Na minha chegada, flores estavam à minha espera. No meio delas, um girassol para aquecer meu coração depois de 15 dias de frio.05 de Fevereiro de 2008
Imagem: Wolney Fernandes
Decidi não mais continuar com o diário virtual de viagem. Não tem mais graça. Já estou em casa e cheio de outras coisas para postar. Depois do post anterior fiquei ainda mais 6 dias nos EUA. Neste tempo, novas descobertas foram feitas, novas imagens e histórias me conquistaram e velhas saudades deixaram meu coração doido para voltar para casa.
O dia amanheceu muito frio e para piorar o vento não deixava ninguém sair do hotel. Fiquei no quarto pela manhã esperando a hora de ir novamente para a universidade. Nesse meio tempo de preguiça embaixo das cobertas, fiquei tentando responder as questões estranhas que povoavam minha cabeça sobre esse país. Minha mania de fazer listas promoveu o seguinte questionário:
O jantar foi muito agradável. Comemos uma espécie de Paella e uma sobremesa de chocolate que me fez esquecer todas as minhas promessas de emagrecer alguns quilos. De volta ao hotel liguei a tv e passava King Kong pela enésima vez desde que chegamos em Columbus. Tomei um banho e tentei dormir ouvindo música.
Minha inquietação de turista provocou sonhos bem insólitos. Em um deles eu olhava o céu marron e via um sol invertido que não conseguia iluminar uma estrada de tijolos infinita que saía da janela do quarto e seguia cheia de uma neve colorida. Estremeci e acordei no meio da noite com frio. Tinha esquecido de ligar o aquecedor.
29 de Janeiro de 2008
Imagens: Wolney Fernandes
O relógio digital ao lado cama marcava 9h17. Escorreguei pelos lençóis e edredons esverdeados com uma vontade enorme de continuar dormindo. O trabalho na madrugada anterior acabou desregulando novamente meu relógio biológico.
Nevou por toda a madrugada e eu nem havia notado. Pela manhã o gelo se acumulou por todos os cantos de Columbus. Meu sono desapareceu frente aquela nova imagem e meu banho matinal foi bem rápido porque queria descer logo para registrar e experimentar a textura da neve. Parecia um menino que acabara de ganhar um novo brinquedo. Toquei, cheirei, fiz marcas, tirei foto, construí bolas, escrevi, pisei... Novas experiências sempre me fascinaram e queria lembrar-me desse fato da mesma forma intensa de quando vi o mar pela primeira vez.
Quando olhei para meu relógio de pulso tomei dois sustos. Primeiro porque toda a parte digital que marcava as horas no Brasil havia desaparecido. Restou apenas os ponteiros que marcavam as horas aqui nos EUA. Faltavam 15 minutos para o meio dia. Corri para me aprontar para ir ate a univerdade já um pouco nervoso por conta da apresentação que seria dali a alguns minutos. Leda, minha orientadora mostrou um pouco do trabalho que desenvolvia como professora na graduação em Artes Visuais e na pós-graduação em Cultura Visual. Em seguida foi minha vez de falar e mostrar minha pesquisa sobre o universo de Santa Dica.
Foi engraçado porque, enquanto falava para aquela sala lotada, meu pensamento não deixava a visão da cidadezinha onde nasci desaparecer. Como imaginar que as estórias ouvidas ali me trariam até aqui? Pensar nestas distâncias e aproximações me ajudou a terminar a apresentação e a responder as questões que surgiram em seguida. Terminei contente com o resultado, principalmente porque vi minha orientadora caminhar até mim cheia de novas idéias para a pesquisa. Todas elas capturadas na minha fala.
Com a motivação à flor da pele seguimos para a sala da Professora Cristine que iria nos falar de uma parte de sua pesquisa dentro do Second Life. O escritório da professora era incrível porque era repleto de referências visuais, as mais variadas possíveis. De cenas do filme "O mágico de Oz" a fotos de índios norte-americanos. O que mais achei engraçado foi a almofada com uma citação da Cinderela (!).
