quinta-feira, 5 de setembro de 2013
Ponto de continuação
Faltava uma esquina só. Na fome típica do trânsito do meio-dia, avistei a Kombi, parada, metade na rua, metade na calçada. O sinal fechou. Então eu pude ler no adesivo colado no vidro traseiro daquele veículo:
"Saudade do meu pai"
Nos minutos seguintes, me apropriei daquela saudade e pensei na ausência do meu próprio pai nesses vinte e dois anos desde a sua morte. Deu vontade de saber como seria uma conversa nossa, que irritações seriam derivadas de manias, minhas e dele, e se seus cabelos já estariam brancos. Dentro dessa vontade, descobri que sou forte nos outros e frágil em mim mesmo. Todas as vezes que tentei ir embora daquela saudade, não consegui.
Chorei um pouquinho só. Não pela impossibilidade de respostas, por incompreensão, mágoas ou desvios, mas pela vontade de colo.
O choro foi de saudade.
Tentei tirar uma foto, mas o sentimento colado na traseira da Kombi ficou ilegível diante da buzina que já gritava a pressa do sinal verde. Não me prolonguei. O choro foi curto, mas depois tive tempo de escrevê-lo. Aquela saudade foi apenas um ponto de continuação. Um pequeno milagre para entender que meu pai é a parte de mim mais resistente ao mundo.
Foto: Wolney Fernandes
terça-feira, 3 de setembro de 2013
Respostas
Porque a falta de rumo também nos paralisa.
Porque cometer os mesmos erros é bobagem, mas a gente nunca se dá bem com os novos.
Porque gastamos uma grana que não tínhamos em livros e sobremesas.
Porque enquanto ensaboamos a batata da perna, revelações metafísicas nos assaltam.
Porque a beleza nos cerca e tomará conta de nós, se nós tivermos coragem.
Porque é na bagunça do quarto que se encontra nossa vocação.
Porque os olhos da Birdy são, ao mesmo tempo, oceano de tristeza e encantamento.
Porque é uma delícia acreditar, mesmo no escuro do cinema, que alguém vai gostar da gente por toda a vida, que o todo talento será recompensado e que teremos coragem de tacar a lagosta viva na panela com água fervendo.
Porque nunca é tarde demais para outra colher de doce de leite.
Imagem encontrada aqui
Inspira, expira e pira!
Ganhar dinheiro, ir pra academia. Checar e-mails e curtidas no facebook enquanto o sinal não abre. Ler os clássicos e as indicações dos amigos, saber cozinhar feito chef de programa de culinária, ter paz de espírito - encontrada na posição de lótus, é claro! Estar bem informado das consequências provocadas pela variação do dólar em Taiwan, ser popular no instagram e manter uma dieta com alimentos da moda que ninguém sabe bem de onde vem.
Tempo, tempo, tempo...
Vou conseguir. Eu sei que vou conseguir: Inspira um, expira dois e pira no três!
Imagem de Jonathan Lichtfeld
domingo, 25 de agosto de 2013
Quem tem medo não olha!
Por ocasião dos festejos de São João, reza a tradição na pequena Lagolândia que, à meia-noite do dia 23 para o dia 24 de junho, quem tiver a coragem de verificar o próprio reflexo nas águas do Rio do Peixe garantirá, no mínimo, mais um ano de vida. Pobre daquele/a que não identificar sua imagem nas águas escuras porque não terá a sorte de alcançar a mesma data do ano seguinte.
Nunca tive coragem de arriscar uma olhadela. Já pensou? Olhar e não me enxergar?
Não é de hoje que meus medos me beijam na boca e não foram poucas as vezes que, em função desses beijos, não me enxerguei. Quando criança, era assim: Não gostava de ficar descalço, mas insistia em caminhar no cascalho como os outros meninos; Tremia diante de desconhecidos, mas tinha que "fazer sala" para não parecer mal educado; tinha medo de filmes de terror, mas assistia sob a lei que impus a mim mesmo de fechar os olhos nas cenas mais assustadoras.
Quem tem medo não olha, descobri assistindo Psicose no Domingo Maior.
