrontar a morte diariamente, a família Fisher reposiciona seus dramas de vida para além da constatação do fim e, sem recadinhos ou adjetivos de superação, me ajuda a elaborar possibilidades para compreender questões existenciais, tão típicas desse tempo.

"Você só tem uma vida. Não há Deus, regras, nem julgamentos a não ser aqueles que você aceita ou cria. E quando acaba está acabado. Um sono sem sonhos por toda eternidade. Porque não ser feliz enquanto se está aqui?"

Por que não?

Já que se aproximar da morte é um processo irreversível, melhor mesmo é encará-la todo dia, sem adiamentos. Talvez seja esse o signo do finais: a morte, quando sentada na cadeira ao lado pode até roubar da gente os sossegos, mas também coloca em nosso colo o agora, o urgente e o arbitrário.

Quanto a mim, vou indo até bem. Me pego no exemplo das paineiras, imensas e imponentes, que nessa época estão todas nuas arrebentando em flores rosas. Vou mastigando meus medos, criando coragem para outras movimentações, costurando novas possibilidades de resposta para, quem sabe, finalmente botar a vida no tempo presente.

Por que as pessoas precisam morrer?
Simples! Para fazer a vida ser importante.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Vida de Margarina


Em sonhos de margarina eu acordaria cedinho sem a cara amassada e sem remela nos olhos. Antes das sete já teria tomado um café da manhã com mais variedades que o da Ana Maria Braga. Saberia onde está o passaporte e o carnê de IPTU do meu apartamento que, muito bem localizado, receberia a luz da manhã difusa e serena. Ouviria árias de óperas famosas durante a preparação do jantar regado a carnes brancas com queijo de cabra e salada para manter meu peitoral largo e durinho, fruto de uma genética que teria me agraciado também com cabelos sedosos, insistentemente caídos sobre meus olhos de linha de horizonte.

Eu leria todos clássicos da literatura e teria livros de arte displicentemente arranjados na mesinha da sala. Minhas cuecas seriam brancas e trariam escrito Calvin Klein em letras finas e cores esmaecidas. Meu trajeto para o trabalho seria feito sem xingamentos no trânsito e circularia por vernissages com espumantes na mão para ajudar meus dentes brancos a reluzirem aquele sorriso que deixaria todos a meus pés.

Eu teria 2.458 seguidores no Instagram que, além de elogiar minhas lindas fotos, também me paquerariam toda semana com comentários dúbios e cheios de segundas e terceiras intenções. Meus encontros seriam sempre nos melhores restaurantes regados a vinhos de safras raras. As noites começariam em boates da moda e terminariam envolvidas por edredons claros e macios onde nenhuma mentira seria contada.

Em vida de margarina eu não precisaria suportar nada que sulcasse meu coração. Mais do que nunca, eu cantaria para aceitar o fato das dificuldades que me seriam impostas. De uma forma irracional eu sempre acreditaria que algo de bom me esperaria na esquina da frente. Talvez a Mega Sena, talvez o amor avant-garde soprando mansinho nos ouvidos, talvez aquela epifania que faria todas as raivas e tristezas desaparecerem em um click apenas.

Imagem capturada aqui.

sábado, 2 de junho de 2012

Outras ternuras


Fevereiro ficou lá atrás e junho se achega sem nenhum pudor. De lagartixar no parque, de enfrentar a madrugada nebulosa para matar saudades, de trocar videoemotions impregnados de leveza, de fazer incêndios incontroláveis entre quatro paredes, de desmaiar de sono diante do outro, de saber-se diferente quando em tudo se assemelha.

Desfaço-me, assim, em outras mil ternuras. Fico aqui mastigando o perfume que deveria existir na ausência. Noite cai e penso que deveria estar com você por entre os dedos. Exasperação de querer o amanhã já logo para afagar, para saber sobre o dia e descobrir geografias íntimas na ponta dos dedos. Desabar sem nenhum pudor e dormir no silêncio do sono compartilhado.

P.S.: Há muito não era assim. E que bom que assim está sendo.

