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sexta-feira, 31 de maio de 2013

Aquário de bem querer


Não há medida para um bem querer, mesmo que ele caiba em um aquário amarelo e que seja possível de se receber pelo correio.

"Sabe, vida dentro de vida e dentro dessa vida uma outra vida?"

Sei sim, afinal de contas, bem querer também se guarda em embrulhos de papel celofane, em latas de sorvete e até em escamas de peixe. O que eu não sei é dizer das intensidades que cada gesto desse parece conter. Talvez só os silêncios pronunciados por olhos marejados de lágrimas consigam explicar.

Então pra quê escrever? Acho que é tentativa de nadar pelo rio que esse aquário fez transbordar por aqui. As intensidades são, elas mesmas, sentimentos desmedidos que exalam cheiros, toques, vontades e sorrisos. Sempre fui de intensidades e, embora minhas estabilidades tenham me orientado para um suposto equilíbrio, ando prestando atenção naquilo que me faz vibrar em outra frequência.

Por isso a necessidade do registro. Por isso, escrevo.

Talvez por confrontar a morte tão cedo, venha a ansiedade para dizer tudo. Talvez, por ter sido obrigado a desbravar meus próprios caminhos, venha a vontade de deixar uma espécie de mapa. Talvez por ter esperado demais, venha essa pressa de querer abrir a caixa só pra sentir a textura do bem-querer entre os dedos e saber que cor ele tem.

Dentro do aquário amarelo, o bem querer parece ter sido desenhado pelos meus traços, cabendo só a mim reconhecê-lo. Por ele, sou capaz de assimilar toda beleza que reside no gesto de alguém que me espera enquanto eu fotografo flores.

[...]

Diante do conteúdo desse aquário amarelo, "sou menino-passarinho com vontade de voar". Com o melhor sorriso no rosto, fecho os olhos e aguardo, neste lento aprendizado que é abrir os dedos e deixar que o vento do mar chegue e, todo o resto, frutifique.

Foto: Wolney Fernandes

domingo, 19 de maio de 2013

Bagunças de um futuro inquieto


Eu até tento perder o meu medo de errar. Mas não tem jeito, vira e mexe ele sempre reaparece no meu bolso. Mexe e vira ele está sempre no meu encalço. Sim, eu sei que o ônus em assumir as responsabilidades por minhas escolhas é todo meu, mas eu sou um frouxo, sabe? Se as escolhas feitas não me levaram ao horizonte imaginado por mim há seis anos atrás, eu tendo a espalhar a culpa por aí com medo de que, reunida em meu peito, essa mesma culpa me sufoque em inércias inomináveis.

Não gosto de me sentar sozinho no banco dos réus. Preciso de cúmplices. Há de ter um bando de culpados que, ardilosamente, arquitetaram a bagunça que virou minha vida. "É hora de fazer faxina!" - alguém me aconselhou e o desaforo que engoli diante dessa indicação eu vomito aqui: Só se for faxina definitiva, sabe? Sempre achei que quando a gente arruma demais, não sobra espaço para o inesperado... mas quer saber? Às favas com o inesperado! Tô cansado de faxinar o presente para o futuro (abusado!) desarrumar tudo em seguida.

É uma merda entender que a incerteza é a única constante da vida. Parece que não há saída. Mesmo assim, quero poder programar viagens para o próximo sábado ou para daqui a seis meses sem ter que fazer malabarismos para dar conta delas. Não quero me surpreender comigo mesmo, só quero de volta os planos para fazer esse futuro se aquietar diante de minhas arrumações. E guloso que sou, também quero planos para guardar na manga. Um monte deles! Todos engomadinhos e traçados com régua paralela.

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Transbordamentos


Tenho receio dos embrutecimentos. Ainda desejo a possibilidade da lágrima provocada por um filme. Tenho medo de ficar monocromático e não sentir falta das cores, dos cheiros, da música, dos gritos... Medo grande de caber em mim mesmo e impedir os transbordamentos.