Adulto, tive medo de ser artista e, mesmo fazendo arte desde sempre, preferi não olhar para aquilo que faz circular meus desejos de alegria. Havia, e de certo modo ainda há, uma necessidade de justificar meus rompantes poéticos por outras vias. A pedagogia e o design estão no topo do ranking dessas justificativas. Por elas, eu camuflei meus pequenos fazeres artísticos com um discurso que me distanciava cada vez mais de mim mesmo. Aos poucos, a arte foi esquecida no banco detrás para que minhas vistas se apoiassem na estrada das coisas de fora, das urgências que nem sempre embalam o meu coração.
"Como medir a distância que te separa do que você diz?"
A frase escrita na entrada da última bienal de arte em São Paulo já me preparava para o que eu veria ali. Muito daquilo que a bienal abrigava parecida dialogar intimamente com o que eu já fazia e, de repente, minha insistência em não querer enxergar o artista que eu sempre fui me pareceu distante demais, vazia demais.
Aquela experiência me trouxe o espírito da retomada e da reinvenção daquilo que eu sempre fui. É claro que não foi apenas o passeio pelos corredores da mostra que acionou essa vontade que eu já trazia aqui dentro de mim, mas foi quando o desejo transbordou e onde eu pude perceber que, apesar dos meus medos, eu já tinha coragem suficiente para olhar o que eu faço de um outro lugar... mais próximo, mais singelo e, exatamente por isso, forte o suficiente para me fazer encarar o artista que eu viro a cada dia.
Quero me reaproximar de mim mesmo. Diminuir a distância que me separa do que eu digo e não fazer disso um fardo. Há tantas possibilidades, muitos redemoinhos e atalhos para se percorrer o mesmo caminho, mas ainda assim, prefiro percorrê-lo com a sensação da volta pra casa.
Eu quero voltar a mim, sem pedir carona.
Imagem: Wolney Fernandes
segunda-feira, 22 de julho de 2013
domingo, 14 de julho de 2013
quinta-feira, 11 de julho de 2013
Afogamento
Na volta pra casa eu caminhava, inquieto, tentando mergulhar nas imagens ao meu redor. Entre uma preocupação e um clique, vi pai e filho saindo do hospital do câncer. O pai caminhava com os olhos dolorosamente baixos. O filho tinha tristeza transbordando no olhar.
Foi ali, naquela tristeza, que me afoguei.
Foto: Wolney Fernandes
terça-feira, 9 de julho de 2013
Notações sobre o silêncio
Em meio ao caos que habita o meu peito nas últimas semanas, tenho notado rastros de silêncio por aí:
"O silêncio fala"
[no facebook da Julia Mariano]
"Que silêncio alto!"
[na voz de quem gostou da peça "Uma Noite de Lua" de João Falcão]
"Há um silêncio no qual nenhum som se faz ouvir.
Há um silêncio no qual som algum pode existir"
[do filme "O Piano"]
"Criar o vazio em torno de si para encontrá-lo em si. Não ouvir mais ninguém, não dizer mais nada. Escutar o seu silêncio."
[no facebook do Sérgio Veleiro]
"Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura"
[do poema "Escuta" de Manoel Bandeira]
"Ouvido insone
motor de carros passando na rua;
buzina de carros;
buzina (buzina?) de trem passando longe;
latido de cachorro.
pingos;
tique-taque de relógio;
minha respiração;
pulsação do meu coração;
meus pensamentos."
Rua Fernando Esquerdo, 08/07/2013, 22h43
[no facebook da Késia Decoté]
"De repente a música parou e, na quietude da tarde eu pude ouvir o relógio de pulso no canto da mesa. Tive medo daquele silêncio em forma de tique-taque."
[eu, em uma nota no celular na tarde da última quinta-feira]
Foto roubada no Instagram do Raí Costa Filho. Porque nela o silêncio transborda em delicadezas difíceis de nomear.
domingo, 7 de julho de 2013
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Utopias Transgressoras
A moça viu essa foto e comentou assim: "Me chamou atenção o cartaz "Pessoas Soltas", isso está espalhado por todo centro goiano... Depois de uma pesquisa, descobri que é do artista Oscar Fortunato. Só não entendo porque isso é arte, mas tudo bem..."
