Páginas

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Coleção de Instantes


Na fila do banco, no ponto de ônibus ou em subidas e descidas de elevador, diariamente sou testemunha da vida que acontece ao meu redor. Soltos pelo acaso, alguns pedacinhos do movimento que a vida faz, colocam sorrisos em meus olhos e provocam inquietudes sem que eu saiba bem o porquê.

Foi por isso que comecei a registrar esses fragmentos de realidades, entendendo que são eles que bordam meu tecido cotidiano com complexidade e beleza. Por eles, a vida - mesmo descabida - parece caber em todo canto.

Comecei registrando um abraço ali, um descuido acolá e quando dei por mim, tinha um monte de instantes colecionados por aí. Numa espécie de epifania, resolvi reunir todos eles em um blog novo que pode ser acessado aqui. Pelas vias da simplicidade, minha Coleção de Instantes passa a ser um canto onde posso guardar sorrisos, conversas, olhares, encontros e sentidos.

Imagem: Wolney Fernandes

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Catador de poesia


Procurei poesia pelo facebook e encontrei essas aqui:

‎"Todo caminho da gente é resvaloso.
Mas também, cair não prejudica demais,
a gente levanta,
a gente sobe,
a gente volta”


[João Guimarães Rosa] via Carmem Lucia Teixeira

.............................

"Todo aquele que dorme vira de novo criança, 

porque durante o sonho não se pode fazer o mal nem prestar contas à vida..." 

[Fernando Pessoa] via Agno Flávio Santos

.............................

“O que precisa nascer tem sua raiz em chão de casa velha. À sua necessidade o piso cede, estalam rachaduras nas paredes, os caixões de janela se desprendem. O que precisa nascer aparece no sonho buscando frinchas no teto, réstias de luz e ar. Sei muito bem do que este sonho fala e a quem pode me dar peço coragem.”


[Adélia Prado] via Vanessa A. Correia

.............................

‎"Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça."


[Cora Coralina] via Gisele Costa

.............................

‎"Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, 
não há ninguém que explique e ninguém que não entenda."

[Cecília Meireles] via Célia Regina Oliveira

.............................

Poesia em forma de imagem na foto de Leandro Andrade que ilustra esta postagem.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Mais carinho, por favor!


No encarte de um antigo LP do Freddie Mercury:

"De pensamento para pensamento, com carinho e amor.
Quando penso em você fecho os olhos de saudade.
Tenho quase tudo, inclusive a felicidade.
Dedique-me mais carinho, por favor!
De olhos vendados com a presença marcante de seu fechado sorriso, me ponho a ser seu.
Mil e 1 mais 1 beijo!"
Marisley

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Docemente pornográfico


"Preciso sair da outra metade para ceder lugar ao iminente ato de foder".
[Ana Cristina Cesar]

Tenho reencontrado com meu desejo. Aquele que pulsa do meio do corpo para as extremidades. Desejo, não! Tesão mesmo. Pra que usar de eufemismos para disfarçar verborragias ditas pelo corpo? Quero escutá-lo, ou melhor, me escutar, já que o meu corpo sou eu. Passei muito tempo sabendo o que podia fazer, mas não podendo fazer o que sabia. Gozando com certa angústia. Imaginando meu pau como uma grande cicatriz. Pronto. Falei!

"Me benze dona Maria benzedeira, me põe em transe pra eu falar todos os palavrões do mundo e acordar pedindo comida, não quero mais pedir perdão, quero pedir comida."
[Adélia Prado]

Me tirem do altar dos pudicos ou então me coloquem junto com as Virgens de seio de fora ou com São Sebastião de torso retorcido por flechas que inflamam ereções involuntárias. Tenho insistido nesse reencontro para que não haja espaço entre um prazer e outro. O tesão, quando adulto, sabe que a felicidade não é um lugar, mas um movimento que se faz para alcançar o gozo.

E me valendo das ousadias que a poesia (sempre ela!) tem colocado em mim, quero registrar que meu tesão é mais do que eu digo e menos do que eu realmente acho. Para me livrar desse impasse, sabiamente tenho usado mais a boca que, entre tantos usos possíveis, está aqui só para sussurrar:

"Sejamos pornográficos, docemente pornográficos".
[Drummond]

Imagem garimpada na internet. Quem souber a autoria, levanta a mão.


sábado, 12 de janeiro de 2013

Entre nobres e criados


Em uma das melhores cenas de Downton Abbey - série inglesa que tem tomado minha atenção e deslumbramento - diante da fala do advogado Matthew ao explicar que pode exercer a profissão de segunda a sexta e cuidar de Downton nos finais de semana, Lady Violet - matriarca da família que nunca trabalhou na vida - pergunta assustada: "O que é um fim de semana?"

