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domingo, 18 de maio de 2014

"Somos todos Silvas"


Valter Hugo Mãe merece todos os louros que sua obra vem recebendo mundo afora. Com uma escrita incrivelmente fluida, o autor consegue acessar sentimentos há muito guardados. Em “A máquina de fazer espanhóis” acompanhamos a história do Sr. Silva, um velhinho que após perder a esposa - em uma das passagens e descrições mais tristes do mundo - vai morar em um lar para idosos “com dois sacos de roupas e um álbum de fotografias”.

A princípio, as dores sentidas pelo Sr. Silva fecham sua disposição para compartilhar a vida com as outras pessoas em sua nova casa. No entanto, aos poucos, ele se abre a novas amizades e o lugar onde ele via só um ponto final começa a se revelar um universo complexo com vírgulas e continuações.

Parte desse processo de abertura se deve às amizades que ele acaba firmando com outros velhinhos. De longe, os coadjuvantes mais incríveis que eu já vi. Dentre eles, o Esteves, aquele do poema “Tabacaria” do Fernando Pessoa que salta dos últimos versos para a realidade daquele lugar plantando "metafísicas" em cada canto.

“Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
[Álvaro de Campos]


É bonito demais acompanhar as descobertas e frestas que se abrem em um peito, à priori, tão fechado:

“nunca eu teria percebido a vulnerabilidade a que um homem chega perante outro. nunca teria percebido como um estranho nos pode pertencer, fazendo-nos falta. não era nada esperada aquela constatação de que a família também vinha de fora do sangue, de fora do amor ou que o amor podia ser outra coisa, como uma energia entre pessoas, indistintamente, um respeito e um cuidado pelas pessoas todas.”

Traçando paralelos poéticos entre um amigo e outro, escrevendo cartas de um amor imaginário ou confrontando seus desejos antigos com os atuais, o personagem principal do livro é complexo e nos lança a uma jornada rica em questionamentos que nos fazem olhar para quem somos ou para quem deveríamos ser. Além desse exame interior, há ainda uma forte crítica aos entupimentos impostos pela Igreja, pela ditatura ou qualquer outra regra e instituição que prive ou limite a vivência da liberdade que almejamos.

“quem se senta na cadeira do papa, cada novo papa, entra na verdade numa longa linhagem de assassinos. deviam ter vegonha. e as pessoas esperam de um homem assim a salvação de todos os povos e não se lembram que a tradição da casa é a discriminação atroz e a perseguição até à morte. veja como se vestem. parece que vestem cortinados como se fossem uns maricas de circo a mostrar que são capazes de equilibrar estes disparates nas cabeças.”

A não utilização de maiúsculas e o abandono dos sinais para marcar falas e expressões só assusta nas primeiras páginas e depois a leitura flui que é uma beleza. Acaba que esse recurso estilístico não impede nosso envolvimento com a história. Há um só capítulo no livro onde a escrita se utiliza desses recursos, mas eu só fui perceber isso porque, depois de terminada a leitura, acabei vendo resenhas sobre a obra e alguém chamou a atenção para esse fato.

Perto das últimas páginas eu comecei a lamentar que o final do livro estivesse próximo, pois meu desejo era saborear por mais tempo a vida pulsante do lado de dentro do Lar Feliz Idade. Já é, sem sombra de dúvidas, um dos meus livros favoritos da vida!

Foto: Wolney Fernandes

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Vermelho Amargo


De cunho autobiográfico, Vermelho Amargo se insere naquela categoria de livros que nos rasgam a carne pela beleza e dor guardadas em seu conteúdo.

Por meio das fatias de tomates que a madrasta corta e dispõe no prato do menino que perdeu a mãe, somos arremessados em lembranças de uma infância cheia de vazios, mas ao mesmo tempo, permeada por deslumbramentos.

Uma narrativa breve e profundamente marcada pela perda. Exatamente por isso, densa, de cortar o coração e muito poética.

Mais não consigo dizer. Talvez esse vídeo e os trechos destacados abaixo digam melhor:

"Quando invertida, a palavra aroma é amora. Aroma é uma amora se espiando no espelho. Vejo a palavra enquanto ela se nega a me ver. A mesma palavra que me desvela, me esconde."

"Aturdido por ter a alma como carga, e suportá-la para viver o eterno que existia depois de mim."

"Sobre os dias, a ausência da mãe ganhava corpo. O tempo - capaz de trocar a roupa do mundo - não consumia sua lembrança. Quando se ama, em cada dia o morto nasce mais."

