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quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Carta para Sofia

Querida Sofia
Chove a cântaros aqui em Goiânia. O andamento da dissertação continua monótono e eu louco por outra vida. Talvez uma menos acadêmica em véspera de feriado. Mas é sempre assim. Deve ser signo, sina. Geminiano parece nunca estar satisfeito com nada. Você sabe disso, já que nasceu no mesmo mês que eu.

Tenho tentado reclamar menos. Já não me lamento como antes, pois meus desejados dias diferentes e um cotidiano menos maçante já começaram. Mas a quem agradecer? Aos céus?Como te disse uma vez, vivo de ciclos. Os primeiros meses de 2008 têm sido diferentes, com muita coisa acontecendo. Mas ainda teimo em arranjar tempo de olhar pro céu. E o céu acaba nos contando tantas coisas. Hoje mesmo saí antes das seis da tarde de casa. Céu cinza, nuvens descuidadas.

Em dias assim vêm à cabeça pensamentos esquecidos. Vontade de retomar planos, juntar palavras de dentro e de fora, buscar simplicidade. Não temer as frases feitas nem os sentimentos desencontrados.

Já se permitiu desejos assim, Sofia? De voltar no tempo e aproveitar dele só as coisas boas? De adiantar o tempo e viver nele tudo que for realmente significativo? Olhar para o presente e lembrar de agradecer tudo: plenitude, serenidade, harmonia.

Ando assim. Como esses trovões e relâmpagos do meio da tarde. Tentando lembrar a última vez que me senti realmente amado, desejado, querido. Tentando colar todos os fragmentos e reunir minha história num único enredo: feliz, raro, meu de fato.

Ontem retomei a releitura de “Griffin & Sabine”. Amo esse livro. É de uma angústia criativa que nos impele a sair do canto, largar a inércia e tentar mais. Nem que seja alimentando o plano imaginário (coisa que faço tão bem).

Ousadia. Foi isso que pensei no dia que decidi largar minha vida no interior e vir morar nessa cidade. Era 1997. Desde então fiz tanta coisa. E isso ninguém me tira. Ter um passado, contar a própria história, tocar nos fatos através de fotografias, cartas, bilhetes, pequenos fragmentos que enchem agendas, caixas, páginas marcadas de livros. E música. Não existe nada que evoque mais a memória afetiva que os fundos musicais que formam a trilha sonora da nossa vida.

Vou me embrulhar aqui em casa nesse dia de chuva e certo frio. Fazer “cabaninha” com o edredom e ouvir músicas antigas. Sozinho (pelo menos até domingo), mas dentro do possível, feliz.

Beijos de chuva.
Wolney

20 de Março de 2008
Imagem: Wolney Fernandes

Imagens Possíveis

- E aí? vai encarar?

História de Semana Santa

Semana Santa lá em Lagolândia tinha cheiro de assombração. Se alguém jogasse baliza ou fizesse qualquer brincadeira que envolvesse “ganhador” e “perdedor” aparecia o “bode preto” lá da Cava e o “boi branco” lá do cemitério. A meninada não podia nem falar mais alto que minha vó ralhava com todo mundo dizendo que os bichos estavam soltos e que podiam escutar nossos risos e virem assombrar a gente de madrugada.

De quinta pra sexta tinha a missa que valia pra quaresma inteira, inclusive para páscoa, já que o padre só aparecia por lá uma vez no mês. Era quando me vestia de discípulo com túnica de cetim toda brilhante e ia com mais onze amiguinhos ver o Pe. Jesus lavar e beijar os pés cheirando a chulé da turma toda.

Na sexta-feira não se podia varrer casa, nem pentear cabelo e muito menos se olhar no espelho (ainda bem né?). E se alguém quisesse aprender a fazer qualquer coisa com as mãos, tipo tocar violão ou desenhar, era só ter coragem de à meia-noite, ir sozinho até a Igreja e enfiar as mãos por baixo da porta por 5 minutos. Que medo!

