terça-feira, 16 de outubro de 2012
Cúmplice
No meio da fila para comprar o ingresso, desisti do cinema. Sem explicações para aquela súbita desistência sentei na praça de alimentação e vi um amor morrer. Ele, desolado, buscava o toque das mãos dela. Ela chorava silenciosamente. Rosto imóvel, lágrimas rolando sem parar.
Entre os dois, uma história inteira definhava frente ao silêncio que o choro fazia escorrer. Ao redor dos dois, riso e movimentação escondiam aquele amor agonizante. Nos minutos finais ele olhou no relógio e ela pegou a mochila. Partiram cada um para um lado.
Estranhamente, a vida continuou em seu movimento normal. Nenhuma música de fundo, nem mesmo um olhar de hesitação sobre o ombro. Ninguém fez nada diante da morte daquele amor. Nem eu.
Cúmplice, retirei-me da cena do crime com o coração na garganta.
Imagem capturada aqui.
domingo, 14 de outubro de 2012
Pequenas empresas, grandes negócios
No meio da praça, a vendedora de sombrinhas fotografa suas clientes para mostrar o quanto ficam mais bonitas usando o assessório.
Na esquina, parado ao lado do carrinho de flores, o vendedor de orquídeas aguarda a próxima venda com a máquina de cartão de crédito em punho.
Foto: Wolney Fernandes
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Maratona Dominical
Depois de anos, fui à missa de domingo naquela que já foi minha comunidade paroquial. Maratona! Minha alma de filho pródigo ficou logo no estacionamento da igreja quando a família do carro da frente saltou do veículo e o motorista resolveu dar uma ré sem olhar no retrovisor. Minha mão na buzina só serviu para me deixar surdo porque o moço ao volante nem percebeu quando seu carro bateu no meu.
Suspirei primeiro antes de abrir a porta do carro e já saí recitando o ato de contrição antes do pecado ser cometido. Entoei o hino de louvor quando verifiquei que não houve arranhões no para-choque enquanto a família feliz seguiu unida até a porta do templo sem se importar com o ocorrido.
Na entrada, um grupo de pessoas distribuíam boas vindas. A minha só foi dada depois de um convite para ajudar na catequese. Nestas horas, sempre me valho da triste condição de doutorando na justificativa pela não adesão ao chamado. Uma imagem insólita passou pela minha cabeça quando me imaginei frente a uma turma de catequizandos profanando todos os preceitos católicos e alargando a dúvida sobre o seguimento à Igreja. Sorte a deles por eu não estar disponível para a missão.
Antes mesmo de me sentar para aguardar o início da celebração, fui abordado por outra líder comunitária que, na aparente preocupação em saber notícias da minha família, me passou um santinho do seu candidato preferido e se certificou que a receita de macarrão, impressa no verso da foto, me faria um eleitor fiel. Mal sabe ela que eu nem sei cozinhar.
Suspirei aliviado quando os acordes do canto de entrada ecoaram pela igreja, mas meu alívio exauriu-se na homilia. Quando o padre sugeriu que o meu corpo poderia me levar para o inferno, eu aproveitei a deixa e convenci "o meu próprio corpo" a me levar para casa.
Ufa! Escapei por pouco.
Foto: Wolney Fernandes
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
domingo, 30 de setembro de 2012
Em cada canto de setembro
No parque, uma família chega e o cachorro, em disparada, escapa para se refrescar no lago.
No bar, peço um cozumel ao garçom e ele, todo sem jeito, responde que não tem mel.
No facebook, um amigo do ensino médio me chama de beato ao saber que estou solteiro. Pergunto se ele se casou e me surpreendo quando ele responde que está saindo do terceiro casamento.
No shooping, uma mulher pede para que eu a fotografe entre a mãe e a filha.
No cinema, um avô senta ao lado do neto para assistir o filme na fila da frente. De dois em dois minutos, o menino pergunta quanto tempo ainda falta para a sessão começar.
Na livraria, a primeira linha de um livro me convence que vale a pena comprá-lo: "No final ela morre e ele fica sozinho".*
No trabalho, um ex-aluno vira meu professor.
Na pamonharia, a dona, de cara amarrada, me atende com um muxoxo inaudível querendo me fuzilar com os olhos quando peço uma pamonha. Sendo o único cliente do estabelecimento, trato de comer rapidamente sem olhar em sua direção. Ao me dirigir até o balcão para efetuar o pagamento, percebo que ela tenta esconder, sem sucesso, um livro da coleção Sabrina: "Prisioneira da Paixão". Saio dali com um sorriso escondido no canto da boca.