Tudo bem não entender porque isso é arte, afinal de contas, a obra de Oscar Fortunato está intimamente vinculada a práticas artísticas que não se sabem separadas da vida. E aqui, "vida" também se soletra com as nove letras da palavra r-e-a-l-i-d-a-d-e.
Seu território é o cotidiano. No ritmo acelerado da cidade as intervenções do Oscar traçam deslocamentos sutis e experiências anônimas que deixam vestígios de uma arte avessa aos circuitos das instituições. E é assim porque seus múltiplos sentidos se cumprem no modo como as pessoas interagem com o movimento urbano.
Basta apenas ter a atenção roubada, sem que se precise elaborar entendimentos sobre arte, para que a experiência artística se torne real. É assim que a transformação se opera, sutil e silenciosamente, e ainda assim, forte o suficiente para promover deslocamentos, reconhecimentos, pausas e instigar perguntas sobre a realidade e o que nela está posto.
Dos cartazes que anunciam carnes exóticas do açougue dos Irmãos Staden aos adesivos que dão formas as mais variadas expressões tipicamente goianas - "Ê Goyaz véi!" - passeamos pela reutilização "desabusada" e crítica dos saberes, dos espaços e das linguagens de quem nasceu aqui no meio do Brasil. Essas astúcias formam uma rede de profanações poéticas que devolvem ao uso comum o que nem sempre está acessível a todos. O que sai da minha boca pode ser arte? Assim, os problemas da vida urbana são incorporados como valores artísticos e constituídos como uma prática ao mesmo tempo crítica e acessível.
Desse tipo de arte todo mundo deveria entender, pois ela guarda sua singularidade e autonomia ao fundar uma nova compreensão de que somos nós também os responsáveis pela criação dos significados daquilo que vemos. Não é preciso que alguém diga o que é arte para que saibamos o que nos afeta, nos [co]move e indigna. Quando Oscar Fortunato borda cada canto da cidade com seus corações e provocações, propõe transbordamentos possíveis na forma como vemos e interagimos com nossa realidade.
Uma arte com pronúncia goiana, que reside na fluidez entre o que se é, o que se faz e o que se vê. Por ela, somos convidados a olhar pra nós mesmos e entender que é real a possibilidade de interferir nos espaços da cidade, recriá-los à nossa maneira e transformá-los em ambientes mais propícios à vida que desejamos viver. Uma espécie de utopia transgressora que entre tantas incertezas, promove desejos eloquentes de mudança. No cartaz apenas duas palavras: "Pessoas Soltas", mas nas entrelinhas, inúmeras possibilidades.
Há de se ter mais "Pessoas Soltas" em cada esquina. Diferente de um "Jogo do Bicho", que os políticos sejam mais do que números impressos em cartazes e apostas incertas. Que os acordes dados pela "Orquestra Filarmônica de Mozarlândia" conduzam um despertar coletivo e efetivo da cultura em nosso Estado. E que a poesia explícita na profecia "Do Guapó visestes, ao Guapó voltarás" nos faça olhar para os lugares de onde viemos no desejo de tomar nossas próprias histórias pelas mãos.
Rensga!
A foto é do Teo Neto.
A obra do Oscar Fortunato você pode conhecer clicando aqui.
sexta-feira, 31 de maio de 2013
Aquário de bem querer
Não há medida para um bem querer, mesmo que ele caiba em um aquário amarelo e que seja possível de se receber pelo correio.
"Sabe, vida dentro de vida e dentro dessa vida uma outra vida?"
Sei sim, afinal de contas, bem querer também se guarda em embrulhos de papel celofane, em latas de sorvete e até em escamas de peixe. O que eu não sei é dizer das intensidades que cada gesto desse parece conter. Talvez só os silêncios pronunciados por olhos marejados de lágrimas consigam explicar.
Então pra quê escrever? Acho que é tentativa de nadar pelo rio que esse aquário fez transbordar por aqui. As intensidades são, elas mesmas, sentimentos desmedidos que exalam cheiros, toques, vontades e sorrisos. Sempre fui de intensidades e, embora minhas estabilidades tenham me orientado para um suposto equilíbrio, ando prestando atenção naquilo que me faz vibrar em outra frequência.