Essa pequena pérola resume o brilhantismo do texto que conduz a trama do seriado que se passa em 1912, período onde transformação era a palavra de ordem. Desde o naufrágio do Titanic até as mudanças provocadas na sociedade inglesa pela Primeira Guerra Mundial, vemos desfiar as reviravoltas  que conduzem o dia a dia da família Crawley, dona da propriedade que dá nome a série.

Mas falar de Downton Abbey é dizer também daquilo que acontece escada abaixo, nos corredores, dormitórios e cozinha onde a "criadagem" também faz fervilhar a vida em suas mais diversas nuances. É impagável e, na maioria das vezes, tocante, perceber como a vida dos criados era intimamente ligada a dos patrões em absurdos difíceis de se fazer entender na atualidade. No entanto, desobediência, insubordinação, romance, traição e pequenas tragédias costuram, com habilidade ímpar, os acontecimentos vivenciados nos ricos aposentos aos vividos nos porões da propriedade.


O conde de Grantham é pai de três filhas e se vê obrigado a casar a mais velha com um homem de dentro da família para não perder o título e a propriedade. Como o pretendente oficial morre no naufrágio do Titanic, a solução é encontrar um primo distante, Matthew, para dar conta da tarefa de "domar" Lady Mary, a filha mais velha.

A partir daí, as mais diversas reviravoltas criam uma história de convivência que, da perspectiva de ambas as classes sociais, conferem a quaisquer espectadores da série inúmeras identificações: riqueza e pobreza, honestidade e deslealdade, tradição e vanguarda... isso sem mencionar o drama e as paixões silenciosas experimentadas por vários personagens.

Contando ainda com uma qualidade técnica que recria com muito esmero aquele período, Downton Abbey merece ser vista e revista porque, além do humor irônico típico dos britânicos, ainda apresenta os diversos modos de lidar com tecnologias advindas da revolução industrial e que mudariam o mundo para sempre.

Qualquer semelhança com a época em que vivemos não terá sido mera coincidência.

Imagens capturadas aqui.

Vontades Poucas


Refiz o caminho dos anos descritos aqui e ao encarar o meu eu de antes encontrei beleza em quase tudo. Estou de bem com o passado.

Quanto ao eu de agora, já não sei. Apenas a certeza de me bastar com aquilo que tenho. E só. Amanheci o ano com vontades poucas. Desenhar mais, descobrir músicas que me embalem em caminhadas sem rumo pelo Centro, viajar para lugares desconhecidos e ler os poemas (tantos) que estão empoeirando na estante.

Coisas que, se não acontecerem, tudo bem e vai-se-indo.

Se o passado parece um rio profundo que tortuosamente segue seu curso entre remansos e corredeiras, o presente é como um córrego raso onde eu posso atravessar com a água nas canelas.

Foto: Wolney Fernandes

sábado, 5 de janeiro de 2013

Gramática


Porque eu ando cheio de adjetivos. O que me falta são substantivos.

Foto de Rosi Martins

Somos Infinitos


Sabe quando o filme termina e dá vontade de ver de novo, na sequência, porque uma vez só é pouco para se dar conta das tantas coisas que a história parece [re]velar? Pois é! Comigo foi bem assim ao terminar de assistir "As Vantagens de Ser Invisível", filme sobre as aventuras e desventuras de um jovem tímido e depressivo ingressando no ensino médio e na vida.

Foram incontáveis as vezes que eu vi essa história antes. No entanto, o filme demonstra que o diferencial não está exatamente na história, mas em como se conta uma história. Adaptado para o cinema do livro de Stephen Chbosky, a produção conta com uma direção delicada onde personagens bem delineados mostram, aos poucos, a imersão em momentos cruciais cheios de temeridade e incertezas da passagem para a vida adulta. 

"Nós aceitamos o amor que achamos merecer."

Fugindo dos estereótipos do gênero, "As Vantagens de Ser Invísivel" consegue ainda gerar um sentimento familiar, provocando identificações por toda a narrativa. Se não pelo jeito introvertido do protagonista, nos reconheceremos no entorno: nos amigos, no prazer de curtir a companhia de alguém, de estar apaixonado, de experimentar o proibido, de se deixar levar pela música que mexe com nossas emoções e até nos medos que nos rondam amiúde.