Prefiro entender que os dias são tão delicados e plurais, que a beleza é fácil de compreender, que a chuva e o fogo, o sublime e o grotesco, tudo isso cabe em mim. E que os derramamentos disso tudo se cumpram sem minha guarda constante.

Vez em quando desejo uma equação que solucione os meus dias, mas na maioria deles, vago em busca de beijos de língua, de pessoas e imagens que provoquem a minha escala Richter, uma possibilidade de perfume, um pedaço de futuro, uma carta... quem sabe?

Imagem de Joe Webb

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Diagnóstico


Enquanto esperava pela consulta no oftalmologista, conjurei diagnósticos possíveis para os sorrisos que tem tomado meus olhos nas últimas semanas: cataratas de insanidade, miopia passageira, astigmatismo que embaralha distâncias, aumento da pressão ocular e cardíaca... cegueira?

O que veio em seguida foi promessa de mar: "Você tem uma visão ótima!". Suspirei atravessado por certa decepção. "Não, doutor! Me diga que há algo errado para que eu possa cuidar enquanto há tempo". Não seria loucura demais tantos sorrisos trocados por dias e madrugadas a fio? Na certa eu estava enxergando tudo distorcido.

"Nem de óculos você precisa!" - concluiu.

Saí do consultório decidido a procurar um outro profissional, mas havia um mar tão lindo refletindo o fim do dia que, de súbito, fui tomado por um espírito aventureiro. É outra estação. O que pode dar errado sob a atmosfera de tanto bem-querer?

Não há nada de errado com minhas vistas. Foi o médico quem atestou. De todo modo, há sempre a possibilidade de contar com o sol, mojito na mão, desenhos na areia e óculos escuros. Mesmo com a visão embaralhada pela pupila dilatada, caminhei tão levemente que negligenciei a vontade de ouvir a opinião de outro profissional a respeito.

Aproveitei para comprar filtro solar, tirar as bermudas da gaveta e prometi conchas para mim mesmo!

Imagem capturada aqui.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

O Abismo Prateado


"Num se machuca mais não!""

[Imagem e frase do filme O Abismo Prateado]

Contracorrente


Preciso mandar à "puta que pariu" aquela vaga impressão de que eu poderia ter me dedicado mais quando algo na vida não soar conforme meus planos. Não é excesso de confiança e nem negligência. É cansaço mesmo!

"Eu que não me sento
no trono de um apartamento
com a boca escancarada 
cheia de dentes
esperando a morte chegar"

Não é de hoje que nado na contracorrente daquilo que estava traçado para o meu futuro. Desde a saída da minha cidade natal até o traçado de uma tatuagem que carrego comigo exigiram uma resiliência absurda e pequenos respiros [e suspiros] para me manter são nesse mergulho para águas mais profundas.

Mesmo assim, vez por outra, ainda me cobro posicionamentos, planificações, planos para daqui 5 anos, relacionamento estável, financiamentos para trocar de carro e uma noite com oito horas de sono. Saco isso!

Talvez meus dias de Pollyanna surtada estejam terminando. Acreditar que tudo vai dar certo no final pelo nível do meu esforço - acima da média, diga-se de passagem -  não tem surtido efeito. Fica a impressão que é preciso um pouco mais de força para guinar a vida para onde ela deveria estar, mas ando sem forças para tanto. Ás vezes, até penso que aquele momento, o turning point, já passou. Então de que adianta tanta dedicação?

Preciso mesmo é dizer "foda-se!" ao invés de só pensar, ir mais ao cinema, viajar quando der na telha e sair às quintas à noite. Pena que ganhar na Mega Sena não seja uma alternativa válida.

Foto: Wolney Fernandes
Trecho da música "Ouro de Tolo" de Raul Seixas

terça-feira, 7 de maio de 2013

Saudades de mar


"Meus pensamentos são todos sensações"
[Alberto Caeiro]

Para embalar saudades de mar, coloquei meus sentidos aqui.

sábado, 4 de maio de 2013

Sobre moderações, limitações e instantes de felicidade


Moderar as exigências não é, necessariamente, contentar-se com pouco. É aprender a enxergar as limitações e, com isso, identificar o que me prende para esboçar o rumo necessário para que as coisas cheguem no seu devido lugar.