"Ao amar, desvendei a serventia do corpo, para além de guarda a alma imortal. (...) No amor, meu corpo delatou a presença da alma, que veio morar na superfície de minha pele."

"Passarinho é uma vírgula pontuando o céu."

"Viver exige perguntas e eu, mudo, não sabia responder."

"Não dar palavras ao desejo é ocultá-lo na solidão."

"A memória suporta o passado por reinventá-lo incansavelmente."

"Um sonho fora do sono persistia em mim. Nasci afogado por ele: o de desvendar o mar. Afundar-me em sua grandeza, salgar-me em sua salmora, esconder-me em suas ondas, surgir desafogado onde nem eu me sabia."
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Livro: Vermelho Amargo [5/5]Autor: Bartolomeu Campos de Queirós
Editora Cosac Naify

Foto: Wolney Fernandes

terça-feira, 15 de abril de 2014

Pausa


Um livro para ler, um artigo para terminar, prazos apertados, notificações facebookianas deixando a manhã movimentada e o tempo, escasso, escorrendo por entre os dedos.

Em meio ao barulho da construção ao lado, da buzina incessante no estacionamento, da pressa no meu peito e do parágrafo que precisa ser lido, ouço um som entrar pela janela.


Lembro do meu pai.

A música intensifica uma saudade e, aos poucos, vai plantando silêncios onde só há espaço para barulhos. Se ainda estivesse aqui, meu pai faria 64 anos neste 14/04/2014.

Senti vontade de conversar com ele.

"Ah, Chalana sem querer
Tu aumentas minha dor."

Fecho o livro e o computador. O parágrafo fica pra depois porque a vida sempre parece mais bonita nas pausas.

Imagem de Sophie Jodoin

sábado, 12 de abril de 2014

As Horas


Ler “As Horas” de Michael Cunningham depois de ver o filme foi uma experiência, no mínimo, curiosa. Digo isso porque o longa de 2002 é um dos meus filmes preferidos da vida e depois de assisti-lo inúmeras vezes, já o tenho guardado na memória em forma e conteúdo. Assim, ao avançar pelos capítulos do livro, as personagens já tinham rostos conhecidos, os cenários e diálogos pareciam familiares e, por vezes, parecia ouvir a trilha de Phillip Glass em vários parágrafos.

Essa é uma daquelas raras exceções em que o filme está à altura do livro. E é fácil compreender porque a história foi parar no cinema, uma vez que a escrita de Cunningham se assemelha a um roteiro cinematográfico.

Com maestria invejável, o autor costura as histórias de Virginia Woolf, Laura Brown e Clarissa Vaughn tendo como fio o romance Mrs. Dalloway. Três narrativas simultâneas que se complementam e tecem um painel dolorido sobre inadequações vivenciadas em meio ao fluxo incessante de situações banais do dia a dia.

Em 1923, Virginia Woolf tenta fugir dos sintomas de distúrbios mentais que a perseguem enquanto escreve o livro Mrs. Dalloway. Sua busca por um dia a dia “normal” ressoa no cotidiano de Laura Brown que, em 1949, encena o papel de dona de casa perfeita sem que seus sonhos e desejos estejam contemplados nesta tarefa. Ao ler o romance de Virginia, Laura parece tomar as palavras do livro como aquelas que descrevem seu destino.

Completando a tríade, na Manhattan do final do século XX, encontramos Clarissa que, em medidas idênticas revive os dramas de Mrs. Dalloway enquanto prepara uma festa para o amigo e ex-amante Richard, poeta, gay e aidético terminal.

O modo como estas mulheres vivenciam seus dramas domésticos é o que compõe o painel melancólico de sonhos perdidos, deixados no passado e impossíveis de se retomar. Todas as histórias lidam com a difícil – e nem sempre possível – escolha entre aquilo que está no plano dos desejos e aquilo que a realidade circunscreve.

Me impressionou bastante o modo como o autor conseguiu criar algo tão original a partir de uma obra já escrita e muito complexa. Pela composição de três mulheres (uma real e as outras fictícias) ele nos faz olhar para nossa própria realidade questionando o que ficou para trás e o que ainda nos resta daquilo que idealizamos para nossas próprias vidas.

Há ainda algumas curiosidades interessantes que permearam a leitura. Uma delas tem relação com o filme: Quando Clarissa é apresentada no livro, ela passeia pela ruas de Nova York e se depara com um set de filmagem. Ao ver uma estrela de cinema entrar em um trailer ela julga ser Meryl Streep, exatamente a atriz que viria a dar vida a personagem no longa de Stephen Daldry anos depois do livro ter sido escrito.