Simples e, ao mesmo tempo, cru e devastador, o filme consegue combinar leveza com momentos marcantes em cenas e diálogos que se recusam a nos deixar, mesmo depois que os créditos sobem na tela. 

"Estou me sentindo infinito!"

Um dia depois e ainda pulsa dentro de mim a vontade de sentir a liberdade batendo na cara ao som de "Heroes" do David Bowie ou mesmo entrar na dança que a vida faz atendendo o convite de "Come on Eillen" dos Dexy's Midnight Runners.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Instantes Compartilhados


A ideia é escolher um tema e passar o dia recolhendo compartilhamentos relacionados pela timeline do facebook. Ao final, haverá sempre uma lista, no mínimo inusitada, para rechear as possibilidades de encontros e múltiplas associações que só a internet é capaz de viabilizar.

Pra começar, juntei músicas para fazer uma playlist!

01. O que é o que é - Gonzaguinha [compartilhada por Lídia Leal]
02. She's in Fashion - Suede [compartilhada por Alessandro Magalhães]
03. Until the Sun Comes - Rival Sons [compartilhada por Marília Assis]
04. Bullet With Butterfly Wings - The Smashing Pumpkins [compartilhada por Lydia Himmen]
05. Dumb Ways to Die - Tangerine Kitty [compartilhada por André Barz]
06. You Learn - Alanis Morissette [compartilhada por Adson Amorim]
07. Gigantic - The Pixies [compartilhada por Mário Cavalcante]
08. Le Chat du Cafe des Artistes - Charlotte Gainsbourg & Beck [compartilhada por Lupe Vasconcelos]
09. Edge of Seventeen - Stevie Nicks [compartilhada por Yuri Lopes]
10. Consumado - Arnaldo Antunes [compartilhada por Jaciara Pires]

Imagem capturada aqui.

A Volta pra Casa


O segundo suspiro do ano aqui no blog começa com um reconhecimento. Acordei pensando nesse espaço aqui, em todas as situações inusitadas e experiências únicas que tiveram o blog como interlocutor. Preciso retomar todas as coisas sagradas que a minha escrita representa, a metáfora de mim.

E não só! Seja pela escrita ou pelas imagens ditas pelas minhas mãos, todo o meu fazer poético grita delicadamente a língua da vida - sem traduções desmedidas nem interpretações vagantes. É preciso saber ouvir tudo isso. É preciso saber voltar.

Imagem: Wolney Fernandes

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

2013


a. Desasfixiar pensamentos
b. Fabular
c. Inventar outros possíveis
d. Resistir
e. Voar

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Na Mesma Toada




Em passos lentos, ali no meio da manhã, ela empreende uma caminhada diária e constante. Seu ir e vir é sempre pelo abrigo que a sombra do muro desenha no chão.

Da janela do meu quarto, meus olhos passeiam com ela naquela vontade de ajustar meus passos no mesmo ritmo, na mesma toada.

Fotos: Wolney Fernandes

domingo, 30 de dezembro de 2012

Respingos de Dezembro


01. No metrô de São Paulo, sentada no canto da escada, a moça chora compulsivamente falando ao telefone. Meu desejo é retornar e oferecer o ombro para ela chorar.

02. Na barraca de frutas, o moço segura o bebê e a moça faz toda a transação econômica.

03. Um senhor vestido com camisa verde limão reclama e não se conforma por ter que esperar na longa fila do banco. Sai xingando alto e se recusa a ficar ali como todo mundo. Dez minutos depois ele retorna calminho, retira a senha e se posiciona silenciosamente no final da fila. Fico com vontade de perguntar o que aconteceu lá fora nesse curto intervalo de tempo.

04. Um grupo de garis se reúne embaixo da mangueira no meio da avenida tentando derrubar mangas a pedradas. Sinto vontade de me juntar a eles.

05. Olho pela janela bem cedinho e acompanho o limpador de piscina terminar o trabalho no condomínio ao lado. Ao final, ele deposita a rede no chão, tira os chinelos e, furtivamente, molha os pés na água.

Foto: Wolney Fernandes

No Escurinho do Cinema


Setenta e três sessões de cinema fizeram de 2012 uma temporada com menos filmes no meu currículo de cinéfilo [no ano passado foram 95]. No entanto, os deslumbramentos continuam tão intensos como nunca. Abaixo minhas escolhas em uma lista de filmes que mexeram comigo nesse ano.

