domingo, 5 de agosto de 2012

Meu Balão de Gás Hélio


Compro um balão de gás hélio e sento no banco do parque esperando os minutos passarem. Passam por mim dois meninos que me olham sem entender o motivo pelo qual um adulto está ali sentado com um balão colorido nas mãos.

Passa uma mãe levando o filho no colo. Ela retorna quando percebe o interesse da criança pelo balão. Me ignora e balbucia, em língua que só ela e o filho entendem, gracejos e odes à bexiga de gás.

Fico no parque até anoitecer. Por vezes, esqueço do balão e me assusto quando a brisa ensaia danças com ele ao meu lado.

Em determinado momento sou convidado a olhar o céu. Reclamo das luzes da cidade que ofuscam o brilho das estrelas me impedindo de localizar o Cruzeiro do Sul ou as Três Marias.

Minutos antes de ir embora, o fio que prende o balão se arrebenta e ele começa a subir sem rumo, mas em direção a constelações invisíveis. Invejo aquele vôo lento, errante, libertador... movido pela brisa noturna e cujo destino é um céu salpicado de estrelas que, embora ofuscadas pela iluminação urbana, traçam rotas inventivas e riscam desenhos de se perder de vista.

Foto: Wolney Fernandes

O que se aprende na fila


A mulher idosa, na fila, vira para mim e ensina: "De fila para pegar comida a gente não pode reclamar. O que eu não quero é ficar na fila esperando a morte chegar".

Foto da Exposição "A Volta ao dia em 80 Mundos"

Depois das férias


15 dias de férias não foram suficientes para me tirar dessa apatia que tento, porcamente, esconder. Todas as atividades que tenho que retomar amanhã me parecem, hoje, cadafalsos sustentados pelas horas que terei que enfrentar dando respostas vagas para perguntas que não quero responder: tudo bem? como foram as férias? aproveitou bastante? viajou?...

Todos os planos feitos para estas férias eu deixei escorregar por entre os dedos por displicência e desarranjos intestinais. Meu quarto, revolto por dias de ermitão, parece o melhor lugar do mundo para passar mais uma leva de dias. Um laguinho de água parada para ficar ancorado sem ter que pensar em navegar. Minha vontade ainda é emendar um filme atrás do outro para não ter que pensar nas contas a pagar na segunda.

Cresce em mim aquela vontade de anonimato. Deixar o telefone tocar até cair, não ver e-mail novo na caixa de entrada. Poder entrar nos lugares sem que ninguém saiba quem sou. Falar pouco e, nesse silêncio, encontrar o sossego que eu almejo sem saber direito o porquê.

Foram 15 dias de tentativas. Talvez displicência não tenha sido o que de fato fez os dias de folga escorregarem pelos meus dedos. Marquei almoços, visitei amigos, conheci pessoas, peguei sessões de cinema às 11 da manhã, fiz piquenique... mas de que adiantou tanto empenho se nada do que fiz plantou coragem para retornar à vida de todo dia, de dia inteiro?

Lá se foram as férias sem os sorrisos ou os frescores de quem carrega um tantinho de felicidade. Talvez esse tenha sido o preço a pagar por fingir que a vida já voltou ao normal.

Foto: Wolney Fernandes

MixTape 01


Músicas para piquenique com amigos, toalha xadrez e toda sorte de risos.

01. Domingo Feliz - Ângelo Máximo
02. Não é Proibido - Marisa Monte
03. Êfemera - Tulipa Ruiz
04. Sugar Town - Nancy Sinatra
05. Jardim do Éden - Marcelo Jeneci
06. O Quintal do Vizinho - Roberto Carlos
07. Chipi Chipi - María Esther Zamora
08. Babylon - Zeca Baleiro
09. Plástico Bolha - Karina Buhr
10. Raindrops Keep Falling on my Head - B.J. Thomas

Ouça aqui!

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Metafísica do amor


Pedi um chá de maçã para acompanhar o pedaço de torta de limão e abri o livro na página 10.

"O que vou ser depois que eu morrer? Eu vou perder os meus pensamentos?"*

Na TV ligada às minhas costas as imagens, mudas, eram lidas pelo recurso da tecla sap. O som que ecoava pelo lugar era o burburinho de conversas paralelas misturado ao barulho que os talheres orquestravam e, à minha frente, aquela questão existencial posta por letras tão bem alinhadas. Frente a ela, meus olhos buscaram outras paisagens porque meus pensamentos não conseguiam sair daquelas 14 palavras.