Tendo, nesse Maio tépido de atropelos e pequenas alegrias, sempre optar pela felicidade. O que não me impede de me descontrolar um pouco de vez em quando.

Sinto coragem. Sinto uma coragem tanta, daquelas de cair no vazio mesmo não sabendo se a corda vai suportar. E naqueles parcos segundos quando a corda traciona, sentir a sensação de flutuar.

Ter coragem também implica em deixar para trás, afinal, nessa coisa de viver também existe um componente de renúncia. Quero um mês brand new, aquela coisa bem Drummond. Nem que isso signifique sacrificar minha ilusão mais doce: seja para torná-la real ou para, finalmente, enterrá-la.

Imagem de Laurindo Feliciano.

Deslumbramentos de cabeceira


Na mesinha ao lado cama, há sempre três ou quatro livros que leio, alternadamente, segundo uma ordem ditada pelo caos da minha vontade que muda a cada adormecer. Os deslumbramentos das últimas semanas tem sido assim:


01. O Olho da Rua [Eliane Brum]
"É tão estranho", ela diz. "Eu passei a vida inteira batendo ponto, com horário pra tudo. Quando me aposentei, arranquei o relógio de pulso e joguei fora. Finalmente eu seria livre. Aí apareceu essa doença. Quando tive tempo, descobri que meu tempo tinha acabado".

02. A Vida Privada das Árvores [Alejandro Zambra]
Sabe-se que muito em breve Ernesto não voltará mais. Imagina-se desconcertada, e depois furiosa, e finalmente invadida por uma decisiva quietude. Tudo bem, era sem compromisso, como deve ser: ama-se para deixar-se de amar e se deixa de amar para começar a amar outros, ou para ficar sozinho, por um tempo ou para sempre. Esse é o dogma. O único dogma.

03. O Filho da Mãe [Bernardo Carvalho]
Nas montanhas, todo homem tem um kunak, um amigo estrangeiro que o salvará da morte e que ele também tem a obrigação de salvar. Nenhum homem será completo enquanto não encontrar o seu kunak. Só então poderá seguir o próprio caminho em paz, sabendo que existe no mundo alguém, como ele, com quem ele pode contar na vida e na morte. As quimeras morrem para que sobreviva o pacto dos que não podem contar nem com Deus nem com os anjos.

04. Toda Poesia [Paulo Leminski]
tudo em mim
anda a mil
tudo assim
tudo por um fio
tudo feito
tudo estivesse no cio
tudo pisando macio
tudo psiu

tudo em minha volta
anda às tontas
como se as coisas
fossem todas
afinal de contas

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Fragmentado


Eu, inteiro, me divido em peixe, pássaro e coração.

Imagem: Wolney Fernandes

Imperativo


Ternura
Encontre-me. Aqui, onde o caminho se divide.
No fim, encontra o solo
toca suavemente entre os dedos.

Alegria
Leve-me. Aonde você quiser. Quando você quiser.
Eu sempre quero.

Dor
Deseje-me. Diferente, de modos variados
só não me pergunte do que se trata.
As distrações de sempre, penso eu.

Experiência
Molde-me. Manipule-me.
Diga-me quem sou.

Desejo
Faça-me.

Foto: Wolney Fernandes

sábado, 20 de abril de 2013

Com Título


Material: fotos para minha colação de grau [abril de 2003] sobre matéria da revista Eita.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Sob o signo da efemeridade


Um dia, finalmente, vou deixar tudo que me prende para trás. Vou esvaziar as malas pesadas, colocar um música no bolso, criar coragem e sair porta afora. Vou superar os traumas sem deixar rastros. Vou abandonar meus medos e partir.