Minha mãe, que passava a quaresma inteira prometendo “tirar a aleluia”* da gente no sábado, nem se lembrava disso porque era sempre dia ensolarado de festa, onde podíamos fazer tudo que tinha sido proibido nos 40 dias anteriores. Nossa maior alegria era abrir o baú de brinquedos e de lá retirar todos os jogos que estavam engenhosamente escondidos (bola, dominó, baralho, pega-varetas...) e passar o dia todo matando a saudade das disputas acirradas do jogo de béte no meio da rua... de poder gargalhar com vontade quando a bola era rebatida pra bem longe e a gente, batendo um bastão no outro contava bem rápido: um, dois, tre, ca, ti, no, dé...catinodé, catinodé...

(*) Pra quem não sabe, o termo “tirar a aleluia” era usado pra se referir à surra por qualquer traquinagem que se fazia durante a quaresma. Neste tempo, os pais e as mães não podiam bater nos filhos senão nasciam pêlos nas mãos.
Imagem: Wolney Fernandes
20 de março de 2008

Fogaréu

19 de março de 2008
Dia de São José

Registro das emoções e fatos marcantes de uma primeira vez na procissão do Fogaréu que acontece na Cidade de Goiás.

1. Uma praça cheia de gente vista do andar de cima do casarão;
2. Um empadão goiano bem quente e gostoso do restaurante sem garçons;
3. As luzes da cidade apagadas;
4. O som forte dos tambores misturado ao calor das inúmeras tochas;
5. A corrida desvairada pelas ruas de pedra;
6. A corneta triste anunciando a prisão de Jesus;
7. A fala desnecessária do Bispo;
8. A lua cheia anunciando o solstício da páscoa;
9. O caminhar sem rumo e sem pressa pelas ruas da cidade;
10. O caldo de feijão e as conversas sobre objetividades e subjetividades;
11. As boas risadas na madrugada antes de dormir;
12. A volta pra casa regada a música bem alta e sol forte da manhã.

20 de Março de 2008
Imagem: Wolney Fernandes

Sentido no Caos

Minha tarde foi regada a sofá, supérfluos perecíveis e filme na TV. Do despretensioso "Amor sob medida" destaco a frase abaixo:

"Eu sei o que é estar apaixonado de verdade: Dá a sensação de que o caos desse mundo faz sentido completo pelo simples fato de você viver nele".

Imagem: Wolney Fernandes

Trilogia

Finalmente a trilogia está completa.

1º - Do álbum "Come away with me" (2002) o destaque vai para "Turn me on";
2º - Do segundo CD, intitulado "Feels like home" (2004), a melhor de todas é "What am I to you?";
3º - Do último "Not too late" (2007) ainda não elegi a melhor porque não consigo decidir entre "Wake me up", "Rosie's lullaby", "Thinking about you" e "Until the end". Alguém me ajuda?

Menina de 91

Da minha pasta de 91 surgiu essa menina com cara de livro de inglês e com olhos "vesguinhos" feitos com lápis 6B.

Dentro do Sonho

Eu me localizo naquele vão entre o fim e o esquecimento, entre o amor e a realidade das coisas, entre o purgatório e o céu. Aqui em casa, no meu peito, meus caranguejos internos (sim, eu os tenho. Veja aqui) não bebem água há 3 semanas, esquecidos no turbilhão. Estranhamente, não morrem. Há tantas coisas que sobrevivem sem alimento e, no entanto, não posso dizer que haja tristeza porque a tristeza torna tudo turvo e, embora tudo não esteja exatamente claro, também nada está perdido. Enfim, é o que sinto. Pisco os olhos e, nesse tempo, sonho de novo aquele sonho do céu.

A tarde é de um domingo cinza-azulado e Deus é todo respostas: existe um Mar Vermelho no meu peito e ele diz que vai separá-lo para que eu possa atravessar. Então Deus me manda correr e quando penso que estou longe dele, tropeço numa nuvem empoeirada e caio em seu colo. Deus me segura e me leva para a despensa. Pergunto com cara de quem entende tudo: Deus, quando as coisas somem, elas ficam guardadas aqui? Deus apenas sorri. Parece que tudo vai se resolver. Então durmo dentro do sonho.

16 de março de 2008
Imagem: Wolney Fernandes

O que existe

"O passado já passou, tenho certeza disso. O futuro ainda não chegou, seja ele o que for. Então, o que existe é isto, o presente."