Foi então que os vi. Sentados de frente um para o outro, aquele casal tinha a ousadia de permanecer alheio a toda minha inquietude diante do embate metafísico que eu, silenciosamente, acabava de travar com as palavras de João Paulo Cuenca.

A paisagem que se seguiu era cartografada por beijos, afagos e olhares que não se desprendiam um do outro. Fiquei hipnotizado e, talvez tenha sido exatamente aquilo que meus olhos procuravam para me distanciar de minhas agonias tão chatas.

Meu coração, serenado diante daquelas vertigens apaixonadas, delicadamente reconduziu meus olhos para a leitura da crônica. Antes do final, eu já sabia que as respostas para aquelas duas questões estavam no fato de poder mudá-las, trocá-las, substituí-las por outras perguntas. E que esse movimento de troca me garantiria fôlego para chegar ao final do caminho.

Se apaixonado, então, a travessia pela vida pode ser bem mais simples.

Foto: Wolney Fernandes
(*) Citação do livro "A última madrugada" de João Paulo Cuenca

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Os abacates de Vô Elias


Não sei dizer aconchegos do colo de vô Elias. Ainda menino, pedia a bença e ele respondia sem fazer afagos. Da sua imagem, os olhos claros eu sempre quis herdar. Da sua serenidade, meu pai se encarregava de noticiar.

Minha orfandade trouxe pactos silenciosos entre meu avô e eu. Desde então, sua presença se fez diálogo, afago e carinho. Vô Elias chegando lá em casa com os braços cheios de abacates para os netos, órfãos de pai, ainda é uma das memórias que mais aquecem meu coração.

Imagem: Wolney Fernandes

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Diário de um Coração Vazio - Último Dia


Ficam para trás a dura poesia concreta de tuas esquinas, a deselegância discreta de seu silêncio. Nada de leveza, nada de amor sincero, nada do azul que circunda um bocado de beleza. Neste último dia, só há os cacos de um coração vazio e ateu.

É assim que deve ser, e assim será. 

Definitivamente.



Imagem: Wolney Fernandes

quarta-feira, 18 de julho de 2012

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Alma Cartesiana


A fila do almoço se estendia para além da barraca montada na casa do festeiro. Para fugir do sol fastigante do meio-dia, o 'rabo' da fila interrompia seu desenho retilíneo e fazia um balão na tentativa de aproveitar a beirinha de sombra que ainda restava naquele lugar.

De vestido rosa e mãos na cintura a mulher chegou bradando que não seria possível entrar em fila tão desorganizada. Toda empertigada, ela se recusava a ir pro final e insistia em dizer que só entraria ali quando aquela 'barriga' de fila se alinhasse. Não houve explicação que a acalmasse e, cumprindo seu protesto, só se posicionou quando a lombada se desfez em função da movimentação.

Diante da cena, minha alma cartesiana suspirou de alegria.

Foto: Wolney Fernandes

Diário de um Coração Vazio - Décimo Sétimo Dia


"Os impactos de amor não são poesia."*

Cada pedaço de dor parece recitar o mesmo verso. Como a gente faz pouca falta! Se todo amor termina com um rasgo, é hora de começar a arrancar as páginas deste que ainda insiste em embrulhar o coração com dores dilacerantes. É hora de tirar o gosto ruim por ver como era frouxo o nó.

"Poesia são: coxa, fúria, cabala."*

Agonizante, depois de um fuzilamento de silêncios e sumiços, o coração precisa de aspirações noturnas e flertes diurnos para respirar. É isso! Mala pronta, corpo desprendido e versos de Drummond envenenados pelas provocações de Madonna e Ana Cristina Cesar.

"Preciso sair da outra metade para ceder lugar ao iminente ato de foder."**

O amor vai embora com alguns orgasmos, mas deixa um cheiro forte de sexo. Pernas abertas e armas em riste irão preencher esse vazio, pois existem muitos jeitos de viver a vida. Falo de uma vida onde não há espaço entre um prazer e outro e onde a felicidade não é lugar nem instante, mas um movimento libidinoso que se faz em busca do gozo perfeito.