De lá seguimos para a próxima aula para novas apresentações e meu estômago comecou a reclamar de fome. Me encantei com os crachás feitos à mão que os alunos traziam sobre as mesas. Não resisti e pedir para registrar. A idéia para o segundo momento frente a novos alunos era falar sobre nossa história e de como nossa experiência vivida ia definindo, entre outros aspectos, nossos caminhos e escolhas acadêmicas.
Quando saimos para comer já passava das 18 horas. Fomos a um restaurante bem divertido onde serviam carne de porco de todas as maneiras imaginadas. Lá, a Coca-Cola era gratuita e nas paredes havia quadros bem divertidos com grandes personalidades mundiais usando narizes de porco. Comi além da conta.
Quando voltamos ao hotel, depois do dia cheio, não consegui dormir imediatamente e descobri que havia um computador disponivel para os hóspedes. Aproveitei para enviar noticias ao Brasil e tentar atualizar meu diário da viagem no blog que, como vêm, está quase uma semana atrasado.
A madrugada chegou novamente e, para minha surpresa, o clima pareceu um pouco mais quente. A roupa de cama do quarto fora trocada e agora tudo estava branco como a neve que continuava a cobrir tudo lá fora.
28 de Janeiro de 2008
Imagens: Wolney Fernandes
Hoje conheci parte do Campus da OSU (The Ohio State University) e o departamento de Arte-educacao. Nem preciso dizer o quanto me impressionou toda a estrutura e o modo como a universidade está misturada a essa parte da cidade.
Antes de finalizarmos as tarefas do dia, Leda convidou-me para ir com ela até a casa de uma amiga de longa data para buscar alguns pertences que ela havia deixado aqui antes de voltar para o Brasil. Fizemos uma pausa e seguimos até um bairro bem charmoso da cidade com aquelas casas dos filmes norte-americanos: de madeira, sem cercas, com duas portas, sótão e blá, blá, blá...
A lua que nos acompanhou era imensa e o luar deixava a noite fria ainda mais misteriosa. Tentei fazer uma foto mas a máquina fotográfica não conseguiu captar toda a beleza do ambiente. De lá seguimos para uma lanchonete. Tomamos um chocolate quente antes de voltar para o trabalho que prosseguiu madrugada afora.
Revisamos o inglês para que nada estivesse errado nas apresentações em power point. Em parte nao gosto muito da idéia de facilitar a vida das pessoas daqui em relação a tradução de todo o material para a língua delas, pois elas nem se importam com isso quando estão visitando o Brasil. Porém, foi bom reconstruir toda a apresentação porque fiz novas descobertas sobre minha própria pesquisa enquanto construíamos juntos o roteiro para o dia seguinte.
No quarto olhei uma última vez pela janela procurando rever a lua, mas já não consegui encontrá-la. Uma névoa fina recobria toda a área em frente ao hotel. Fui dormir sem pensar em nada. O cansaço falou mais alto.
27 de janeiro de 2008
Imagens: Wolney Fernandes
A porta se abriu e ela apareceu. Alta, magra, negra e sem cabelos. Em cada orelha 6 pares de brincos do tipo argola emolduravam seu rosto expressivo. Os olhos muito profundos olhou-nos de maneira carinhosa nos convidando para entrar em sua casa-ateliê-santuário.
Uma espécie de árvore da vida construída com diversos tipos de materiais reciclados ocupava quase toda a cozinha. Seus galhos escondiam varias caixinhas de música que, quando acionadas simultaneamente, tocaram minha alma como um poema sinfônico. Ao comentar com a artista que sua obra, de certo modo, me fazia mais forte, ela docemente explicou-me que a força do seu trabalho vinha das pessoas. Das estórias que ela ouvia ainda no ventre de sua mãe. Da vontade de voltar a Angola sem nunca ter estado lá. Da sua conexão com aquele lugar por causa de seus antepassados.