Por isso a necessidade do registro. Por isso, escrevo.
Talvez por confrontar a morte tão cedo, venha a ansiedade para dizer tudo. Talvez, por ter sido obrigado a desbravar meus próprios caminhos, venha a vontade de deixar uma espécie de mapa. Talvez por ter esperado demais, venha essa pressa de querer abrir a caixa só pra sentir a textura do bem-querer entre os dedos e saber que cor ele tem.
Dentro do aquário amarelo, o bem querer parece ter sido desenhado pelos meus traços, cabendo só a mim reconhecê-lo. Por ele, sou capaz de assimilar toda beleza que reside no gesto de alguém que me espera enquanto eu fotografo flores.
[...]
Diante do conteúdo desse aquário amarelo, "sou menino-passarinho com vontade de voar". Com o melhor sorriso no rosto, fecho os olhos e aguardo, neste lento aprendizado que é abrir os dedos e deixar que o vento do mar chegue e, todo o resto, frutifique.
Foto: Wolney Fernandes
terça-feira, 21 de maio de 2013
domingo, 19 de maio de 2013
Bagunças de um futuro inquieto
Eu até tento perder o meu medo de errar. Mas não tem jeito, vira e mexe ele sempre reaparece no meu bolso. Mexe e vira ele está sempre no meu encalço. Sim, eu sei que o ônus em assumir as responsabilidades por minhas escolhas é todo meu, mas eu sou um frouxo, sabe? Se as escolhas feitas não me levaram ao horizonte imaginado por mim há seis anos atrás, eu tendo a espalhar a culpa por aí com medo de que, reunida em meu peito, essa mesma culpa me sufoque em inércias inomináveis.
Não gosto de me sentar sozinho no banco dos réus. Preciso de cúmplices. Há de ter um bando de culpados que, ardilosamente, arquitetaram a bagunça que virou minha vida. "É hora de fazer faxina!" - alguém me aconselhou e o desaforo que engoli diante dessa indicação eu vomito aqui: Só se for faxina definitiva, sabe? Sempre achei que quando a gente arruma demais, não sobra espaço para o inesperado... mas quer saber? Às favas com o inesperado! Tô cansado de faxinar o presente para o futuro (abusado!) desarrumar tudo em seguida.
É uma merda entender que a incerteza é a única constante da vida. Parece que não há saída. Mesmo assim, quero poder programar viagens para o próximo sábado ou para daqui a seis meses sem ter que fazer malabarismos para dar conta delas. Não quero me surpreender comigo mesmo, só quero de volta os planos para fazer esse futuro se aquietar diante de minhas arrumações. E guloso que sou, também quero planos para guardar na manga. Um monte deles! Todos engomadinhos e traçados com régua paralela.
Foto: Wolney Fernandes
quinta-feira, 16 de maio de 2013
Transbordamentos
Tenho receio dos embrutecimentos. Ainda desejo a possibilidade da lágrima provocada por um filme. Tenho medo de ficar monocromático e não sentir falta das cores, dos cheiros, da música, dos gritos... Medo grande de caber em mim mesmo e impedir os transbordamentos.
Prefiro entender que os dias são tão delicados e plurais, que a beleza é fácil de compreender, que a chuva e o fogo, o sublime e o grotesco, tudo isso cabe em mim. E que os derramamentos disso tudo se cumpram sem minha guarda constante.
Vez em quando desejo uma equação que solucione os meus dias, mas na maioria deles, vago em busca de beijos de língua, de pessoas e imagens que provoquem a minha escala Richter, uma possibilidade de perfume, um pedaço de futuro, uma carta... quem sabe?
Imagem de Joe Webb
quarta-feira, 15 de maio de 2013
Diagnóstico
Enquanto esperava pela consulta no oftalmologista, conjurei diagnósticos possíveis para os sorrisos que tem tomado meus olhos nas últimas semanas: cataratas de insanidade, miopia passageira, astigmatismo que embaralha distâncias, aumento da pressão ocular e cardíaca... cegueira?