(Do filme "Flores partidas")

Imagem capturada em https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjEFYfY4mIgXJtaMJ1EK1ukf6A-DjPDTBDJz6VlB39M4zMN78L-TNcV-5_rVqSN-BN45IyRRl08MLi2ZAmeFFrLAB9SDJlZD1Fl7f1V973wmSGFFm_drIh-MbFCcSMIIIRdYPfcKKjNAtQu/s1600-h/Flores_Rosas_Sao_Roque_Minas_grd.jpg

Um norte qualquer

Às vezes me vejo como um segredo guardado a sete chaves. Choro sozinho no cinema escuro, com vontade de pegar a mão de alguém e pedir um perdão sentido, desses imensos... sim, eu costumo chorar no cinema com filmes bobos, desses açucarados. Por isso, em meio ao mistério, também posso ser previsível. Mas preciso de bússola, mapas de navegação, um norte qualquer que me dê direção, que não me deixe perder a rota e cair em tentações vazias. Sou tudo isso e sinto que muitas vezes posso doer, de tão grave. Posso sentir desejos colossais, que provocam tremidas, febres e calafrios...

Imagem: Wolney Fernandes

Sessão Nostalgia

Em 1991 (e lá se vão 17 anos) eu resolvi que iria fazer um desenho por dia. Assim poderia treinar para ser o ilustrador que eu sempre quis ser, afinal só se aprende desenhar, desenhando. Comprei uma daquelas pastas-catálogo com bolsas de plástico e comecei reproduzindo cenas dos desenhos clássicos do Estúdios Disney. Todos contornados com caneta Bic preta e coloridos com lápis de cor usando uma técnica que eu mesmo aperfeiçoei para imitar direitinho o efeito de profundidade das animações que tanto me encantavam.Hoje, na arrumação do meu quarto, encontrei a tal pasta e foi a sessão nostalgia mais deliciosa dos últimos tempos. Vou começar mostrando as tais cenas e, no futuro, outros desenhos da pasta de 91.

15 de março de 2008
Imagem: Wolney Fernandes

Simplificações

"A idade simplifica o homem"
(Do filme "Onde os fracos não têm vez")

15 de março de 2008

O Rouxinol

Depois da meia noite, dormi sereno e acordei Rouxinol.

Perigo nas Veias

Do último dia de trabalho na CAJU, a melhor de todas as despedidas:

"você tem encantamento... Esse é um 'perigo' que corre em tuas veias: pois nos apaixonamos por sua grandeza de poeta e artista. Beijos e muitas felicidades!"
Leonardo Venicius.

Imagem: Wolney Fernandes

Auto-Ajuda

Eu detesto, odeio e abomino trecos de auto-ajuda e similares, mas o eterno otimismo que vive em mim, deixou brotar isso aqui:

A briga, a dívida, a dor, a mágoa, a dúvida, a raiva, tudinho vai passar, então pra que tanta gravidade? Já fez tudo o que podia para resolver o problema? Parou, chorou, respirou fundo, comeu chocolate e pediu arrêgo? Ótimo, hora da idiotice: entre na Internet, jogue queimada, tome uma limonada suíça, vá por um caminho diferente, cantarole no trânsito! Tá numa de empinar pipa no sábado? Vá. E suje a roupa na grama, por favor.

14 de março de 2008
Imagem: Wolney Fernandes

Vó D'alena

Se olho para trás na tentativa de buscar memórias da vida que passou, vejo a imagem de mi­nha avó. Sempre preocupada em me oferecer mais um biscoito, mais um café ou mais um bolinho de milho...

Vó Madalena ou simplesmente vó D’alena para os netos, mesmo em situações extremas, nunca levantou a voz para ninguém. Sua serenidade e calma reveladas traziam em suas entranhas uma força velada que ela usava para lidar com as desventuras de ser mãe de 10 filhos e com as perdas que a vida foi colocando em seu caminho.

Por muito tempo foi costureira de mão cheia em Lagolândia e passava dias e noites cosendo as roupas da Festa do Divino e dos eventos sociais da cidadezinha. Seus biscoitos de queijo sempre foram os melhores que já experimentei e ninguém fazia bolinho de milho tão redondinho e gostoso como ela. Apesar de não me lembrar do calor do seu colo, lembro-me da vó D’alena dos delicados silêncios, das “geladinhas” de leite e suco, das roscas em forma de cobra que tinham os olhos feitos com feijão preto, do grande quintal, palco de metade das brincadeiras de minha infância, da voz complacente me chamando de “filho”.