[*] Citação do livro Bonsai de Alejandro Zambra.
Imagem capturada aqui.
sábado, 29 de setembro de 2012
Sorria, você está sendo filmado!
Sorria! O mundo desaba, o leite transborda, o grande amor não é exatamente aquilo que se espera, muito menos o emprego. Mas esperam que você sempre diga sim, que esteja acompanhado, perca peso, seja bom em tudo, engula o choro e sorria. Esperam que você seja tudo aquilo que todo mundo espera. Não adianta, você realmente está sendo filmado e "calculado, mesmo sem medida".
Imagem do filme O Show de Truman. Olhei aqui.
Vale de Agonias
Coisas que estão dentro do meu Vale de Agonias:
- Nossa Senhora Aparecida sem cabeça
- Broca de dentista
- Peruca de nobre francês
- Minhoca espetada em anzol
- Palito de fósforo usado
- Colher enferrujada
- Cachorro da raça pincher
- Cachorro de camurça daqueles que só balançam a cabeça
- Cusparada no meio da rua
- Bituca de cigarro
- Olhos vidrados de boneca de porcelana
- Bife de fígado mal passado
- Botox em rosto deformado
- Cabelo vermelho do Sílvio Santos
- Cigarro atrás da orelha
- Fonte Comic Sans
- Quadros de temas religiosos com efeito 3D
- Cheiro e cor de jenipapo
- Significado da palavra limbo
- Faustão
Imagem do jogo Limbo. Olhei aqui.
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Janela Indiscreta
Simultaneamente, na porta da Igreja Batista, uma noiva desce do carro preto sem se importar com o vento que carrega seu véu para longe. Cercada por ajudantes prestativas, ela se posiciona na entrada do templo enquanto o fino tecido é recolocado em seu lugar.
Percebo que o vizinho dançarino empunha o que me parece um microfone improvisado e, além da dança, inicia uma performance digna de um show de rock.
Uma senhora sai da padaria andando lentamente e tenho a impressão que irá demorar uma semana para atravessar a rua. A noiva desaparece na nave da Igreja enquanto ouço sons de trompetes misturados ao burburinho de vozes em torno da piscina do condomínio de luxo que fica do outro lado da rua. Um casal, na sacada, olha a noite, enquanto conversam.
Já não escuto mais o som do coro da Igreja. As luzes de freio dos carros que contornam a Praça Cívica vão diminuindo à medida que o sinal se esverdeia. A velhinha ainda está na metade do caminho quando termino de falar ao telefone.
Apoteose no show que o vizinho cantor executa. De cima da própria cama, imagino eu, ele dá um salto até o chão se contorcendo até desaparecer do campo de vista da janela. Tenho vontade de aplaudir, mas ele volta à cena e me faz perceber que o show ainda não terminou.
Alguém pediu bis e eu nem notei.
Foto: Wolney Fernandes
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
Fome de Instantes
Na maior parte do tempo não adianta esperar de mim reações rápidas. Eu não sei fazer isso. Preciso respirar fundo, cheirar o ar e sentir a temperatura da água com a ponta dos dedos. Eu preciso pensar para responder porque meus dois neurônios - coitados! - não valem por um bifinho. Preciso abrir arquivos, revirar fichas e navegar por mares de teias de aranha e oceanos de pó.
Demoro para pensar numa boa resposta, demoro para dormir, demoro para gozar, demoro para lembrar o nome das pessoas e com certeza vou ter Alzheimer.
Eu preciso de tempo, de espaço e do vagar que puder obter, roubar, mendigar, ganhar e merecer. Tenho fome de instantes porque o tempo talvez seja a única verdade inquestionável da vida.
Imagem capturada aqui.
sábado, 22 de setembro de 2012
Você não mora mais aqui
Reaprendi a achar graça no cotidiano. Voltei a estender a mão só pra sentir os pingos da chuva e entendi que nem tudo precisa ser monótono. Passei a acreditar que aquele pôr do sol foi feito só pra mim e que o gosto meio amargo do chocolate é mero acaso.
Consigo sorrir novamente sem fazer festa para encobrir o silêncio*. A beleza voltou para o seu lugar em cada canto, em cada tempo, em cada despertar.
Já ouço "Fica" do Chico sem que a última estrofe me prenda em pensamentos vagos porque o meu coração, antes vazio, transborda o perfume do agora.