Ficamos por horas, ouvindo-a discorrer sobre suas motivações e desejos. Sobre como ela mistura sua expêriencia vivida com sua arte. Mesmo depois de sair dali continuei remoendo tudo o que vi e ouvi. De lá seguimos até o Museu de Arte de Columbus, pois domingo era o último dia da exposição que mostrava os Jardins de Monet através de suas pinturas. A fila que enfrentamos para a exposição era extremamente grande, mas foi bom esperar um pouco até ver outros trabalhos de arte porque a forte experiência na casa de Aminah ainda precisava ser digerida. Um sentimento que não consegui definir me fez chorar baixinho. O choro interno renovou-me as forças e me fez refletir sobre como transformar o cotidiano numa sucessão de eventos encharcados de tesão, paixão, memória e força e, assim, transcender limites com aquilo que nos move.
Gostei da exposição de Monet, o mais interessante eram as obras de artistas contemporâneos que recriaram de maneiras bem surpreendentes os jardins do famoso artista francês. Foi um final bem criativo para o dia frio de Columbus. Minha primeira impressão sobre a cidade não foi muito boa porque não vi pessoas na rua. Parecia estar numa cidade-fantasma. Em parte por conta do domingo, em parte por conta do frio que chegou a 10º negativos.
As emoções experimentadas nas atividades do dia me deixaram excitado para o que estava por vir. Dormi muito animado e sonhei com os bordados cheios de detalhes do mundo de estórias de Aminah.
(*) "Symphonic Poem" ou "Poema Sinfônico" é o título do catálogo com as obras de Aminah Robinson.
27 de Janeiro de 2008
O vôo para Ohio foi bem diferente de tudo o que já vivi . A começar pelo avião. Era bem pequeno e até um pouco apertado. A aeromoça (que neste caso era uma aerosenhora) parecia uma mãezona em sua cozinha. Sozinha ela serviu e cuidou de todo mundo durante o vôo de duas horas até Columbus.
A professora Vesta Daniel aguardava no aeroporto e levou-nos para o hotel onde iríamos permanecer os próximos dez dias. Para quem tinha saído de um albergue o local nos pareceu um paraíso. Uma extensa programação nos aguardava e começamos com um almoço no hotel para acertarmos horários e atividades.
À tarde resolvi ficar quieto e descansar um pouco. As longas caminhadas por Nova York me cansaram. Tomei um banho e quando terminei vi que estava passando "A Casa do Lago" na TV. Nao resisti. Entrei debaixo das cobertas e resolvi assistir o filme. Lembrei-me da combinacao trinitária que eu adorava fazer no Brasil: Sofá, chuva e sessão da tarde. Nem me lembro da última vez que pude experimentar isso. Confesso que a versão norte-americana não é tão boa (não era meu sofá e nem chovia lá fora). O frio aliado ao cansaço bastou para que eu dormisse até o início da noite.
Quando acordei, olhei pela janela do quarto do hotel e tudo me pareceu sem cor e sem graça. Acho que já era a saudade chegando. Deixei ela entrar e ficamos os dois, eu e a saudade, sentados, escrevendo e ouvindo música até a madrugada.
23 de janeiro de 2008
Imagens: Wolney Fernandes
Sexta-feira, dia 18. Meu último dia em Nova York. Nesse tempo limitado seria impossível ver tudo o que esta metrópole oferece, mas decidi que este seria o melhor dos três dias aqui. O grupo que viajou comigo (duas professoras e um colega do mestrado) resolveu fazer um passeio comum. Depois de um rápido café seguimos para o topo do Rockefeller Plaza. Um edifício altíssimo e famoso que oferecia a opção de ver a cidade lá de cima. Uma visão única e múltipla ao mesmo tempo. A neve da noite anterior nem apareceu por conta da chuva que a acompanhou dando lugar ao sol forte e brilhante (alguem lá em cima deve tê-lo consertado).