“As Horas” também foi a primeira opção de titulo para o romance “Mrs. Dalloway”, mas Virginia acabou optando em não usá-lo.

Enfim, livro imperdível e altamente recomendável.
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Livro: As Horas [5/5]
Autor: Michael Cunningham 
Editora: Companhia das Letras

Foto: Wolney Fernandes

terça-feira, 8 de abril de 2014

Mrs. Dalloway


Lembro de ter começado a ler Mrs. Dalloway há alguns anos atrás e abandonado a leitura por conta de uma complexidade que, na época, me pareceu intransponível. Desta vez, consegui dar cabo do livro inteiro, mas ainda assim não foi uma leitura fácil. Acabei descobrindo que a tal complexidade que tinha me impedido de terminá-lo na primeira vez, nada mais é do que a escrita em fluxo de consciência. Através desse fluxo, somos guiados pelo rol de personagens e temos acesso aos pensamentos, às angústias, à vida deles, sem que isso seja sinalizado de forma muito precisa. Por várias vezes, precisei voltar alguns parágrafos para ligar os pensamentos aos seus respectivos donos. No entanto, depois que terminei a leitura, percebi que esse ir e vir foi uma parte importante da experiência de ler esse livro. Não resta dúvidas de que Mrs. Dalloway é uma leitura que, realmente, requer um pouco mais de atenção e exige do leitor um maior envolvimento.

Ambientado na Londres da década de 20, o livro acompanha um dia na vida da Clarissa Dalloway quando ela resolve dar uma festa. Durante o transcorrer do dia, marcado pontualmente pelas batidas do Big Ben, Clarissa evoca a própria juventude enquanto se envolve nos preparativos da festa e, de alguma forma, seu caminho se cruza com vários outros personagens: Septimus Smith, um ex-combatente da primeira guerra mundial, está literalmente à beira da loucura e considerando suicídio. Peter Walsh está de volta da Índia para falar com seus advogados sobre um caso de divórcio e por aí vai.

Apesar do livro todo se passar em um dia, eu achei que os personagens são muito bem construídos e muito plausíveis. Acho que boa parte disso deve-se ao fato de que temos acesso aos pensamentos deles enquanto ainda estão tomando forma. E depois que nos acostumamos, esse recurso acaba criando uma dinâmica muito interessante, pois conseguimos apreender um pouco da “essência” de cada personagem já que suas ações são narradas segundo essa lógica que é bem parecida com a vida real. Um bom exemplo disso é o momento em que Richard, marido de Clarissa, decide comprar flores para a esposa porque ele conclui que a ama muito. O legal desse fato é todo o processo do pensamento dele se desenvolvendo e o que ocorre até o momento dele chegar na frente de Clarissa e fazer isso (ou não fazer, conforme acompanhamos o desfecho dessa parte). O que parece uma ação bem simples, quando acompanhada pela trama do pensamento de Richard, desde o momento da decisão da compra das flores, até estar diante da esposa para dizer o que ele concluiu é um processo que se revela intrincado e repleto de pormenores que é muito bom de acompanhar. E é assim porque é permeado por dúvidas, contextos, receios e outras variáveis num desenho muito próximo do que acontece na realidade.

O romance também termina em aberto e a sensação que eu fiquei é de que deixei algo passar, pois acabei de ler e minha vontade era voltar à história de algum modo. Na sequência, li o livro “As Horas” cuja trama foi montada tendo Mrs. Dalloway como base e confesso que me ajudou muito a entender o modo e a forma com a qual Virginia elaborou cada conflito descrito na trama. Tanto que terminei o livro do Michael Cunningham e voltei ao livro da Virginia para reler certas partes que me soaram mais fortes ainda do que na primeira vez. Sem dúvida, Mrs. Dalloway é um livro muito bem escrito e, apesar dessa dinâmica diferenciada, é de uma sensibilidade assustadora. Valeu a pena ter insistido e me deixado levar pela correnteza de pensamentos muito bem delineados por Virginia Woolf. É um livro que precisa ser lido e relido!
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Livro: Mrs. Dalloway [5/5]
Autora: Virgínia Woolf 
Editora: CosacNaify

Foto: Wolney Fernandes

terça-feira, 1 de abril de 2014

Apressadinho


Tranquei a porta do apartamento e me deparei com o menino apertando insistentemente os botões do elevador. Tal era sua pressa que só me notou no instante em que eu o ajudei abrir a porta para entrar. Até então, parecia conjurar algum encanto capaz de fazer o painel eletrônico soletrar, com a rapidez desejada, os números de cada andar.