"Diz que é pra tomar cuidado
Sou um desajustado
E o que bem lhe agrada, meu bem
Quem sabe um dia
Por descuido ou poesia
Você goste de ficar"
Com o gosto dos alívios na boca, abro os olhos e percebo que você não mora mais aqui.
[*] Citação do livro Mrs. Dalloway de Virginia Wolf.
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
Esperando a primavera chegar
Com um sentimento de fatalidade, procurei possíveis perfumes debaixo de um Ipê amarelo e acabei adormecendo ali mesmo, esperando a primavera chegar.
Foto: Rosi Martins
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Dezessete de setembro de 2012 - Segunda
A segunda-feira não chegou com os contornos dos começos. Desde a sexta eu já havia começado a anotar tudo que a memória conseguiu guardar para escrever em meu Diário Dezessete. É por isso que não há pausas para espaços porque tudo aconteceu em tão pouco tempo.
Chuvaprincesaveioregartodaquenturadanaturezaquesepreparaparaparirmaisumaprimaveraáguanoquartonachegadadaviagemmeucoraçãopareciaventilarsossegoseapesardocalorfoiotimoexperimentarossaboresgeladosdaquieaardênciarefrescantedeláentrepasseioseencantoscadacantoparecianovopelaretinadeolhosdemergulharemolduradosporsobrancelhasquesemovemindependentementevontadedeaçaíconversasemhoraparaterminar...
Os dias parecem terminar mais cedo com esse horário louco do sol se pôr. Entre o sábado e a segunda, Alanis Morissette apareceu por aqui para colocar cores nos sabores de sempre. Tanta coisa interessante vivida desde sexta que, se eu não tivesse presenciado tudo, eu classificaria esse final de semana como implausível.
O próximo se passará pouco tempo depois da epifania em busca de uma música que supere essa aqui.
"I'm slipping again
I'm up to old tricks off my wagon
I have no defense
I'm wreaking havoc
Wreaking havoc and consequence"
Imagem: Wolney Fernandes
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Sobre escolhas e apuros
Dedos e olhos percorrendo lombadas variadas até encontrar um livro que me defendesse do tempo infinito da internet e também me condenasse a horas de leitura sem fim.
É terça-feira, a aula foi cancelada e meu trabalho nunca prometeu nada além de algo comum, então sinto que tenho o direito.
Percebo o pontilhado que percorre parte da capa e meus olhos resolvem seguir aquela trilha quase invisível. Entro sem me importar com o título - "Bonsai" - e me detenho na epígrafe de Gonzalo Millán:
"A dor se talha e se detalha "
Feito criança que deseja ouvir sempre a mesma história antes de dormir passo ao primeiro parágrafo como de costume e o livro de Alejandro Zambra consegue colocar quietudes em mim:
"No final ela morre e ele fica sozinho"
Não consigo mais devolver aquelas palavras à estante da livraria. A vontade de devorar a obra em uma mordida só, me faz levar o livro pra casa. Me delicio com a profundidade de cada paragrafozinho e fico feliz pela escolha.
Leio quase inteiro, mas perto do fim, vem a vida e resolve ficar apurada.
Imagem: Wolney Fernandes
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
Caprichos de agosto
01. Dez dos 13 trabalhadores uniformizados limpam o canteiro da faculdade. Ao lado, os outros três fazem piquenique na relva.
02. Na livraria, o pai carrega a filha nos braços enquanto o filho mais velho corre entre as prateleiras. A mãe vê a correria e ralha com o menino. O pai pede que a mãe deixe o pequeno em paz. Zangada, a mulher lança um olhar frio para o marido e se dirige ao caixa sem olhar para trás. Ao vê-la se afastar, o pai chega bem próximo ao filho e sugere, carinhosamente, que ele escute o pedido da mãe.
03. Recebo a seguinte mensagem no celular: "Que mundo é esse onde as lojas de brinquedo tem mais artigos de Patati Patata do que de Star Wars?!"
- Não sei, Ana, não sei! Que a força esteja com você!
04. Ele está com um dos pés para fora do carro e olha para ela como se esperasse uma resposta de uma pergunta inaudível. Ela chora sem conseguir disfarçar a briga que acaba movimentando a mesmice do estacionamento.
03. Recebo a seguinte mensagem no celular: "Que mundo é esse onde as lojas de brinquedo tem mais artigos de Patati Patata do que de Star Wars?!"