Imagem: Wolney Fernandes

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Maratona Sentimental

Nina Simone pertence. Essa frase é assim mesmo, com o verbo pedindo complemento, mas seu sentido já está completo. Nina reinventa uma música de pertencimento. Quando sinto as palavras reverberadas na sua voz saio de qualquer vazio e passo a pertencer, ainda que não saiba direito a quem ou ao quê. Atravessar "Wild is the wind" de mãos dadas com Nina é uma espécie de maratona sentimental. Díficil chegar a linha de chegada porque selvagem é o vento e talvez seja a ele que pertencemos.

Pequenas realizações


Abandonei minha ambiciosa lista de ano novo para abraçar pequenas listas mensais: terminar de ver a série "A Sete Palmos", não abandonar a academia, fazer mais piqueniques no parque, ler menos notícias e mais Manoel de Barros, aprender as 117 funções extras que o celular oferece, não deixar e-mails acumulados na caixa de entrada, organizar a coleção de DVDs... foram alguns dos desafios do mês de Maio.

A satisfação é quase imediata, pois quando chega o dia 30 e vejo que cumpri apenas três dos itens listados já me sinto um homem feliz.

Tudo bem que isso não vai mudar a crise na Europa e nem vai ajudar a acabar com a corrupção no país, mas arrisco dizer que esse movimento de mudança torna possível uma vida mais tranquila, recheada de realizações... destas pequenas, mas reais, que cabem até em textos com três parágrafos.

Foto: Wolney Fernandes

domingo, 27 de maio de 2012

Segunda Tese


Eu insisto na segunda tese. Repare: uma mensagem assim não pode ser conjugada no passado.

Foto: Wolney Fernandes

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Mistérios Gozosos


A seleção que faço dos pensamentos vagos para postar aqui no blog pode até parecer toda a composição do meu horizonte pessoal, mas felizmente não é. Eu próprio, perante minhas escolhas, por vezes, ao escrever, me faço autor de uma escrita bonitinha, varrendo as farpas daquilo que me faz um cara normal para debaixo do tapete. Tudo como um filminho, todo "inho", tipo apresentação brega em Power Point.

Outro dia escrevi "punheta" em meio a palavras sobre as delícias da boca, e uma boa parte dos/as leitores/as conhecidos se empertigaram dizendo do estranhamento de ver expressão dessa natureza por aqui. Por minha culpa [minha tão grande culpa] mostro sensatez ao invés de confusão, sobriedade em vez de porraloquice, calmaria mesmo quando o peito parece um vulcão. Equilibrista em corda bamba, tudo suporto numa falsa inocência, tão linda que nem tenho noção.

Aliás, tenho sim! É, a verdade é que não consigo deixar de admirar as pessoas que têm o mundo dividido em dois. Aquela lição dicotômica e católica de bem e mal. Aquela coisa dos filmes de vilões e mocinhos que eu vivo tentando instaurar na vida real com minha parca pretensão de que os finais sejam sempre felizes.

No entanto, que a vida não tem cura, o tempo me ensina, dia após dia. Preciso mesmo é relativizar mais. Profanar mais ainda. Achar lógica na postura insensata e não me culpar por ser tão maleável, mesmo sabendo que nem todo mundo vai ficar satisfeito com minhas atitudes.

Sempre me mostro pelas idealizações. Platonismos. Exercício de suposições doces, irreais - mas tão boas para se matar o tempo e, assim, ser colocado em altares de pura ilusão. Sempre preferi dizer de um mundo edulcorado enquanto o coração, amargo, conjura pragas e maldições.

A verdade é que, silenciosamente, fito as pessoas e os problemas e as tempestades e as intempéries com olhos de-não-estou-nem-aí. Porque ninguém é só inocência, integridade e candura.

Pergunto: continuamos bonitos apesar das cicatrizes e das obscuridades que fazemos quando ninguém está olhando?

Leviano, sinto como se a beleza escorresse por meus dedos em mistérios gozosos. Porque minhas mãos, na verdade, são ásperas, duras, insensíveis. Quase estéreis. A não ser quando embalam punhetas de pura sacanagem e induzem a luxúrias e devassidões difíceis de nomear.