Os melhores filmes do ano:
1. Argo
2. Drive
3. Pina
4. Tão Forte, Tão Perto
5. Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Os melhores filmes que ninguém viu:
1. No
2. As Canções
3. 360
4. Riscado
5. Sete Dias com Marilyn

Os melhores filmes que assisti em casa:
1. Medianeras
2. A Malvada
3. Toda forma de Amor
4. Incêndios
5. Pecados da Carne

Constrangimentos do ano:
1. As piadas entre os heróis de "Os Vingadores"
2. A charrete puxada por coelhos em "O Hobbit"
3. O final com número de musical indiano do filme "Espelho, Espelho meu"
4. O rosto digital da filha de Edward e Bella em "Amanhecer - Parte II"
5. A maquiagem risível dos fantasmas em "A Entidade"

Cenas inesquecíveis:
1. A primeira cena de "Histórias Cruzadas"
2. A mãe que precisa esconder a notícia de que o filho está morto em "E agora, onde vamos?"
3. Todas as que aparecem a Tilda Swinton em "Precisamos Falar sobre Kevin"
4. O monólogo proferido por Anthony Hopkins na metade de "360"
5. A cena final de "A Separação"

Os cartazes mais incríveis:
1. As Canções
2. No
3. Shame
4. Sete Dias com Marilyn
5. Para Roma com Amor

Imagens de cair o queixo:
1. O oceano de belezas de "As Aventuras de Pi"
2. A sequência inicial com a vaca caindo do céu em "Um Conto Chinês"
3. As imagens em 3D dos filmes de Georges Méliès em "A Invenção de Hugo Cabret"
4. A invasão da embaixada americana em "Argo"
5. O estádio de Gotham sendo destruído ao som do hino nacional dos EUA em "Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge"

Personagens inesquecíveis:
1. O Driss de Omar Sy em "Intocáveis"
2. A Lisbeth Salander de Rooney Mara em "Millenium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres
3. O Motorista sem nome de Ryan Gosling em "Drive"
4. O Vilão de Javier Bardem em "007 - Operação Skyfall"
5. A Margareth Tatcher idosa de Meryl Streep em "A Dama de Ferro"

Os filmes que me fizeram escrever:
01. Toda Forma de Amor
02. Abril Despedaçado
03. Argo
04. E agora, aonde vamos?
05. As Aventuras de Pi 

Imagem capturada aqui.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Pelo sabor do próprio desejo


Oi Deus, boa noite!
Feliz Natal atrasado pro Senhor!

Eu sei que perfeita é a Sua vontade, que sábios são Seus caminhos e que o Senhor tem lá seus motivos, todos eles, muito além da minha compreensão. Não vou portanto, nem me revoltar, nem praguejar contra minha sorte, nem mesmo questionar o calor que tem feito nessa terra.

Estou escrevendo para falar um pouco dessa nossa relação que vem se arrastando já há um bom tempo, né? O Senhor sabe que tentei amá-lo de várias formas durante anos. Me esforcei muitíssimo, mas foi ficando cada vez mais complicado. Acho que não é pecado não amar o pai, é? Não amar a mãe até pode ser! Digo isso não porque não acredite no Senhor. Apenas fomos ficando indiferentes um ao outro e, na medida que o tempo passa, a gente se afasta.

Receio que essa distância se torne insuportável um dia, e de velhos amigos a gente passe a meros desconhecidos. Cada um para o seu lado, sem a menor perspectiva de que um dia nossos caminhos se cruzem. Quem sabe ali pertinho da morte a gente partilhe uma falsa saudade? Pode até ser, mas até lá vou me virando com minha falta de jeito com a vida.

Nesse tempo, distantes, vou criando coragem para me confessar um homem de intenções gargalhantes, tentando abandonar essa corda bamba que tem orientado meu caminhar diante de suas vontades e desígnios. Espero que o Senhor entenda que eu preciso cada vez mais levar em consideração meus próprios desejos.

Eu sei que o Senhor não fará nada para impedir isso e agradeço. Sobreviverei, eu sei, pois já faz um bom tempo que minha fome não é mais saciada com os frágeis improvisos que a sua Igreja, pateticamente, tenta me enfiar goela abaixo. Pão sem sabor já não quero mais!

Prefiro dividir essa vontade de comer com gente que sorri sem esperar nada em troca e me lambuzar com os tantos sabores guardados e já experimentados por aí: os suspiros coloridos da venda do Seu Adelino, o bolinho de milho da Vó D'Alena, os biscoitos gigantes do Seu Bandarra, os abacates do Vó Elias ou o sorvete feito de suco e vendido na praça em dia de festa.

Assim, sigo daqui!
Com a admiração de sempre!
Wolney

Foto de Martin Parr. Peguei aqui.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

As Aventuras de Pi


No meio do oceano em um barco à deriva, a convivência entre um jovem e um tigre desfia uma série de questionamentos sobre a natureza das duas criaturas e sobre o papel da fé na sobrevivência humana. É assim que o filme "As Aventuras de Pi" se apresenta. Corajoso do ponto de vista narrativo, o enredo poderia descambar ladeira abaixo em direções enfadonhas e cansativas não fosse a maestria do diretor Ang Lee que concebe o filme não como uma aventura, mas como uma narrativa de memórias carregadas pelas tintas do afeto e da imaginação.

As imagens incríveis e metafóricas que cercam essa história conseguem dançar no mesmo compasso das questões que fazem um sem-número de significados saltarem da tela direto para o nosso colo. Tocando no terreno movediço e sagrado dos dogmas religiosos, Pi, um menino indiano, vai plantando em nós, perguntas e afirmações que conseguem tirar o sossego:

"Nenhum de nós conhece Deus até que alguém nos apresente a um d'Eles."

"Religião é escuridão."

"A fé é uma sala com muitos quartos e há dúvida em todos eles."

Movido, ora pela razão incentivada pelo pai, ora pela religiosidade enaltecida pela mãe, Pi consegue transitar entre o hinduísmo, o cristianismo e o judaísmo sem que nenhuma dessas religiões funcione como amarra que o impeça de questionar o mundo e o sentido da vida.

"Se aconteceu, aconteceu! Nem tudo precisa de significado."

"Talvez a vida seja um processo de abrir mão daquilo que amamos."

Depois de acompanhar as peripécias de sobrevivência de Pi e do tigre Richard Parker, cabe a nós, espectadores, decidirmos se aceitamos o que nos foi contado ou não. Dessa forma, o filme não se fecha,  pelo contrário, abre-se em direções variadas reforçando a noção de liberdade que deveria permear nossas escolhas. Mesmo aquelas que, na maioria das vezes, nos são impostas pela família, pela Igreja ou pela cultura. Afinal, embora nos falte coragem para admitir, a liberdade no filme, assim como na vida, é o que desenha os contornos da palavra sobrevivência.

sábado, 22 de dezembro de 2012

O Dia Depois do Fim


O dia depois do fim não me parece tão caótico. Só é decepcionante descobrir que a vida segue sem se importar se eu ainda faço parte dela ou não. Morrer é tão simples que deveria ser proibido lamúrias estendidas e vaidades inventadas em torno desse fato. Na morte, nada faz diferença.

A dor logo vai embora e, se a lembrança volta com frequência nos primeiros meses, não demora muito até ela também começar a ficar arredia e só aparecer quando bem desejar. Afinal, lembrança é borboleta que depois de um breve pouso nos escapa o tempo inteiro.

No dia depois do fim não há arrependimento capaz de consertar os pecados cometidos. A boa notícia é que também não há nenhum tribunal do outro lado para me cobrar o conserto. Tirando o céu e o inferno detrás da porta, sobra um vazio que, mesmo infinito, não cabe nenhum dos meus amores. Nem mesmo os materiais, quem dirá as pessoas com as quais eu troquei afetos.

Lamento pelos meus livros e por não poder dizer ao meu pai todos os impropérios que eu desejei um dia. Aqui, só solidão e silêncio. Qualquer esboço de sorriso é tentativa de rir de mim mesmo pelas culpas que carreguei vida afora - não as minhas próprias, mas as alheias que foram aquelas que mais pesaram sobre meus ombros.

Daqui pra frente, só mistério e esquecimento. Mesmo assim, nesse dia depois do fim, vago à procura de brinquedos e memórias.

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Nos embalos de 2012


Sobre o prazer de fazer listas eu já disse aqui. Então já posso ir direto ao ponto: este é o momento mais gostoso do ano, pois adoro passear pelas músicas que tive contato em 2012 (nem todas são produções desse ano) para apresentar uma compilação que não serve para absolutamente nada, mas espalha prazeres em noites de quinta. Aperte o play!