- Não sei, Ana, não sei! Que a força esteja com você!
04. Ele está com um dos pés para fora do carro e olha para ela como se esperasse uma resposta de uma pergunta inaudível. Ela chora sem conseguir disfarçar a briga que acaba movimentando a mesmice do estacionamento.
05. O grupo faz tremular bandeiras do candidato à prefeitura no cruzamento da avenida. A mulher de vestido estampado dança, rodopia e se destaca pela alegria e entusiasmo no final do dia.
Imagem: "Piquenique na Relva" de Manet
domingo, 26 de agosto de 2012
Eu quero ter um milhão de amigos*
Os mais radicais [segura essa!] promovem "festivais de unfollow" e se dedicam por horas a fio ao ato soberano de dar um "block" em quem não está interagindo [entenda por interação "curtir"e ou "comentar"] suas postagens. Interajo na medida que vejo e, as vezes, nem é preciso dar um like para que a interação aconteça.
Por que essa nossa mania besta de querer transferir para as redes sociais as estruturas da vida real? Talvez quem pense assim tenha se esquecido de que a vida é descabida por natureza e, por isso, não cabe em lugar nenhum. No facebook, muito menos! Lá eu quero mesmo é ver e fazer o que nem sempre é possível do lado de cá da tela.
Quero mergulhar, encontrar e ser encontrado nesse mar de gentes. Espalhar pensamentos meus como quem joga papéis pela janela, poder falar com pessoas que moram do outro lado do mundo e brincar de viagem no tempo proporcionada pelos fusos horários mais variados. Quero ver paisagens da Tailândia, colecionar imagens de calendários antigos e me emocionar com frases prontas da Clarice Lispector. E se para tanto eu precisar de um milhão de amigos [Te cuida, Roberto Carlos!], que seja!
[*] Título retirado da música do Roberto Carlos.
Imagem capturada aqui
sábado, 25 de agosto de 2012
Confrontos
O vinho circulava em pequenas taças que tilintavam a cada novo brinde. Um breve esquecimento do mundo foi um direito que julguei merecer. A cada gole, fechava os olhos buscando o sabor imediato daquela ausência de mim que eu tanto almejava.
Desprovido do gosto dos esquecimentos, a cada conversa posta na roda o amargo da realidade se misturava ao doce do vinho tinto. Viagens ao redor do mundo me levavam de volta aos abarrotamentos do meu quarto. Amores derramados por anos a fio preenchiam meu coração vazio com os fracassos dos meus próprios afetos. Sucessos profissionais me lembravam o suor que derramei para cruzar a linha de chegada em terceiro lugar. Projetos para o futuro apontavam os espaços em branco do meu presente que não se ausenta.
Olhei para as migalhas de pão em meu prato e me juntei a elas. Naquela noite, não houve brechas em minha realidade por onde a alegria pudesse entrar. Ali, em meio aquela celebração profana, a vida me confrontou.
Imagem de James Gallagher. Olhei aqui.
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Exercício de imaginação
Imaginar? tudo bem, vamos lá!
Eu seria uma dessas pessoas que sempre sabem onde estão, que se localizam olhando as estrelas sem dar trela para a voz do GPS. Meu pulsos, mais largos, ostentariam tatuagens desenhadas com escritas e eu nunca teria preguiça de fazer a barba.
Eu jamais guiaria um carro e não teria tanta raiva escondida aqui dentro. Eu teria tempo e um cinema inteiro só pra mim. Teria mais talento e menos vocação. Eu seria uma dessas pessoas que pensam depois de fazer. Usaria chapéu de côco e saberia colocar as vírgulas no lugar certo.
Eu faria jardinagem ou teria alguma outra atividade aristocrática. Não teria pesadelos. Teria um balanço na sala e um poster de "Volver" no quarto. Não aturaria desaforo nunca e só usaria camisetas com estampas de insetos.
Eu saberia fazer pratos de comer com os olhos e a academia seria o lugar do prazer. Acreditaria em tudo que não creio mais e nunca teria me apaixonado pela Julie Delpy.
Imagem capturada aqui.
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
Desejo de uma tarde de quinta
Eu queria mesmo era morar dentro desse filme.
E olha que ainda nem comecei a falar da Nina Simone.
E olha que ainda nem comecei a falar da Nina Simone.
Respostas
Porque uma boa história é a melhor coisa que pode nos acontecer em qualquer dia da semana, em qualquer semana do ano.