Neste domingo, dia 17 de fevereiro, minha vó arranjou um jeito de ir embora com a mesma discrição e delicadeza que permearam seus atos enquanto viveu. No final de um sono tranqüilo ela passou para a eternidade deixando filhos, netos e bisnetos sem sua presença maternal.

Vê-la partir assim, deixou-me com a sensação de perder, junto com ela, o elo derradeiro que me ligava à presença viva do meu pai. Sem ela, parte do que me constitui se esvai como grãos de areia varridos pelos ventos da memória.

19 de fevereiro de 2008
Imagem capturada em http://www.thatblackgirlart.com/little_blue_girl.html

Por trás de um Cartaz

O cartaz da Campanha da Fraternidade 2008 talvez seja um dos muitos casos de uma imagem que esconde em sua concepção/discurso várias questões relevantes que só aparecem depois de um olhar mais atento. Ou seja, a maioria das pessoas, embora não dispostas a dar esse segundo olhar, assimilarão inconscientemente as idéias por trás da beleza plástica da imagem. Ao observá-la, nosso coração se encherá de ternura ao ver o bom velhinho segurando complacentemente a criança de colo. Entendida assim, viveremos os três: eu, imagem e coração, felizes para sempre!

No site onde pesquisei a explicação dada pelos autores da peça gráfica, um anônimo fez o seguinte comentário acerca do cartaz: "Também é posível 'mergulhar' numa realidade através de escritas, testemunhos, mas, é sobretudo, pela IMAGEM, que retrata a realidade tal como ela é, que esse "mergulho" tem sua eficácia.

Minha intenção com este post é convidar o anônimo do comentário acima e você para um mergulho em algumas das questões escondidas por trás desta IMAGEM.

Vejamos:
O lema da campanha 2008, retirado do livro do Deuteronômio: "Escolhe pois a Vida", sugere, segundo meu pensar teológico-cristão, muitas opções e não somente duas. Explico: Não há apenas um caminho da vida e um caminho da morte. Há entre eles, uma gama de direções possíveis e em todas elas, possibilidades de variações entre o que pode ser o certo e o que pode ser o errado. A grande sacada é poder fazer estas escolhas zelando para que o colorido de nossa existência tenha mais cores claras do que escuras.

Dessa forma, mostrar só dois lados é simplificar todo o gradiente que está entre um ponto e outro. As duas imagens apresentadas ressaltam essa concepção dicotômica e reducionista. Ora, se existe só a vida e a morte, então qual dos dois personagens do cartaz será associado à representação da morte? O idoso ou o recém-nascido?

Um jogo de associações fica bem claro pra mim, à partir deste simples questionamento:

Idoso = morte
criança = vida

Idoso negro = morte
criança branca = vida

Idoso negro que serve/cuida = margem
Criança branca que precisa ser cuidada/servida = centro

E olha que, até aqui, nem mencionei que esse "Cuidado com a Vida" pode ser lido, por muitos, apenas como uma única palavra: "ABORTO".

É necessário reconfigurar um novo olhar sobre estes discursos dualistas para compreender a mobilidade existente nestes sistemas formais que, utilizando de um discurso supostamente libertário está, na verdade, incutindo no povo, um ideário de opressão. Coisas desta Igreja-Instituição!

P.S.: Para quem quiser ler a explicação oficial dos criadores do cartaz, clique aqui.

Por um triz

"Estamos, meu bem, por um triz
Pro dia nascer feliz!"

14 de Fevereiro de 2008
Imagem: Wolney Fernandes

Imagens de São Sebastião

A versão da história de São Sebastião que conheço conta que ele, um soldado romano, converte-se ao cristianismo e, ao ser descoberto, é morto por flechadas. (ponto)

Outro dia, pesquisando sobre a iconografia que cerca a imagem do santo descobri que ali, no lugar daquele ponto seria melhor colocar uma vírgula. A história continua, pois para minha surpresa, São Sebastião não morreu imediatamente e por isso foi lançado em um rio. Quem o encontrou foi uma mulher que cuidou de seus ferimentos até que ele, recuperado, desafiasse novamente o imperador romano e fosse açoitado e morto de verdade.