Vou deixar os títulos que almejo babando nas cadeiras da sala de aula e abandonar minha impaciência velada com os outros. Vou deixar que pensem o que quiserem de mim. Vou contar as verdades, letra por letra, sem medo delas ferirem quem me cerca. Vou afogar as mentiras no rio e espantar os fantasmas com sons que só as mãos dos pianistas conseguem pronunciar.

Um dia, conseguirei transformar essa atual imobilidade em movimento. Vou dizer adeus e partir deixando as amarras que me prendem penduradas na janela. Só vou querer noites de lua cheia para iluminar meus caminhos errados madrugada adentro. Viverei sob o signo da efemeridade e serei conduzido pelo sabor de uma felicidade besta, mas sincera.

E, sorrindo pela sensação boa do vento batendo no rosto, flutuar...

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Pequenas racionalidades


Como a brisa fria que teima em vencer paredes e toldos, ali pela quinta marcha um pensamento chega sem aviso: Talvez eu só queira voar. Com o cérebro encharcado de aleatoriedades, você se apega a pequenas racionalidades, essas preocupações mesquinhas habituais que tanto ocupam nosso tempo numa segunda-feira: voar!

Talvez, se os bons ventos soprarem à favor, minha vida finalmente exploda num carnaval que não chega nunca. Talvez, no mais simples esforço de manter o atual status quo, as melhores epifanias dos últimos 17 anos aconteçam. Talvez...

Talvez, eu só queira voar, mas não saiba para qual lado o vento vai soprar.

Imagem capturada aqui.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Lição de Dança

Olhar adiante e descer escada abaixo com a mesma desenvoltura de Kim Novak.


As tais explicações


Por que não ignorar algumas minúcias desnecessárias da vida? Por que não se contentar com o presente? Por que a insistente vontade de explicar todas as coisas, biblicamente, cientificamente, geograficamente...?

Sempre as tais explicações.

Talvez seja preciso beijar o acaso, sentir as flutuações do humor, olhar com carinho para os caminhos [estranhos?] que começamos a percorrer sem razão lógica ou aparente.

Por que não esquecer as forças gravitacionais que nos atam firmemente ao chão, que acabam por nos impedir de olhar, um pouquinho que seja, para além do precipício? Por que não contrariar, pelo tempo necessário, os próprios totalitarismos?

Depois, eu sempre levei a vida a sério demais. É hora de lembrar o que realmente importa: que nem sairei vivo dela mesmo.

Foto: Wolney Fernandes

domingo, 31 de março de 2013

No embalo das Imperfeições


Ando sem vontade de fazer a barba, nem cortar o cabelo. Sorrio do meu eventual desapego e me divirto com minhas negligências estratégicas, meus pequenos desvios de caráter. Não ando afim de lavar meus sapatos e não estou nem aí para o caos do quarto ou do barulho do colchão. Sinto vontade de erguer um altar à preguiça e a procrastinação. Mesmo em domingos ensolarados não me movo do travesseiro e do edredom. Durmo na alta madrugada, muito embora meu sono entrecortado me acorde antes das oito da manhã. Não sinto vontade de voltar pra casa depois de um dia difícil.

Amanhã, além de segunda-feira também é dia primeiro e meus planos de vida saudável e arrumações profissionais parecem perdidos em meio a tantas contas a pagar. A rotina desce mordendo os calcanhares e me vejo de lá a cá, perdido em mil obrigações fúteis. As relações de trabalho obrigam a me submerter à servilidade do rapaz de recados, a desligar o telefone diante de novos pedidos e encomendas.

Os amigos brilham em volta e até mandam notícias para dizer que eu poderia estar ali e acolá. Estarei, em breve, agora que março finda só me resta este mergulho vertiginoso até junho, meu novo ano novo, e a esperança recorrente de que, sim, vai melhorar. Não sei onde será meu reveillon e muito menos para quem venderei minha alma [e quem sabe o corpo, se sorte tiver] a preço de liquidação.