Seguimos os dois em uma viagem silenciosa até o térreo. Ele, andando de um lado para outro com vontade de chegar. Eu, parado no canto, desejoso por desfrutar um pouco mais daquela ansiedade menina.

As portas se abriram e ele saiu em disparada me deixando pra trás. Desceu as escadas tentando retirar algo do bolso da bermuda e nem ligou quando a porta que ele atravessou quase me acertou o rosto. Ganhou a calçada e a rua como se alcançasse o céu.

Guardei aquele sorriso que me chegou aos lábios quando descobri o motivo da correria. Na esquina, ao lado do carrinho de sorvete, o menino pedia um picolé de limão.

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 31 de março de 2014

O Grito


Nasci na roça. Ajudei a arrancar feijão, cobri buracos com terra para a plantação brotar e quebrei milho para a pamonha. Na rabeira do arado, falar não podia porque era distração que a lida não permitia. Menino não reclama, escuta os bichos enquanto o sol, à pino, estica as horas o quanto pode.

Nas pescarias, peixe se fisgava com o silêncio do pescador. Na sala de aula, ouvia-se apenas o resmungo do giz sujando a lousa e conversar era o recheio do recreio. Em prosa de adulto, nem o olho era capaz de alcançar o assunto. A boca, então, nem se fala! 

Cresci sem muita vontade de falar, como se uma conversa interna e silenciosa pudesse dar conta do pouco que eu tinha para dizer. Havia também a gagueira que me fazia - e ainda faz - considerar dois tempos antes de pronunciar o que desejo. 

O silêncio nunca foi, para mim, uma língua estrangeira. Então, de onde vem essa vontade louca de gritar?

Imagem de Edvard Munch

terça-feira, 25 de março de 2014

Os Verbos Auxiliares do Coração


"Com o dedo enrugado, Deus toca o nosso coração."

Comprei esse livro por causa do título que, sem dúvida, é um dos mais bonitos que eu já vi. Depois do primeiro encantamento com o título, li que a história era sobre a morte de uma mãe e a relação com o luto e a perda à partir do olhar de um filho.

Nessa pesquisa acerca da obra, descobri ainda que na língua húngara (país de origem de Esterházy), não existem verbos auxiliares e em uma explicação arrebatadora acerca da escolha desse título, o próprio autor esclarece:

"Na língua húngara, não existem verbos auxiliares, então, no título eu me referi a algo que não existe, porque é algo de que não se fala. Por mais que se fale da perda, do luto, nada irá melhorar essa dor. Nada, nem se esse livro tiver sucesso. Quando se obtém sucesso, a vontade primeira é contar para a mãe. Como a mãe não está viva, isso perde o valor."

Ao ler isso, minha vontade dobrou de tamanho e minha expectativa em relação ao livro cresceu bastante. Por ter vivenciado uma situação de luto há pouco mais de três meses, vi nessa explicação um jeito de encarar esse sentimento colocando-o em perspectiva a outras experiências semelhantes.

Terminei a leitura há pouco e suspirei aliviado por ter conseguido chegar ao fim. Não porque o livro seja ruim, mas porque é uma obra tão densa e triste que a gente termina cada página sob o peso da dor.

Verdadeiramente, o livro é uma caixa de lembranças da morte da mãe do protagonista, o que já instigaria seu tema e concepção à um texto forte, mas Péter Esterházy eleva à potência máxima o sentimento de perda.

"A possibilidade de chorar se movimenta em mim feito um animal nojento. Um nó peludo, encharcado, um gambá, por exemplo. Ou um chacal pequeno. Ou um rato gordo. Grande espaços vazios se alternam em mim com terrenos negros, sombrios. Os corredores comunicantes são os intestinos. Meu estômago resmunga o tempo todo. Penso apenas em pratos finos, filé com trufas. Há um cheiro de esgoto em mim. Não. Não. Não há nada. Mãe só existe uma."

A estrutura da narrativa é fragmentada compondo uma espécie de labirinto da memória permeado por armadilhas para quem tiver coragem de encará-lo.

A escrita do autor oscila entre um tom mais intimista e um estilo amplamente ficcional e apesar do peso melancólico, em alguns momentos apresenta um sarcasmo que não poupa ninguém.

