sábado, 26 de outubro de 2013

A Lua Me Disse


Coloco o livro na mesinha à minha frente enquanto sou enforcado pelo último botão da capa que envolve meus ombros e aperta meu pescoço. Reclamo ao cabeleireiro, mas o papo que ele trava com a mulher  ao lado parece bem mais eloquente que o meu pedido de socorro.

Tenho sorte porque a atenção da mulher sob a touca de papel alumínio se volta para o livro que eu deixei na mesa: "Posso ver?" ela pergunta já estendendo a mão sobre o mesmo. Incapaz de pronunciar uma palavra, eu aceno que sim com a cabeça, e finalmente meu desespero é notado pelo cabeleireiro que afrouxa a capa e dá início à preparação do corte.

"Máquina 1 ou 4?"

Antes que eu responda ele já está com a máquina de número 1 ligada e, graças a minha gagueira, quase saio de lá pronto para me ingressar no exército. Respiro fundo enquanto a dona do lado folheia o livro demonstrando todo o interesse em encontrar naquelas páginas um sentido para sua vida.

Depois da máquina, sinto a tesoura raspar de leve a minha orelha e minha atenção se volta para as mãos rápidas do cabeleireiro com aquele medo-menino de ter parte da orelha arrancada. Fecho os olhos e rezo.

Minha oração é interrompida pela dona do lado que me cutuca para perguntar de onde é o autor do livro. Abro os olhos com medo do que vou ver no espelho e respondo rapidamente que Valter Hugo Mãe é de Portugal. Boquiaberta, a senhora revela aos quatro cantos do salão que o referido escritor parece ter burilado para ela os trechos devorados naqueles minutos de leitura de "Nosso Reino".

Já conformado com o estrago que as mãos pesadas do profissional vai fazer na minha cabeça, vejo que minha vizinha de espelho anota algo que ela encontra no livro: "Estou pegando o endereço da editora para tentar contato com ele. Sou espiritualizada e minha vida é regida pela lua. Encontrar esse livro aqui só pode ser um sinal. Preciso desse homem na minha vida" - explica como se estivesse fazendo a lista de compras da semana.

Antes que eu consiga esboçar um sorriso, uma funcionária do lugar aparece por trás da leitora e ameaça tirar a touca que ela traz na cabeça: "Vamos cortar desta vez?" pergunta a profissional. "Nem pensar!" responde com eloquência e completa: "Lua minguante, minha filha! Ninguém toca em um fio do meu cabelo nesse período".

Prometo a mim mesmo que da próxima vez, vou esperar um eclipse lunar antes de me aventurar novamente por salões do Centro da cidade. "Lua minguante para o cabelo, mas crescente para as coisas do coração" ela me explica em tom confidencial com o endereço da editora anotado em um pedaço de papel que ela dobra e guarda entre os seios fartos.

Não consigo conter meu riso e, por um instante, me esqueço da festa que acontece na minha cabeça e para a qual nem fui convidado. Meu sorriso morre ao olhar no espelho e ver o barbeiro abrir a gaveta à minha frente com um movimento rápido.

Ele pega a navalha. Eu engulo seco.

Imagem capturada aqui

Vozes femininas


No embalo de vozes femininas fiz o caminho de volta para Goiânia. Nessa toada, a viagem foi recheada com boas descobertas.

01. Proud - Heather Small
02. Wildest Moments - Jessie Ware
03. PrimeTime - Janelle Monáe
04. O Céu do Dia em que Nascemos - Daniela De Carli
05. Running to the Sea - Royksopp ft. Susanne Sundfor
06. Satellite - Little Boots
07. Thirteen Thirtyfive - Dillon
08. Kiss - Mélanie Laurent
09. Cross Your Fingers - Constance Amiot
10. Do You Remember - Ane Brun
11. Daniel - Bat For Lashes
12. Por que Brigamos - Bárbara Eugênia
13. Riverside - Agnes Obel
14. It's Not - Aimee Mann
15. Runaway Love - Alice Gold
16. Concha do Mar - Ana Clara Horta
17. How Many People - Ayo
18. This Girl`s Prepared For War - Bic Runga
19. Palavras do Coração - Bruna Caram
20. For Everything A Reason - Carina Round

Foto: Wolney Fernandes

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Valsinha


Na saída do cinema, a chuva.
Aproveitei para dançar com ela.