Tenho entrado no elevador e esquecido de anotar os instantes que colocam sorrisos em mim. Finjo uma pretensa segurança enquanto escovo os dentes, adio a faxina enquanto o caos se instala pelo peito e, na espera de algo que ainda parece estar a milhares de quilômetros, sigo dançando sozinho pelo quarto. Só ali, no meio dos acordes que me embalam é que tenho conseguido abalar minhas inúmeras imperfeições.

Foto: Wolney Fernandes

Andeiro


"O velho pé de ipê ao pé da serra
estende os braços pro desfiladeiro
carrega sobre os ombros toda história
que viu e ouviu ao pé do tabuleiro
É dono do silêncio mais profundo
que por sinal é o som mais verdadeiro
de tudo o que se passa neste mundo
de tudo o que é eterno e passageiro

Seus braços bem abertos para a vida
acenam de um modo sobranceiro
despedem quem já estava de partida
e acolhem quem fugiu do aguaceiro
E eu que só estava de passagem
me sinto em casa nesse paradeiro
deixei de lado o peso da bagagem
e repensei meu rumo, meu roteiro
e recontei meus passos de andeiro"

[Gladir Cabral]

Foto: Wolney Fernandes

quarta-feira, 27 de março de 2013

Quase todos os medos


Quase todos os medos que não tem nome. Medo de esquecer o discurso em casa, medo de não saber a coreografia na hora em que todo mundo tem que dançar junto. Medo do dia da foto da escola, medo de brinquedos que se mexem sozinhos, medo de andar descalço.

Medo de errar e persistir no erro. Medo de não ter coragem de desistir quando necessário. E, principalmente, medo de ser sempre apenas uma promessa, de viver um eterno quase, um imutável "ainda não".

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 25 de março de 2013

Encontros, esbarrões e vislumbres


É, eu sei que o blog está jogado em um canto qualquer e faz tempo que não volto aqui para escrever. Mas tem sido dias de silêncios necessários.

Na ausência, um desavisado qualquer me perguntou qual era a minha definição para o amor. Não soube responder na hora. No entanto, hoje pela manhã, tal qual uma epifania e com a boca cheia de creme dental, esbocei isso aqui.

Tenho cá pra mim que se engana quem pensa que o amor é feito de semelhanças. Tendo a achar que ele é feito de encontros, esbarrões e vislumbres. E daquela linha tênue entre desejar o outro em nós, para nós e reconhecer o outro em si mesmo. O amor, penso eu, é feito do reconhecimento da diferença.

Quis registrar aqui para saber o que responder da próxima vez.
Logo, logo estou de volta!

A foto eu encontrei aqui.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Coleção de Instantes


Na fila do banco, no ponto de ônibus ou em subidas e descidas de elevador, diariamente sou testemunha da vida que acontece ao meu redor. Soltos pelo acaso, alguns pedacinhos do movimento que a vida faz, colocam sorrisos em meus olhos e provocam inquietudes sem que eu saiba bem o porquê.

Foi por isso que comecei a registrar esses fragmentos de realidades, entendendo que são eles que bordam meu tecido cotidiano com complexidade e beleza. Por eles, a vida - mesmo descabida - parece caber em todo canto.

Comecei registrando um abraço ali, um descuido acolá e quando dei por mim, tinha um monte de instantes colecionados por aí. Numa espécie de epifania, resolvi reunir todos eles em um blog novo que pode ser acessado aqui. Pelas vias da simplicidade, minha Coleção de Instantes passa a ser um canto onde posso guardar sorrisos, conversas, olhares, encontros e sentidos.

Imagem: Wolney Fernandes

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Catador de poesia


Procurei poesia pelo facebook e encontrei essas aqui:

‎"Todo caminho da gente é resvaloso.
Mas também, cair não prejudica demais,
a gente levanta,
a gente sobe,
a gente volta”


[João Guimarães Rosa] via Carmem Lucia Teixeira

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"Todo aquele que dorme vira de novo criança, 

porque durante o sonho não se pode fazer o mal nem prestar contas à vida..." 