Imagem: Wolney Fernandes

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Dias silenciosos


De repente há tanta coisa na minha cabeça e nenhuma palavra que dê conta. Elas se recusam. Elas fogem para um lugar onde não consigo alcançar, num esforço teimoso e completamente inédito de autopreservação.

Faço isso porque a sensação que tenho é de que tudo me afeta, tudo me atinge, tudo é uma pequena prévia do apocalipse. As coisas que me dizem, as coisas que não me dizem, as coisas que dizem, mas puxa vida! eu gostaria ter ouvido de outro jeito...

E assim, meus dias se tornam mais silenciosos do que o normal.


Imagem capturada em minhas navegações pela internet. Infelizmente sem os devidos créditos. Se alguém souber a autoria é só gritar!

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Prece pelos contornos de uma nuca


Nesta semana matei minha vontade de assistir "Asas do Desejo" do Wim Wenders no cinema. Na sala escura, enquanto o calor de uma mão me aquecia, repeti baixinho a seguinte prece:

"Às vezes me canso dessa existência espiritual. Não quero pairar para sempre. Quero sentir um certo peso que ponha fim à falta de limite e me prenda ao chão.

Eu gostaria de dizer 'agora' a cada passo, a cada rajada de vento. 'Agora' e não mais para sempre e eternamente.

Ter febre, dedos pretos por causa do jornal. Não vibrar apenas pelo espírito, mas por uma refeição, pelos contornos de uma nuca, de uma orelha.

Sentir os ossos se movendo enquanto caminho. Supor em vez de saber sempre.

Poder dizer 'ah!', 'oh!' em vez de 'sim' e 'amém!'. Poder me empolgar com o mal, atrair todos os demônios da terra e sair pelo mundo".

Trechos do filme "Asas do Desejo" (Der Himmel über Berlin, ALE, 1987)
Imagem capturada aqui.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Dezessete de maio de 2012 - Quinta


Seir eu conheci em 1994 quando começamos a trabalhar juntos na escola da minha cidade-natal.

Manoela eu conheci em 2006 quando ensaiava voltar para a faculdade no desejo de fazer mestrado.

De cara, Seir e eu, sonhadores com um cotidiano escolar repleto de experimentações, nos aproximamos para pensar projetos, organizar desfiles históricos culturais e planejar inúmeras festas do calendário escolar encenadas em palcos montados nas carrocerias de caminhão.

Em 2006, Manoela me ensinou a carimbar imagens com borrachas brancas tirando o princípio da gravura de dentro dos ateliês para colocá-lo na palma da minha mão. Quatro anos depois, em 2010, em uma aula inaugural do mestrado, percebemos o quanto nossos desejos poéticos eram parecidos. Das muitas coisas em comum, o fato de nascermos no mesmo dia, 17 de junho, nos motivou a combinarmos um café que só se tornaria realidade um ano mais tarde.

De 1994 a 1997, Seir e eu compartilhamos risos frouxos, escrevemos juntos e encenamos entrevistas, brigas de mãe e filho e dirigimos as produções escolares mais divertidas daquela época. Depois disso eu me mudei para Goiânia e Seir, algum tempo depois, mudou-se para a Irlanda.

No ano passado, Manoela e eu firmamos parceria em uma disciplina de Poéticas Urbanas, pensada e ministrada em conjunto, e inauguramos uma amizade que rendeu um coletivo de arte, orgulhosamente nomeado de DUPLICATA17. Tudo isso para oficializar desejos e criar opções coletivas de encontros ligados a experiência de convívio e troca de afetos. Agora, em 2012, Manoela está partindo para Londres.

Hoje, 17 de maio de 2012:

Seir voltou da Irlanda e, embora ainda não tenhamos nos encontrado pessoalmente, hoje pela manhã ela me ligou e conversamos como se o tempo não tivesse passado desde que nos vimos pela última vez.

À tarde, Manoela e eu nos encontramos, por acaso, naquele que certamente foi nosso encontro de despedida, já que ela parte em dois dias para as terras da rainha.