De cima do prédio pude ver lugares que não iria ter tempo para visitar como a famosa Ponte do Brooklin e a Estátua da Liberdade. Aliás, esta última, de longe me pareceu bem mais atarracada do que minha mente se lembrava dos filmes. Ironicamente algo bem mais apropriado para o conceito que este país possui acerca da liberdade. Depois de simular a famosa foto dos trabalhadores sentados na viga da construção do prédio fomos almoçar num restaurante chinês que tinha arroz (!)
De lá, nos separamos porque cada um tinha a pretensão diferenciada para a tarde e noite. Caminhei um pouco mais, comprei alguns postais e resolvi sentar-me num lugar tranqüilo para escrever. Enquanto escrevia vi uma vitrine de um lugar chamado "Anthropologie" e fiquei hipnotizado pelo modo diferente com a qual tudo naquele espaço era organizado. Entrei e perguntei se poderia fotografar. Não era permitido. Resolvi arriscar. Tirei o flash da máquina fotográfica e, de braços cruzados para esconder a câmera, consegui fazer fotos de todos os detalhes e idéias que me chamaram a atenção: estampas, desenhos, materiais alternativos, arrumações, painéis... Saí de lá me sentindo "o" agente secreto com todas as provas (imagens) que precisava registrar.
Encontrei uma moça brasileira muito simpática numa parada para o lanche que me contou suas peripécias pelo mundo afora. No final da conversa, descobrimos que, coincidentemente, estavamos hospedados no mesmo albergue. Eita mundo pequeno!
Já passava das 17h quando resolvi que queria ver um espetáculo na Broadway. Corri até lá para ver se daria tempo de comprar o ingresso para o mesmo dia. Escolhi ver "O Rei Leão". Em parte porque adorei a roupagem africana que as canções e o design do filme ganharam nos palcos. Com ingresso na mão, corri ate o albergue, tomei um banho e voltei para o teatro. Foi incrível. Valeu cada dólar. O coro africano, os bonecos, as máscaras e a atuação acenderam meu desejo de aproveitar mais a noite.
Depois do show fui direto para um bar/lanchonete muito transado onde a decoração era feita com souvenirs de filmes famosos: A máscara do Darth Veider, o colete usado por Mathew Broderick em "Curtindo a vida adoidado", a luva que Marilyn Monroe usou em "Os homens preferem as louras", enfim, um paraíso para um cinéfilo como eu. Tomei duas margaritas e fiquei observando as pessoas ao meu redor. Gosto de fazer isso imaginando uma vida para cada uma delas.
A promessa havia sido cumprida. O dia tinha sido maravilhoso. Resolvi voltar ao hotel de táxi pois já estava bem tarde. Desta vez, sentado no bando de trás, tinha consciência de tudo que me cercava e de tudo que me esperava na volta para o Brasil. Apesar de todo o corre-corre e diversão, me bateu uma saudade boa. Vontade de partilhar as novas imagens e descobertas com todas as pessoas importantes pra mim.
Amanhã parto para Ohio bem cedo. Arrumo minhas malas. Não consigo dormir direito. Sou só expectativa.
23 de Janeiro de 2008
Imagens: Wolney Fernandes
O dia amanheceu nublado. Estou achando que nestes dias o sol está com defeito. Mesmo assim tive ânimo para procurar um café da manhã diferente nos arredores do albergue. Acabei comendo um croissant delicioso numa barraca ao lado de um escola. Aqui também há muitos vendedores ambulantes pelas ruas. Como no Brasil, os produtos variam de comida a DVDs pirata. Todos que abordei foram muito simpáticos e solícitos.
Segui direto para o Central Park. Iria comecar de onde parei ontem e aproveitaria para conhecer o Museu Metropolitano de Nova York. Ao entrar na área do parque uma outra lista de filmes me vieram a cabeça: Nunca te vi sempre te amei, Harry e Sally, Escrito nas Estrelas... O lugar é bem maior do que imaginava e ao começar a andar sobre as folhas secas fui tentando elencar mentalmente o que gostaria de ver ali.