Te cuida, matador de corações!
"You're a beautiful killer 
But you'll never be Alain Delon"***

Imagem: Wolney Fernandes
[*] Versos de Drummond

[**] Versos de Ana Cristina Cesar
[***] Versos de Madonna

Sentidos de um fim


Por alguma razão inexplicável, as leituras desses dias tem girado em torno de finais.

01. Ô fim do cem, fim... - Paulo Marques de Oliveira
02. A Última Madrugada - João Paulo Cuenca
03. Por isso a gente acabou - Daniel Handler
04. Um Homem Livre - Jean-Pierre Le Bouler
05. Morte aos Papagaios - Gustavo Piqueira
06. O Sentido de um Fim - Julian Barnes

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Diário de um Coração Vazio - Quarto Dia


No meio dos dias sem cor, inadvertidamente acordo sabendo que tudo será convertido numa linguagem diferente, permeado de saudade boa e melancolia terna. As horas mostrarão que, mesmo pesado, o coração conseguirá reter a leveza de lembranças doces.  Mesmo fragmentado conseguirá não mais depender do coração alheio.

Nestes dias de solidão monstra, é só ninar um pouco as lembranças para nunca esquecer do tempo brilhante que passou e do tempo que se arma ali na frente.

Inadvertidamente, estas certezas amanheceram comigo, mas ninguém me disse que seria tão difícil dormir com elas. 

"Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisa tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão."

Notações do dia 03/07/2012
Imagem: Wolney Fernandes
Versos de Drummond 

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Debaixo d'água

você.
os peixes.
o vazio preenchido.

debaixo d'água, se formando como um feto
- serenoconfortávelamadocompleto -
sem chão, sem teto, sem contato com o ar.
mas tinha que respirar.*

Delicadamente, a Camila Pereira me enviou, de presente, os textos e a imagem acima. Por tanta beleza, não consegui guardar só pra mim.

Imagem: Francesco Clemente
[*] Citação da música "debaixo d'água" de Arnaldo Antunes

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Diário de um Coração Vazio - Segundo Dia


Silêncio...

"Cantiga de amor sem eira
nem beira"

Anotações do dia 01/07/2012
Imagem: Wolney Fernandes
Versos de Drummond 

Além do Espelho


Não gosto de escrever em dias em que me sinto estranho em relação ao resto do mundo. Parece carta de reclamação de um produto com defeito ou serviço ruim. Em dias assim, a rotina de casa para o trabalho só é interrompida por uma sessão de cinema e as músicas escolhidas pela melancolia composta em cada acorde lembram sonhos de aventura sempre adiados.

Como Alice, vivo querendo enxergar além do espelho. Vivo tentando seguir algum coelho apressado que me inspire curiosidade e me tire da inércia deste jardim seguro. Eu quero navegar, mas me fecho na falta de coragem de deixar o cais.

Imagem sem créditos.
Quem souber a autoria é só dizer!

domingo, 8 de julho de 2012

Diário de um Coração Vazio - Sexto Dia


"Os desiludidos seguem iludidos,
sem coração, sem tripas, sem amor."

Fui emoldurar uma gravura e derramei uma caixa cheia de tachinhas pelo quarto inteiro. Recolhi uma por uma de um jeito apressado. Isso quer dizer que a qualquer momento um desses preguinhos que certamente ficou perdido por aí vai entrar no meu pé, percorrer todas as minhas artérias até chegar ao meu coração e eu vou morrer.
Sem drama.
Sem Drummond. 

Anotações do dia 05/07/2012
Imagem: Wolney Fernandes
Versos de Drummond

Última vez


Da soleira da porta enxergo "seu" Aquino descer a ladeira arrastando os pés pela rua enquanto penso constrangido que minha memória já não se ocupava mais dele. Porém, bastou uma isca de olhar para que uma enxurrada de lembranças saltassem à vista.

Talvez ele já tenha nascido idoso. Eu era menino e ele já tinha rugas expressivas emoldurando os olhos claros. Na cabeça, chapéu de feltro marron. Na calça de linho, a barra da camisa clara se esconde e a manga abotoada no punho cobre seus braços longilíneos. O bigode fino é mantido sempre bem aparado e do cabelo curto e grisalho só se enxerga um restinho. Viajante do tempo, sou capaz de jurar que ele veio direto dos anos 30 para o século XXI sem nenhuma escala.