[Fernando Pessoa] via Agno Flávio Santos

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“O que precisa nascer tem sua raiz em chão de casa velha. À sua necessidade o piso cede, estalam rachaduras nas paredes, os caixões de janela se desprendem. O que precisa nascer aparece no sonho buscando frinchas no teto, réstias de luz e ar. Sei muito bem do que este sonho fala e a quem pode me dar peço coragem.”


[Adélia Prado] via Vanessa A. Correia

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‎"Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça."


[Cora Coralina] via Gisele Costa

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‎"Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, 
não há ninguém que explique e ninguém que não entenda."

[Cecília Meireles] via Célia Regina Oliveira

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Poesia em forma de imagem na foto de Leandro Andrade que ilustra esta postagem.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Mais carinho, por favor!


No encarte de um antigo LP do Freddie Mercury:

"De pensamento para pensamento, com carinho e amor.
Quando penso em você fecho os olhos de saudade.
Tenho quase tudo, inclusive a felicidade.
Dedique-me mais carinho, por favor!
De olhos vendados com a presença marcante de seu fechado sorriso, me ponho a ser seu.
Mil e 1 mais 1 beijo!"
Marisley

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Docemente pornográfico


"Preciso sair da outra metade para ceder lugar ao iminente ato de foder".
[Ana Cristina Cesar]

Tenho reencontrado com meu desejo. Aquele que pulsa do meio do corpo para as extremidades. Desejo, não! Tesão mesmo. Pra que usar de eufemismos para disfarçar verborragias ditas pelo corpo? Quero escutá-lo, ou melhor, me escutar, já que o meu corpo sou eu. Passei muito tempo sabendo o que podia fazer, mas não podendo fazer o que sabia. Gozando com certa angústia. Imaginando meu pau como uma grande cicatriz. Pronto. Falei!

"Me benze dona Maria benzedeira, me põe em transe pra eu falar todos os palavrões do mundo e acordar pedindo comida, não quero mais pedir perdão, quero pedir comida."
[Adélia Prado]

Me tirem do altar dos pudicos ou então me coloquem junto com as Virgens de seio de fora ou com São Sebastião de torso retorcido por flechas que inflamam ereções involuntárias. Tenho insistido nesse reencontro para que não haja espaço entre um prazer e outro. O tesão, quando adulto, sabe que a felicidade não é um lugar, mas um movimento que se faz para alcançar o gozo.

E me valendo das ousadias que a poesia (sempre ela!) tem colocado em mim, quero registrar que meu tesão é mais do que eu digo e menos do que eu realmente acho. Para me livrar desse impasse, sabiamente tenho usado mais a boca que, entre tantos usos possíveis, está aqui só para sussurrar:

"Sejamos pornográficos, docemente pornográficos".
[Drummond]

Imagem garimpada na internet. Quem souber a autoria, levanta a mão.


sábado, 12 de janeiro de 2013

Entre nobres e criados


Em uma das melhores cenas de Downton Abbey - série inglesa que tem tomado minha atenção e deslumbramento - diante da fala do advogado Matthew ao explicar que pode exercer a profissão de segunda a sexta e cuidar de Downton nos finais de semana, Lady Violet - matriarca da família que nunca trabalhou na vida - pergunta assustada: "O que é um fim de semana?"

Essa pequena pérola resume o brilhantismo do texto que conduz a trama do seriado que se passa em 1912, período onde transformação era a palavra de ordem. Desde o naufrágio do Titanic até as mudanças provocadas na sociedade inglesa pela Primeira Guerra Mundial, vemos desfiar as reviravoltas  que conduzem o dia a dia da família Crawley, dona da propriedade que dá nome a série.

Mas falar de Downton Abbey é dizer também daquilo que acontece escada abaixo, nos corredores, dormitórios e cozinha onde a "criadagem" também faz fervilhar a vida em suas mais diversas nuances. É impagável e, na maioria das vezes, tocante, perceber como a vida dos criados era intimamente ligada a dos patrões em absurdos difíceis de se fazer entender na atualidade. No entanto, desobediência, insubordinação, romance, traição e pequenas tragédias costuram, com habilidade ímpar, os acontecimentos vivenciados nos ricos aposentos aos vividos nos porões da propriedade.