Devo dizer também que tais histórias não são tidas como dignas de crença. A pintura em mosaico mais antiga de São Sebastião parece datar de 682 e o retrata como um homem maduro, com barba e em roupas da corte, sem traços de setas. Foi a Renascença que primeiro o retratou como um jovem perfurado por flechas.

A essência desse imaginário e das várias versões encontradas é essa descrita acima. A obra de Ana Maria Pacheco mostra essa mulher (curiosamente também chamada de santa quando é mencionada em sites católicos) envolvendo São Sebastião com os braços numa atitude quase uterina. Dela, me vieram tantas perguntas: Quem foi essa mulher que o encontrou no rio? O que a motivou a cuidar de um desconhecido? Por que ela nunca aparece nas versões oficiais da história do santo?

Todas estas indagações reforçaram meu interesse pela imagem emblemática do mártir. Afinal, não conheço na Igreja Católica outra com um teor tão subversivo e até certo ponto, erótico. Li que a imagem do santo, como a conhecemos, foi criada por Fra Bartolomeo (1473-1517), pintor italiano “especializado” em temas religiosos. Sua pintura em afresco sobre o mártir foi retirada das paredes da igreja pelos monges, sob a “acusação” de que era fonte de pensamentos pecaminosos durante as confissões das mulheres e induziam fiéis a devaneios eróticos.

Uma das configurações mais impressionantes para o imaginário contemporâneo em referência a São Sebastião foi a que o escritor japonês Yukio Mishima interpretou para as lentes de dois fotógrafos japoneses. Ele descreve seu fascínio pelo santo no seu romance autobiográfico ‘Confissões de uma Máscara’, explicando que tudo se originou com sua descoberta como um ‘garoto desejável’ ao ver uma reprodução da pintura de São Sebastião por Guido Reni. Mishima escreveu: “Diante da imagem do mártir, eu logo percebi que meu próprio espírito, o funcionamento de minha mente, tinham se tornado totalmente redundantes. Foi uma experiência estimulante, um estado de aventuras amorosas com o qual eu tinha sonhado há muito tempo”.

Mishima foi um homem que nunca permitiu sua própria decadência física e tirou a própria vida aos 38 anos no auge de sua beleza. A fascinação e registro permanente de sua beleza o deixou imortal como o próprio Sebastião.

13 de Fevereiro de 2008

Créditos das imagens na sequência em que aparecem: 1. Guido Reni; 2. Imagem capturada em http://www.ivygateblog.com/blog/2007/03/ivygate_galleries_young_christian_soldiers.html 3. Eliseo Visconti; 4. Ana Maria Pacheco; 5. Guido Reni; 6. Eikoh Hosoe

Só por mais um dia

Sou um Dom Quixote à moda da casa: meus gigantes são os prédios, porque nunca vi um moinho de vento pessoalmente. No lugar das histórias de cavalaria, livros com imagens e um alforje com canções. Realidade? Ah, fiquem vocês com a realidade, só por hoje. Eu confesso minha fraqueza: meu vício é o sonho. É uma das coisas raras que me deixam vivo mais um dia. E como todo vício, não resolve meus problemas, mas me impulsiona. Só por mais um dia.

13 de Fevereiro de 2008
Imagem de Cândido Portinari: Dom Quixote e Sancho Pança Saindo para Suas Aventuras (1956). Lápis de cor sobre cartão.

Desenredo



Às vezes uma canção (ou uma imagem ou um texto) parece habitar no espaço entre a carne e a pele, ressoando no silêncio que precede o sono cansado - e por lá permanece.

Como um fantasma, ela te persegue pelas ruas até onde não deveria chegar, até onde a influência não deveria existir. E não existe o que possa exorcizar essa presença, não há poder no mundo que possa fazer com que a pessoa retorne ao que era.

Como um feitiço, quando se entra nesse círculo não se sai nunca mais. Você entra de livre e espontânea vontade, sabendo que vai ser aprisionado e ainda assim feliz por cometer tal loucura - cada vez que coloca os fones de ouvido e aperta o play do aparelho pela enésima vez.

Anjos

Hoje o moço azul me disse assim:
"Anjos são serenos, fazem as pessoas se sentirem especiais em sua presença... Cuidam de forma 'singular' das pessoas... Têm um olhar doce... protegem.... e são meio 'atrapalhados'."

