segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Dezessete de Dezembro de 2012 - segunda


Meu desejo era inaugurar nessas linhas uma maneira de não me repetir, mas fazer o que se sou um amontoado de repetições em ritos que adoro saber de cor? Em dezembro de 2011, comecei a colecionar os dias dezessetes de cada mês fazendo um diário que completa um ano hoje.

No final do dia, refiz o mesmo trajeto que inaugurou esta sessão em 2011. Caminhei pelas ruas do Centro com a sensação de que encontraria comigo mesmo: barba por fazer, cabelo mais curto, camiseta pintada a mão, olhar perdido em absurdos cotidianos. Abraçaríamo-nos em silenciosa compreensão e, em seguida, eu me explicaria o quanto é desnecessário o sofrimento em vão.

Depois de muitos dizeres, me encheria de afagos para que não fosse preciso dizer mais nada. A pele sendo a memória do corpo desenharia cicatrizes e sossegos que o Wolney de antes não ousaria experimentar.

E assim, de mãos dadas comigo mesmo, sem corromper a velha prosa sobre o tempo ou a falta dele, caminharíamos pela rua vasculhando perfumes conhecidos e aleatoriedades horizontais.

Afinal, reencontrar-se é uma das formas de seguir em frente.

Imagem: Wolney Fernandes

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Doce Novembro


a. A moça do caixa dá aquela risada gostosa sempre que um novo cliente se achega para comprar um sanduíche. Alguém pergunta a razão do riso e ela responde que sorri porque é feliz!

b. Ao sair do elevador ouço o porteiro comentar com a moça da limpeza: "Eu gosto mesmo é da empregada do 1207. Ela é show!"

c. No meio da manifestação, um jovem corre até a calçada para ajudar uma senhora a carregar as sacolas do supermercado.

d. O casal de idosos entra comigo no elevador. Ela pergunta: "que horas são?". Ele responde em tom de brincadeira: "Oração só tem na Igreja". Sem obter a resposta desejada, ela segue caladinha até a porta se abrir e eles ficarem no sétimo andar. Ouço ela reclamar antes da porta se fechar: "Tem coisas que não tem graça em lugares impróprios..."

e. Na ponte da marginal, uma senhora apressada parece não perceber que carrega o sol nas mãos.

Foto: Wolney Fernandes

domingo, 18 de novembro de 2012

Argo


"Argo" tem direção competente de Ben Affleck que [re]constrói uma história verídica de maneira brilhante.

Destaque para a ótima direção de arte que faz a gente ter a sensação de que o filme foi filmado no final dos anos 70. Época em que os iranianos invadiram a embaixada americana revoltados com a influencia dos EUA nos eventos que desencadearam um período difícil no Irã.


Para minha surpresa, o filme foge daquele padrão americano de contar histórias colocando a nação estadunidense como a salvadora de todas as pátrias do planeta. De maneira sincera, os eventos mostrados são desencadeados tendo a vida humana como o bem mais precioso de uma nação.


Mais uma vez a realidade é quem dá as cartas para a ficção, mostrando o quanto a vida real é permeada de boas histórias que já parecem prontas para a tela grande.

Minha única ressalva está no fato do protagonista ainda ser permeado de clichês do gênero. Mas nada que comprometa o bom resultado da narrativa. Vale a pena conferir!

sábado, 17 de novembro de 2012

Dezessete de novembro de 2012 - Sábado


Apesar dos desatinos de ontem é preciso manter a ternura no dia de hoje. Abro os olhos na manhã de sábado e antes que esse pensamento chegue ao fim, minha irritação me abraça. Seis e quinze e a persiana esquecida aberta na noite anterior deixa entrar uma luz que me desperta antes da hora. Maldito horário de verão.

O fato de ter que me arrastar até a janela para fechá-la coloca azedume em minha [in]disposição. Durante a minha expedição até a persiana, o vôo tremulante de uma borboleta que alcançou as alturas do décimo andar tenta manter a doçura do dia.

Consegue!

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Dias assim


Acordar na segunda-feira antes do despertador tocar e ter tempo para ouvir as trilhas do Abel Korzeniowski no banho.
Ir para o trabalho e sair de lá sem hora marcada para estar em outro lugar.
Almoçar naquele restaurante de comida caseira ouvindo as músicas mais bonitas, escolhidas a dedo no dia anterior.
Passar na porta do cinema no Centro no exato momento em que a sessão de um filme bom está para começar e ficar para assistir. Comprar pipoca e água com gás sem precisar de enfrentar fila. Entrar na sala e descobrir que a cópia do filme é legendada.
Voltar para casa depois da sessão e, no caminho, encontrar caixas de correio personalizadas para fotografar.
Em casa, depois do banho, adiantar dois trabalhos iniciados e ficar respingando imagens pela internet.
Convesar com amigos que querem saber do seu dia e, por puro desinteresse, ficar trocando pensamentos e conversas desimportantes enquanto o disco preferido toca sem pressa de acabar.
Ter vontade de tomar sorvete de creme e não ter preguiça de sair a pé para comprar.
Voltar sentindo os pingos da chuva que, sem aviso nenhum, começaram a cair.
Ler duas páginas do livro de cabeceira e adormecer em seguida sem fechar a janela do quarto.

Ontem foi assim e meu desejo é que seja assim para sempre.

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Common People Reading



O Common People Reading nasceu assim:

Primeiro veio o encantamento com a descoberta do tumblr “Awesome People Reading” que, como o nome sugere, publica fotos com curtas legendas de artistas de todos os campos e pessoas célebres de todos os tempos lendo um livro, um jornal, um roteiro ou qualquer coisa. A limpeza do blog e a lindeza das fotos, com um acervo bem graúdo, renderam horas e horas de namoro e fecundação… Daí pra invencionice foi um pulo, como sempre: por que não inspirar atuais e novos leitores/as com fotos de nós mesmo, simples mortais? Seguiu-se curto período de negociação com a rede já conhecida de leitores/as e as primeiras peripécias para produzir fotos em poses criativas, obras das nossas preferências e com autores das nossas devoções. Pronto: entramos na etapa da anarquia do compartilhamento e da recriação sem fim.

Ficou com vontade de participar? Envie sua foto para wolney7@gmail.com

Texto de Walderes Brito e foto de Wolney Fernandes

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Dezessete de outubro de 2012 - Quarta


Minha rota de fuga encontrou aporte nas últimas páginas do livro "Ao Anoitecer" de Michael Cunningham que eu, depois de meses de leitura arrastada, desejava terminar. Não porque o conteúdo da obra fosse maçante, mas porque o cansaço dos últimos minutos do dia não me deixavam avançar mais do que três páginas antes de dormir.

"Quem pode decifrar a profundidade e a natureza de nossas aflições?"

Abandonei a vontade de ver um filme no meio da fila e, com o livro em punho segui para o parque em plena tarde de quarta-feira, ávido para saber o destino de Mizzy, Peter e Rebecca, vértices de um triângulo curioso. Peter Harris, dono de uma galeria de arte contemporânea, com 44 anos é casado com Rebecca e, de repente, se vê extremamente perturbado e atraído pela presença do cunhado - Ethan, apelidado de Mizzy - vinte anos mais jovem, que precisa passar uma temporada hospedado em sua casa.

Mizzy é uma provocação ao conceito de liberdade porque embora o rapaz tenha todas as possibilidades diante de si, nunca consegue se decidir por nenhuma delas. O fascínio que ele desperta em Peter [e em nós, leitores] é ainda ampliado por dois trunfos, talvez perversos demais para qualquer pessoa com mais de 35 anos: beleza e juventude.

"Juventude. Impiedosa, cínica, desesperadora juventude. Ela sempre vence, não é?"

No meio de tantos questionamentos sobre liberdade e juventude colocados no livro, este com certeza foi  o que mais me tocou. Perto dos 40 anos começamos a ficar seduzidos por esse suposto poder absoluto que reside no simples fato de ser jovem e passamos a olhar a juventude de um outro lugar, sem saber exatamente onde está situada a linha muito tênue da maturidade.

O desfecho da história é brilhante. Eu que gosto de começos, fiquei fascinado pelo final do livro que entre tantas surpresas, nos convoca a olhar para nossos interiores em parágrafos impecáveis como este aqui;

"A história favorece os amores trágicos, os Gatsby e Anna K., os perdoa, ainda que acabe com eles. Mas Peter, uma figura pequena numa esquina indistinta de Manhattan, terá de perdoar a si mesmo, terá de acabar consigo mesmo porque parece que ninguém fará isso por ele. Não há estrelas folheadas a ouro sobre lápis lazuli acima de sua cabeça, apenas o cinza de uma tarde loucamente fria de abril. Ninguém vai esculpi-lo em bronze. Ele, como todas as multidões que não são lembradas, está esperando polidamente pelo trem que com toda a probabilidade nunca virá."

Sem mais, feliz por ter fugido das tarefas de todo dia, fechei o livro com aquela vontade de continuar nele!

Foto: Wolney Fernandes

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Cúmplice


No meio da fila para comprar o ingresso, desisti do cinema. Sem explicações para aquela súbita desistência sentei na praça de alimentação e vi um amor morrer. Ele, desolado, buscava o toque das mãos dela. Ela chorava silenciosamente. Rosto imóvel, lágrimas rolando sem parar.

Entre os dois, uma história inteira definhava frente ao silêncio que o choro fazia escorrer. Ao redor dos dois, riso e movimentação escondiam aquele amor agonizante. Nos minutos finais ele olhou no relógio e ela pegou a mochila. Partiram cada um para um lado.

Estranhamente, a vida continuou em seu movimento normal. Nenhuma música de fundo, nem mesmo um olhar de hesitação sobre o ombro. Ninguém fez nada diante da morte daquele amor. Nem eu.

Cúmplice, retirei-me da cena do crime com o coração na garganta.

Imagem capturada aqui.

domingo, 14 de outubro de 2012

Pequenas empresas, grandes negócios


No meio da praça, a vendedora de sombrinhas fotografa suas clientes para mostrar o quanto ficam mais bonitas usando o assessório.

Na esquina, parado ao lado do carrinho de flores, o vendedor de orquídeas aguarda a próxima venda com a máquina de cartão de crédito em punho.

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Maratona Dominical


Depois de anos, fui à missa de domingo naquela que já foi minha comunidade paroquial. Maratona! Minha alma de filho pródigo ficou logo no estacionamento da igreja quando a família do carro da frente saltou do veículo e o motorista resolveu dar uma ré sem olhar no retrovisor. Minha mão na buzina só serviu para me deixar surdo porque o moço ao volante nem percebeu quando seu carro bateu no meu.

Suspirei primeiro antes de abrir a porta do carro e já saí recitando o ato de contrição antes do pecado ser cometido. Entoei o hino de louvor quando verifiquei que não houve arranhões no para-choque enquanto a família feliz seguiu unida até a porta do templo sem se importar com o ocorrido.

Na entrada, um grupo de pessoas distribuíam boas vindas. A minha só foi dada depois de um convite para ajudar na catequese. Nestas horas, sempre me valho da triste condição de doutorando na justificativa pela não adesão ao chamado. Uma imagem insólita passou pela minha cabeça quando me imaginei frente a uma turma de catequizandos profanando todos os preceitos católicos e alargando a dúvida sobre o seguimento à Igreja. Sorte a deles por eu não estar disponível para a missão.

Antes mesmo de me sentar para aguardar o início da celebração, fui abordado por outra líder comunitária que, na aparente preocupação em saber notícias da minha família, me passou um santinho do seu candidato preferido e se certificou que a receita de macarrão, impressa no verso da foto, me faria um eleitor fiel. Mal sabe ela que eu nem sei cozinhar.

Suspirei aliviado quando os acordes do canto de entrada ecoaram pela igreja, mas meu alívio exauriu-se na homilia. Quando o padre sugeriu que o meu corpo poderia me levar para o inferno, eu aproveitei a deixa e convenci "o meu próprio corpo" a me levar para casa.

Ufa! Escapei por pouco.

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Prece para outubro


Por um outubro de miudezas, de movimentos que me arranquem sorrisos, de molecagens infinitas.

domingo, 30 de setembro de 2012

Em cada canto de setembro


No parque, uma família chega e o cachorro, em disparada, escapa para se refrescar no lago.

No bar, peço um cozumel ao garçom e ele, todo sem jeito, responde que não tem mel.

No facebook, um amigo do ensino médio me chama de beato ao saber que estou solteiro. Pergunto se ele se casou e me surpreendo quando ele responde que está saindo do terceiro casamento.

No shooping, uma mulher pede para que eu a fotografe entre a mãe e a filha.

No cinema, um avô senta ao lado do neto para assistir o filme na fila da frente. De dois em dois minutos, o menino pergunta quanto tempo ainda falta para a sessão começar.

Na livraria, a primeira linha de um livro me convence que vale a pena comprá-lo: "No final ela morre e ele fica sozinho".*

No trabalho, um ex-aluno vira meu professor.

Na pamonharia, a dona, de cara amarrada, me atende com um muxoxo inaudível querendo me fuzilar com os olhos quando peço uma pamonha. Sendo o único cliente do estabelecimento, trato de comer rapidamente sem olhar em sua direção. Ao me dirigir até o balcão para efetuar o pagamento, percebo que ela tenta esconder, sem sucesso, um livro da coleção Sabrina: "Prisioneira da Paixão". Saio dali com um sorriso escondido no canto da boca.

[*] Citação do livro Bonsai de Alejandro Zambra.
Imagem capturada aqui.

sábado, 29 de setembro de 2012

Sorria, você está sendo filmado!


Sorria! O mundo desaba, o leite transborda, o grande amor não é exatamente aquilo que se espera, muito menos o emprego. Mas esperam que você sempre diga sim, que esteja acompanhado, perca peso, seja bom em tudo, engula o choro e sorria. Esperam que você seja tudo aquilo que todo mundo espera. Não adianta, você realmente está sendo filmado e "calculado, mesmo sem medida".



Imagem do filme O Show de Truman. Olhei aqui.

Vale de Agonias


Coisas que estão dentro do meu Vale de Agonias:

- Nossa Senhora Aparecida sem cabeça
- Broca de dentista
- Peruca de nobre francês
- Minhoca espetada em anzol
- Palito de fósforo usado
- Colher enferrujada
- Cachorro da raça pincher
- Cachorro de camurça daqueles que só balançam a cabeça
- Cusparada no meio da rua
- Bituca de cigarro
- Olhos vidrados de boneca de porcelana
- Bife de fígado mal passado
- Botox em rosto deformado
- Cabelo vermelho do Sílvio Santos
- Cigarro atrás da orelha
- Fonte Comic Sans
- Quadros de temas religiosos com efeito 3D
- Cheiro e cor de jenipapo
- Significado da palavra limbo
- Faustão

Imagem do jogo Limbo. Olhei aqui.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Janela Indiscreta


É noite de sexta. A brisa fresca me conduz até a janela do quarto. Enquanto a boca articula conversas sem fim ao telefone, meus olhos são pegos de surpresa quando noto que o vizinho do prédio ao lado, sem camisa, dança em frente ao espelho.

Simultaneamente, na porta da Igreja Batista, uma noiva desce do carro preto sem se importar com o vento que carrega seu véu para longe. Cercada por ajudantes prestativas, ela se posiciona na entrada do templo enquanto o fino tecido é recolocado em seu lugar.

Percebo que o vizinho dançarino empunha o que me parece um microfone improvisado e, além da dança, inicia uma performance digna de um show de rock.

Uma senhora sai da padaria andando lentamente e tenho a impressão que irá demorar uma semana para atravessar a rua. A noiva desaparece na nave da Igreja enquanto ouço sons de trompetes misturados ao burburinho de vozes em torno da piscina do condomínio de luxo que fica do outro lado da rua. Um casal, na sacada, olha a noite, enquanto conversam.

Já não escuto mais o som do coro da Igreja. As luzes de freio dos carros que contornam a Praça Cívica vão diminuindo à medida que o sinal se esverdeia. A velhinha ainda está na metade do caminho quando termino de falar ao telefone. 

Apoteose no show que o vizinho cantor executa. De cima da própria cama, imagino eu, ele dá um salto até o chão se contorcendo até desaparecer do campo de vista da janela. Tenho vontade de aplaudir, mas ele volta à cena e me faz perceber que o show ainda não terminou. 

Alguém pediu bis e eu nem notei.

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Fome de Instantes


Na maior parte do tempo não adianta esperar de mim reações rápidas. Eu não sei fazer isso. Preciso respirar fundo, cheirar o ar e sentir a temperatura da água com a ponta dos dedos. Eu preciso pensar para responder porque meus dois neurônios - coitados! - não valem por um bifinho. Preciso abrir arquivos, revirar fichas e navegar por mares de teias de aranha e oceanos de pó.

Demoro para pensar numa boa resposta, demoro para dormir, demoro para gozar, demoro para lembrar o nome das pessoas e com certeza vou ter Alzheimer.

Eu preciso de tempo, de espaço e do vagar que puder obter, roubar, mendigar, ganhar e merecer. Tenho fome de instantes porque o tempo talvez seja a única verdade inquestionável da vida.

Imagem capturada aqui.

sábado, 22 de setembro de 2012

Você não mora mais aqui


Reaprendi a achar graça no cotidiano. Voltei a estender a mão só pra sentir os pingos da chuva e entendi que nem tudo precisa ser monótono. Passei a acreditar que aquele pôr do sol foi feito só pra mim e que o gosto meio amargo do chocolate é mero acaso.

Consigo sorrir novamente sem fazer festa para encobrir o silêncio*. A beleza voltou para o seu lugar em cada canto, em cada tempo, em cada despertar.

Já ouço "Fica" do Chico sem que a última estrofe me prenda em pensamentos vagos porque o meu coração, antes vazio, transborda o perfume do agora.

"Diz que é pra tomar cuidado
Sou um desajustado
E o que bem lhe agrada, meu bem
Mas fica
Mas fica, meu amor
Quem sabe um dia
Por descuido ou poesia
Você goste de ficar"

Com o gosto dos alívios na boca, abro os olhos e percebo que você não mora mais aqui.

[*] Citação do livro Mrs. Dalloway de Virginia Wolf.

Compartilhamento


E o movimento da vida continua intocável.
Só queria compartilhar...

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Esperando a primavera chegar


Com um sentimento de fatalidade, procurei possíveis perfumes debaixo de um Ipê amarelo e acabei adormecendo ali mesmo, esperando a primavera chegar.

Foto: Rosi Martins

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Dezessete de setembro de 2012 - Segunda


A segunda-feira não chegou com os contornos dos começos. Desde a sexta eu já havia começado a anotar tudo que a memória conseguiu guardar para escrever em meu Diário Dezessete. É por isso que não há pausas para espaços porque tudo aconteceu em tão pouco tempo.

Chuvaprincesaveioregartodaquenturadanaturezaquesepreparaparaparirmaisumaprimaveraáguanoquartonachegadadaviagemmeucoraçãopareciaventilarsossegoseapesardocalorfoiotimoexperimentarossaboresgeladosdaquieaardênciarefrescantedeláentrepasseioseencantoscadacantoparecianovopelaretinadeolhosdemergulharemolduradosporsobrancelhasquesemovemindependentementevontadedeaçaíconversasemhoraparaterminar...

Os dias parecem terminar mais cedo com esse horário louco do sol se pôr. Entre o sábado e a segunda, Alanis Morissette apareceu por aqui para colocar cores nos sabores de sempre. Tanta coisa interessante vivida desde sexta que, se eu não tivesse presenciado tudo, eu classificaria esse final de semana como implausível.

O próximo se passará pouco tempo depois da epifania em busca de uma música que supere essa aqui.

"I'm slipping again
I'm up to old tricks off my wagon
I have no defense
I'm wreaking havoc
Wreaking havoc and consequence"

Imagem: Wolney Fernandes

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Sobre escolhas e apuros


Dedos e olhos percorrendo lombadas variadas até encontrar um livro que me defendesse do tempo infinito da internet e também me condenasse a horas de leitura sem fim.

É terça-feira, a aula foi cancelada e meu trabalho nunca prometeu nada além de algo comum, então sinto que tenho o direito.

Percebo o pontilhado que percorre parte da capa e meus olhos resolvem seguir aquela trilha quase invisível. Entro sem me importar com o título - "Bonsai" - e me detenho na epígrafe de Gonzalo Millán:

"A dor se talha e se detalha "

Feito criança que deseja ouvir sempre a mesma história antes de dormir passo ao primeiro parágrafo como de costume e o livro de Alejandro Zambra consegue colocar quietudes em mim:

"No final ela morre e ele fica sozinho"

Não consigo mais devolver aquelas palavras à estante da livraria. A vontade de devorar a obra em uma mordida só, me faz levar o livro pra casa. Me delicio com a profundidade de cada paragrafozinho e fico feliz pela escolha.

Leio quase inteiro, mas perto do fim, vem a vida e resolve ficar apurada.

Imagem: Wolney Fernandes

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Caprichos de agosto


01. Dez dos 13 trabalhadores uniformizados limpam o canteiro da faculdade. Ao lado, os outros três fazem piquenique na relva.

02. Na livraria, o pai carrega a filha nos braços enquanto o filho mais velho corre entre as prateleiras. A mãe vê a correria e ralha com o menino. O pai pede que a mãe deixe o pequeno em paz. Zangada, a mulher lança um olhar frio para o marido e se dirige ao caixa sem olhar para trás. Ao vê-la se afastar, o pai chega bem próximo ao filho e sugere, carinhosamente, que ele escute o pedido da mãe. 

03. Recebo a seguinte mensagem no celular: "Que mundo é esse onde as lojas de brinquedo tem mais artigos de Patati Patata do que de Star Wars?!"
- Não sei, Ana, não sei! Que a força esteja com você!

04. Ele está com um dos pés para fora do carro e olha para ela como se esperasse uma resposta de uma pergunta inaudível. Ela chora sem conseguir disfarçar a briga que acaba movimentando a mesmice do estacionamento.

05. O grupo faz tremular bandeiras do candidato à prefeitura no cruzamento da avenida. A mulher de vestido estampado dança, rodopia e se destaca pela alegria e entusiasmo no final do dia.

Imagem: "Piquenique na Relva" de Manet

domingo, 26 de agosto de 2012

Eu quero ter um milhão de amigos*


Atualmente, 844 é o número de amigos que tenho no facebook e, amiúde, tem sempre alguém que se espanta com esse número. É claro que o espanto vem sempre seguido daquele discurso da seleção [nem tão natural assim. Te cuida, Darwin!] que as pessoas, mesmo sendo parte da rede, insistem em proclamar: "só adiciono quem eu conheço" ou mesmo "sou muito seletivo e só tenho no facebook as pessoas com as quais eu interajo na vida real"... hã?

Os mais radicais [segura essa!] promovem "festivais de unfollow" e se dedicam por horas a fio ao ato soberano de dar um "block" em quem não está interagindo [entenda por interação "curtir"e ou "comentar"] suas postagens. Interajo na medida que vejo e, as vezes, nem é preciso dar um like para que a interação aconteça. 

Por que essa nossa mania besta de querer transferir para as redes sociais as estruturas da vida real? Talvez quem pense assim tenha se esquecido de que a vida é descabida por natureza e, por isso, não cabe em lugar nenhum. No facebook, muito menos! Lá eu quero mesmo é ver e fazer o que nem sempre é possível do lado de cá da tela.

Quero mergulhar, encontrar e ser encontrado nesse mar de gentes. Espalhar pensamentos meus como quem joga papéis pela janela, poder falar com pessoas que moram do outro lado do mundo e brincar de viagem no tempo proporcionada pelos fusos horários mais variados. Quero ver paisagens da Tailândia, colecionar imagens de calendários antigos e me emocionar com frases prontas da Clarice Lispector. E se para tanto eu precisar de um milhão de amigos [Te cuida, Roberto Carlos!], que seja!

[*] Título retirado da música do Roberto Carlos.
Imagem capturada aqui

sábado, 25 de agosto de 2012

Confrontos


O vinho circulava em pequenas taças que tilintavam a cada novo brinde. Um breve esquecimento do mundo foi um direito que julguei merecer. A cada gole, fechava os olhos buscando o sabor imediato daquela ausência de mim que eu tanto almejava.

Desprovido do gosto dos esquecimentos, a cada conversa posta na roda o amargo da realidade se misturava ao doce do vinho tinto. Viagens ao redor do mundo me levavam de volta aos abarrotamentos do meu quarto. Amores derramados por anos a fio preenchiam meu coração vazio com os fracassos dos meus próprios afetos. Sucessos profissionais me lembravam o suor que derramei para cruzar a linha de chegada em terceiro lugar. Projetos para o futuro apontavam os espaços em branco do meu presente que não se ausenta.

Olhei para as migalhas de pão em meu prato e me juntei a elas. Naquela noite, não houve brechas em minha realidade por onde a alegria pudesse entrar. Ali, em meio aquela celebração profana, a vida me confrontou.

Imagem de James Gallagher. Olhei aqui.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Promessa


* Citação da música de Oswaldo Montenegro

Exercício de imaginação


Imaginar? tudo bem, vamos lá!
Eu seria uma dessas pessoas que sempre sabem onde estão, que se localizam olhando as estrelas sem dar trela para a voz do GPS. Meu pulsos, mais largos, ostentariam tatuagens desenhadas com escritas e eu nunca teria preguiça de fazer a barba.

Eu jamais guiaria um carro e não teria tanta raiva escondida aqui dentro. Eu teria tempo e um cinema inteiro só pra mim. Teria mais talento e menos vocação. Eu seria uma dessas pessoas que pensam depois de fazer. Usaria chapéu de côco e saberia colocar as vírgulas no lugar certo.

Eu faria jardinagem ou teria alguma outra atividade aristocrática. Não teria pesadelos. Teria um balanço na sala e um poster de "Volver" no quarto. Não aturaria desaforo nunca e só usaria camisetas com estampas de insetos.

Eu saberia fazer pratos de comer com os olhos e a academia seria o lugar do prazer. Acreditaria em tudo que não creio mais e nunca teria me apaixonado pela Julie Delpy.

Imagem capturada aqui.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012