As músicas internacionais de todas as playlists do ano:
1. 4 Broken Hearts - Norah Jones
2. No Light, No Light - Florence + The Machine
3. Edge of Evolution - Alanis Morissette
4. Sovereign Light Cafe - Keane
5. Somebody That I Used To Know - Gotye ft. Kimbra

As músicas nacionais de todas as playlists do ano:
1. Ok - Tulipa Ruiz
2. Perto do fim - Thiago Pethit e Malu Magalhães
3. Falando Sério - Silva
4. Baile de Ilusão - Céu
5. Carta de Amor - Maria Bethânia

As músicas de filmes:
1. Nightcall - Kavinsky & Lovefoxxx (Do filme "Drive")
2. Scent of Death - Alexandre Desplat (Do filme "Argo")
3. Silver Lining - Jessie J. (Do filme "O Lado Bom da Vida")
4. Ghosts - James Vincent Mcmorrow (Do filme "Amanhecer - Parte 2")
5. Umbrellas - Abel Korzeniowski (Do filme "W.E")

Os refrãos mais grudentos:
1. Let's Have a Kiki - Scissor Sisters
2. Army of Me - Christina Aguilera
3. Xirley - Gaby Amarantos
4. Beautiful Killer - Madonna
5. Try - Pink

As músicas que me fizeram dançar pela casa afora:
1. I'm Just Me - Diamond Rings
2. We Are Young - Fun ft. Janelle Monáe
3. How To Be a Heartbreaker - Marina and the Diamonds
4. Roupa do Corpo - Filipe Catto
5. Good for You - Icona Pop

As músicas que ninguém conhece:
1. Lazuli - Beach House
2. This Girls Prepared for War - Belle
3. Waves - Blondfire
4. Union - Deptford Goth
5. Float - Ko Ko

Os discos que ouvi do princípio ao fim
1. Birdy - Birdy
2. Sun - Cat Power
3. Caravana Sereia Bloom - Céu
4. Anar - Marketa Irglova
5. Trilha Sonora do filme "Intocáveis"

Os clipes marcantes:
1. It's Only Life - The Shins
2. True Romance - Citizens
3. Kiss - Melanie Laurent
4. Union - Deptford Goth
5. Pra Sonhar - Marcelo Jeneci
Bônus - Here With Me - The Killers

Imagem capturada aqui.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

E agora, aonde vamos?


O filme é sobre o conflito religioso no interior do Oriente Médio e mostra as cicatrizes deixadas por anos de embates sangrentos motivados por discordâncias de credo. No entanto, a trama de "E agora, aonde vamos?" (Et maintenant on ya o ù?, 2011) é tão verdadeira que a identificação se estabelece já na primeira cena, pois a insanidade de conflitos entre irmãos e vizinhos é passível de ocorrer em qualquer lugar ao redor do mundo.

A diretora Nadine Labaki introduz humor e ironia em meio ao pano de fundo de tensão no qual se desenrola a história e permite a nós, espectadores ocidentais, uma visão menos estereotipada daquele povo. Em uma pequena vila isolada vivem pacificamente duas comunidades: uma cristã e outra muçulmana. Quando conflitos religiosos estouram no país, as mulheres da vila sentem que a paz está ameaçada e passam a sabotar a entrada de informações sobre a guerra para distrair os homens de começarem sua própria luta.

Para não verem seus filhos e maridos mortos por algo que não acreditam valer a pena, as mulheres se unem em planos mirabolantes e, juntas, funcionam como uma coluna vertebral da aldeia. É bonito de ver os esforços de mães e esposas para diminuir a população do cemitério local. E tudo feito com muito bom humor. Desde religiosas fervorosas simulando falsa conexão com uma santa até a fabricação em massa de bolos de haxixe sem que em nenhum momento o filme soe ofensivo ou emita julgamento sobre nenhuma das crenças.

Dizer mais talvez estrague as surpresas e também as dores espalhadas por toda a narrativa. Dramas e alegrias vem como ondas seguidas uma após a outra em um movimento muito parecido ao que a vida faz. Ao final, a mensagem que fica é aquela que já está explícita no título - se vivemos divididos e só vemos diferenças, afinal, aonde vamos?

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Dezessete de Dezembro de 2012 - segunda


Meu desejo era inaugurar nessas linhas uma maneira de não me repetir, mas fazer o que se sou um amontoado de repetições em ritos que adoro saber de cor? Em dezembro de 2011, comecei a colecionar os dias dezessetes de cada mês fazendo um diário que completa um ano hoje.