Desconhecido

Momentos de angústia antecipam o desconhecido. Aquilo que não se pode tocar, ver, controlar; O coração prestes a saltar pelo portal da subsistência. O estômago frenético como uma escola de samba. De fato, nem mesmo eu sei o que me espera... Céu ou Inferno? Paraíso ou Tormento? Anjos ou Demônios? Cada minuto é o primeiro, cada segundo o último. O tempo não pára e, sem cuidado, me faz sentir frio na barriga.
10 de Fevereiro de 2008
Imagem: Wolney Fernandes

Existir nas Pausas

Depois de 17 anos sem meu pai, hoje, sem um sentido aparente, amanheci com saudades dele. Já não sentia isso há anos. Mas o que eu esperava? Afinal perder alguém que é parte de você nunca faz sentido. Não de cara. Mas o telefone continua tocando, as contas continuam chegando, você se pega, mais cedo do que tarde, rindo de uma piada boba. Tudo se encaixa outra vez. Com uma diferença: nada será como antes.

No meu caso, um garoto de 15 anos que, numa manhã de quarta-feira viu seu mundo mudar e tormar rumos desconhecidos. O pior é que não temos como saber em que momento a vida mudará para sempre. Na última vez que falei com meu pai, ele tinha me levado para pegar o onibus que iria para Goianésia. Lembro de olhar pela janela e vê-lo parado ao lado do Corcel verge musgo que tínhamos na época. O mesmo carro onde tinha me ensinado as primeiras noções de direção. Como sempre, falamos pouco e me lembro apenas do apelo feito por ele, instantes antes de eu sair do carro: "Quando quiser vir pra casa não se preocupe com dinheiro. Aqui a gente dá um jeito". Naquela época eu tinha deixado Lagolândia para estudar em outra cidade.

Se pudesse saber que aquela seria a última vez que nos falaríamos, teria certamente dito a ele dos sentimentos nunca antes demonstrados ou sequer pronunciados. O problema é que somos equipados com essa presunçosa mania de achar que sempre haverá mais um. Mais uma conversa, mais um abraço silencioso, mais um telefonema, mais uma aula de direção, mais uma refeição juntos, mais uma oportunidade para pedir desculpas, mais uma chance de fazer direito, de não levar tão a sério, de seguir a intuição e não a razão.

Mas quem tem tempo para tantos rituais executados no momento presente? Nossa cabeça está no que passou e no que virá, nunca aqui, neste exato instante. Mas quem sabe não é esse o grande segredo da vida? Se só o agora existe, por que insistimos em viver lá atrás ou ali na frente? Por que estamos sempre com a sensação de que, quando finalmente acertamos o passo, a música muda? Li uma vez que um pianista famoso disse que a arte de organizar as notas para compor uma canção estava nas pausas. Será isso então? Quando conseguirmos existir plenamente nas pausas, e não simplesmente passar por elas, teremos entendido a vida?

07 de fevereiro de 2008
Imagem capturada em http://www.thatblackgirlart.com/art_quilts.html

Em Preto e Branco

Olhou dentro do armário e, quase que automaticamente, escolheu a camiseta marron com o número 17 estampado na frente. Era sua preferida, por isso estava gasta e até um pouco poída na gola. Não importava. Vestiu-a e passou a mão pelos cabelos escuros já abrindo a gaveta a procura do envelope. Parou diante do pequeno espelho do banheiro com a carta na mão. Se encheu de coragem, colocou-a no bolso da calça jeans e saiu porta afora.

Já na calçada, enquanto caminhava, foi tomado por uma coragem que desconhecia. Não iria usar a carta. Falaria tudo cara a cara. Assim, de um fôlego só derramaria as palavras aos pés da amada para que ela juntasse todas as frases que ele há muito guardava dentro do peito.

Não havia muitos detalhes naquele pequeno sobrado que abrigava vários apartamentos, tudo parecia ser velho e limpo. Portas muito grandes davam a impressão de se estar num casarão. Ele parou na esquina, ajeitou o cabelo em desalinho e, uma leve hesitação fez seu corpo estremecer. Enquanto caminhava até ali a coragem repentina foi diluída em seus passos largos. Subitamente, a porta se abriu e ela saiu apressada. Ele caminhou dois passos em direção a amada, mas ao pronunciar seu nome não escutou som algum. De repente a porta abriu-se novamente e um homem idoso saiu de lá com seu casaco velho de lã verde e sandálias que se arrastavam fazendo um barulho incômodo.