Foto: Wolney Fernandes

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Pela beleza dos começos


Eu que gosto dos começos, no meio da viagem para o décimo andar do meu prédio, abro o livro e encontro isso aqui:

"era o homem mais triste do mundo, como numa lenda, diziam dele as pessoas da terra, impressionadas com a sua expressão e com o modo como partia as pedras na cabeça ou abria bichos com os dentes tão caninos de fome.

era o homem mais triste do mundo, diziam, incapaz de fazer mal a alguém, apenas metendo dó, com olhos de precipício como se vazios para onde as pessoas e as coisas caíam em desamparo. mas era impossível não os fitarmos, fascinados por eles como ficávamos..."

O livro é "Nosso Reino" do Valter Hugo Mãe.
Quem me emprestou foi o Walderes.
A foto é da Mariana Leme. Achei aqui.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Na última parada


Um Degas enfeitava a última parada em Orizona. Junto dele, um pedido da moça do caixa: "Depois vocês voltam, tá?"

Foto: Wolney Fernandes

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Quando já se conhece a temperatura da água


Um dia, a gente acorda, olha pra frente e vê que o presente já é o futuro. E daí sente uma necessidade de renovar o contrato com seus desejos, sabe? Ou quem sabe rompê-lo, diante dessa certeza meio angustiante, de que o presente não está assim tão legal quanto você desejou lá no passado.

Já não são tantos os horizontes. Já se conhece a temperatura da água e o balanço do barco já não nos tira do prumo. Bom que não dá enjoo. Ao menos não nesse menino que, mesmo depois do recreio, vive rodopiando e acreditando que a brincadeira pode continuar na sala de aula.

Traçar novos rumos, no presente, parece mais difícil do que no passado. O coração, macio como a pluma da almofada do velho sofá, já está bordado com desenhos de antes. Em função disso, a maior vontade de todas é deixar a vida seguir seu rumo sem novos arranjos e arrumações. Deixar os pingos correrem em maratona para seus "i" enquanto se desfruta de brisa fresca.

Vento no rosto é bom, né? Escrevo tudo isso com uma certeza só: sejam quais forem os planos, quero sempre essa sensação pura de quando se tem sete anos de idade. Mesmo que a barriga já insista em desafiar o botão da calça e os pêlos do peito já estejam cada dia mais brancos.

Foto é do Pedro Fonseca. Peguei aqui.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A Volta


Na passagem para Orizona/GO, o moço do guichê escreveu assim: Volta.

Tudo bem, eu volto!

Foto: Wolney Fernandes

domingo, 8 de setembro de 2013

"O menino que carregava água na peneira"


Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
Era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre os orvalhos.

A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira
Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu que era capaz de ser noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro botando ponto final na frase.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menina fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho, você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios com as suas peraltagens
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos.

[Manoel de Barros]

Imagem capturada aqui.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

"Esperame En El Cielo"


Meia tarde garimpando músicas pela internet. Um céu inteiro de boas canções.

01. Megalomania - David Lemaitre
02. I Need My Girl - The National
03. Changing of the Seasons - Two Door Cinema Club
04. Electricity - Orchestral Manoeuvres in the Dark
05. King and Lionheart - Of Monsters and Men
06. Tell Me a Tale - Michael Kiwanuka
07. Ballad of the Band - Felt
08. Já vou tarde - Phill Veras
09. Different Pulse - Asaf Avidan
10. Wrecking Ball - Miley Cyrus
11. Born Too Late - Dent May
12. Break it to You Gently - Camera Obscura
13. Weight - Mikal Cronin
14. Action Is My Middle Name - Morissey
15. Esperame En El Cielo - Mina

A foto eu encontrei aqui.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Ponto de continuação


Faltava uma esquina só. Na fome típica do trânsito do meio-dia, avistei a Kombi, parada, metade na rua, metade na calçada. O sinal fechou. Então eu pude ler no adesivo colado no vidro traseiro daquele veículo:

"Saudade do meu pai"

Nos minutos seguintes, me apropriei daquela saudade e pensei na ausência do meu próprio pai nesses vinte e dois anos desde a sua morte. Deu vontade de saber como seria uma conversa nossa, que irritações seriam derivadas de manias, minhas e dele, e se seus cabelos já estariam brancos. Dentro dessa vontade, descobri que sou forte nos outros e frágil em mim mesmo. Todas as vezes que tentei ir embora daquela saudade, não consegui.