Pelos [re]encontros e despedidas, os cruzamentos misteriosos que a vida traça cartografam uma geografia de sentimentos que me atravessa e tatua afetos em meu peito. São marcas que aprofundam relações e que reforçam vínculos de amizade e sincronicidade. As vidas destas duas amigas estarão [e]ternamente trançadas à minha própria história e, é por estas idas e vindas, que sigo celebrando o agora, o antes e todos os dias dezessetes que estão por vir!

Imagem: Manoela e eu na Praça 17 (Recife/PE) diante do monumento que marcou a chegada de aviadores no Brasil no dia 17 de junho de 1922. Foto de Alexandre Strapasson

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Delícias da boca


A boca é um paraíso pouco sagrado por onde a maioria absoluta dos desejos humanos precisam passar em algum momento.

Escrevi a frase acima umas 15 vezes antes de lhe colocar um ponto final. No final dos pontos é sempre assim: escrevo, apago, refaço. Redigo, repenso, até conseguir me distrair dos dias atarefados e abarrotados de leituras, acidentes no trânsito e rotinas que sufocam. Escrevo sobre as delícias da boca para que elas me tirem das obrigatoriedades e me levem a tentar outra coisa: tv, sofá, punheta, piquenique ou download de músicas aleatórias.

Outro dia, percebi que o luxo dos nossos dias é ter tempo para olhar para o tempo. Feito criança de interior que se diverte contando vagalumes ou tentando advinhar a sequência de acendimento das lâmpadas que iluminam a pequena cidade onde vive.

Ainda bem que, apesar das correrias, sempre dá tempo de conjurar pedidos para não lamentar os amores que desfiz com os próprios dedos e não esquecer a inutilidade que é correr de sol-a-sol perseguindo os desejos dos outros.

Se tenho obrigações? Muitas. Mas até arrisco dizer que há tanta vida para se enfrentar por aí que bom mesmo é cultivar essa vontade de bocas profanas. Daquelas que plantam oxigênio nos mergulhos do dia a dia e deixam ardências e sabores nos lugares mais inusitados. Daquelas que nos ajudam a perceber os próprios desejos sem o desvio natural da vergonha e da civilidade.

Foto: Wolney Fernandes

terça-feira, 15 de maio de 2012

Passageiro do fim do dia*


Nota falsa
Peço um vale transporte com duas viagens e pago com uma nota de cinco reais. Minutos depois o vendedor me interpela com cara de bravo, estendendo a nota em minha direção, diz: "Essa nota é falsa. Essa não aceito, não!" Calmamente eu pego a nota de volta e finjo trocar por outra na carteira. Sem perceber que lhe devolvi a mesma nota de antes, ele dobra os cinco reais e guarda no bolso todo satisfeito.

Educação
O ônibus pára e uma mulher corre da esquina até a porta do veículo. Sem fôlego, mas muito educada pergunta ao motorista: "Será que eu posso entrar?"

Sobre garotas
No banco detrás, dois adolescentes com pouco mais de doze anos conversam sobre garotas. Um deles cita uma menina nova que o amigo não conhece ao passo que esse pergunta: "E ela é bonita?". O garoto pensa um pouco e responde: "Comestível".

A Torta
A mulher sobe com dificuldade os degraus e se esgueira entre as pessoas para chegar à catraca. Em uma das mãos, um embrulho parece lhe tirar o equilíbrio. Ao conseguir dar dois passos em direção a uma cadeira desocupada, o ônibus freia bruscamente e o embrulho vai ao chão revelando seu conteúdo: uma torta doce que se despedaça corredor afora.

A pé
Apressado, subo no ônibus e respiro aliviado por conseguir um lugar vago para a viagem. O veículo dá a volta na Praça Cívica e não entra na avenida que eu achei que ele fosse virar. Puto de raiva, desço no ponto seguinte e resolvo ir a pé para o trabalho.