Imagino que seus 88 anos só apareçam refletidos no caminhar miúdo de agora, sem a desenvoltura ligeira que meus olhos de menino fisgaram no passado. Ele dobra a esquina pé ante pé e some das minhas vistas sem que eu me lembre de fotografá-lo.

Penso que talvez essa seja a última vez que o vejo.

Imagem: Modelo Vermelho de René Magritte

sábado, 7 de julho de 2012

Diário de um Coração Vazio - Primeiro Dia


"De novo aqui, miúdo território civil,
sem sonhos."

O primeiro é o pior dos dias. O pensamento navega em looping e o coração, partido, se recusa a derramar realidades que ele cultiva. Dói descobrir que o amor não redime no final. Fere perceber que talvez a redenção completa não aconteça.

A maturidade, tão celebrada em frases de efeito, é a primeira a fugir do peito. Ficam para trás a poesia concreta dos toques, a deselegância discreta em saber onde o prazer reside, nada do branco que circunda um bocado de beleza.

"Não senti sua falta." é a frase que atravessa as artérias feito adaga fria e cortante.

O coração sangra sem esperança. Talvez felicidade seja uma vida anestesiante, sem muitos arroubos. Talvez...

"É sempre no passado aquele orgasmo, 
é sempre no presente aquele duplo,
é sempre no futuro aquele pânico.
E sempre no meu sempre a mesma ausência."

Anotações do dia 30/06/2012
Imagem: Wolney Fernandes
Versos de Drummond

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Dia de Frida


"Não os culpo por gostarem de Frida, porque eu também gosto dela, mais do que qualquer outra coisa. Tu principal sapo-rana, Diego."

Imagem capturada aqui
Tem mais Frida aqui também.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Diário de um Coração Vazio - Quinto Dia


"Estou solto no mundo largo.
Lúcido cavalo
com substância de anjo
circula através de mim."

Cinco dias depois e meu coração, ilhado, ainda não consegue preencher esses espaços vazios que se abrem dentro dos silêncios, das condenações pregressas. Penso no celular que escorrega pelos dedos esperando a ligação que não vem e viro para o lado precisando acreditar que é melhor o silêncio do que enfrentar a finitude alheia. Lembrar de tanto sol que havia ajuda a atravessar estes dias de esforço inútil acordando antes do próprio sol nascer.

"Sou varado pela noite, atravesso os lagos frios,
absorvo epopéia e carne,
bebo tudo,
desfaço tudo,
torno a criar, a esquecer-me:
durmo agora, recomeço ontem"

Imagem: Wolney Fernandes
Versos de Drummond

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Diário de um Coração Vazio - Terceiro Dia


"Não cantarei amores que não tenho.
Minha matéria é o nada."

Coração abandonado na sexta só tem disposição para chorar no final de semana que segue. Não sei se é por não ser a primeira nem a segunda ou se é pela resignação de saber que não será a última vez.

"O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua."

É bom porque na segunda-feira dá pra fazer muitas coisas sem que o coração atrapalhe a rotina. É ruim porque parece que sempre falta alguma coisa.

"De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos.
Ficou um pouco de tudo." 

Imagem: Wolney Fernandes
Versos de Drummond.

sábado, 30 de junho de 2012

Quando a poesia é corte em carne viva*


"Que dor, se sabe dor, e não se extingue?"
[Drummond]

Aprendi que para tirar a dor daqui de dentro é preciso deixar que ela se transmute em variações cotidianas, sem ópio nem analgésicos. Não quero virar o rosto enquanto a ferida, ainda aberta, expele secreções pungentes.

Para me ajudar a calcular o peso da dor e ter ânimo para caminhar com ela - até que ela fique para trás - misturarei imagens minhas à poesia de Drummond em registros de todo dia e de noites inteiras.

(*) Título da Postagem: Agno Flávio
Imagem: Wolney Fernandes

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O que se constitui na ausência


A última vez foi precedida de uma tarde inteira trocando delícias no parque. Na despedida, as mãos cheias de perfume eram incapazes de prever o último toque. 

Então acordo, e de novo, meu coração foi partido com vagar e silêncio. Por aqui, sigo aos tropeços entre tentativas frustradas, nostalgias dolorosas e um bocado de boas intenções sem porto para escoar. Não há rotina, não há nada. Há vazios, pausas, silêncios. Uma dúzia de planos que agora ficam sem onde ir. Uma caixa sem ter onde colocar.