Porque é uma delícia poder acreditar, ainda que só por uma hora e meia, que o amor não termina mesmo quando chega o fim, que o talento será compensado e que teremos coragem para fazer tudo o que o coração pede.
Porque cremos, raspados de várias camadas de dor e ceticismo, que um dia vamos encontrar nossa vocação.
Porque as distâncias, mesmo atravessada por fronteiras, tem cheiro de cartas, abraços demorados e mensagens infinitas.
Porque enquanto o sinal não fica verde, revelações metafísicas nos assaltam.
Porque nunca é tarde demais para outra colher de doce de leite.
Foto: Wolney Fernandes
Desenho de Iberê Camargo
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
Dezessete de agosto de 2012 - Sexta
No meio da tarde, eu saí da sala de cinema com desejo de voltar.
Voltei!
No meio da segunda sessão: "Só se vive uma vez. Quantas oportunidades nós temos?"*
No fim das minhas inquietações pela fuga no meio do expediente: "Foda-se!"*
Imagem: Wolney Fernandes
Trechos do filme 360
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Intervalos entre capas e conteúdos
O nome do Pe. Fábio de Melo na capa não inspirava nenhum tipo de motivação para que meu interesse se fixasse naquele livro. Ao contrário, sempre fujo dessas armadilhas literárias orquestradas por padres fábios, marcelos e afins.
A capa também não era lá um exemplo de bom design. Sim, sou ávido praticante de buscas por capas inspiradoras. Encantado com a beleza da casca, já mergulhei em muitas histórias sem sabor. Mas não era o caso. Um passo vacilante fez meu interesse se fixar no título da publicação - "Orfandades - o destino das ausências" - e foi exatamente isso que me fez parar.
Estava na rodoviária de Brasília, o que já me garantia uma certa folga em relação ao anonimato. Tinha cerca de 20 minutos antes da chegada dos amigos que iriam me buscar no local. Mesmo assim, cautelosamente, espiei no entorno antes de pegar o livro da prateleira. Não podia correr o risco de ser confundido com um desses fiéis lambedores de tudo que padres fazem, cantam ou escrevem. Mesmo já tendo sido um desses fiéis no passado, em minha fase so cool não caberia tais carolices.
Li o texto da quarta capa. Gelei. O trecho me arrebatou de imediato, pois descrevia identificações muito caras a sentimentos já vivenciados no passado e, para piorar, o conteúdo era embalado no que eu considero uma boa escrita. Corri para o sumário na esperança de que ele me libertasse daquela identificação inicial e tropecei em um pequeno trecho inicial:
"[...] Ousei ver de perto o desconforto dos que não negligenciaram o assombro dos breus. Deite a toalha branca sobre a mesa. A crueza literária está posta. Este livro é filho das saudades."
Novo arrebatamento e eu, já desesperado, não sabia como largar aquele livro de novo na prateleira. Olhei novamente ao redor e ponderei silenciosamente com meus botões: "Calma, Wolney! Não se apegue a estas breves palavras. Comprar esse livro só vai evidenciar ainda mais as incoerências que você faz questão de esconder."
Fazendo pose de cara mais coerente do mundo, abandonei o livro entre os outros, saquei meu iPhone do bolso e fui postar e curtir fotos no Instagram porque é isso que os caras descolados fazem. Meus amigos chegaram e o final de semana transcorreu entre risos, sabores, encontros e um certo desconforto. Sim, minha suposta coerência tinha sido posta a prova por um livro do Pe. Fábio de Melo.
Na volta, pensei em comprar o livro juntamente com uma revista porque se a moça do caixa me perguntasse ou fizesse olhar de reprovação, haveria sempre uma possibilidade de dizer que a revista era pra mim e o livro uma lembrança para minha mãe. Benditas sejam as mães! Cult, Bravo ou Select seriam bons títulos para evidenciar a [também suposta] distância entre as duas publicações e me livrar desse suposto constrangimento.
No final das contas, a fome falou mais alto e, por precisar ficar na fila para comprar um lanche antes de embarcar, acabei voltando para Goiânia sem ter tempo de passar pela livraria. Foi na viagem de volta que me dei conta de que, outra vez, estava eu naquela tentativa ridícula de parecer uno, centrado, coerente, preciso e locado em um pólo apenas. A verdade é que sou "erudito e popular na mesma toada"como um amigo bem escreveu a esse respeito e que vivo passeando, o tempo inteiro, entre um pólo e outro.