[*] Título emprestado do ótimo livro de Rubens Figueiredo
Imagem: recorte da capa do livro "Passageiro do Fim do Dia"

Românticos como antigamente



01. I'll Be Seeing You - Jimmy Durante
02. Back In The Crowd - Tom Waits
03. Autumn Leaves - Nat King Cole
04. A Song for You - Donny Hathaway
05. Não Precisa Chorar - Roberto Carlos
06. For Your Precious Love - Otis Redding
07. Strangers in The Night - Frank Sinatra
08. Peito Vazio - Cartola
09. For You - Johnny Cash
10. Ultimo Desejo - Wilson das Neves

Imagem capturada aqui.

sábado, 5 de maio de 2012

Agridoce


Percebo tantos defeitos ao olhar no espelho do outro - e tenho medo de faltar, de não ser bom o suficiente. De escancarar o coração e parar em lugares onde nada sei dizer, onde nada me faz sorrir [de novo!]. Mas no inquérito dos dias partilhados, as respostas são dadas pelas ações que ultrapassam a efemeridade das palavras. E isso me basta!

Tenho vontade de fazer planos, mas eles se diluem porque talvez eu queria mesmo é uma epifania, destas óbvias, brilhantes e simples. Mas apesar desse desejo, sei que a vida não é assim. Sei disso pelo afeto que me atravessa não apenas pelas vias do prazer, mas também pela racionalização dos movimentos cotidianos, suas sombras e por aquilo que não é dito.

Acredito numa espécie de fé: de que tudo irá se resolver. Mesmo sabendo que, às vezes, este caminho não seja de todo indolor. Tentam me convencer que vivo numa irrealidade otimista e que logo logo virá a vida cobrar o seu preço: desde as horas de estudo que estrategicamente negligencio enquanto vou ao cinema ou até percebendo que a consciência dos outros talvez seja muito mais estreita do que se prega.

Dizem que me iludo. Daí me questiono: será? O mundo é tão grande que não acredito que não exista um quinhão para eu ser feliz. Não exijo muito, acho. E se tudo der errado, sempre existe o fôlego pra recomeçar.

Tem dias que fecham assim, agridoces. No decorrer destes dias ando pé ante pé, silenciando a respiração e esperando que o que vem, o que será, aí sim, arrebentará em doçuras indizíveis.

Imagem capturada aqui.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Asas de Papelão


Estes dias pelos versos de Amália Rodrigues

Talvez que o anjo esquecido,
O anjo da poesia,
Se tenha de mim perdido
Sem reparar que o fazia...
Por isso me faltam asas
E me sobejam as penas
De um desejo inalcançado:
Que eu gostava de voar
Até ao anjo perdido
O anjo de mim esquecido,
Que por mim é tão lembrado.
Ai se eu tivesse voado
Aonde queria voar
Não estava agora a rimar
Versos de asas cortadas.
Voava junto de si
Assim fico aonde me vê
Mesmo pregadinha ao chão
Com asas de papelão
E sem entender porquê.

Texto: Trecho do poema de Amália Rodrigues
Imagem capturada aqui

terça-feira, 1 de maio de 2012

Eu, leitor


Eu aprendi a ler em uma cartilha azul com uma fada na capa. O título eu não lembro, mas sei dizer das volutas que moldavam cada cacho do cabelo da fadinha que eu desenhava exaustivamente.

Meu primeiro gibi era um do Chico Bento, de 1982, que eu mantenho até hoje com certo orgulho. A porta de entrada no mundo dos quadrinhos foi pela Turma da Mônica, mas transitei pelos clássicos Disney - de Tio Patinhas a Urtigão - passando por uma fascinação pelo Homem-Aranha e toda legião de heróis dos universos Marvel e DC.

Na escola, mergulhei na literatura pela Ciranda de Livros e sei de cor e salteado os títulos que lia e relia sem me cansar: O Menino Maluquinho do Ziraldo, Caçadas de Pedrinho de Monteiro Lobato e A Bolsa Amarela da Ligya Bojunga só para citar os que me atravessam até hoje.

As revistas de moda e fotonovelas da minha mãe ajudaram a cultivar meu amor pelos periódicos e meu sonho em trabalhar numa banca de revista para poder ler o dia inteiro.