Sem pensar, entrou pela porta antes que ela se fechasse. O vento lá dentro ondulava as cortinas e os tecidos sobre os móveis anunciando uma possível chuva de verão. Subiu pelas escadas, procurou pelo número 115 pintado na porta e colocou o envelope debaixo do tapete deixando uma ponta aparecer. A coragem fora momentânea. Seria melhor assim. Covarde! pensou consigo mesmo a ponto de querer socar a parede por não correr até ela lá fora e se declarar.

Ouviu estalos de madeira com seus próprios passos, a porta da entrada bateu e logo descobriu Jesuênia subindo as escadas apressada sem sequer notar sua presença ali. O coração veio à garganta quando se esbarraram. A proximidade momentânea o fez apenas contemplar a imagem da amada sem que ela percebesse. Nunca ela lhe parecera tão bela quanto naquele momento. A sombra lhe dava contornos generosos e a vida naquele momento virou um filme em preto e branco. Muitos contrastes. Agora não conseguia ficar ali, precisava de ar. Um suspiro sofrido apertou-lhe mais que devia. Pensou em desistir. Nunca mais voltar ali ou tentar falar com ela. Viver o que sentia em silêncio.

Agora ela já deveria ter achado a carta, pensou enquanto saía pela porta sem ver a bicicleta que vinha em sua direção. Ao tentar se esquivar trombou no velho de casaco verde parado do outro lado da calçada. Não teve tempo de sentir o coração pulsar na garganta. Fechou os olhos quando percebeu que um ônibus dobrou repentinamente a esquina vindo em sua direção. Continuou ali parado, em preto e branco.

07 de fevereiro de 2008
Imagem capturada em https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgbr9AHJ5kGJV89SxMnk42Yi6Ac1fkqrdGDtlXhEuWt0H0yY3iEEtI6b4j87ORko3hhsY7qUGWJNxaCp3IuiV9YeXEYuiGlr6YxFeVuQVTyRpGgniv6tJFf4df498ZhztBB53svEXTKrTDJ/s1600-h/calcada.jpg

Mais Legal

Hoje me tornei uma pessoa mais legal do que já sou: Comprei óculos escuros.

05 de Fevereiro de 2008
Imagem capturada em http://depositodocalvin.blogspot.com/

Janela para o Universo

Juno

Juno é um filme que parece previsível, mas não é. A gente sai do cinema com aquela sensação boa de que nossa inteligência não foi substimada. A história da menina de 16 anos que fica grávida e decide dar a criança a um casal que não pode ter filhos diverte e emociona de um jeito surpreendente.No filme não há espaço para os clichês vistos em outras estórias do gênero. Não há o namorado canalha, nem a família desajustada e muito menos a idéia de amor trágico ou complacente demais. O que acompanhamos é uma adolescente que vai descobrindo que amadurecer pode ser mais difícil do que se imagina.

Destaque para a atriz Ellen Page que constrói o retrato de uma jovem determinada e divertida, mas que também tem suas fragilidades. Elas vão aparecendo no desenrolar do roteiro que traz diálogos impagáveis.Note como a trilha sonora e a direção de arte ajudam a contar a história com a precisão e a sutileza necessárias para deixar o filme bem levinho e redondinho.

Hit Parade

As músicas que mais ouvi enquanto estava em terras do norte:
1. Outra estrada - Flávio Venturini
2. Shes So High - Tal Bachman
3. Alô Fevereiro - Roberta Sá
4. Love you'till the end - The Pogues
5. My sweet song - Toby Lightman
6. Vieste - Ivan Lins
7. Battleships - Travis

05 de Fevereiro de 2008
Imagem capturada em http://www.tapedeck.org/index.php

Mamma Mia!

Imaginem Meryl Streep cantando e dançando para viver a mãe da noiva que sonha conhecer o pai no dia do seu casamento. Misturem músicas do Abba com lindas paisagens gregas e o resultado será o filme "Mamma Mia!" inspirado no famoso musical da Broadway.Para aguçar a vontade dos amantes de cinema, segue o trailer abaixo.