Comprar livro pela capa, mesmo odiando o conteúdo como eu já fiz várias vezes, me pareceu tão mais vazio do que o contrário dessa equação. Se o livro do Pe. Fábio de Melo havia me atravessado pela escrita, que mal haveria em considerar isso como parte dos meus gostos e afetos? Desconsiderar o conteúdo que me tocou em função de uma pseudo erudição que se finda nos meus en(cantos) subjetivos é besteira que não quero ficar repetindo por aí.
Na chegada, tratei de garantir meu exemplar do livro, encarando a atendente da livraria para perguntar: Você tem o livro novo do Pe. Fábio de Melo? Sorrisos fartos. Ela tinha! Se o livro é realmente bom ainda não sei dizer. No entanto, sigo aprendendo a prestar mais atenção naquilo que meus olhos não se fixavam antes e me deixando atravessar por palavras que me arrepiem os poros e que fazem minha boca ter sede de escrita.
[O tal trecho da quarta capa]
"Era assim. Na escuridão da noite eu procurava o corpo paterno. Aconchegava-me ao seu lado e punha atenção no compasso de seu respiro de homem. A tudo eu contemplava. A voz grave, a postura de quem não conheceu as delicadezas do mundo, a exata medida das mãos que minhas mãos gostariam de ter, tudo observado em silenciosa admiração. A barba cerrada, o olhar capaz de enxergar-me no escuro, o alívio do medo, a devolução da vida. Meu pai e seu mundo profundo. Eu e meu mundo de estreitezas. Ele, na liberdade de estradas que não conheciam destino nem fim. Eu, na solidão de paredes sensatas, prova de que os laços de sangue podem nos privar das alegrias, ocultando-nos em abrigos inóspitos onde prevalecem as pregas da cortina que nos desprotege sem piedade."
Foto: Wolney Fernandes
domingo, 12 de agosto de 2012
No meio do canteiro central
Noite de sexta. Ela passa por mim apressada. Ele desce da moto do outro lado da avenida. O encontro explodindo faíscas aquece a noite fria. No meio do canteiro central eles matam as saudades com beijos e doçuras inaudíveis.
Imagem capturada aqui
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
O tipo de foto que eu gosto!
Sabe quando a gente lê um texto e se impressiona com o jeito da escrita e com as ideias que ele carrega? Foi assim quando topei com o fanzine "Oh Oh!", criado pela Dani Arrais e pelo Claudio Silvano. Ao explicarem o tipo de foto que eles gostam, me senti contemplado em forma e conteúdo! Escolhi reproduzir o texto aqui para que minha voz se una a deles ao explicar que:
"A gente gosta de foto errada. Com enquadramento torto, luz estourada e com aquela textura que só é possível com o negativo. Foto de gente normal, sem cara de capa de revista, sem corpo de quem malhou horas no Photoshop. A gente gosta de imagem que emociona, que não precisa ser tecnicamente perfeita para encher os olhos. A gente gosta de simplicidade. De ter uma câmera nas mãos para captar um momento do dia, da vida ou do coração. A gente gosta de registrar pedacinhos do mundo que nem sempre ganham os holofotes. Aquele carrinho de supermercado esquecido no canto, a cara de sono que chega a ter um tracinho do lençol. A gente gosta de simplicidade. De verdade. E de fotos bonitas."
Foto: Wolney Fernandes
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
Puxadinho de um sonho só
Tá certo que a vida adulta é uma delícia. Também já consegui entender que, na impossibilidade da volta, é preciso aprumar os ombros, riscar a linha do horizonte com o olhar e caminhar. Então, porque essa sensação de que antes o rumo traçado era mais nítido e, portanto, mais fácil de se chegar a um ponto? Antes, era só olhar adiante que o objetivo estava lá, reluzindo ao sol feito espelho rebatendo luz: terminar os estudos, conseguir lugar pra morar, alguém para amar, viajar para lugares desconhecidos.
Agora é diferente. Olho adiante e já não consigo definir com precisão uma indicação de trilha e, pior, não consigo sequer um sinal que indique uma linha de chegada. O que existe é um emaranhado confuso onde todo dia é dia de trabalhar para dar conta das contas. Toda tarde é tarde de ponderar as vontades e amargar uma hora inteira na academia. Toda noite é noite de me torturar por não conseguir dormir mais cedo.