Na adolescência conheci os livros de bolso da literatura pulp e devorei histórias de amor aos moldes dos romances açucarados do tipo Júlia, Sabrina e Bianca. Dos mistérios de Agatha Chistie eu nunca conseguia descobrir quem era o assassino, mas me deleitava em saber cada detalhe dos crimes ardilosamente calculados e tão bem descritos nos livros da autora.

Pelos livros da Ediouro [que podiam ser encomendados pelo correio] me aventurei nas histórias em que eu podia decidir o final e passeei por cavernas com Ali Babá! Quando entrei em uma biblioteca pela primeira vez, meu amor pela literatura nacional estava latente. Foi nessa época que me encantei por Machado de Assis, José de Alencar e tantos outros figurões da nossa história.

Ainda hoje, toda vez que entro em uma livraria, minha vontade é sair de lá com um livro que me rouba o olhar pela capa ou que me seduz pelas linhas das sinopses tão bem escritas em orelhas cada vez mais sofisticadas. Assim, a pilha de livros vai aumentando, naquele movimento lento que, sem pressa ou hora para terminar, vai desfiando leituras de todo dia... de dia inteiro.

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Outro jeito de ser feliz


Minha felicidade anda assim, sem muitos subterfúgios ou atalhos. Pela primeira vez, ela vem num envelope fácil, sem babados e descaminhos. Ela existe em olhos tão doces e permanece em sorrisos estratégicos, daqueles que desabrocham quando o telefone toca ou quando o braço enlaça o corpo no meio da noite.

Minha felicidade anda de um outro jeito. Sem perceber caminha com certa leveza. Entre encantos e estranhamentos, ela se mostra quase por instinto entre rugas estratégicas e um jeitinho meio cafajeste, meio sexy de superar as coisas com desejo, música, cinema e maturidade.

Dá vontade de fazer planos porque os dias seguem numa sucessão de [re]descobrimentos. Porque não há nada mais lindo do que felicidade misturada ao cotidiano, que desliza, entre altos e baixos, sem sobressaltos... a mostrar um jeito bom de caminhar.

Imagem capturada aqui.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Sempre alerta?


Enquanto as nuvens de chuva encobriam o último pedaço de céu azul, meninos e meninas se organizavam segundo a orientação do guia. O espaço do parque, tão vasto de possibilidades exploratórias, era demarcado em funções relacionadas a hierarquia daquele grupo de escoteiros.

Lobinhos, guias, pais e responsáveis eram orientados com  rigor sobre o local do lanche e a posição que deveriam ocupar no grupo. Em torno da bandeira, o respeito em forma de postura deveria ficar evidente enquanto dois dos escoteiros hasteavam a flâmula que fôra instalada provisoriamente em uma árvore do parque.

A cena parecia deslocada em tempo e espaço porque aquela dinâmica  de caráter tão institucional não deixava brechas para as deambulações e seus improvisos.

Os atrasadinhos, por terem burlado a precisão dos ponteiros, eram renegados ao final da equipe. Ofegantes, logo eram incorporados ao silêncio sistemático daquela cerimônia de sábado à tarde. Só o escoteiro sênior tinha o poder da fala.

Solenemente, aquele espaço de interação era transformado em espaço de patentes e filas demarcadas. Os pais exibiam, com orgulho, os filhos obedientes, alinhados e alinhavados por aquele poder cartesiano, um tanto quanto efêmero, de moldar a pessoa para ser boa o tempo inteiro.

Discursos bradados com veemência pareciam querer demarcar o amor pelo escotismo e se prolongariam tarde afora, imagino eu, não fosse a chuva que começou a cair naquele instante.