De lá segui até o jardim de Shakespeare, um lugar para meditação muito agrádavel para sentar e descansar. Dali até o museu foi um pulo. Ao entrar no prédio pude ver obras do mundo inteiro porque o local está organizado como um mapa-mundi: sala da Grécia, do Egito, do Japão, etc... Entre Picassos e Van Goghs o que mais me impressionou foi o trabalho dos povos da Oceania. Cores terrosas, traços espontâneos. Arte ligada à vida. Algo notável pela simplicidade salpicada de beleza.
Vaguei por aqueles corredores até a hora do almoço. Fiz um lanche rápido e segui para o Museu de Arte Moderna que, apesar de distante, valeu a pena caminhar ate lá. Entre um museu e outro vi o Rockfeller Center com sua famosa pista de patinação e sua notória arquitetura art'deco.
Na saida passei pela loja do museu e me surpreendi com a quantidade de produtos e livros disponíveis. Acabei ficando mais tempo do que gostaria, mas infelizmente os preços estavam lá nas alturas. Infelizmente, a arte, hoje em dia, eleva tudo a um estatus absurdo.
Saí da loja com um sentimento de frustração. Resolvi procurar uma livraria fora dos limites do "olimpo da arte". No caminho encontrei vitrines incríveis de todas as grandes marcas: Prada, Hugo Boss, Ralph Lauren, Dolce Gabana, Gap, Victoria's Secret, NBA... Não resisti e entrei na loja da Disney. Fiquei encantado com os esboços dos desenhos famosos que eu gosto tanto. Um dos funcionários me indicou uma boa livraria que ficava ali perto e foi lá que passei o resto da tarde.
Já era noite quando saí pela porta automática da livraria e parei fascinado com o que vi. Nevava bem de levinho. Os flocos iam se acumulando no meu casaco escuro enquanto eu tentava fotografar aquele fenômeno. Na realidade chovia junto (!) e me disseram que nem iria dar pra ver a neve se acumular porque a chuva já cuidava de derretê-la. Não me importei. Parei na frente de um hotel e fiquei admirando o jeito sereno da neve cair. Ninguém mais parecia se importar com aquilo que acontecia. Só eu. Nem sei o tempo que permaneci quieto sem conseguir me mexer. Metade por conta do frio, metade por conta da fascinação. Quando acordei do transe estava na frente do albergue.
21 de Janeiro de 2008
Imagens: Wolney Fernandes
Primeiro dia em Nova York. Sao 22h aqui. 01 da madrugada no Brasil. Estou na cama K do quarto 205 do Hostelling, um albergue muito transado que fica a duas quadras do Central Park. Depois de um dia cheio, estou sonolento e quase não consigo organizar com clareza as emoções de me sentir estrangeiro em terras tão distantes.Está muito frio. Cerca de dois graus. Mesmo preparado, dá para sentir a diferença quando coloco os pés nas ruas. Olhos começam a lacrimejar, nariz se avermelha e os lábios queimam feito pimenta.Andar pelas ruas desta cidade é como estar num set de filmagem, pois tudo o que vejo me soa cinematograficamente familiar: Do ônibus escolar amarelo às escadas de incêndio que estão espalhadas por todos os prédios aqui.As pessoas parecem ter saído de um editorial de revista de moda. Sempre achei que roupa de frio deixa todo mundo mais elegante. Aqui elevo a nona potência esse pensamento. Tudo é assombrosamente gigantesco e em cada esquina esbarro em gente falando línguas diversas. O mundo mora aqui.
Depois de um almoço coletivo me separei do grupo para caminhar sozinho. Deu até um frio na barriga ao me ver sozinho na esquina da Quinta Avenida. Andei como um bobo, olhando para cima e tentando enxergar alguma paisagem conhecida (dos filmes, é claro!). Caminhei um quarteirao e quando virei a esquina vi lá no final da rua o Empire State Building. Mais uma vez aquela sensação cinematográfica me veio a cabeça. Daí me lembrei de filmes como: Tarde demais para esquecer, King Kong, Sintonia de amor...Na esquina do famoso edíficio encontrei uma papelaria incrível. Um verdadeiro labirinto onde as paredes eram papéis, tintas, lápis, envelopes... enfim, o paraíso para um ilustrador. Fiquei andando por aqueles corredores sem prestar atenção no tempo e saí de lá com um moleskine que há tempos eu namorava sem conseguir encontrar no Brasil.