O que veio em seguida foi promessa de mar: "Você tem uma visão ótima!". Suspirei atravessado por certa decepção. "Não, doutor! Me diga que há algo errado para que eu possa cuidar enquanto há tempo". Não seria loucura demais tantos sorrisos trocados por dias e madrugadas a fio? Na certa eu estava enxergando tudo distorcido.
"Nem de óculos você precisa!" - concluiu.
Saí do consultório decidido a procurar um outro profissional, mas havia um mar tão lindo refletindo o fim do dia que, de súbito, fui tomado por um espírito aventureiro. É outra estação. O que pode dar errado sob a atmosfera de tanto bem-querer?
Não há nada de errado com minhas vistas. Foi o médico quem atestou. De todo modo, há sempre a possibilidade de contar com o sol, mojito na mão, desenhos na areia e óculos escuros. Mesmo com a visão embaralhada pela pupila dilatada, caminhei tão levemente que negligenciei a vontade de ouvir a opinião de outro profissional a respeito.
Aproveitei para comprar filtro solar, tirar as bermudas da gaveta e prometi conchas para mim mesmo!
Imagem capturada aqui.
quarta-feira, 8 de maio de 2013
Contracorrente
Preciso mandar à "puta que pariu" aquela vaga impressão de que eu poderia ter me dedicado mais quando algo na vida não soar conforme meus planos. Não é excesso de confiança e nem negligência. É cansaço mesmo!
"Eu que não me sento
no trono de um apartamento
com a boca escancarada
cheia de dentes
esperando a morte chegar"
Não é de hoje que nado na contracorrente daquilo que estava traçado para o meu futuro. Desde a saída da minha cidade natal até o traçado de uma tatuagem que carrego comigo exigiram uma resiliência absurda e pequenos respiros [e suspiros] para me manter são nesse mergulho para águas mais profundas.
Mesmo assim, vez por outra, ainda me cobro posicionamentos, planificações, planos para daqui 5 anos, relacionamento estável, financiamentos para trocar de carro e uma noite com oito horas de sono. Saco isso!
Talvez meus dias de Pollyanna surtada estejam terminando. Acreditar que tudo vai dar certo no final pelo nível do meu esforço - acima da média, diga-se de passagem - não tem surtido efeito. Fica a impressão que é preciso um pouco mais de força para guinar a vida para onde ela deveria estar, mas ando sem forças para tanto. Ás vezes, até penso que aquele momento, o turning point, já passou. Então de que adianta tanta dedicação?
Preciso mesmo é dizer "foda-se!" ao invés de só pensar, ir mais ao cinema, viajar quando der na telha e sair às quintas à noite. Pena que ganhar na Mega Sena não seja uma alternativa válida.
Foto: Wolney Fernandes
Trecho da música "Ouro de Tolo" de Raul Seixas
terça-feira, 7 de maio de 2013
Saudades de mar
"Meus pensamentos são todos sensações"
[Alberto Caeiro]
Para embalar saudades de mar, coloquei meus sentidos aqui.
sábado, 4 de maio de 2013
Sobre moderações, limitações e instantes de felicidade
Moderar as exigências não é, necessariamente, contentar-se com pouco. É aprender a enxergar as limitações e, com isso, identificar o que me prende para esboçar o rumo necessário para que as coisas cheguem no seu devido lugar.
Tendo, nesse Maio tépido de atropelos e pequenas alegrias, sempre optar pela felicidade. O que não me impede de me descontrolar um pouco de vez em quando.
Sinto coragem. Sinto uma coragem tanta, daquelas de cair no vazio mesmo não sabendo se a corda vai suportar. E naqueles parcos segundos quando a corda traciona, sentir a sensação de flutuar.
Ter coragem também implica em deixar para trás, afinal, nessa coisa de viver também existe um componente de renúncia. Quero um mês brand new, aquela coisa bem Drummond. Nem que isso signifique sacrificar minha ilusão mais doce: seja para torná-la real ou para, finalmente, enterrá-la.
Imagem de Laurindo Feliciano.