Não houve fila indiana e nem patentes que suportassem a imprecisão do temporal. "O salve-se quem e o que puder" diante da dinâmica da chuva, deixou à mostra toda a falácia daquele discurso desprovido de vivência. A bandeira, tão amada e respeitada, foi abandonada sem o menor constrangimento. Sozinha no meio do temporal, depois da debandada geral, parecia sinalizar a fragilidade daquele modelo de educação que não dá conta das intempéries e nem da complexidade do nosso tempo.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Dezessete de abril de 2012 - Terça


Ontem meu desejo fez brotar a lembrança desta imagem cinematográfica. Hoje eu li um poema da Ana Jácomo que ventilou novos sentidos à esta cena:

"Há algo em mim que não desaprende esse caminho.
Que segue, quando, aparentemente, eu paro. Que continua a luzir, mesmo quando eu tropeço nas minhas sombras.
Além dos meus tempos de muda. Algo que me mostra uma paz intensa e verdadeira.
Que não me deixa esquecer que continuo a ter asas, mesmo quando eu não voo..."

[Ana Jácomo]

Terminei de reproduzir o poema aqui e esta canção perfumou minha manhã. E o dia segue assim, corrido como de costume, mas misturado a desejos, imagens, poemas e canções.

Imagem: cena do filme "Asas do Desejo"

Paisagens


Brigas
Ao virar a esquina vejo ela sair do portão apressada em direção ao rapaz que segue pela calçada. Ela grita sem se importar com os outros passantes: "Vai embora, desgraçado!" Ele se vira e retruca: "Sua louca!". Pisco o olho e ela já está esbofeteando o rosto do moço que tenta controlar a fúria feminina. Entre gritos e xingamentos, os dois entram pelo portão.

Cansaço
No sinal vermelho, uma mulher corre entre os carros deixando um saquinho com 7 balinhas onde se lê: "Ajude uma mãe de família. R$ 1,00". Procuro por moedas antes do sinal abrir. Ela vem em minha direção no último segundo antes do carro detrás começar a buzinar e consegue pegar o dinheiro de minhas mãos. Pelo retrovisor vejo a mulher se encostar na palmeira do canteiro central, arfante... quase sem fôlego.

Lei Seca
Do outro lado do lago eu vejo a moto visitar cada grupo que está fazendo piquenique no parque. Não demora muito até o segurança chegar onde estamos para avisar: "Há uma lei que proíbe o uso de bebida com qualquer teor alcóolico aqui no parque. Então, por favor, escondam a garrafa para que não sejam abordados."

Desfile
A mulher vai na frente tentando ajeitar a saia que lhe sobe às coxas. Os joelhos arqueados e as pernas separadas mostra sua inaptidão em se equilibrar no salto que lhe aperta os pés. Atrás dela, a menina segue em um ritmo mais lento porque carrega uma caixa e uma sacola. O cabelo despenteado esconde um olhar triste que parece encontrar no chão o rumo para seus passos curtos.

Nada é por acaso
Peço gasolina e o frentista, distraído, enche o tanque com álcool. Sem acreditar que aquele engano vai me atrasar 45 minutos demonstro minha indignação e impaciência enquanto um outro funcionário organiza os preparativos para que o mal feito seja desfeito. Percebendo meu estado de irritação latente, pacientemente, ele explica: "Ser escravo do tempo pode ter um preço muito alto. Na vida, nada é por acaso".

Imagem capturada aqui.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Abril Despedaçado - A possibilidade de ver maio chegar

Abril Despedaçado [Brasil, 2001] começa com uma camisa ensanguentada tremulando no varal. Pelo seu movimento somos apresentados aos membros da família Breves: um pai, uma mãe e dois filhos: Tonho, um rapaz de 20 anos condenado a dar continuidade a uma antiga rivalidade entre sua família e os Ferreira, onde a honra é medida pela hora de matar ou morrer. Pacu, o irmão mais novo, é um menino que tem seus sonhos e fantasias constantemente abafados pela severidade paterna e a dureza da vida.

"A mãe costuma dizer que Deus não manda um fardo maior do que a gente costuma carregar. Conversa fiada! Às 'veiz' ele manda um peso tão grande que ninguém 'guenta'!"

No seio daquela família não se pode observar qualquer esperança, pois a vida é regida pela relação com a morte. O engenho, única fonte de sustento, marca o giro repetitivo daquela condição. Um relógio que contabiliza o tempo que parece não passar, os bois que giram e jamais saem do lugar demarcam um movimento onde as palavras e a visão são limitadas.

No entanto, à medida que a história avança, percebemos que a roda de bois começa a mostrar sinais de fadiga e desgaste. O menino aponta e Tonho, angustiado pela perspectiva da morte, passa então a questionar a lógica da violência e da tradição.

"Nessa história de olho por olho, todo mundo ficou cego!"

Esse questionamento ganha força com a chegada de Clara e Salustiano, dois saltimbancos que enxergam além do sépia e do horizonte conhecido por Tonho e Pacu. No chão árido, a jovem do circo anda leve de pernas de pau e mostra um pedaço do céu, de mar, de amor e alegria aos dois. Ao ganhar um livro da moça, o menino imagina a história de uma sereia e, de tão absorto, esquece de levar a cana para moer - seus sonhos o deixam afastado de alimentar a engrenagem que move toda aquela organização familiar e social.


A possiblidade de ver maio chegar é dada pelo olhar que vem de fora e que prenuncia a ruptura de um ciclo, subvertendo toda uma ordem. Depois de assistir ao filme pela quinta vez, saio com a certeza de que na vida real é preciso estar atento às oportunidades de renovação, de liberdade de escolha, de encontro com o mar aberto e todo um oceano de possíbilidades. Que este seja o efeito de beleza que me liberte de eixos aprisionantes, que me faça sair do lugar comum e me incite a cultivar verdades apaixonadas.

Imagens capturadas aqui.

domingo, 8 de abril de 2012

Profissão de Fé


Antes eu acreditava em um Deus zangado e esperava castigos ao invés de afagos. Atualmente, acredito que os barcos sonham, que as nuvens fazem desenho e até desconfio que o livro abandonado na página 47 revela estados de espírito variados. Minha fé reside em gestos pequenos e comportamentos de todo dia porque deixei para trás o Deus caprichoso e legislador das religiões e dos grandes acontecimentos. Sei ouvir os segredos da chuva e meus pensamentos circulam livremente sem bigornas ou censuras ditadas por livros sagrados.

As lições de catecismo eu subverto em minutos de sabedoria, de riso e ironia. Os santos viraram estampas de camiseta e para suas histórias eu invento finais profanos. Prefiro a devassidão soturna dos quartos paroquiais às falas de púlpitos e presbitérios. Meu hino de louvor é entoado fora dos templos para cada pedacinho de céu que a realidade, mesmo dura, deixa entrever.

Creio que alegria não seja pecado e que a infelicidade de hoje não garante recompensas futuras. Não quero saber de paraíso se, para adentrá-lo, não puder ser quem eu sou. Ainda tenho medo da morte porque acredito que morrer é retornar ao que eu era antes de nascer: nada.

No entanto, acredito que esse nada que eu tanto temo se conecta ao infinito e a vastidão desse universo cheio de mistérios e estrelas. Pensando bem, ainda tenho medo da morte porque, na verdade, eu nunca sonhei ser astronauta.

sábado, 7 de abril de 2012

Arejamentos


Entro devagar, quase com medo, aquele medo bobo que até a imaginação se recusa a preencher. Passo os dedos de leve pelas paredes nuas e dou passos cuidadosos. "Não vá pisar em alguma lembrança ou dor que tenha ficado escondida pelos cantos!"

Pelo caminho, tropeço numa vontade de arejamento que estava esquecida feito sapato perdido. Devia ter acendido a luz, mas tenho essa mania de andar às escuras pelos lugares. Tiro uma teia de aranha da fresta que prenuncia claridades, desejando que a aranha já tenha encontrado outro canto, outra morada. Olho pela janela enquanto tento adivinhar quem terá regado as flores de "amor perfeito"  no período de ausência.

Ouço alguém bater delicadamente: toc.. toc...

Sorrindo, atravesso minhas ausências para abrir a porta do meu próprio coração.

Imagem capturada aqui.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Revelações


A fotografia é a imagem em busca de eternidade. Talvez por isso, fotografar a própria vida em ação nos permita infinitas revelações.

Foto: Wolney Fernandes