Sentindo essa espécie de entorpecimento, ainda não sei o que construirei das ausências, dos espaços que, abruptamente, foram colocados. E talvez eu não saiba nada disso porque estou cansado de sempre acabar num relicário dos amores inconclusos. Cansado de escrever as cartas mais belas para não ter para quem enviá-las pelo correio.

Estou cansando da minha falta de percepção, da minha falta de timing, de desenhar cinematografias para nada acontecer. Cansado de caminhar junto para tudo terminar tão melancolicamente em telefonemas perdidos, pesares descritos em mensagens de três linhas e qualquer outro tipo de banalidade cotidiana.

Eu sei que meu coração sempre bate mais forte pelas coisas desimportantes: o riso frouxo diante de um desejo escancarado, a saudade impressa em olhar sonolento, o jeito de pronunciar a palavra "também"sem a letra "b"... Gosto mesmo é das miudezas. É que esse cansaço, que muitos chamam de realidade, está desconstruindo lentamente, uma a uma, minhas esperanças e minha capacidade de reter coisa alguma por entre os dedos.

Por hora, há uma dor que torna mais difícil esquecer todo mar que poderia se abrir. Por hora, só uma ideia fixa me acompanha: preciso de esquecimentos para lembrar da minha imensa capacidade de cicatrização, pois se o tempo não tem fim, só ele é o fim.

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Onde vivem os monstros


A verdade é um duelo de percepções. As pessoas só enxergam o que podem enfrentar. Não importa o que você vê, mas sim o que você enxerga.

Quando diferentes percepções duelam entre si, a verdade tem um jeito de se perder e os monstros encontram um jeito de sair.

Sigo assim.

Imagem do filme "Onde vivem os monstros" [Where The Wild Things Are, EUA, 2009]

quarta-feira, 27 de junho de 2012

O tempo não tem fim


01. Tic tac do meu coração - Nara Leão
02. 1901 - Birdy
03. Friday Night - Lily Allen
04. 130 anos - Pitty
05. 1973 - James Blunt
06. 100 years - Nancy Sinatra
07. Sunday Smile - Beirut
08. Monday Morning 5.19 - Rialto
09. Your Winter - Sister Razel
10. 31 Days - Zee Avi
11. Spending my Time - Roxette
12. End of Time - Beyoncé

Imagem de uma das instalações da exposição "A volta ao dia em 80 mundos".

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Manuseie com cuidado!


Avisos de posse e uso:

1. A posse desse caderno, de todos os desenhos, sentimentos e poéticas contidos no mesmo pertencem a Wolney Fernandes.

2. A reprodução física ou digital ou sorridente do conteúdo deste caderno é de direito daquele que detém a posse do mesmo.

3. À partir do momento em que a tinta, os cheiros, o suor e o café secaram no papel, os desenhos aqui contidos deixaram de pertencer à sua criadora.

4. O caderno deverá ser acompanhado pelos seguintes itens:
     - Um peixe de celofane com instruções de como dar vida ao mesmo.
     - Uma lixa para sentir a asperidade das quintas-feiras e dos domingos à tarde.
     - Um pedaço de azul da minha segunda-feira.
     - Um pedaço de fio encerado para amarrar os problemas da vida.
     - Um timão para a navegação dos sonhos.
     - Uma concha para lembrar do fragmento de mar que há em todos nós.
     - Um botão para a casa solitária da camisa.
     - Uma ficha telefônica para o caso de voltar ao tempo das ligações de orelhão e precisar ligar para alguém.
     - Um peixe-pássaro para nadar até a lua.
     - Grãos de café do quintal da minha avó.
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Ana eu conheci na aula de desenho. Sua vontade de desenhar o mundo e rabiscar a vida era tão grande que me contagiava. Ana era aluna, eu, professor. Ana confiou a mim sua história que é uma das mais lindas que eu já ouvi. Por ela, eu sei que é possível um amor que se constrói por encontros e delicadezas, destes que cartografam geografias afetivas em realidades possíveis. Este mês, Ana me presenteou com um caderninho recheado de afetos e carinhos que ventilaram belezas guardadas no coração. Ana é amiga, eu, seu eterno admirador!

Foto: Wolney Fernandes

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Cartografia de afetos



20 de junho de 1912
No céu, estrelas bordavam constelações geminianas. Na casa de "Seu" Antônio e Dona Joana, nascia Jorge.