No final do dia, refiz o mesmo trajeto que inaugurou esta sessão em 2011. Caminhei pelas ruas do Centro com a sensação de que encontraria comigo mesmo: barba por fazer, cabelo mais curto, camiseta pintada a mão, olhar perdido em absurdos cotidianos. Abraçaríamo-nos em silenciosa compreensão e, em seguida, eu me explicaria o quanto é desnecessário o sofrimento em vão.

Depois de muitos dizeres, me encheria de afagos para que não fosse preciso dizer mais nada. A pele sendo a memória do corpo desenharia cicatrizes e sossegos que o Wolney de antes não ousaria experimentar.

E assim, de mãos dadas comigo mesmo, sem corromper a velha prosa sobre o tempo ou a falta dele, caminharíamos pela rua vasculhando perfumes conhecidos e aleatoriedades horizontais.

Afinal, reencontrar-se é uma das formas de seguir em frente.

Imagem: Wolney Fernandes

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Doce Novembro


a. A moça do caixa dá aquela risada gostosa sempre que um novo cliente se achega para comprar um sanduíche. Alguém pergunta a razão do riso e ela responde que sorri porque é feliz!

b. Ao sair do elevador ouço o porteiro comentar com a moça da limpeza: "Eu gosto mesmo é da empregada do 1207. Ela é show!"

c. No meio da manifestação, um jovem corre até a calçada para ajudar uma senhora a carregar as sacolas do supermercado.

d. O casal de idosos entra comigo no elevador. Ela pergunta: "que horas são?". Ele responde em tom de brincadeira: "Oração só tem na Igreja". Sem obter a resposta desejada, ela segue caladinha até a porta se abrir e eles ficarem no sétimo andar. Ouço ela reclamar antes da porta se fechar: "Tem coisas que não tem graça em lugares impróprios..."

e. Na ponte da marginal, uma senhora apressada parece não perceber que carrega o sol nas mãos.

Foto: Wolney Fernandes

domingo, 18 de novembro de 2012

Argo


"Argo" tem direção competente de Ben Affleck que [re]constrói uma história verídica de maneira brilhante.

Destaque para a ótima direção de arte que faz a gente ter a sensação de que o filme foi filmado no final dos anos 70. Época em que os iranianos invadiram a embaixada americana revoltados com a influencia dos EUA nos eventos que desencadearam um período difícil no Irã.


Para minha surpresa, o filme foge daquele padrão americano de contar histórias colocando a nação estadunidense como a salvadora de todas as pátrias do planeta. De maneira sincera, os eventos mostrados são desencadeados tendo a vida humana como o bem mais precioso de uma nação.


Mais uma vez a realidade é quem dá as cartas para a ficção, mostrando o quanto a vida real é permeada de boas histórias que já parecem prontas para a tela grande.

Minha única ressalva está no fato do protagonista ainda ser permeado de clichês do gênero. Mas nada que comprometa o bom resultado da narrativa. Vale a pena conferir!

sábado, 17 de novembro de 2012

Dezessete de novembro de 2012 - Sábado


Apesar dos desatinos de ontem é preciso manter a ternura no dia de hoje. Abro os olhos na manhã de sábado e antes que esse pensamento chegue ao fim, minha irritação me abraça. Seis e quinze e a persiana esquecida aberta na noite anterior deixa entrar uma luz que me desperta antes da hora. Maldito horário de verão.

O fato de ter que me arrastar até a janela para fechá-la coloca azedume em minha [in]disposição. Durante a minha expedição até a persiana, o vôo tremulante de uma borboleta que alcançou as alturas do décimo andar tenta manter a doçura do dia.

Consegue!

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Dias assim


Acordar na segunda-feira antes do despertador tocar e ter tempo para ouvir as trilhas do Abel Korzeniowski no banho.
Ir para o trabalho e sair de lá sem hora marcada para estar em outro lugar.
Almoçar naquele restaurante de comida caseira ouvindo as músicas mais bonitas, escolhidas a dedo no dia anterior.
Passar na porta do cinema no Centro no exato momento em que a sessão de um filme bom está para começar e ficar para assistir. Comprar pipoca e água com gás sem precisar de enfrentar fila. Entrar na sala e descobrir que a cópia do filme é legendada.
Voltar para casa depois da sessão e, no caminho, encontrar caixas de correio personalizadas para fotografar.
Em casa, depois do banho, adiantar dois trabalhos iniciados e ficar respingando imagens pela internet.
Convesar com amigos que querem saber do seu dia e, por puro desinteresse, ficar trocando pensamentos e conversas desimportantes enquanto o disco preferido toca sem pressa de acabar.
Ter vontade de tomar sorvete de creme e não ter preguiça de sair a pé para comprar.
Voltar sentindo os pingos da chuva que, sem aviso nenhum, começaram a cair.
Ler duas páginas do livro de cabeceira e adormecer em seguida sem fechar a janela do quarto.