De lá, segui para a Times Square. No caminho descobri que andar sozinho pela cidade tinha suas desvantagens. Além de não ter com quem partilhar as emoções não dava para tirar fotos legais de mim mesmo nos lugares que eu queria. No meio daquele caos imagético pedi a uma moça oriental para fazer uma foto minha usando como referência o local onde o Hiro de Heroes apareceu a primeira vez em Nova York.Creio que girei umas 7 vezes em torno de mim mesmo tentando assimilar todas as informações que me cercavam. Uma vertigem me fez fechar os olhos e, ao abrí-los, não consegui encontrar mais vontade para explorar aquele mundo de som e imagem.Resolvi descer uma daquelas ruas sem saber onde iria chegar. Quatro quadras depois e muitas paradas para fotos e entradas em lugares inacreditáveis, vi o Central Park aparecer seco, frio e quieto na minha frente.
Minha vontade era entrar, mas me contive. Não valeria a pena visitar aquele lugar no final do dia sem a luz do sol que ja havia desaparecido no meio dos prédios. Olhei o relógio e me assustei ao ver que eram apenas 17 horas e já tinha anoitecido. Uma carruagem levando um casal para o parque passou por mim. Resolvi andar um pouquinho mais ao redor. Peguei uma das tantas folhas secas que se amontoavam pelas beiras do parque e guardei dentro do livro da Clarice Lispector que eu trazia na mochila.Senti os pés cansados da longa caminhada e resolvi voltar para o albergue. A ideia de voltar de táxi era tentadora. Não hesitei e me dei ao luxo, afinal era só atravessar o parque (que é muito grande) até o Upper Side West e já estaria no hotel.Entrei no taxi amarelo (que tinha gps, aquecedor, tv...), dei as instruções ao motorista e resolvi aproveitar a corrida para olhar a cidade da janela do carro. A sensação que me acompanhou foi estranha. Como se eu fosse arrancado da minha realidade. Como se ali, eu não fosse o Wolney brasileiro, filho, irmão, designer, funcionário da CAJU, dono da Engenho, mestrando, amigo... mas um completo desconhecido sem eira nem beira, nem nada para se preocupar, equilibrar ou sequer pensar. Só olhar.O anonimato de mim mesmo, naqueles minutos que estive dentro do táxi, me fez reecontrar sentidos que estavam esquecidos em gavetas do tempo. Nao dá para explicar isso com palavras porque é mistério que faz a alma ficar mais leve. Por hora estas sensações me bastam para adormecer com o coração mais sereno.
17 de Janeiro de 2008
Imagens: Wolney Fernandes
Minha cabeça de menino, mesmo com meus pensamentos mirabolantes, sequer imaginava que as águas do Rio do Peixe, onde costumava me banhar tantas vezes, pudessem me trazer até aqui. São 15h45. Estou sentado na poltrona 31F do primeiro avião que vai me conduzir até os EUA.
A Agenda da Rede Educacional Franciscana de 2008 apresenta roteiros que nos convida a viajar guiados/as pelas nossas escolhas e nossas atitudes do cotidiano e, assim, encontrar os rumos da plenitude da vida.As ilustrações e o projeto gráfico foram feitos por mim num trabalho conjunto da Engenho que envolve também escolha de tema, elaboração de texto e produção gráfica. A novidade deste ano é a possibilidade de personalizar a capa da agenda segundo o gosto de cada um/a. Pode tudo: pintar, colar, bordar, riscar... É só usar a imaginação.