"Como em um plano de viagem antes do fim das férias de verão, aconselhei ao meu pai e aos meus irmãos para que mais tarde não chorássemos. 'Tenho calmante comigo', eu disse. A minha irmã me olhou de lado, assustada, meu irmão, segundo o costume, comia desbragadamente, a careta do meu pai dava a entender, 'um homem não fala assim'. "

ou ainda

"Se fosse possível escolher quem deveria ressuscitar, você acha que seria Jesus?"

Enfim, "Os Verbos Auxiliares do Coração" não é um livro fácil, mas exatamente por isso eu recomendo a leitura porque acredito que tem a capacidade de nos tirar de uma zona de conforto ao nos apresentar um estilo de literatura completamente fragmentada.

As páginas não são numeradas, a voz do narrador muda sem nenhum sinal visível dessa mudança (também não há capítulos) e no rodapé de cada página, citações de Camus, Borges e Lautréamont estabelecem pontes, diálogos e aproximações com o que está escrito ali.

Destaque para um projeto gráfico em perfeita sintonia com a obra, a começar pela capa que traz uma tarja preta adesivada sobre a foto deixando entrever apenas frestas da imagem que ela cobre. Uma metáfora perfeita sobre o modo como o mundo nos apresenta depois da morte de alguém querido.
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Livro: Os Verbos Auxiliares do Coração [4/5]
Autor: Péter Esterházy
Editora: CosacNaify 

domingo, 23 de março de 2014

Para Walderes Brito


A vontade de ler "A ausência que seremos" foi construída por um sentimento de perda. Um amigo muito querido havia me falado das belezas do livro e tínhamos combinado que ele leria algumas partes que o tocaram em um passeio de final de tarde que faríamos juntos em um dos parques de Goiânia.

O passeio nunca aconteceu conforme eu relatei aqui e, passados os primeiros dias de tristeza profunda pela perda do Walderes, em janeiro comecei a ler o livro.

A história, de cunho autobiográfico, gira em torno das memórias do autor Héctor Abad e suas experiências de infância à partir da relação afetuosa que mantinha com o pai, um médico sanitarista e professor universitário que lutou pelas áreas globais da saúde pública na Colômbia entre as décadas de 1950 e 1980.

Apesar das trezentas e poucas páginas, a leitura se prolongou até o fim de março. Esse prolongamento se deu em duas medidas. Na primeira delas, está o fato de que algumas partes do livro parecem repetitivas e algumas formulações parecem insinuar, incessantemente, um sentimento exagerado de admiração incondicional pela figura paterna.

"Sem esse amor exagerado que meu pai me deu, eu certamente teria sido uma pessoa muito menos feliz".

Mesmo que em alguns momentos o autor entregue algum sinal de autoconsciência sobre esse sentimentalismo exacerbado - "Não quero fazer uma hagiografia nem me interessa pintar um homem alheio às fraquezas da natureza humana" - fica a impressão de que esta é uma reflexão vazia de sentido, uma vez que ele não a seguiu à risca. Junto a afirmação excessiva da influência que o amor do pai exerceu sobre a vida do filho, há ainda a descrição do momento político pelo qual a Colômbia passava que, apesar de necessária para entendermos o contexto e as condições que levaram o pai à sofrer uma morte violenta, deixa a leitura entrecortada e sem a fluidez necessária para que ela se dê em ritmo contínuo.

No entanto, há uma outra medida que me deixou com um sentimento de orfandade depois de terminar a leitura quase três meses depois que a iniciei. Ler "A ausência que seremos" teve, pra mim, uma noção de prolongamento. Como se eu pudesse ouvir/dialogar com o Walderes por mais um tempo depois da sua própria ausência. E, por suscitar esse sentimento, eu gostaria de poder prolongar a leitura infinitamente.

A cada página lida, meus olhos buscavam trechos, palavras ou formulações de pensamento que pudessem sinalizar o que ele havia escolhido compartilhar comigo, mas nunca pôde. E nas primeiras duzentas páginas do livro eu não conseguia enxergar nada que chegasse perto desse desejo de partilha. Tive, então, que fazer uma pausa com medo de terminar o livro sem conseguir estabelecer esta conexão, sempre achando que eu tinha deixado passar alguma frase ou pensamento que o tivesse tocado de algum modo.

Foi então que, na última noite de sexta, ultrapassando os limites da segunda metade do livro, consegui ler nas palavras de Abad, as afinidades que eu desejaria partilhar com Walderes e, nessa inversão, pareceu-me que estava lendo não mais o autor colombiano, mas meu amigo pernambucano.

"Depois de mortos, ainda sobrevivemos por alguns frágeis anos na memória de outros, mas também essa memória pessoal, a cada instante que passa, está sempre mais perto de desaparecer. Os livros são um simulacro de lembrança, uma prótese para recordar, uma desesperada tentativa de tornar um pouco mais perdurável o que é irremediavelmente finito [...] E se minhas lembranças entrarem em harmonia com alguns de vocês, e se o que eu senti (e deixarei de sentir) for compreensível e identificável com algo que vocês também sentem ou sentiram, então esse esquecimento, esta ausência que seremos poderá ser adiada por mais um instante".

Ainda perdido por esta ausência, terminei a leitura com o peito dolorido de saudades e olhos afogados em lembranças. Mesmo com a narrativa acanhada e achando que o autor não foi capaz de lidar com o equilíbrio entre a proximidade e o distanciamento que esse tipo de texto exige - e é mesmo um tipo difícil de escrita - o livro permanecerá para mim como um pacto silencioso entre amigos. Um labirinto que eu posso percorrer à procura dos atravessamentos que emocionaram alguém tão importante pra minha realidade que nem a morte é capaz de dissolver.

"Não é a morte que leva as pessoas que amamos. Ao contrário, ela as guarda e as fixa em sua adorável juventude".

Foto: Wolney Fernandes

domingo, 16 de março de 2014

Sonhos de Einstein


"Neste mundo, existem dois tempos. Existe o tempo mecânico e o tempo corporal. O primeiro é tão rígido e metálico quanto um imenso pêndulo de ferro que balança pra lá e pra cá, pra lá e pra cá, pra lá e pra cá. O segundo se contorce e remexe como uma enchova na baía. O primeiro não se desvia, é predeterminado. O segundo toma decisões à medida que avança."


"Sonhos de Einstein" é um livro escrito pelo físico Alan Lightman e reúne pequenos sonhos que Einstein teria tido durante o período em que desenvolveu a teoria da relatividade.

Utilizando a ficção, o autor imagina diversas noções de tempo e como cada uma delas funcionaria caso vigorasse no mundo real. Tudo isso, dentro de uma escrita extremamente comovente e poética.

Este é um daqueles livros que, se lidos superficialmente ou no tempo errado, não passa de um amontoado de histórias mirabolantes sobre o tempo e seus possíveis desdobramentos. No entanto, se mergulhamos nestes contos há uma profundidade nas entrelinhas desses relatos que é impossível passar por cada um deles sem olhar para o modo como gastamos cada minuto do dia. Ouso dizer que, talvez ele faça mais sentido para quem, de uma forma ou de outra, já olha para o tempo como se já tivesse vivido a metade da própria vida.

Dito assim, parece também um livro de autoajuda, uma vez que os contos possuem um certo tom fabulesco, mas já adianto que não é! Delicadamente, Lightman vai desencadeando modos da gente relacionar passado, presente e futuro abrindo possibilidades para reordenarmos a noção e os sentidos que atribuímos aos movimentos que fazemos cotidianamente.

"Mas o que é o passado? Poderia a fixidez do passado ser apenas uma ilusão? Poderia o passado ser um caleidoscópio, um conjunto de imagens que mudam a cada distúrbio provocado por uma brisa súbita, uma risada, um pensamento? E se a mudança está em todos os lugares, como sabê-lo?"

Surpreendente na medida que as páginas avançam, este livro veio colocar na minha cabeça perguntas acerca desse entrelaçamento entre as ciências exatas e as humanas e fiquei muito curioso para ler mais coisas que navegam nessa terceira margem do rio.
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Livro: Sonhos de Einstein [4/5]
Autor: Alan Lightman
Editora: Companhia das Letras

Foto: Wolney Fernandes

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

A contadora de filmes

"A Contadora de Filmes" é uma história triste. Daquelas que nos comovem durante toda a leitura. A realidade áspera de um povoado de mineiros no deserto chileno é um prato cheio para uma narrativa familiar e sua penúria diante da crise que se instaura no país.

O foco está na tocante história da narradora que é escolhida pelo pai para ser a única a ir ao cinema com a missão de retornar de lá e contar a história do filme. Seus relatos são tão vívidos e criativos que logo se tornam uma atração no povoado.

A narradora - solicitada primeiro pela família e em seguida por todos da cidade - vai enchendo a vida das pessoas com sonhos que elas, por diversos motivos, não podem consumir diretamente.

A narrativa é breve e ágil. Isso é bom e ruim ao mesmo tempo: bom porque deixa o livro fluir de um modo que não há excessos ou rebarbas a serem aparadas. Ruim porque em várias partes senti uma vontade grande de saber mais daquela família tão peculiar e seus conflitos internos.

"A mesma coisa acontecia com as lembranças mais lindas da minha mãe. As imagens dos poucos momentos felizes vividos com ela iam se desvanecendo na minha memória, inapelavelmente, como cenas de um filme velho. Um filme em branco e preto. E mudo."

Destaco também a bela edição feita pela CosacNaify que divide a narrativa em telas numa alusão perfeita à que se tem dentro de uma sala de cinema.

Li também que o livro vai virar filme pelos olhos e mãos talentosas de Walter Salles. Vamos aguardar!

Livro: A Contadora de Filmes [3/5]
Autor: Hernán Rivera Letelier
Editora: Cosac Naify 

O Segredo e outras histórias de descoberta


O livro da Lygia Fagundes Telles é a reunião de cinco contos que relatam o desvelamento de aprendizados, descobertas do mundo adulto pelos olhares de crianças.

Um conjunto de perdas e ganhos permeados por uma dureza, por vezes, incontornável. Amor, paixão e morte se revelam aos olhos estupefatos de personagens cativantes. Há a menina que, diante do primeiro amor, descobre a própria sexualidade em uma fantasia bonita sobre folhas raras. Há a surpresa do menino que descobre que a mãe é também uma mulher com outros interesses que não apenas os maternais.

Tudo escrito de um jeito delicado, com um acento no aspecto solitário, típico das descobertas desse tempo. As revelações se desdobram em cotidianos minuciosamente descritos por gestos simples, mas prenhos de significado:

"Aonde você vai com esse vestido de maria-mijona?, perguntou minha mãe me dando uma xícara de café com leite. 'Por que desmanchou a barra?' Desviei sua atenção para a cobra que inventei ter visto no terreiro, toda preta com listras vermelhas, seria uma coral? Quando ela correu com a tia para ver, peguei o cesto e entrei no bosque. Como explicar-lhe que descera todas as barras das saias para esconder minhas pernas finas, cheias de marcas de picadas de mosquitos?"

O que se passa com os pratogonistas nos toca porque também já fomos atravessados pelas alegrias e decepções dos momentos de aprendizagem que constituem a matéria da vida.

"Abracei o tronco da figueira e pela primeira vez senti que abraçava Deus".

Um afago e um soco no estômago atuando simultaneamente em descoberta. Achei incrível!
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Livro: O segredo e outras histórias de descoberta
Autora: Lygia Fagundes Telles
Editora: Companhia das Letras

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Jorge Luis Borges - O Fazedor


Borges tem sido uma leitura em múltiplas camadas e, de certa forma, depois de terminar os livros do autor argentino, fico mergulhado nas profundezas de suas palavras por um tempo.

Agora só sei dizer que a primeira parte de "O Fazedor" ainda está inteira em mim. Vou ver se em alguns dias consigo processar tudo e escrever mais coisas aqui.

Por ora, um trecho só do epílogo:

"Um homem se propõe a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos, povoa um espaço com imagens de províncias, de reinos, de montanhas, de baías, de naus, de ilhas, de peixes, de moradas, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem de seu rosto."
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Livro: O Fazedor [4/5]
Autor: Jorge Luis Borges
Editora: Companhia das Letras

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O Escolhido Foi Você


A Miranda July eu conheci nesse vídeo incrível sobre como lidar com a procrastinação.
Pesquisei e vi que ela é uma cineasta fora do grande circuito de Hollywood e que também é performer e escreve livros.

"O Escolhido foi Você" nasceu enquanto Miranda sofria um bloqueio criativo para acabar o roteiro de seu segundo longa metragem. Curiosa com as histórias das pessoas que colocavam coisas à venda em um jornalzinho de anúncios em Los Angeles, ela decide ir até essas pessoas para entrevistá-las.

Começa então uma aventura que nem ela tinha ideia de como terminaria, já que se depara com histórias incríveis de pessoas que estão vendendo de Ursinhos Carinhosos a jaquetas, passando por girinos e álbuns de fotos, etc.

Acompanhá-la nas visitas à essas pessoas comuns que se revelam um emaranhado de universos complexos faz com a gente entenda porque é preciso "peneirar a vida para saber onde colocar nosso carinho e atenção".