O conde de Grantham é pai de três filhas e se vê obrigado a casar a mais velha com um homem de dentro da família para não perder o título e a propriedade. Como o pretendente oficial morre no naufrágio do Titanic, a solução é encontrar um primo distante, Matthew, para dar conta da tarefa de "domar" Lady Mary, a filha mais velha.

A partir daí, as mais diversas reviravoltas criam uma história de convivência que, da perspectiva de ambas as classes sociais, conferem a quaisquer espectadores da série inúmeras identificações: riqueza e pobreza, honestidade e deslealdade, tradição e vanguarda... isso sem mencionar o drama e as paixões silenciosas experimentadas por vários personagens.

Contando ainda com uma qualidade técnica que recria com muito esmero aquele período, Downton Abbey merece ser vista e revista porque, além do humor irônico típico dos britânicos, ainda apresenta os diversos modos de lidar com tecnologias advindas da revolução industrial e que mudariam o mundo para sempre.

Qualquer semelhança com a época em que vivemos não terá sido mera coincidência.

Imagens capturadas aqui.

Vontades Poucas


Refiz o caminho dos anos descritos aqui e ao encarar o meu eu de antes encontrei beleza em quase tudo. Estou de bem com o passado.

Quanto ao eu de agora, já não sei. Apenas a certeza de me bastar com aquilo que tenho. E só. Amanheci o ano com vontades poucas. Desenhar mais, descobrir músicas que me embalem em caminhadas sem rumo pelo Centro, viajar para lugares desconhecidos e ler os poemas (tantos) que estão empoeirando na estante.

Coisas que, se não acontecerem, tudo bem e vai-se-indo.

Se o passado parece um rio profundo que tortuosamente segue seu curso entre remansos e corredeiras, o presente é como um córrego raso onde eu posso atravessar com a água nas canelas.

Foto: Wolney Fernandes

sábado, 5 de janeiro de 2013

Gramática


Porque eu ando cheio de adjetivos. O que me falta são substantivos.

Foto de Rosi Martins

Somos Infinitos


Sabe quando o filme termina e dá vontade de ver de novo, na sequência, porque uma vez só é pouco para se dar conta das tantas coisas que a história parece [re]velar? Pois é! Comigo foi bem assim ao terminar de assistir "As Vantagens de Ser Invisível", filme sobre as aventuras e desventuras de um jovem tímido e depressivo ingressando no ensino médio e na vida.

Foram incontáveis as vezes que eu vi essa história antes. No entanto, o filme demonstra que o diferencial não está exatamente na história, mas em como se conta uma história. Adaptado para o cinema do livro de Stephen Chbosky, a produção conta com uma direção delicada onde personagens bem delineados mostram, aos poucos, a imersão em momentos cruciais cheios de temeridade e incertezas da passagem para a vida adulta. 

"Nós aceitamos o amor que achamos merecer."

Fugindo dos estereótipos do gênero, "As Vantagens de Ser Invísivel" consegue ainda gerar um sentimento familiar, provocando identificações por toda a narrativa. Se não pelo jeito introvertido do protagonista, nos reconheceremos no entorno: nos amigos, no prazer de curtir a companhia de alguém, de estar apaixonado, de experimentar o proibido, de se deixar levar pela música que mexe com nossas emoções e até nos medos que nos rondam amiúde.

Simples e, ao mesmo tempo, cru e devastador, o filme consegue combinar leveza com momentos marcantes em cenas e diálogos que se recusam a nos deixar, mesmo depois que os créditos sobem na tela. 

"Estou me sentindo infinito!"

Um dia depois e ainda pulsa dentro de mim a vontade de sentir a liberdade batendo na cara ao som de "Heroes" do David Bowie ou mesmo entrar na dança que a vida faz atendendo o convite de "Come on Eillen" dos Dexy's Midnight Runners.