Um dos meus filmes prediletos é o delicado "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain". Nele, Amélie Poulain, uma jovem solitária, encontra em seu apartamento uma caixinha contendo diversos brinquedos que foi escondida por um garoto que morou ali há várias décadas. Sem ter muitos propósitos na vida, a moça resolve devolver o objeto para seu dono e, sentindo-se recompensada pela reação deste, decide solucionar os problemas de todas as pessoas com quem convive. Tudo isso ao som da maravilhosa trilha de Yann Tiersen que vale um post só pra falar dela.
Um exercício bom (e difícil) é perceber como as pessoas que convivem comigo me enxergam. Como amanheci com o ego lá nas alturas, resolvi juntar definições de Wolney que andaram escrevendo por aí:
Amor em tempo do Cólera é um filme mediano. Mesmo sendo uma adaptação do livro visceral do colombiano Gabriel Garcia Marquez o filme fica enfadonho em sua última metade. De bom mesmo, eu realço três aspectos: O primeiro, sem dúvida, é a bela trilha sonora, com destaque para três músicas da Shakira que está "latinamente" muito inspirada, diga-se de passagem. O segundo, a participação de Fernanda Montenegro que, mesmo falando em inglês (alguém pode me explicar porque o filme não é falado em Espanhol?) dá um show à parte como a mãe desequilibrada do personagem principal vivido por Javier Bardem, de Mar adentro. E o terceiro aspecto é a atuação da bela e talentosa atriz italiana Giovanna Mezzogiorno que vive todas as fases da protagonista Fermina Daza. Com um elenco internacional e com uma visão parcialmente estereotipada da América Latina (o diretor Mike Newell é inglês) o filme acaba sendo longo demais. Eu cortaria uns 30 minutos pra deixá-lo mais "redondinho".
Músicas que embalaram a transição de 2007 para 2008.
"Raquel é uma menina que entra em conflito consigo mesma e com a família ao reprimir três grandes vontades: a de crescer, a de ser garoto e a de tornar-se escritora. Até que ela ganha uma bolsa amarela usada e passa a esconder suas vontades ali dentro. "
Passou a mão pela saia tentando fazer desaparecer o amarrotado aparente e saiu porta afora. Os cabelos escuros, presos num rabo de cavalo não brilhavam à luz do sol forte daquela tarde de abril que seguiu seus passos ligeiros. Estava atrasada. A pressa fez com que esquecesse seus pés doídos de cansaço e nem notar aquele olhar blasé que a acompanhava pela calçada.
Procuro outros horizontes possíveis.
O All Star Converse foi, de longe, um dos melhores presentes que ganhei neste final de ano. Mas também foi um dos poucos que ganhei assim: de forma espontânea e que não era fruto de brincadeiras típicas deste período. E olha que sobrevivi a variações de inúmeros "Amigos secretos". Bendito sejam eles que, bem ou mal, enchem a gente de presentes. Daí fico pensando: Quem inventou essa história de aliar Natal com Amigo secreto? Já prestaram atenção no quanto a brincadeira virou mania nacional neste período?
Parece óbvio dizer que não há fórmulas para definir o amor. Para viver o amor em sua forma mais perfeita é preciso, apenas, amar. O problema é que o amor não é uma via de mão única. As escalas de sentimentos entre pessoas que se amam é que são as responsáveis por complicar tudo (e tornar tudo divertido também). Não é possível quantificar, medir, imaginar o tamanho de um amor. Basta amar. As diferenças entre o que uma pessoa sente por outra, e vice-versa, é que dão o tom do relacionamento. A idéia de que o relacionamento perfeito só acontece quando as duas pessoas estão exatamente na mesma sintonia é bem abstrata e soa, pra mim, até meio chata.
Aconteceu tudo muito rápido. Abri a cortina para escancarar a janela semi-aberta e mandar embora um pouco do calor deste primeiro dia do ano. Ao me virar, vi um beija-flor voar com aquela rapidez característica e adentrar pela sala do apartamento por alguns segundos apenas. Meio atônito com a visita inesperada continuei parado e quieto mesmo depois que ele se foi, desaparecendo entre as silhuetas dos prédios.
Tem muita coisa nesse mundo que eu não entendo: