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quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Bugigangas

Coisas bacanas que encontrei em minha viagem para os Estados Unidos:

1. Moleskine (do mesmo que Picasso usava para desenhar)

2. Band-aid com vários rostos de Jesus (só ele cura!)

3. Bico de Pena (com pena de verdade)

4. Baralho com 52 posições sexuais diferentes (imagina só o fim do jogo)

5. Livro de arte tribal (recheado de fotos)

6. Cartas de tarô com desenhos do Leonardo da Vinci (alguém me ensina?)


7. Calendário com obras do artista Chicano (impagável!)

Flores da Chegada

Na minha chegada, flores estavam à minha espera. No meio delas, um girassol para aquecer meu coração depois de 15 dias de frio.

05 de Fevereiro de 2008
Imagem: Wolney Fernandes

Para não concluir

Decidi não mais continuar com o diário virtual de viagem. Não tem mais graça. Já estou em casa e cheio de outras coisas para postar. Depois do post anterior fiquei ainda mais 6 dias nos EUA. Neste tempo, novas descobertas foram feitas, novas imagens e histórias me conquistaram e velhas saudades deixaram meu coração doido para voltar para casa.

Apesar de difícil, este foi um ótimo exercício para olhar minha própria vida do lado de fora. Algumas angústias acabaram fazendo sentido e outras nem tanto. Encontros foram ganhando contornos mais definidos e meu cotidiano ajustado. Volto com novo fôlego para continuar minha história naquele movimento de ir e vir do céu estrelado de Van Gogh.Há um trecho da introdução de minha dissertação que gosto muito e que diz assim:
"As histórias que me constituem (...) ajudam a desenhar as escolhas que orientaram meu percurso até aqui. Essas escolhas se deram, não apenas agora, mas ao longo da jornada, quando a estrada foi tatuando mapas na sola de meus pés e sulcando destinos nas linhas de minhas mãos.(...) Nesse tempo de idas e vindas venho tentado delinear minha identidade. Hoje compreendo que ela se constitui, substancialmente, à partir destes novos lugares/olhares sobre minha própria trajetória. (...)"

O Pequeno Príncipe ensinou-me que "Quando a gente anda sempre em frente, não pode ir muito longe". Portanto é assim, indo e vindo que vou construindo os caminhos que constroem os percursos da minha existência.

Imagem: A Noite Estrelada (1889) - Van Gogh
05 de Fevereiro de 2008

Inquietações de um Turista

O dia amanheceu muito frio e para piorar o vento não deixava ninguém sair do hotel. Fiquei no quarto pela manhã esperando a hora de ir novamente para a universidade. Nesse meio tempo de preguiça embaixo das cobertas, fiquei tentando responder as questões estranhas que povoavam minha cabeça sobre esse país. Minha mania de fazer listas promoveu o seguinte questionário:

1. Por que as diferentes notas de dólar têm a mesma cor?
2. Por que as pessoas tomam chá e café enquanto almoçam?
3. Por que o sinal de trânsito abre ao mesmo tempo para os pedestres e para os carros que vão virar na mesma rua onde se pretende atravessar?
4. Por que todo mundo tem GPS no carro numa cidade tão pequena?
5. Por que os preços nas etiquetas dos produtos nunca são os preços reais? (Há sempre uma taxa que se acrescenta na hora do pagamento).
6. Porque o sol não funciona?
7. Se não existem pontos de táxi por aqui, onde ficam os táxis quando não estão rodando nas ruas?

Essas dúvidas existenciais me acompanharam todos estes dias.

À tarde, na Universidade, depois de novas apresentações em outras salas voltamos ao hotel para nos prepararmos para um jantar na casa da diretora do Departamento de Artes. Sua casa era uma espécie de casa de campo e a viagem até lá demorou uns 40 minutos. Nesse tempo aproveitei para tirar várias fotos de um pôr-do-sol maravilhoso naquela paisagem plana como nosso planalto central.


O jantar foi muito agradável. Comemos uma espécie de Paella e uma sobremesa de chocolate que me fez esquecer todas as minhas promessas de emagrecer alguns quilos. De volta ao hotel liguei a tv e passava King Kong pela enésima vez desde que chegamos em Columbus. Tomei um banho e tentei dormir ouvindo música.

Minha inquietação de turista provocou sonhos bem insólitos. Em um deles eu olhava o céu marron e via um sol invertido que não conseguia iluminar uma estrada de tijolos infinita que saía da janela do quarto e seguia cheia de uma neve colorida. Estremeci e acordei no meio da noite com frio. Tinha esquecido de ligar o aquecedor.

29 de Janeiro de 2008

Imagens: Wolney Fernandes

Branco como a Neve

O relógio digital ao lado cama marcava 9h17. Escorreguei pelos lençóis e edredons esverdeados com uma vontade enorme de continuar dormindo. O trabalho na madrugada anterior acabou desregulando novamente meu relógio biológico.

O barulho constante do aquecedor fez me aproximar da janela antes de entrar no banheiro. Afastei a cortina para deixar a luz entrar e então a brancura da neve invadiu tudo o que a vista alcançava. Vibrei porque aquela visão era inédita. Apesar de ver a neve cair em Nova York (sim, ela tem aquele formato de estrela que a gente ve decorando os enfeites de Natal) a chuva fina acabou levando todas as possibilidades dela se acumular e pintar tudo de branco.

Nevou por toda a madrugada e eu nem havia notado. Pela manhã o gelo se acumulou por todos os cantos de Columbus. Meu sono desapareceu frente aquela nova imagem e meu banho matinal foi bem rápido porque queria descer logo para registrar e experimentar a textura da neve. Parecia um menino que acabara de ganhar um novo brinquedo. Toquei, cheirei, fiz marcas, tirei foto, construí bolas, escrevi, pisei... Novas experiências sempre me fascinaram e queria lembrar-me desse fato da mesma forma intensa de quando vi o mar pela primeira vez.

Quando olhei para meu relógio de pulso tomei dois sustos. Primeiro porque toda a parte digital que marcava as horas no Brasil havia desaparecido. Restou apenas os ponteiros que marcavam as horas aqui nos EUA. Faltavam 15 minutos para o meio dia. Corri para me aprontar para ir ate a univerdade já um pouco nervoso por conta da apresentação que seria dali a alguns minutos. Leda, minha orientadora mostrou um pouco do trabalho que desenvolvia como professora na graduação em Artes Visuais e na pós-graduação em Cultura Visual. Em seguida foi minha vez de falar e mostrar minha pesquisa sobre o universo de Santa Dica.

Foi engraçado porque, enquanto falava para aquela sala lotada, meu pensamento não deixava a visão da cidadezinha onde nasci desaparecer. Como imaginar que as estórias ouvidas ali me trariam até aqui? Pensar nestas distâncias e aproximações me ajudou a terminar a apresentação e a responder as questões que surgiram em seguida. Terminei contente com o resultado, principalmente porque vi minha orientadora caminhar até mim cheia de novas idéias para a pesquisa. Todas elas capturadas na minha fala.

Com a motivação à flor da pele seguimos para a sala da Professora Cristine que iria nos falar de uma parte de sua pesquisa dentro do Second Life. O escritório da professora era incrível porque era repleto de referências visuais, as mais variadas possíveis. De cenas do filme "O mágico de Oz" a fotos de índios norte-americanos. O que mais achei engraçado foi a almofada com uma citação da Cinderela (!).

De lá seguimos para a próxima aula para novas apresentações e meu estômago comecou a reclamar de fome. Me encantei com os crachás feitos à mão que os alunos traziam sobre as mesas. Não resisti e pedir para registrar. A idéia para o segundo momento frente a novos alunos era falar sobre nossa história e de como nossa experiência vivida ia definindo, entre outros aspectos, nossos caminhos e escolhas acadêmicas.

Quando saimos para comer já passava das 18 horas. Fomos a um restaurante bem divertido onde serviam carne de porco de todas as maneiras imaginadas. Lá, a Coca-Cola era gratuita e nas paredes havia quadros bem divertidos com grandes personalidades mundiais usando narizes de porco. Comi além da conta.

Quando voltamos ao hotel, depois do dia cheio, não consegui dormir imediatamente e descobri que havia um computador disponivel para os hóspedes. Aproveitei para enviar noticias ao Brasil e tentar atualizar meu diário da viagem no blog que, como vêm, está quase uma semana atrasado.

A madrugada chegou novamente e, para minha surpresa, o clima pareceu um pouco mais quente. A roupa de cama do quarto fora trocada e agora tudo estava branco como a neve que continuava a cobrir tudo lá fora.

28 de Janeiro de 2008

Imagens: Wolney Fernandes

Noite de Lua

Hoje conheci parte do Campus da OSU (The Ohio State University) e o departamento de Arte-educacao. Nem preciso dizer o quanto me impressionou toda a estrutura e o modo como a universidade está misturada a essa parte da cidade.

Assistimos a dois documentários sobre religiões afrobrasileiras, conversamos sobre os planos para o dia seguinte e fomos comer comida chinesa. Sem duvida a melhor refeição feita até agora. Na volta para o hotel minha orientadora e eu preparamos nossa apresentação para o dia seguinte. Finalmente encontramos um computador disponível para usarmos. Não imaginava o quanto seria difícil acessar a internet ou sequer encontrar um micro para trabalhar. Não há lan-houses na cidade. Todos aqui tem seu computador pessoal. É como um celular no Brasil. Onde quer que você esteja, à sua volta sempre há alguém usando um notebook.


Antes de finalizarmos as tarefas do dia, Leda convidou-me para ir com ela até a casa de uma amiga de longa data para buscar alguns pertences que ela havia deixado aqui antes de voltar para o Brasil. Fizemos uma pausa e seguimos até um bairro bem charmoso da cidade com aquelas casas dos filmes norte-americanos: de madeira, sem cercas, com duas portas, sótão e blá, blá, blá...

A lua que nos acompanhou era imensa e o luar deixava a noite fria ainda mais misteriosa. Tentei fazer uma foto mas a máquina fotográfica não conseguiu captar toda a beleza do ambiente. De lá seguimos para uma lanchonete. Tomamos um chocolate quente antes de voltar para o trabalho que prosseguiu madrugada afora.

Revisamos o inglês para que nada estivesse errado nas apresentações em power point. Em parte nao gosto muito da idéia de facilitar a vida das pessoas daqui em relação a tradução de todo o material para a língua delas, pois elas nem se importam com isso quando estão visitando o Brasil. Porém, foi bom reconstruir toda a apresentação porque fiz novas descobertas sobre minha própria pesquisa enquanto construíamos juntos o roteiro para o dia seguinte.

No quarto olhei uma última vez pela janela procurando rever a lua, mas já não consegui encontrá-la. Uma névoa fina recobria toda a área em frente ao hotel. Fui dormir sem pensar em nada. O cansaço falou mais alto.

27 de janeiro de 2008

Imagens: Wolney Fernandes

Symphonic Poem*

A porta se abriu e ela apareceu. Alta, magra, negra e sem cabelos. Em cada orelha 6 pares de brincos do tipo argola emolduravam seu rosto expressivo. Os olhos muito profundos olhou-nos de maneira carinhosa nos convidando para entrar em sua casa-ateliê-santuário.

Aminah Robinson é uma artista que vive com seus dois cachorros aqui em Columbus. Entrar em sua casa foi uma experiência muito peculiar. Ali, não consegui definir as fronteiras entre arte e vida. Sua obra está conectada ao seu cotidiano de tal modo que um não se separa do outro. Espalhados por todos os cantos da casa estavam livros, tecidos, obras, linhas, botões... retratos de quem se aprofunda naquilo que faz.


Uma espécie de árvore da vida construída com diversos tipos de materiais reciclados ocupava quase toda a cozinha. Seus galhos escondiam varias caixinhas de música que, quando acionadas simultaneamente, tocaram minha alma como um poema sinfônico. Ao comentar com a artista que sua obra, de certo modo, me fazia mais forte, ela docemente explicou-me que a força do seu trabalho vinha das pessoas. Das estórias que ela ouvia ainda no ventre de sua mãe. Da vontade de voltar a Angola sem nunca ter estado lá. Da sua conexão com aquele lugar por causa de seus antepassados.

Ficamos por horas, ouvindo-a discorrer sobre suas motivações e desejos. Sobre como ela mistura sua expêriencia vivida com sua arte. Mesmo depois de sair dali continuei remoendo tudo o que vi e ouvi. De lá seguimos até o Museu de Arte de Columbus, pois domingo era o último dia da exposição que mostrava os Jardins de Monet através de suas pinturas. A fila que enfrentamos para a exposição era extremamente grande, mas foi bom esperar um pouco até ver outros trabalhos de arte porque a forte experiência na casa de Aminah ainda precisava ser digerida. Um sentimento que não consegui definir me fez chorar baixinho. O choro interno renovou-me as forças e me fez refletir sobre como transformar o cotidiano numa sucessão de eventos encharcados de tesão, paixão, memória e força e, assim, transcender limites com aquilo que nos move.

Gostei da exposição de Monet, o mais interessante eram as obras de artistas contemporâneos que recriaram de maneiras bem surpreendentes os jardins do famoso artista francês. Foi um final bem criativo para o dia frio de Columbus. Minha primeira impressão sobre a cidade não foi muito boa porque não vi pessoas na rua. Parecia estar numa cidade-fantasma. Em parte por conta do domingo, em parte por conta do frio que chegou a 10º negativos.

As emoções experimentadas nas atividades do dia me deixaram excitado para o que estava por vir. Dormi muito animado e sonhei com os bordados cheios de detalhes do mundo de estórias de Aminah.

(*) "Symphonic Poem" ou "Poema Sinfônico" é o título do catálogo com as obras de Aminah Robinson.

27 de Janeiro de 2008

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Eu e a Saudade

O vôo para Ohio foi bem diferente de tudo o que já vivi . A começar pelo avião. Era bem pequeno e até um pouco apertado. A aeromoça (que neste caso era uma aerosenhora) parecia uma mãezona em sua cozinha. Sozinha ela serviu e cuidou de todo mundo durante o vôo de duas horas até Columbus.

Um casal tentava fazer o filho pequeno parar de chorar. Eu já estava ficando irritado com o barulho quando a mãe da criança comecou a cantarolar uma canção de ninar em português. A voz era tão doce que acalmou o bebê e me fez dormir também. Quando acordei já estávamos aterrisando em nosso destino.


A professora Vesta Daniel aguardava no aeroporto e levou-nos para o hotel onde iríamos permanecer os próximos dez dias. Para quem tinha saído de um albergue o local nos pareceu um paraíso. Uma extensa programação nos aguardava e começamos com um almoço no hotel para acertarmos horários e atividades.

À tarde resolvi ficar quieto e descansar um pouco. As longas caminhadas por Nova York me cansaram. Tomei um banho e quando terminei vi que estava passando "A Casa do Lago" na TV. Nao resisti. Entrei debaixo das cobertas e resolvi assistir o filme. Lembrei-me da combinacao trinitária que eu adorava fazer no Brasil: Sofá, chuva e sessão da tarde. Nem me lembro da última vez que pude experimentar isso. Confesso que a versão norte-americana não é tão boa (não era meu sofá e nem chovia lá fora). O frio aliado ao cansaço bastou para que eu dormisse até o início da noite.

Quando acordei, olhei pela janela do quarto do hotel e tudo me pareceu sem cor e sem graça. Acho que já era a saudade chegando. Deixei ela entrar e ficamos os dois, eu e a saudade, sentados, escrevendo e ouvindo música até a madrugada.

23 de janeiro de 2008
Imagens: Wolney Fernandes

Melhor de Três

Sexta-feira, dia 18. Meu último dia em Nova York. Nesse tempo limitado seria impossível ver tudo o que esta metrópole oferece, mas decidi que este seria o melhor dos três dias aqui. O grupo que viajou comigo (duas professoras e um colega do mestrado) resolveu fazer um passeio comum. Depois de um rápido café seguimos para o topo do Rockefeller Plaza. Um edifício altíssimo e famoso que oferecia a opção de ver a cidade lá de cima. Uma visão única e múltipla ao mesmo tempo. A neve da noite anterior nem apareceu por conta da chuva que a acompanhou dando lugar ao sol forte e brilhante (alguem lá em cima deve tê-lo consertado).


De cima do prédio pude ver lugares que não iria ter tempo para visitar como a famosa Ponte do Brooklin e a Estátua da Liberdade. Aliás, esta última, de longe me pareceu bem mais atarracada do que minha mente se lembrava dos filmes. Ironicamente algo bem mais apropriado para o conceito que este país possui acerca da liberdade. Depois de simular a famosa foto dos trabalhadores sentados na viga da construção do prédio fomos almoçar num restaurante chinês que tinha arroz (!)

De lá, nos separamos porque cada um tinha a pretensão diferenciada para a tarde e noite. Caminhei um pouco mais, comprei alguns postais e resolvi sentar-me num lugar tranqüilo para escrever. Enquanto escrevia vi uma vitrine de um lugar chamado "Anthropologie" e fiquei hipnotizado pelo modo diferente com a qual tudo naquele espaço era organizado. Entrei e perguntei se poderia fotografar. Não era permitido. Resolvi arriscar. Tirei o flash da máquina fotográfica e, de braços cruzados para esconder a câmera, consegui fazer fotos de todos os detalhes e idéias que me chamaram a atenção: estampas, desenhos, materiais alternativos, arrumações, painéis... Saí de lá me sentindo "o" agente secreto com todas as provas (imagens) que precisava registrar.

Encontrei uma moça brasileira muito simpática numa parada para o lanche que me contou suas peripécias pelo mundo afora. No final da conversa, descobrimos que, coincidentemente, estavamos hospedados no mesmo albergue. Eita mundo pequeno!

Já passava das 17h quando resolvi que queria ver um espetáculo na Broadway. Corri até lá para ver se daria tempo de comprar o ingresso para o mesmo dia. Escolhi ver "O Rei Leão". Em parte porque adorei a roupagem africana que as canções e o design do filme ganharam nos palcos. Com ingresso na mão, corri ate o albergue, tomei um banho e voltei para o teatro. Foi incrível. Valeu cada dólar. O coro africano, os bonecos, as máscaras e a atuação acenderam meu desejo de aproveitar mais a noite.



Depois do show fui direto para um bar/lanchonete muito transado onde a decoração era feita com souvenirs de filmes famosos: A máscara do Darth Veider, o colete usado por Mathew Broderick em "Curtindo a vida adoidado", a luva que Marilyn Monroe usou em "Os homens preferem as louras", enfim, um paraíso para um cinéfilo como eu. Tomei duas margaritas e fiquei observando as pessoas ao meu redor. Gosto de fazer isso imaginando uma vida para cada uma delas.

A promessa havia sido cumprida. O dia tinha sido maravilhoso. Resolvi voltar ao hotel de táxi pois já estava bem tarde. Desta vez, sentado no bando de trás, tinha consciência de tudo que me cercava e de tudo que me esperava na volta para o Brasil. Apesar de todo o corre-corre e diversão, me bateu uma saudade boa. Vontade de partilhar as novas imagens e descobertas com todas as pessoas importantes pra mim.

Amanhã parto para Ohio bem cedo. Arrumo minhas malas. Não consigo dormir direito. Sou só expectativa.

23 de Janeiro de 2008
Imagens: Wolney Fernandes

Sol com defeito

O dia amanheceu nublado. Estou achando que nestes dias o sol está com defeito. Mesmo assim tive ânimo para procurar um café da manhã diferente nos arredores do albergue. Acabei comendo um croissant delicioso numa barraca ao lado de um escola. Aqui também há muitos vendedores ambulantes pelas ruas. Como no Brasil, os produtos variam de comida a DVDs pirata. Todos que abordei foram muito simpáticos e solícitos.

Segui direto para o Central Park. Iria comecar de onde parei ontem e aproveitaria para conhecer o Museu Metropolitano de Nova York. Ao entrar na área do parque uma outra lista de filmes me vieram a cabeça: Nunca te vi sempre te amei, Harry e Sally, Escrito nas Estrelas... O lugar é bem maior do que imaginava e ao começar a andar sobre as folhas secas fui tentando elencar mentalmente o que gostaria de ver ali.

Meus olhos alcançaram um lago que estava parcialmente congelado. Era apenas uma camada fina de gelo, mas já bastou para me deixar todo empolgado. Um rapaz norte-americano em visita ao Brasil que encontramos no aeroporto disse não entender essa fascinação que nós brasileiros temos com a neve. Eu disse a ele que é apenas vontade de experimentar algo que só existe no nosso imaginário. Tornal real aquilo que se vê apenas nos filmes.

Toquei o lago gelado e resolvi sentar perto de uma daquelas pontes lindas espalhadas pelo parque. Dois esquilos faziam festa na árvore ao lado. Um deles chegou bem perto de mim procurando comida. Arisco como ele só, fugiu dali ao notar minha movimentação para pegar a maquina fotográfica. Caminhando um pouco mais encontrei o local onde John Lennon foi morto. Várias pessoas rodeavam a grande mandala desenhada no chão com a palavra "Imagine" no centro. Um rapaz colocava flores perto de um vioão customizado que fora depositado ali ao lado de várias fotos do cantor.

De lá segui até o jardim de Shakespeare, um lugar para meditação muito agrádavel para sentar e descansar. Dali até o museu foi um pulo. Ao entrar no prédio pude ver obras do mundo inteiro porque o local está organizado como um mapa-mundi: sala da Grécia, do Egito, do Japão, etc... Entre Picassos e Van Goghs o que mais me impressionou foi o trabalho dos povos da Oceania. Cores terrosas, traços espontâneos. Arte ligada à vida. Algo notável pela simplicidade salpicada de beleza.

Vaguei por aqueles corredores até a hora do almoço. Fiz um lanche rápido e segui para o Museu de Arte Moderna que, apesar de distante, valeu a pena caminhar ate lá. Entre um museu e outro vi o Rockfeller Center com sua famosa pista de patinação e sua notória arquitetura art'deco.

Na saida passei pela loja do museu e me surpreendi com a quantidade de produtos e livros disponíveis. Acabei ficando mais tempo do que gostaria, mas infelizmente os preços estavam lá nas alturas. Infelizmente, a arte, hoje em dia, eleva tudo a um estatus absurdo.

Saí da loja com um sentimento de frustração. Resolvi procurar uma livraria fora dos limites do "olimpo da arte". No caminho encontrei vitrines incríveis de todas as grandes marcas: Prada, Hugo Boss, Ralph Lauren, Dolce Gabana, Gap, Victoria's Secret, NBA... Não resisti e entrei na loja da Disney. Fiquei encantado com os esboços dos desenhos famosos que eu gosto tanto. Um dos funcionários me indicou uma boa livraria que ficava ali perto e foi lá que passei o resto da tarde.

Já era noite quando saí pela porta automática da livraria e parei fascinado com o que vi. Nevava bem de levinho. Os flocos iam se acumulando no meu casaco escuro enquanto eu tentava fotografar aquele fenômeno. Na realidade chovia junto (!) e me disseram que nem iria dar pra ver a neve se acumular porque a chuva já cuidava de derretê-la. Não me importei. Parei na frente de um hotel e fiquei admirando o jeito sereno da neve cair. Ninguém mais parecia se importar com aquilo que acontecia. Só eu. Nem sei o tempo que permaneci quieto sem conseguir me mexer. Metade por conta do frio, metade por conta da fascinação. Quando acordei do transe estava na frente do albergue.

21 de Janeiro de 2008
Imagens: Wolney Fernandes

O mundo mora aqui

Primeiro dia em Nova York. Sao 22h aqui. 01 da madrugada no Brasil. Estou na cama K do quarto 205 do Hostelling, um albergue muito transado que fica a duas quadras do Central Park. Depois de um dia cheio, estou sonolento e quase não consigo organizar com clareza as emoções de me sentir estrangeiro em terras tão distantes.Está muito frio. Cerca de dois graus. Mesmo preparado, dá para sentir a diferença quando coloco os pés nas ruas. Olhos começam a lacrimejar, nariz se avermelha e os lábios queimam feito pimenta.Andar pelas ruas desta cidade é como estar num set de filmagem, pois tudo o que vejo me soa cinematograficamente familiar: Do ônibus escolar amarelo às escadas de incêndio que estão espalhadas por todos os prédios aqui.As pessoas parecem ter saído de um editorial de revista de moda. Sempre achei que roupa de frio deixa todo mundo mais elegante. Aqui elevo a nona potência esse pensamento. Tudo é assombrosamente gigantesco e em cada esquina esbarro em gente falando línguas diversas. O mundo mora aqui.


Depois de um almoço coletivo me separei do grupo para caminhar sozinho. Deu até um frio na barriga ao me ver sozinho na esquina da Quinta Avenida. Andei como um bobo, olhando para cima e tentando enxergar alguma paisagem conhecida (dos filmes, é claro!). Caminhei um quarteirao e quando virei a esquina vi lá no final da rua o Empire State Building. Mais uma vez aquela sensação cinematográfica me veio a cabeça. Daí me lembrei de filmes como: Tarde demais para esquecer, King Kong, Sintonia de amor...Na esquina do famoso edíficio encontrei uma papelaria incrível. Um verdadeiro labirinto onde as paredes eram papéis, tintas, lápis, envelopes... enfim, o paraíso para um ilustrador. Fiquei andando por aqueles corredores sem prestar atenção no tempo e saí de lá com um moleskine que há tempos eu namorava sem conseguir encontrar no Brasil.
De lá, segui para a Times Square. No caminho descobri que andar sozinho pela cidade tinha suas desvantagens. Além de não ter com quem partilhar as emoções não dava para tirar fotos legais de mim mesmo nos lugares que eu queria. No meio daquele caos imagético pedi a uma moça oriental para fazer uma foto minha usando como referência o local onde o Hiro de Heroes apareceu a primeira vez em Nova York.Creio que girei umas 7 vezes em torno de mim mesmo tentando assimilar todas as informações que me cercavam. Uma vertigem me fez fechar os olhos e, ao abrí-los, não consegui encontrar mais vontade para explorar aquele mundo de som e imagem.Resolvi descer uma daquelas ruas sem saber onde iria chegar. Quatro quadras depois e muitas paradas para fotos e entradas em lugares inacreditáveis, vi o Central Park aparecer seco, frio e quieto na minha frente.
Minha vontade era entrar, mas me contive. Não valeria a pena visitar aquele lugar no final do dia sem a luz do sol que ja havia desaparecido no meio dos prédios. Olhei o relógio e me assustei ao ver que eram apenas 17 horas e já tinha anoitecido. Uma carruagem levando um casal para o parque passou por mim. Resolvi andar um pouquinho mais ao redor. Peguei uma das tantas folhas secas que se amontoavam pelas beiras do parque e guardei dentro do livro da Clarice Lispector que eu trazia na mochila.Senti os pés cansados da longa caminhada e resolvi voltar para o albergue. A ideia de voltar de táxi era tentadora. Não hesitei e me dei ao luxo, afinal era só atravessar o parque (que é muito grande) até o Upper Side West e já estaria no hotel.Entrei no taxi amarelo (que tinha gps, aquecedor, tv...), dei as instruções ao motorista e resolvi aproveitar a corrida para olhar a cidade da janela do carro. A sensação que me acompanhou foi estranha. Como se eu fosse arrancado da minha realidade. Como se ali, eu não fosse o Wolney brasileiro, filho, irmão, designer, funcionário da CAJU, dono da Engenho, mestrando, amigo... mas um completo desconhecido sem eira nem beira, nem nada para se preocupar, equilibrar ou sequer pensar. Só olhar.O anonimato de mim mesmo, naqueles minutos que estive dentro do táxi, me fez reecontrar sentidos que estavam esquecidos em gavetas do tempo. Nao dá para explicar isso com palavras porque é mistério que faz a alma ficar mais leve. Por hora estas sensações me bastam para adormecer com o coração mais sereno.

17 de Janeiro de 2008
Imagens: Wolney Fernandes

Mergulhos

Minha cabeça de menino, mesmo com meus pensamentos mirabolantes, sequer imaginava que as águas do Rio do Peixe, onde costumava me banhar tantas vezes, pudessem me trazer até aqui. São 15h45. Estou sentado na poltrona 31F do primeiro avião que vai me conduzir até os EUA.

De verdade, a América do Norte nunca esteve em meus sonhos turísticos, mas neste caso, um convite da Univesidade Estadual de Ohio acabou me proporcionando a oportunidade de conhecer Nova York e Columbus.Meu primeiro destino é São Paulo e só agora consigo respirar depois de dias de preparação e correrias para deixar tudo pronto para a viagem.

A voz da comissária de bordo faz meus pensamentos sumirem ao anunciar que hoje, dia 15 de janeiro, a empresa aérea está fazendo aniversário de 7 anos.Tento me lembrar de como era minha vida há sete anos atras e acabo concluindo que ainda estou nadando nas águas do Rio do Peixe. Ora mergulhando, ora na superfície vou buscando folêgo num movimento de ir e vir que vai constituindo a minha vida em ciclos.

Por alguma razão que ora desconheço, sinto que um ciclo está se fechando para dar início a outro. Prendo a respiração quando o avião decola. Estou pronto para mais um mergulho.

15 de janeiro de 2008
Imagem: Wolney Fernandes

Silêncios Necessários

11 de Janeiro de 2008
Imagem: Wolney Fernandes

Dimensões

Tá nascendo um novo projeto.

10 de Janeiro de 2008
Imagem: Wolney Fernandes

Roteiros para a Vida

A Agenda da Rede Educacional Franciscana de 2008 apresenta roteiros que nos convida a viajar guiados/as pelas nossas escolhas e nossas atitudes do cotidiano e, assim, encontrar os rumos da plenitude da vida.As ilustrações e o projeto gráfico foram feitos por mim num trabalho conjunto da Engenho que envolve também escolha de tema, elaboração de texto e produção gráfica. A novidade deste ano é a possibilidade de personalizar a capa da agenda segundo o gosto de cada um/a. Pode tudo: pintar, colar, bordar, riscar... É só usar a imaginação.

9 de Janeiro de 2008

Sutilezas do Cotidiano

Um dos meus filmes prediletos é o delicado "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain". Nele, Amélie Poulain, uma jovem solitária, encontra em seu apartamento uma caixinha contendo diversos brinquedos que foi escondida por um garoto que morou ali há várias décadas. Sem ter muitos propósitos na vida, a moça resolve devolver o objeto para seu dono e, sentindo-se recompensada pela reação deste, decide solucionar os problemas de todas as pessoas com quem convive. Tudo isso ao som da maravilhosa trilha de Yann Tiersen que vale um post só pra falar dela.

O que Amélie parece compreender muito bem é que, de modo geral, são os pequenos detalhes que determinam o grau de satisfação com que levamos nossas vidas: prazeres rotineiros ou contratempos triviais quase sempre definem aquilo que costumamos julgar como sendo um "bom" ou um "mau" dia. Da mesma forma, são nossas preferências mais sutis que, de um jeito ou de outro, acabam servindo como indícios de nosso caráter – e o filme acerta em cheio ao apresentar alguns de seus personagens através daquilo que eles gostam ou não: uma vizinha de Amélie gosta de ouvir o barulho da tigela de leite batendo no azulejo do chão de sua cozinha; e a heroína adora ver a expressão das pessoas em uma sala de cinema.

São observações como estas que demonstram verdadeiramente as particularidades da natureza humana. Além disso, o filme consegue conferir beleza aos atos mais simples, como no momento em que Amélie beija seu amado.



Um dos meus prazeres rotineiros é fazer listas. Então decidi fazer mais uma lista pra saborear melhor as pequenas sutilezas do meu dia-a-dia:

1. Ouvir barulho da chuva no telhado e na janela;
2. Ver as luzes da sala de cinema se apagando;
3. Tomar água gelada no gargalo da garrafa;
4. Passar a mão sobre o papel branco antes de desenhar só pra sentir a textura;
5. Ouvir músicas sempre no modo aleatório (shuffle);
6. Entrar em banca de revista só pra olhar as capas;
7. Deitar no sofá da sala e dormir vendo tv.

Mais de Mim

Um exercício bom (e difícil) é perceber como as pessoas que convivem comigo me enxergam. Como amanheci com o ego lá nas alturas, resolvi juntar definições de Wolney que andaram escrevendo por aí:

1. Wolney é um menino! A gente olha pra ele e pensa que ele é adulto, mas não se enganem! É um menino que gosta de ler, que vai ao cinema, ao teatro, que desenha e pinta (fala que isso não é coisa de criança!!!)
Naira (antes: colega de graduação/hoje: amiga do peito)

2. Ele é uma continuidade sem fim de círculos coloridos entrelaçados.
Fernando (amigo-irmão)

3. É um cara muito sensato e, sobretudo, uma pessoa que entende os momentos gris que a vida tem.
Jaciara (terceira e única)

4. Um artista com um monte de caranguejos internos.
Hilário Dick (mestre-amigo)

5. Acredito que uma pessoa como ele não é coisa desse mundo porque é uma mistura de real e imaginário.
Edilson (amigo do interior) rsssss

06 de Janeiro de 2008
Imagem: Wolney Fernandes

Amor nos tempos do Cólera

Amor em tempo do Cólera é um filme mediano. Mesmo sendo uma adaptação do livro visceral do colombiano Gabriel Garcia Marquez o filme fica enfadonho em sua última metade. De bom mesmo, eu realço três aspectos: O primeiro, sem dúvida, é a bela trilha sonora, com destaque para três músicas da Shakira que está "latinamente" muito inspirada, diga-se de passagem. O segundo, a participação de Fernanda Montenegro que, mesmo falando em inglês (alguém pode me explicar porque o filme não é falado em Espanhol?) dá um show à parte como a mãe desequilibrada do personagem principal vivido por Javier Bardem, de Mar adentro. E o terceiro aspecto é a atuação da bela e talentosa atriz italiana Giovanna Mezzogiorno que vive todas as fases da protagonista Fermina Daza. Com um elenco internacional e com uma visão parcialmente estereotipada da América Latina (o diretor Mike Newell é inglês) o filme acaba sendo longo demais. Eu cortaria uns 30 minutos pra deixá-lo mais "redondinho".

Para quem ainda não conhece, o enredo conta a história de um amor paciente que dura 53 anos, sete meses e onze dias. É a crônica de uma longa espera, de um desejo que, em vez de perder força, apenas aumenta com o passar do tempo.

Para quem ainda não viu o filme nos cinemas, é melhor esperar saír em vídeo para assistir. A ajuda do controle remoto, para avançar nas partes enfadonhas, será essencial.

Três da Virada

Músicas que embalaram a transição de 2007 para 2008.
1. Living life - Kathy McCarty
2. Noites com Sol - Flávio Venturini
3. La despedida - Shakira

03 de dezembro de 2008
Imagem capturada em http://www.tapedeck.org/index.php

Sorriso das Estrelas

E quando todas as estrelas sorrirem
e quando voar for possível
é preciso estar presente
pra não deixar de sorrir
e poder brilhar como estrela

03 de janeiro de 2008
Imagem: Wolney Fernandes

Vontades Guardadas

"Raquel é uma menina que entra em conflito consigo mesma e com a família ao reprimir três grandes vontades: a de crescer, a de ser garoto e a de tornar-se escritora. Até que ela ganha uma bolsa amarela usada e passa a esconder suas vontades ali dentro. "

Lembrando desta estória encantadora contada por Lygia Bojunga no livro “A Bolsa Amarela”, passei a me perguntar: Que vontades eu carrego guardadas dentro de mim?Consegui elencar um montão delas. Vamos lá:

1. Vontade de voltar a ser criança;
2. Vontade de ter ombros mais largos;
3. Vontade de ser ilustrador de livros infantis;
4. Vontade de voltar à Itália;
5. Vontade de falar com meu pai mais uma vez;
6. Vontade de morar no sul do país;
7. Vontade de escrever e dirigir um filme;
8. Vontade de pegar bicho de pé, só pra sentir a coceirinha gostosa;
9. Vontade de morar sozinho;
10. Vontade de ter as vontades realizadas.

03 de janeiro de 2008
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Carta de Amor

Passou a mão pela saia tentando fazer desaparecer o amarrotado aparente e saiu porta afora. Os cabelos escuros, presos num rabo de cavalo não brilhavam à luz do sol forte daquela tarde de abril que seguiu seus passos ligeiros. Estava atrasada. A pressa fez com que esquecesse seus pés doídos de cansaço e nem notar aquele olhar blasé que a acompanhava pela calçada.

De supetão, lembrou-se do guarda-chuva que usava para guardar o sol em tardes ensolaradas como aquela. Parou indecisa olhando o ponto de ônibus à frente e resolveu voltar. Os pés doídos agora já reclamavam por descanso, mas ela ignorou a dor e retornou até a porta do prédio simples e antigo onde alugava um quarto/sala. Os olhos cor de tamarindo tinham as pupilas dilatadas pelo sol e mal enxergaram o moço de camiseta marron que descia correndo a escada que ela tentava subir.

Abriu a pequena bolsa de tecido de chita à procura da chave e, enquanto chegava à porta, sentiu uma pontada forte no pé esquerdo. Resolveu ficar de cócoras ali mesmo, no corredor e derramar sobre o capacho todo o conteúdo da bolsa para encontrar a chave. Vou perder o “bendito” ônibus – pensou. Com um resmungo impaciente resolveu tirar o sapato para aliviar um pouco dor que invadia seus pés.

Foi ali, no instante daquele gesto, que seus olhos enxergaram a ponta do envelope deixado embaixo do capacho. Parou no meio do movimento e puxou o papel até descobrir que era uma carta endereçada a ela. Virou o envelope duas vezes como se procurasse uma confirmação.
Nem se lembra como foi que encontrou a chave, só sentia o peito pulsar de um jeito frenético. Uma pequena vertigem tomou conta do corpo quando ela levantou-se procurando o buraco da fechadura sem olhar pra ele. Deu uma ultima olhada pelo corredor vazio, mas os olhos de tamarindo agora só enxergavam o próprio nome escrito com caneta vermelha em letra irregular no papel já meio amassado: Jesuênia.

Nunca em toda a vida tinha recebido carta alguma, a não ser as contas que não paravam de encher sua caixa de correio todo mês. Entrou pela pequena sala, já esquecida das dores dos pés e do guarda-chuva que voltara para buscar. Fechou a porta com as costas. Suspirou.

Ao abrir a janela emoldurada por vidros embaçados e nem viu seu ônibus passar pela rua dobrando a esquina. Projetou quase metade do corpo para fora da janela, rasgou o envelope e começou a leitura.

Assim que terminou de ler, Jesuênia descobriu-se em meio a uma excitação latente. Nunca recebera uma carta de amor antes, tão simples, tão verdadeira. Aquelas palavras, escritas à mão com caneta de tinta vermelha, fizeram-na marejar os olhos e suspirar. Soltou o elástico que lhe prendia os cabelos em rabo-de-cavalo, deixando que os fios crespos ganhassem vida própria. Sentiu-se, naquele momento, a moça mais linda da rua. Estava tão esfuziante que lançou longe os sapatos e dançou com o canto dos passarinhos que povoavam sua cabeça. Sozinha.

Leu, então, mais uma vez, aquela carta. Seu coração batia em ritmos alternados, quase que em escala exponencial. Com olhos ágeis deslizando por sobre as linhas, ela podia sentir a pressão usada para grafar cada palavra. Seus dedos acariciavam o papel, que exalava um cheiro adocicado. Parecia ter sido especialmente perfumado para ela.

Num dado momento, depois de tanto admirar aquela página, deu-se conta de um pequeno detalhe. Algo que, no ápice do entusiasmo, passara despercebido. Não havia remetente, nem assinatura. Estava apaixonada por um alguém que sequer sabia o nome. Amava, sim, a simples idéia de ter um admirador. E isso, por enquanto, era o suficiente.

03 de janeiro de 2008
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Horizontes Possíveis

Procuro outros horizontes possíveis.
"Pois os sonhos que se alimentam de horizontes são mais que sagrados" (Moço azul).

03 de janeiro de 2008
Imagem capturada em http://bedtimestory.blogger.com.br/

Barquinhos de Papel

Nesta virada de ano aqui em casa, quem deu o tom da festa foram os barquinhos de papel.
Por um 2008 cheio de perigos!

Imagem: Wolney Fernandes

De All Star com gravata amarela

O All Star Converse foi, de longe, um dos melhores presentes que ganhei neste final de ano. Mas também foi um dos poucos que ganhei assim: de forma espontânea e que não era fruto de brincadeiras típicas deste período. E olha que sobrevivi a variações de inúmeros "Amigos secretos". Bendito sejam eles que, bem ou mal, enchem a gente de presentes. Daí fico pensando: Quem inventou essa história de aliar Natal com Amigo secreto? Já prestaram atenção no quanto a brincadeira virou mania nacional neste período?

E é uma tradição recente (Olha o paradoxo!) porque não me lembro dessa everfescência no passado. Será que é porque no interior não existe esse costume? Lembro-me bem que "Amigo secreto" lá em Lagolândia era um evento quase tão importante (!) como a passagem de um cometa. Lembram do Cometa Halley que só passa pelo nosso sistema solar de 76 em 76 anos?. Pois a brincadeira por lá reunia a escola inteira - alunos, professores e funcionários - e tinha sempre um par de anos entre uma edição e outra. Eu mesmo, em toda minha vida escolar, devo ter participado de uns dois apenas. Todas as turmas do colégio participavam e o correio de cartinhas secretas fazia tanto sucesso que no final propiciava até namoros. Sim, pois o legal era enviar cartas para Deus e todo mundo... e nenhuma pro seu amigo ou amiga, só para despistar.

A caixinha de sapato lacrada, com uma fenda na tampa era guardada na secretaria como um cofre valioso com dois horários fixos para ser aberta. Todo mundo se amontoava ao redor da diretora (só ela tinha autoridade máxima para abrir o "cofre") querendo descobrir se tinha sido contemplado com uma carta secreta.

Divertido mesmo era criar e conhecer os mais variados pseudônimos que apareciam: Morena do rio, Galante sedutor, Desprotegida desesperada... Ficávamos até 60 dias nesta troca de cartinhas e expectativas para o grande dia da revelação, onde seriam descobertas todas as artimanhas inventadas por cada um para despistar sobre quem era seu verdadeiro amigo oculto. O presente, na maioria das vezes nem era o mais importante, mas sim as revelações feitas pelos autores das cartinhas criativas.

Hoje em dia, é só piscar que, entre um panetone e um peru há sempre um amigo secreto. E não há mais mistério no ar porque às vezes só se conhece a pessoa sorteada na hora da brincadeira. Há muitas variações divertidas. Uma das que mais gosto é o "Amigo da Onça" onde não vale comprar nenhum presente bacana (pelo menos não pra você), mas sim um presente bem brega e esdrúxulo pra presentear alguém. Esse alguém pode trocar o que ganhou com qualquer outro presente de outra pessoa que já tenha sido contemplada na revelação. A brincadeira é gostosa porque é sempre permeada por muitas surpresas e risos fáceis. Quem me ensinou a receita foi o Edilson, amigo do peito e de Anápolis que todo final de ano reune amigos em sua casa para o evento.

No "Amigo da Onça" e nas suas várias versões adaptadas há sempre aquele/a "desavisado/a" que, para não bancar o "brega", leva um presente bem bacana que é cobiçado por todos. Mas já notei também que muita coisa que fulano acha horrível e sem graça às vezes é disputado por cicrano porque adorou a idéia do presente. Vai entender...

Eu sou sempre um sortudo nestes eventos. Entre garrafas de Catuaba e gravatas amarelas eu acabei trazendo pra casa um sabonete da Natura e um Cristal de Anjos que muda de cor. A garrafa de Catuaba já vou guardar para dar de presente no próximo "Amigo da Onça" que aparecer. Já a gravata amarela está pendurada ali no meu guarda-roupa. Qualquer dia, combino ela com o All Star que minha irmã me deu. Vai ficar chique demais!

Imagem: Wolney Fernandes