Chorei um pouquinho só. Não pela impossibilidade de respostas, por incompreensão, mágoas ou desvios, mas pela vontade de colo.

O choro foi de saudade.

Tentei tirar uma foto, mas o sentimento colado na traseira da Kombi ficou ilegível diante da buzina que já gritava a pressa do sinal verde. Não me prolonguei. O choro foi curto, mas depois tive tempo de escrevê-lo. Aquela saudade foi apenas um ponto de continuação. Um pequeno milagre para entender que meu pai é a parte de mim mais resistente ao mundo.

Foto: Wolney Fernandes

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Respostas


Porque a falta de rumo também nos paralisa.

Porque cometer os mesmos erros é bobagem, mas a gente nunca se dá bem com os novos.

Porque gastamos uma grana que não tínhamos em livros e sobremesas.

Porque enquanto ensaboamos a batata da perna, revelações metafísicas nos assaltam.

Porque a beleza nos cerca e tomará conta de nós, se nós tivermos coragem.

Porque é na bagunça do quarto que se encontra nossa vocação.

Porque os olhos da Birdy são, ao mesmo tempo, oceano de tristeza e encantamento.

Porque é uma delícia acreditar, mesmo no escuro do cinema, que alguém vai gostar da gente por toda a vida, que o todo talento será recompensado e que teremos coragem de tacar a lagosta viva na panela com água fervendo.

Porque nunca é tarde demais para outra colher de doce de leite.

Imagem encontrada aqui

Inspira, expira e pira!


Ganhar dinheiro, ir pra academia. Checar e-mails e curtidas no facebook enquanto o sinal não abre. Ler os clássicos e as indicações dos amigos, saber cozinhar feito chef de programa de culinária, ter paz de espírito - encontrada na posição de lótus, é claro! Estar bem informado das consequências provocadas pela variação do dólar em Taiwan, ser popular no instagram e manter uma dieta com alimentos da moda que ninguém sabe bem de onde vem.

Tempo, tempo, tempo...

Vou conseguir. Eu sei que vou conseguir: Inspira um, expira dois e pira no três!

Imagem de Jonathan Lichtfeld

domingo, 25 de agosto de 2013

Quem tem medo não olha!


Por ocasião dos festejos de São João, reza a tradição na pequena Lagolândia que, à meia-noite do dia 23 para o dia 24 de junho, quem tiver a coragem de verificar o próprio reflexo nas águas do Rio do Peixe garantirá, no mínimo, mais um ano de vida. Pobre daquele/a que não identificar sua imagem nas águas escuras porque não terá a sorte de alcançar a mesma data do ano seguinte.

Nunca tive coragem de arriscar uma olhadela. Já pensou? Olhar e não me enxergar?

Não é de hoje que meus medos me beijam na boca e não foram poucas as vezes que, em função desses beijos, não me enxerguei. Quando criança, era assim: Não gostava de ficar descalço, mas insistia em caminhar no cascalho como os outros meninos; Tremia diante de desconhecidos, mas tinha que "fazer sala" para não parecer mal educado; tinha medo de filmes de terror, mas assistia sob a lei que impus a mim mesmo de fechar os olhos nas cenas mais assustadoras.

Quem tem medo não olha, descobri assistindo Psicose no Domingo Maior.

Adulto, tive medo de ser artista e, mesmo fazendo arte desde sempre, preferi não olhar para aquilo que faz circular meus desejos de alegria. Havia, e de certo modo ainda há, uma necessidade de justificar meus rompantes poéticos por outras vias. A pedagogia e o design estão no topo do ranking dessas justificativas. Por elas, eu camuflei meus pequenos fazeres artísticos com um discurso que me distanciava cada vez mais de mim mesmo. Aos poucos, a arte foi esquecida no banco detrás para que minhas vistas se apoiassem na estrada das coisas de fora, das urgências que nem sempre embalam o meu coração.

"Como medir a distância que te separa do que você diz?"

A frase escrita na entrada da última bienal de arte em São Paulo já me preparava para o que eu veria ali. Muito daquilo que a bienal abrigava parecida dialogar intimamente com o que eu já fazia e, de repente, minha insistência em não querer enxergar o artista que eu sempre fui me pareceu distante demais, vazia demais.

Aquela experiência me trouxe o espírito da retomada e da reinvenção daquilo que eu sempre fui. É claro que não foi apenas o passeio pelos corredores da mostra que acionou essa vontade que eu já trazia aqui dentro de mim, mas foi quando o desejo transbordou e onde eu pude perceber que, apesar dos meus medos, eu já tinha coragem suficiente para olhar o que eu faço de um outro lugar... mais próximo, mais singelo e, exatamente por isso, forte o suficiente para me fazer encarar o artista que eu viro a cada dia.

Quero me reaproximar de mim mesmo. Diminuir a distância que me separa do que eu digo e não fazer disso um fardo. Há tantas possibilidades, muitos redemoinhos e atalhos para se percorrer o mesmo caminho, mas ainda assim, prefiro percorrê-lo com a sensação da volta pra casa.

Eu quero voltar a mim, sem pedir carona.

Imagem: Wolney Fernandes

segunda-feira, 22 de julho de 2013

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Afogamento


Na volta pra casa eu caminhava, inquieto, tentando mergulhar nas imagens ao meu redor. Entre uma preocupação e um clique, vi pai e filho saindo do hospital do câncer. O pai caminhava com os olhos dolorosamente baixos. O filho tinha tristeza transbordando no olhar.

Foi ali, naquela tristeza, que me afoguei.

Foto: Wolney Fernandes

terça-feira, 9 de julho de 2013

Notações sobre o silêncio


Em meio ao caos que habita o meu peito nas últimas semanas, tenho notado rastros de silêncio por aí:

"O silêncio fala"
[no facebook da Julia Mariano]

"Que silêncio alto!"
[na voz de quem gostou da peça "Uma Noite de Lua" de João Falcão]

"Há um silêncio no qual nenhum som se faz ouvir.
Há um silêncio no qual som algum pode existir"
[do filme "O Piano"]

"Criar o vazio em torno de si para encontrá-lo em si. Não ouvir mais ninguém, não dizer mais nada. Escutar o seu silêncio."
[no facebook do Sérgio Veleiro]

"Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura"
[do poema "Escuta" de Manoel Bandeira]

"Ouvido insone
motor de carros passando na rua;
buzina de carros;
buzina (buzina?) de trem passando longe;
latido de cachorro.
pingos;
tique-taque de relógio;
minha respiração;
pulsação do meu coração;
meus pensamentos."

Rua Fernando Esquerdo, 08/07/2013, 22h43
[no facebook da Késia Decoté]

"De repente a música parou e, na quietude da tarde eu pude ouvir o relógio de pulso no canto da mesa. Tive medo daquele silêncio em forma de tique-taque."
[eu, em uma nota no celular na tarde da última quinta-feira]

Foto roubada no Instagram do Raí Costa Filho. Porque nela o silêncio transborda em delicadezas difíceis de nomear.

domingo, 7 de julho de 2013

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Utopias Transgressoras


A moça viu essa foto e comentou assim: "Me chamou atenção o cartaz "Pessoas Soltas", isso está espalhado por todo centro goiano... Depois de uma pesquisa, descobri que é do artista Oscar Fortunato. Só não entendo porque isso é arte, mas tudo bem..."

Tudo bem não entender porque isso é arte, afinal de contas, a obra de Oscar Fortunato está intimamente vinculada a práticas artísticas que não se sabem separadas da vida. E aqui, "vida" também se soletra com as nove letras da palavra r-e-a-l-i-d-a-d-e. 

Seu território é o cotidiano. No ritmo acelerado da cidade as intervenções do Oscar traçam deslocamentos sutis e experiências anônimas que deixam vestígios de uma arte avessa aos circuitos das instituições. E é assim porque seus múltiplos sentidos se cumprem no modo como as pessoas interagem com o movimento urbano. 

Basta apenas ter a atenção roubada, sem que se precise elaborar entendimentos sobre arte, para que a experiência artística se torne real. É assim que a transformação se opera, sutil e silenciosamente, e ainda assim, forte o suficiente para promover deslocamentos, reconhecimentos, pausas e instigar perguntas sobre a realidade e o que nela está posto. 

Dos cartazes que anunciam carnes exóticas do açougue dos Irmãos Staden aos adesivos que dão formas as mais variadas expressões tipicamente goianas - "Ê Goyaz véi!" - passeamos pela reutilização "desabusada" e crítica dos saberes, dos espaços e das linguagens de quem nasceu aqui no meio do Brasil. Essas astúcias formam uma rede de profanações poéticas que devolvem ao uso comum o que nem sempre está acessível a todos. O que sai da minha boca pode ser arte? Assim, os problemas da vida urbana são incorporados como valores artísticos e constituídos como uma prática ao mesmo tempo crítica e acessível. 

Desse tipo de arte todo mundo deveria entender, pois ela guarda sua singularidade e autonomia ao fundar uma nova compreensão de que somos nós também os responsáveis pela criação dos significados daquilo que vemos. Não é preciso que alguém diga o que é arte para que saibamos o que nos afeta, nos [co]move e indigna. Quando Oscar Fortunato borda cada canto da cidade com seus corações e provocações, propõe transbordamentos possíveis na forma como vemos e interagimos com nossa realidade. 

Uma arte com pronúncia goiana, que reside na fluidez entre o que se é, o que se faz e o que se vê. Por ela, somos convidados a olhar pra nós mesmos e entender que é real a possibilidade de interferir nos espaços da cidade, recriá-los à nossa maneira e transformá-los em ambientes mais propícios à vida que desejamos viver. Uma espécie de utopia transgressora que entre tantas incertezas, promove desejos eloquentes de mudança. No cartaz apenas duas palavras: "Pessoas Soltas", mas nas entrelinhas, inúmeras possibilidades.

Há de se ter mais "Pessoas Soltas" em cada esquina. Diferente de um "Jogo do Bicho", que os políticos sejam mais do que números impressos em cartazes e apostas incertas. Que os acordes dados pela "Orquestra Filarmônica de Mozarlândia" conduzam um despertar coletivo e efetivo da cultura em nosso Estado. E que a poesia explícita na profecia "Do Guapó visestes, ao Guapó voltarás" nos faça olhar para os lugares de onde viemos no desejo de tomar nossas próprias histórias pelas mãos. 

Rensga!

A foto é do Teo Neto. 
A obra do Oscar Fortunato você pode conhecer clicando aqui.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Aquário de bem querer


Não há medida para um bem querer, mesmo que ele caiba em um aquário amarelo e que seja possível de se receber pelo correio.

"Sabe, vida dentro de vida e dentro dessa vida uma outra vida?"

Sei sim, afinal de contas, bem querer também se guarda em embrulhos de papel celofane, em latas de sorvete e até em escamas de peixe. O que eu não sei é dizer das intensidades que cada gesto desse parece conter. Talvez só os silêncios pronunciados por olhos marejados de lágrimas consigam explicar.

Então pra quê escrever? Acho que é tentativa de nadar pelo rio que esse aquário fez transbordar por aqui. As intensidades são, elas mesmas, sentimentos desmedidos que exalam cheiros, toques, vontades e sorrisos. Sempre fui de intensidades e, embora minhas estabilidades tenham me orientado para um suposto equilíbrio, ando prestando atenção naquilo que me faz vibrar em outra frequência.

Por isso a necessidade do registro. Por isso, escrevo.

Talvez por confrontar a morte tão cedo, venha a ansiedade para dizer tudo. Talvez, por ter sido obrigado a desbravar meus próprios caminhos, venha a vontade de deixar uma espécie de mapa. Talvez por ter esperado demais, venha essa pressa de querer abrir a caixa só pra sentir a textura do bem-querer entre os dedos e saber que cor ele tem.

Dentro do aquário amarelo, o bem querer parece ter sido desenhado pelos meus traços, cabendo só a mim reconhecê-lo. Por ele, sou capaz de assimilar toda beleza que reside no gesto de alguém que me espera enquanto eu fotografo flores.

[...]

Diante do conteúdo desse aquário amarelo, "sou menino-passarinho com vontade de voar". Com o melhor sorriso no rosto, fecho os olhos e aguardo, neste lento aprendizado que é abrir os dedos e deixar que o vento do mar chegue e, todo o resto, frutifique.

Foto: Wolney Fernandes

domingo, 19 de maio de 2013

Bagunças de um futuro inquieto


Eu até tento perder o meu medo de errar. Mas não tem jeito, vira e mexe ele sempre reaparece no meu bolso. Mexe e vira ele está sempre no meu encalço. Sim, eu sei que o ônus em assumir as responsabilidades por minhas escolhas é todo meu, mas eu sou um frouxo, sabe? Se as escolhas feitas não me levaram ao horizonte imaginado por mim há seis anos atrás, eu tendo a espalhar a culpa por aí com medo de que, reunida em meu peito, essa mesma culpa me sufoque em inércias inomináveis.

Não gosto de me sentar sozinho no banco dos réus. Preciso de cúmplices. Há de ter um bando de culpados que, ardilosamente, arquitetaram a bagunça que virou minha vida. "É hora de fazer faxina!" - alguém me aconselhou e o desaforo que engoli diante dessa indicação eu vomito aqui: Só se for faxina definitiva, sabe? Sempre achei que quando a gente arruma demais, não sobra espaço para o inesperado... mas quer saber? Às favas com o inesperado! Tô cansado de faxinar o presente para o futuro (abusado!) desarrumar tudo em seguida.

É uma merda entender que a incerteza é a única constante da vida. Parece que não há saída. Mesmo assim, quero poder programar viagens para o próximo sábado ou para daqui a seis meses sem ter que fazer malabarismos para dar conta delas. Não quero me surpreender comigo mesmo, só quero de volta os planos para fazer esse futuro se aquietar diante de minhas arrumações. E guloso que sou, também quero planos para guardar na manga. Um monte deles! Todos engomadinhos e traçados com régua paralela.

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Transbordamentos


Tenho receio dos embrutecimentos. Ainda desejo a possibilidade da lágrima provocada por um filme. Tenho medo de ficar monocromático e não sentir falta das cores, dos cheiros, da música, dos gritos... Medo grande de caber em mim mesmo e impedir os transbordamentos.

Prefiro entender que os dias são tão delicados e plurais, que a beleza é fácil de compreender, que a chuva e o fogo, o sublime e o grotesco, tudo isso cabe em mim. E que os derramamentos disso tudo se cumpram sem minha guarda constante.

Vez em quando desejo uma equação que solucione os meus dias, mas na maioria deles, vago em busca de beijos de língua, de pessoas e imagens que provoquem a minha escala Richter, uma possibilidade de perfume, um pedaço de futuro, uma carta... quem sabe?

Imagem de Joe Webb

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Diagnóstico


Enquanto esperava pela consulta no oftalmologista, conjurei diagnósticos possíveis para os sorrisos que tem tomado meus olhos nas últimas semanas: cataratas de insanidade, miopia passageira, astigmatismo que embaralha distâncias, aumento da pressão ocular e cardíaca... cegueira?

O que veio em seguida foi promessa de mar: "Você tem uma visão ótima!". Suspirei atravessado por certa decepção. "Não, doutor! Me diga que há algo errado para que eu possa cuidar enquanto há tempo". Não seria loucura demais tantos sorrisos trocados por dias e madrugadas a fio? Na certa eu estava enxergando tudo distorcido.

"Nem de óculos você precisa!" - concluiu.

Saí do consultório decidido a procurar um outro profissional, mas havia um mar tão lindo refletindo o fim do dia que, de súbito, fui tomado por um espírito aventureiro. É outra estação. O que pode dar errado sob a atmosfera de tanto bem-querer?

Não há nada de errado com minhas vistas. Foi o médico quem atestou. De todo modo, há sempre a possibilidade de contar com o sol, mojito na mão, desenhos na areia e óculos escuros. Mesmo com a visão embaralhada pela pupila dilatada, caminhei tão levemente que negligenciei a vontade de ouvir a opinião de outro profissional a respeito.

Aproveitei para comprar filtro solar, tirar as bermudas da gaveta e prometi conchas para mim mesmo!

Imagem capturada aqui.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

O Abismo Prateado


"Num se machuca mais não!""

[Imagem e frase do filme O Abismo Prateado]

Contracorrente


Preciso mandar à "puta que pariu" aquela vaga impressão de que eu poderia ter me dedicado mais quando algo na vida não soar conforme meus planos. Não é excesso de confiança e nem negligência. É cansaço mesmo!

"Eu que não me sento
no trono de um apartamento
com a boca escancarada 
cheia de dentes
esperando a morte chegar"

Não é de hoje que nado na contracorrente daquilo que estava traçado para o meu futuro. Desde a saída da minha cidade natal até o traçado de uma tatuagem que carrego comigo exigiram uma resiliência absurda e pequenos respiros [e suspiros] para me manter são nesse mergulho para águas mais profundas.

Mesmo assim, vez por outra, ainda me cobro posicionamentos, planificações, planos para daqui 5 anos, relacionamento estável, financiamentos para trocar de carro e uma noite com oito horas de sono. Saco isso!

Talvez meus dias de Pollyanna surtada estejam terminando. Acreditar que tudo vai dar certo no final pelo nível do meu esforço - acima da média, diga-se de passagem -  não tem surtido efeito. Fica a impressão que é preciso um pouco mais de força para guinar a vida para onde ela deveria estar, mas ando sem forças para tanto. Ás vezes, até penso que aquele momento, o turning point, já passou. Então de que adianta tanta dedicação?

Preciso mesmo é dizer "foda-se!" ao invés de só pensar, ir mais ao cinema, viajar quando der na telha e sair às quintas à noite. Pena que ganhar na Mega Sena não seja uma alternativa válida.

Foto: Wolney Fernandes
Trecho da música "Ouro de Tolo" de Raul Seixas

terça-feira, 7 de maio de 2013

Saudades de mar


"Meus pensamentos são todos sensações"
[Alberto Caeiro]

Para embalar saudades de mar, coloquei meus sentidos aqui.

sábado, 4 de maio de 2013

Sobre moderações, limitações e instantes de felicidade


Moderar as exigências não é, necessariamente, contentar-se com pouco. É aprender a enxergar as limitações e, com isso, identificar o que me prende para esboçar o rumo necessário para que as coisas cheguem no seu devido lugar.

Tendo, nesse Maio tépido de atropelos e pequenas alegrias, sempre optar pela felicidade. O que não me impede de me descontrolar um pouco de vez em quando.

Sinto coragem. Sinto uma coragem tanta, daquelas de cair no vazio mesmo não sabendo se a corda vai suportar. E naqueles parcos segundos quando a corda traciona, sentir a sensação de flutuar.

Ter coragem também implica em deixar para trás, afinal, nessa coisa de viver também existe um componente de renúncia. Quero um mês brand new, aquela coisa bem Drummond. Nem que isso signifique sacrificar minha ilusão mais doce: seja para torná-la real ou para, finalmente, enterrá-la.

Imagem de Laurindo Feliciano.

Deslumbramentos de cabeceira


Na mesinha ao lado cama, há sempre três ou quatro livros que leio, alternadamente, segundo uma ordem ditada pelo caos da minha vontade que muda a cada adormecer. Os deslumbramentos das últimas semanas tem sido assim:


01. O Olho da Rua [Eliane Brum]
"É tão estranho", ela diz. "Eu passei a vida inteira batendo ponto, com horário pra tudo. Quando me aposentei, arranquei o relógio de pulso e joguei fora. Finalmente eu seria livre. Aí apareceu essa doença. Quando tive tempo, descobri que meu tempo tinha acabado".

02. A Vida Privada das Árvores [Alejandro Zambra]
Sabe-se que muito em breve Ernesto não voltará mais. Imagina-se desconcertada, e depois furiosa, e finalmente invadida por uma decisiva quietude. Tudo bem, era sem compromisso, como deve ser: ama-se para deixar-se de amar e se deixa de amar para começar a amar outros, ou para ficar sozinho, por um tempo ou para sempre. Esse é o dogma. O único dogma.

03. O Filho da Mãe [Bernardo Carvalho]
Nas montanhas, todo homem tem um kunak, um amigo estrangeiro que o salvará da morte e que ele também tem a obrigação de salvar. Nenhum homem será completo enquanto não encontrar o seu kunak. Só então poderá seguir o próprio caminho em paz, sabendo que existe no mundo alguém, como ele, com quem ele pode contar na vida e na morte. As quimeras morrem para que sobreviva o pacto dos que não podem contar nem com Deus nem com os anjos.

04. Toda Poesia [Paulo Leminski]
tudo em mim
anda a mil
tudo assim
tudo por um fio
tudo feito
tudo estivesse no cio
tudo pisando macio
tudo psiu

tudo em minha volta
anda às tontas
como se as coisas
fossem todas
afinal de contas

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 22 de abril de 2013