17 de junho de 1974
62 anos depois, Jorge se tornou meu avô.

20 de junho de 2012
Sob um céu azul desprovido de nuvens, à sombra do pé de Tarumã, celebrei os 100 anos daquele nascimento respigando sussurros, memórias e saudades de um avô que eu nunca cheguei a conhecer.

Imagem: Wolney Fernandes

domingo, 17 de junho de 2012

Dezessete de junho de 2012 - Domingo


"Por que as pessoas precisam morrer?"

Nunca obtive resposta satisfatória para esta pergunta. Apesar disso, ela sempre me assola por ocasião do meu aniversário e, à medida que o tempo passa, transito entre a inquietude e a indiferença debochada ao tentar respondê-la. É irônico imaginar que nossa única certeza é também nossa maior dúvida.

Curioso falar de morte quando se celebra a vida, mas dentro de tantas lembranças de coisas que não voltam mais, fica essa estranheza e um certo medo [confesso!] daquilo que virá a ser indubitavelmente.

Hoje, 17 de junho de 2012, obtive uma resposta ao assistir o último episódio da série "A Sete Palmos" [Six Feet Under, 2001-2005]. Ao confrontar a morte diariamente, a família Fisher reposiciona seus dramas de vida para além da constatação do fim e, sem recadinhos ou adjetivos de superação, me ajuda a elaborar possibilidades para compreender questões existenciais, tão típicas desse tempo.

"Você só tem uma vida. Não há Deus, regras, nem julgamentos a não ser aqueles que você aceita ou cria. E quando acaba está acabado. Um sono sem sonhos por toda eternidade. Porque não ser feliz enquanto se está aqui?"

Por que não?

Já que se aproximar da morte é um processo irreversível, melhor mesmo é encará-la todo dia, sem adiamentos. Talvez seja esse o signo do finais: a morte, quando sentada na cadeira ao lado pode até roubar da gente os sossegos, mas também coloca em nosso colo o agora, o urgente e o arbitrário.

Quanto a mim, vou indo até bem. Me pego no exemplo das paineiras, imensas e imponentes, que nessa época estão todas nuas arrebentando em flores rosas. Vou mastigando meus medos, criando coragem para outras movimentações, costurando novas possibilidades de resposta para, quem sabe, finalmente botar a vida no tempo presente.

Por que as pessoas precisam morrer?
Simples! Para fazer a vida ser importante.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Vida de Margarina


Em sonhos de margarina eu acordaria cedinho sem a cara amassada e sem remela nos olhos. Antes das sete já teria tomado um café da manhã com mais variedades que o da Ana Maria Braga. Saberia onde está o passaporte e o carnê de IPTU do meu apartamento que, muito bem localizado, receberia a luz da manhã difusa e serena. Ouviria árias de óperas famosas durante a preparação do jantar regado a carnes brancas com queijo de cabra e salada para manter meu peitoral largo e durinho, fruto de uma genética que teria me agraciado também com cabelos sedosos, insistentemente caídos sobre meus olhos de linha de horizonte.

Eu leria todos clássicos da literatura e teria livros de arte displicentemente arranjados na mesinha da sala. Minhas cuecas seriam brancas e trariam escrito Calvin Klein em letras finas e cores esmaecidas. Meu trajeto para o trabalho seria feito sem xingamentos no trânsito e circularia por vernissages com espumantes na mão para ajudar meus dentes brancos a reluzirem aquele sorriso que deixaria todos a meus pés.

Eu teria 2.458 seguidores no Instagram que, além de elogiar minhas lindas fotos, também me paquerariam toda semana com comentários dúbios e cheios de segundas e terceiras intenções. Meus encontros seriam sempre nos melhores restaurantes regados a vinhos de safras raras. As noites começariam em boates da moda e terminariam envolvidas por edredons claros e macios onde nenhuma mentira seria contada.

Em vida de margarina eu não precisaria suportar nada que sulcasse meu coração. Mais do que nunca, eu cantaria para aceitar o fato das dificuldades que me seriam impostas. De uma forma irracional eu sempre acreditaria que algo de bom me esperaria na esquina da frente. Talvez a Mega Sena, talvez o amor avant-garde soprando mansinho nos ouvidos, talvez aquela epifania que faria todas as raivas e tristezas desaparecerem em um click apenas.

Imagem capturada aqui.