Ontem foi assim e meu desejo é que seja assim para sempre.

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Common People Reading



O Common People Reading nasceu assim:

Primeiro veio o encantamento com a descoberta do tumblr “Awesome People Reading” que, como o nome sugere, publica fotos com curtas legendas de artistas de todos os campos e pessoas célebres de todos os tempos lendo um livro, um jornal, um roteiro ou qualquer coisa. A limpeza do blog e a lindeza das fotos, com um acervo bem graúdo, renderam horas e horas de namoro e fecundação… Daí pra invencionice foi um pulo, como sempre: por que não inspirar atuais e novos leitores/as com fotos de nós mesmo, simples mortais? Seguiu-se curto período de negociação com a rede já conhecida de leitores/as e as primeiras peripécias para produzir fotos em poses criativas, obras das nossas preferências e com autores das nossas devoções. Pronto: entramos na etapa da anarquia do compartilhamento e da recriação sem fim.

Ficou com vontade de participar? Envie sua foto para wolney7@gmail.com

Texto de Walderes Brito e foto de Wolney Fernandes

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Dezessete de outubro de 2012 - Quarta


Minha rota de fuga encontrou aporte nas últimas páginas do livro "Ao Anoitecer" de Michael Cunningham que eu, depois de meses de leitura arrastada, desejava terminar. Não porque o conteúdo da obra fosse maçante, mas porque o cansaço dos últimos minutos do dia não me deixavam avançar mais do que três páginas antes de dormir.

"Quem pode decifrar a profundidade e a natureza de nossas aflições?"

Abandonei a vontade de ver um filme no meio da fila e, com o livro em punho segui para o parque em plena tarde de quarta-feira, ávido para saber o destino de Mizzy, Peter e Rebecca, vértices de um triângulo curioso. Peter Harris, dono de uma galeria de arte contemporânea, com 44 anos é casado com Rebecca e, de repente, se vê extremamente perturbado e atraído pela presença do cunhado - Ethan, apelidado de Mizzy - vinte anos mais jovem, que precisa passar uma temporada hospedado em sua casa.

Mizzy é uma provocação ao conceito de liberdade porque embora o rapaz tenha todas as possibilidades diante de si, nunca consegue se decidir por nenhuma delas. O fascínio que ele desperta em Peter [e em nós, leitores] é ainda ampliado por dois trunfos, talvez perversos demais para qualquer pessoa com mais de 35 anos: beleza e juventude.

"Juventude. Impiedosa, cínica, desesperadora juventude. Ela sempre vence, não é?"

No meio de tantos questionamentos sobre liberdade e juventude colocados no livro, este com certeza foi  o que mais me tocou. Perto dos 40 anos começamos a ficar seduzidos por esse suposto poder absoluto que reside no simples fato de ser jovem e passamos a olhar a juventude de um outro lugar, sem saber exatamente onde está situada a linha muito tênue da maturidade.

O desfecho da história é brilhante. Eu que gosto de começos, fiquei fascinado pelo final do livro que entre tantas surpresas, nos convoca a olhar para nossos interiores em parágrafos impecáveis como este aqui;

"A história favorece os amores trágicos, os Gatsby e Anna K., os perdoa, ainda que acabe com eles. Mas Peter, uma figura pequena numa esquina indistinta de Manhattan, terá de perdoar a si mesmo, terá de acabar consigo mesmo porque parece que ninguém fará isso por ele. Não há estrelas folheadas a ouro sobre lápis lazuli acima de sua cabeça, apenas o cinza de uma tarde loucamente fria de abril. Ninguém vai esculpi-lo em bronze. Ele, como todas as multidões que não são lembradas, está esperando polidamente pelo trem que com toda a probabilidade nunca virá."

Sem mais, feliz por ter fugido das tarefas de todo dia, fechei o livro com aquela vontade de continuar nele!

Foto: Wolney Fernandes