Arrumar armário para que as as meias caibam do lado das cuecas, deixar o carro pra lavar no intervalo do almoço, ser inteligente e bom de cama para dar conta dos amores sem rotina. Responder a todos os e-mails que insistem em abarrotar a caixa de entrada na velocidade de 140 caracteres. Rebolar para que os demônios internos continuem relapsos e não retornem à tarefa decadente de me tirar dessa rotina felizzzzzzzzz...
A vida de tantos sonhos plantados no horizonte, ficou difusa e virou puxadinho de um sonho só: sobreviver para ter tempo de olhar o tempo passar.
Imagem capturada aqui.
Dúvidas iniciais
Dos tantos livros que ficam ali no canto à espera que meus olhos passeiem por suas páginas, eu sempre escolho cinco para ler os primeiros parágrafos e, assim, decidir qual deles será a próxima leitura de cabeceira. Desta vez ficou difícil escolher. Alguém me ajuda?
A Contadora de Filmes - Hernán Rivera Letelier
"Como em casa o dinheiro andava a cavalo e a gente andava a pé, quando chegava um filme no acampamento da Mina e meu pai - só pelo nome do ator ou da atriz principal - achava que parecia ser bom, as moedas eram juntadas uma a uma, o preço exato da entrada, e me mandavam assistir. Depois, ao voltar do cinema, eu tinha de contar o filme para a família inteira reunida na sala."
Diário da Queda - Michel Laub
"Meu avô não gostava de falar do passado. O que não é de estranhar, ao menos em relação ao que interessa: o fato de ele ser judeu, de ter chegado ao Brasil num daqueles navios apinhados de gado para quem a história parece ter acabado aos vinte anos, ou trinta, ou quarenta, não importa, e resta apenas um tipo de lembrança que vem e volta e pode ser uma prisão ainda pior que aquela onde você esteve."
Dois Rios - Tatiana Salem Levy
"Foi a Marie-Ange quem me salvou. Se é que isso existe, a salvação. Antes do nosso encontro, eu estava presa a casa e a tudo o que ela encerra: a umidade, o mofo, as fotografias desbotadas, a loucura da minha mãe e o silêncio. Sobretudo o silêncio, e com ele o medo e o passado a impedir que eu descobrisse o mundo. Quando a Marie-Ange chegou, eu entendi que podia começar de novo, sob outro prisma, retomar o que era meu e tinha ficado lá atrás. Mas foi preciso que ela chegasse, vinda de fora, uma aparição."
Vermelho Amargo - Bartolomeu Campos de Queirós
"Mesmo em maio - com manhãs secas e frias - sou tentado a mentir-me. E minto-me com demasiada convicção e sabedoria, sem duvidar das mentiras que invento para mim. Desconheço o ruído que interrompeu meu sono naquela noite. Amparado pela janela, debruçado no meio do escuro, contemplei a rua e sofri imprecisa saudade do mundo, confirmada pela crueldade do tempo. A vida me pareceu inteira concluída. Inventei-me mais inverdades para vencer o dia amanhecendo sob névoa. Preencher um dia é demasiadamente penoso, se não me ocupo das mentiras."
O Sentido de um Fim - Julian Barnes
"Eu me lembro, em ordem aleatória:
- do brilho da face interna de um pulso;
- do vapor subindo de uma pia molhada quando se joga alegremente uma frigideira quente lá dentro;
- de gotas de esperma girando em volta de um ralo, antes de serem tragadas e descerem pelo cano de uma casa alta;"
Imagem capturada aqui.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Sobre altares, reformas e apagamentos
As asas eram de renda vazada e não serviam para voar. Mas quem precisa voar quando os pés já tocam o céu? No meu paraíso particular eu dividi o altar com São Sebastião tendo flores de plástico ao meu redor e arcos ogivais ornados com bandeirolas ao fundo.
O azul da veste parecia encomendado à mais caprichosa costureira para fazer par com os ornamentos daquele altar de encantos, reentrâncias e brancuras. Pecado era pisar naquele céu de branco anil da toalha tão bem cuidada pelas mãos de Dona Cândida. Mesmo assim, ali estava eu, com dois anos, empoleirado no paraíso, embrenhado em atenções e ornado com fita de cetim.
Da minha ascenção ao céus eu me lembro pouco. Precisei das memórias da minha mãe para refazer todo o percurso que circunda a foto que abre este texto porque minhas lembranças estão todas plantadas em terrenos bem mais profanos. Aos pés desse mesmo altar, meus joelhos se dobraram várias vezes ao longo da minha infância e juventude. Tentativas vãs, hoje eu bem sei, de outra vez ter um par de asas que me autorizasse novo pouso no altar do Divino.