Deslumbramentos de cabeceira
Na mesinha ao lado cama, há sempre três ou quatro livros que leio, alternadamente, segundo uma ordem ditada pelo caos da minha vontade que muda a cada adormecer. Os deslumbramentos das últimas semanas tem sido assim:
01. O Olho da Rua [Eliane Brum]
"É tão estranho", ela diz. "Eu passei a vida inteira batendo ponto, com horário pra tudo. Quando me aposentei, arranquei o relógio de pulso e joguei fora. Finalmente eu seria livre. Aí apareceu essa doença. Quando tive tempo, descobri que meu tempo tinha acabado".
02. A Vida Privada das Árvores [Alejandro Zambra]
Sabe-se que muito em breve Ernesto não voltará mais. Imagina-se desconcertada, e depois furiosa, e finalmente invadida por uma decisiva quietude. Tudo bem, era sem compromisso, como deve ser: ama-se para deixar-se de amar e se deixa de amar para começar a amar outros, ou para ficar sozinho, por um tempo ou para sempre. Esse é o dogma. O único dogma.
03. O Filho da Mãe [Bernardo Carvalho]
Nas montanhas, todo homem tem um kunak, um amigo estrangeiro que o salvará da morte e que ele também tem a obrigação de salvar. Nenhum homem será completo enquanto não encontrar o seu kunak. Só então poderá seguir o próprio caminho em paz, sabendo que existe no mundo alguém, como ele, com quem ele pode contar na vida e na morte. As quimeras morrem para que sobreviva o pacto dos que não podem contar nem com Deus nem com os anjos.
04. Toda Poesia [Paulo Leminski]
tudo em mim
anda a mil
tudo assim
tudo por um fio
tudo feito
tudo estivesse no cio
tudo pisando macio
tudo psiu
tudo em minha volta
anda às tontas
como se as coisas
fossem todas
afinal de contas
Foto: Wolney Fernandes
segunda-feira, 22 de abril de 2013
Imperativo
Ternura
Encontre-me. Aqui, onde o caminho se divide.
No fim, encontra o solo
toca suavemente entre os dedos.
Alegria
Leve-me. Aonde você quiser. Quando você quiser.
Eu sempre quero.
Dor
Deseje-me. Diferente, de modos variados
só não me pergunte do que se trata.
As distrações de sempre, penso eu.
Experiência
Molde-me. Manipule-me.
Diga-me quem sou.
Desejo
Faça-me.
Foto: Wolney Fernandes
sábado, 20 de abril de 2013
quinta-feira, 18 de abril de 2013
Sob o signo da efemeridade
Um dia, finalmente, vou deixar tudo que me prende para trás. Vou esvaziar as malas pesadas, colocar um música no bolso, criar coragem e sair porta afora. Vou superar os traumas sem deixar rastros. Vou abandonar meus medos e partir.
Vou deixar os títulos que almejo babando nas cadeiras da sala de aula e abandonar minha impaciência velada com os outros. Vou deixar que pensem o que quiserem de mim. Vou contar as verdades, letra por letra, sem medo delas ferirem quem me cerca. Vou afogar as mentiras no rio e espantar os fantasmas com sons que só as mãos dos pianistas conseguem pronunciar.
Um dia, conseguirei transformar essa atual imobilidade em movimento. Vou dizer adeus e partir deixando as amarras que me prendem penduradas na janela. Só vou querer noites de lua cheia para iluminar meus caminhos errados madrugada adentro. Viverei sob o signo da efemeridade e serei conduzido pelo sabor de uma felicidade besta, mas sincera.
E, sorrindo pela sensação boa do vento batendo no rosto, flutuar...
Foto: Wolney Fernandes
segunda-feira, 15 de abril de 2013
Pequenas racionalidades
Como a brisa fria que teima em vencer paredes e toldos, ali pela quinta marcha um pensamento chega sem aviso: Talvez eu só queira voar. Com o cérebro encharcado de aleatoriedades, você se apega a pequenas racionalidades, essas preocupações mesquinhas habituais que tanto ocupam nosso tempo numa segunda-feira: voar!
Talvez, se os bons ventos soprarem à favor, minha vida finalmente exploda num carnaval que não chega nunca. Talvez, no mais simples esforço de manter o atual status quo, as melhores epifanias dos últimos 17 anos aconteçam. Talvez...
Talvez, eu só queira voar, mas não saiba para qual lado o vento vai soprar.
Imagem capturada aqui.
quarta-feira, 10 de abril de 2013
As tais explicações
Por que não ignorar algumas minúcias desnecessárias da vida? Por que não se contentar com o presente? Por que a insistente vontade de explicar todas as coisas, biblicamente, cientificamente, geograficamente...?
Sempre as tais explicações.
Talvez seja preciso beijar o acaso, sentir as flutuações do humor, olhar com carinho para os caminhos [estranhos?] que começamos a percorrer sem razão lógica ou aparente.
Por que não esquecer as forças gravitacionais que nos atam firmemente ao chão, que acabam por nos impedir de olhar, um pouquinho que seja, para além do precipício? Por que não contrariar, pelo tempo necessário, os próprios totalitarismos?
Depois, eu sempre levei a vida a sério demais. É hora de lembrar o que realmente importa: que nem sairei vivo dela mesmo.
Foto: Wolney Fernandes
domingo, 31 de março de 2013
No embalo das Imperfeições
Ando sem vontade de fazer a barba, nem cortar o cabelo. Sorrio do meu eventual desapego e me divirto com minhas negligências estratégicas, meus pequenos desvios de caráter. Não ando afim de lavar meus sapatos e não estou nem aí para o caos do quarto ou do barulho do colchão. Sinto vontade de erguer um altar à preguiça e a procrastinação. Mesmo em domingos ensolarados não me movo do travesseiro e do edredom. Durmo na alta madrugada, muito embora meu sono entrecortado me acorde antes das oito da manhã. Não sinto vontade de voltar pra casa depois de um dia difícil.
Amanhã, além de segunda-feira também é dia primeiro e meus planos de vida saudável e arrumações profissionais parecem perdidos em meio a tantas contas a pagar. A rotina desce mordendo os calcanhares e me vejo de lá a cá, perdido em mil obrigações fúteis. As relações de trabalho obrigam a me submerter à servilidade do rapaz de recados, a desligar o telefone diante de novos pedidos e encomendas.
Os amigos brilham em volta e até mandam notícias para dizer que eu poderia estar ali e acolá. Estarei, em breve, agora que março finda só me resta este mergulho vertiginoso até junho, meu novo ano novo, e a esperança recorrente de que, sim, vai melhorar. Não sei onde será meu reveillon e muito menos para quem venderei minha alma [e quem sabe o corpo, se sorte tiver] a preço de liquidação.
Tenho entrado no elevador e esquecido de anotar os instantes que colocam sorrisos em mim. Finjo uma pretensa segurança enquanto escovo os dentes, adio a faxina enquanto o caos se instala pelo peito e, na espera de algo que ainda parece estar a milhares de quilômetros, sigo dançando sozinho pelo quarto. Só ali, no meio dos acordes que me embalam é que tenho conseguido abalar minhas inúmeras imperfeições.
Foto: Wolney Fernandes
Andeiro
estende os braços pro desfiladeiro
carrega sobre os ombros toda história
que viu e ouviu ao pé do tabuleiro
É dono do silêncio mais profundo
que por sinal é o som mais verdadeiro
de tudo o que se passa neste mundo
de tudo o que é eterno e passageiro
Seus braços bem abertos para a vida
acenam de um modo sobranceiro
despedem quem já estava de partida
e acolhem quem fugiu do aguaceiro
E eu que só estava de passagem
me sinto em casa nesse paradeiro
deixei de lado o peso da bagagem
e repensei meu rumo, meu roteiro
e recontei meus passos de andeiro"
[Gladir Cabral]
Foto: Wolney Fernandes
Foto: Wolney Fernandes
quarta-feira, 27 de março de 2013
Quase todos os medos
Quase todos os medos que não tem nome. Medo de esquecer o discurso em casa, medo de não saber a coreografia na hora em que todo mundo tem que dançar junto. Medo do dia da foto da escola, medo de brinquedos que se mexem sozinhos, medo de andar descalço.
Medo de errar e persistir no erro. Medo de não ter coragem de desistir quando necessário. E, principalmente, medo de ser sempre apenas uma promessa, de viver um eterno quase, um imutável "ainda não".
Foto: Wolney Fernandes
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