Sobre esse mesmo altar também ofertei flores a Virgem Maria, encantado com o significado dado a cada uma delas pelos versos tão bem ensaiados por Dona Vita e entoados pelas moças da cidade:
"Ao lado das rosas,
com nítida alvura,
se mostre o jasmim,
sinal de candura!"
Por ocasião da coroação de Nossa Senhora, aqueles cantos ecoavam por toda igreja e enchiam meus olhos com purpurina, coroas de papel laminado e cestas de papel de seda. O grande altar central, onde ficava a imagem da padroeira, era vestido de branco e servia de céu para as virgens pisarem, solenemente, no mês de maio.
Adulto, já órfão daquela vontade de céu, eu gostava mesmo era de sentar naqueles bancos e deixar meus olhos passearem por aquelas belezas impregnadas pelas memórias de quem já fez daquela igreja - com "i" minúsculo mesmo - extensão da própria casa. De cor, eu sabia dizer os desenhos de cada canto, soletrava os sons coloridos que os tablados de madeira faziam ressoar e sentia o cheiro das tantas vezes que a vida se fez rito naquele lugar: batismos, dia das mães e dos pais, novenas, via-sacras, casamentos, mortes, cantorias...
Naquele pedacinho de céu, minhas memórias, desavisadas, pareciam encontrar aconchegos em cada canto. Até pensei que elas habitariam aquele lugar sagrado para sempre. Paraíso inatingível, e por isso mesmo, intocável, eterno. Mas, a Igreja, essa sim, com "I" maiúsculo de Instituição, expulsou cada uma de minhas lembranças de lá. Inquisitora, botou porta afora com apenas uma reforma, minhas memórias e suas nuances individuais e coletivas. Os fazeres e suores que entalharam aqueles altares saíram do presbitério para o terreno do fundo - purgatório onde agonizam imagens, perfumes, sons, situações e pessoas que não quero esquecer.
E foi assim, entre pedaços quebrados e contornos esquecidos, que encontrei aquele pedacinho de céu jogado entre as tralhas que restaram da reforma que fizeram na pequena igreja da minha cidade natal nos últimos meses. Da necessidade de uma reforma, eu nunca duvidei ou sequer ouso questionar. Minha indignação se refaz diante do modo como os trabalhos foram orquestrados. Dessa orquestração, eu esperava uma sinfonia que cantasse respeito com a trajetória do lugar, com as memórias do povo, com as celebrações da minha gente, com a minha própria história.
Ao invés disso, o som que fica é o da manipulação, do abafamento e da invisibilidade - características da ação dessa Igreja que aliena sob o discurso da libertação e que se apropria das histórias alheias para aplainá-las sob o peso da cruz.
Ironicamente, daquela igreja onde eu tinha memórias espalhadas em cada canto só sobrou a fachada. Casca sem miolo. Pão amanhecido sem as cores e os sabores da vida. Caixote sem as flores, os laços de fita ou as bandeirinhas coloridas. Hoje, mesmo com asas para voar, eu não teria espaço para brincar ao lado de São Sebastião.
Imagens: Wolney Fernandes
domingo, 5 de agosto de 2012
Meu Balão de Gás Hélio
Compro um balão de gás hélio e sento no banco do parque esperando os minutos passarem. Passam por mim dois meninos que me olham sem entender o motivo pelo qual um adulto está ali sentado com um balão colorido nas mãos.
Passa uma mãe levando o filho no colo. Ela retorna quando percebe o interesse da criança pelo balão. Me ignora e balbucia, em língua que só ela e o filho entendem, gracejos e odes à bexiga de gás.
Fico no parque até anoitecer. Por vezes, esqueço do balão e me assusto quando a brisa ensaia danças com ele ao meu lado.
Em determinado momento sou convidado a olhar o céu. Reclamo das luzes da cidade que ofuscam o brilho das estrelas me impedindo de localizar o Cruzeiro do Sul ou as Três Marias.
Minutos antes de ir embora, o fio que prende o balão se arrebenta e ele começa a subir sem rumo, mas em direção a constelações invisíveis. Invejo aquele vôo lento, errante, libertador... movido pela brisa noturna e cujo destino é um céu salpicado de estrelas que, embora ofuscadas pela iluminação urbana, traçam rotas inventivas e riscam desenhos de se perder de vista.
Foto: Wolney Fernandes
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