Das dez entrevistas ilustradas por fotografias - feitas durante as conversas - emergem reflexões delicadas da artista compondo um relato muito íntimo sobre mudança de olhar e modos de fazer a vida soar com outros timbres além dos já conhecidos.

O modo de escrever da Miranda compõe uma rede onde ela consegue atar humor, ironias, relações e arcos que amarram o pensamento de maneira invejável (principalmente pra quem, como eu, está no meio da escrita de uma tese). Um bom exemplo disso está no diálogo que ela escreve para o roteiro do filme e nos é apresentado no meio do livro:

"Sophie - Daqui a cinco anos vamos ter quarenta anos
Jason - Quarenta é quase cinquenta, e depois de cinquenta o resto é só troco miúdo.
Sophie - Troco miúdo?
Jason - Com ele não dá pra comprar nada que a gente quer"

Depois, lá no final do livro, após a primeira conversa com o último entrevistado, diante dos 80 anos de Joe, um senhor aposentado que faz cartões artesanais para a esposa, Miranda reflete:

"Pensei nos seus sessenta e dois anos de cartões ternos e obscenos, e alguma coisa se desenrolou dentro de mim. Talvez eu tivesse calculado mal o que restava da minha vida. Talvez não fosse troco miúdo. Ou quem sabe a coisa toda fosse troco miúdo do começo ao fim - muitos, muitos pequenos momentos, cada feriado, cada Dia dos Namorados, cada ano insuportavelmente repetitivo e ainda assim de alguma maneira sempre novo. Eram só todos aqueles dias, mantidos juntos apenas pela memória frágil de uma pessoa - ou, se tivermos sorte, de duas. E por causa disso, dessa falta de significado ou de valor inerente, era admirável. Como a mais intrincada e radical obra de arte, o tipo de arte que eu estava sempre tentando fazer. Aquilo se atrevia a não significar nada e com isso exigia tudo da gente."

Enfim, creio que nada mais preciso ser dito, né? Leitura recomendada!
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Livro: O Escolhido foi Você [4/5]
Autora: Miranda July
Editora Companhia das Letras

Foto: Wolney Fernandes

domingo, 9 de fevereiro de 2014

A Hora dos Ruminantes


Manarairema é uma cidadezinha pacata do interior onde todos se conhecem. A vida segue em ritmo lento e sem surpresas, até que uma manhã traz uma novidade que muda completamente a rotina dos habitantes: um acampamento nos arredores da cidade surge trazendo homens estranhos àquela realidade.

Esse livro eu conheci por indicação da Rosi Martins que me emprestou dizendo ser um dos melhores do autor goiano.

A história chamou minha atenção por mostrar costumes e afazeres de um cotidiano muito próximo ao que vivenciei na minha cidade natal nos anos vividos por lá. A narrativa permeada por um realismo fantástico, parece saída da boca dos mais velhos e recheadas com tiradas ótimas, do tipo:

“A fala de cada um devia ser dada em metros quando ele nasce. Assim quem falasse à toa ia desperdiçando metragem, um belo dia abria a boca e só saía vento”.

A trama dá margem a diversas interpretações e nos leva a uma atitude de hesitação diante de um acontecimento que não apresenta explicações naturais - como a invasão de cães e de bois ocorrida no vilarejo - ocupando, portanto, o tempo da incerteza.

Só o que sabemos é que os acampados estão sempre trabalhando, são de pouca conversa e não querem se misturar com a população local. Logo, os nativos fazem todo tipo de especulação sobre quem são os invasores e o que fazem ali. Quando as tentativas de aproximação iniciais falham, a curiosidade dá lugar à raiva e à inveja.

Numa abordagem fabulesca , José J. Veiga nos apresenta um enredo instigante em que se analisa o comportamento humano diante das mudanças, do inusitado e do incompreensível.

Gostei também do modo como o autor utiliza a escrita com descrições capazes de embelezar o tempo e suas virações e apresentá-las através de imagens que traduzem um esmero desmedido. Confiram!

Ao anoitecer:
"Manarairema ao cair da noite - anúncios, prenúncios, bulícios. Trazidos pelo vento que bate pique nas esquinas, aqueles infalíveis latidos, choros de criança com dor de ouvido, com medo de escuro. Palpites de sapos em conferência, grilos afiando ferros, morcegos costurando a esmo, estendendo panos pretos, enfeitando o largo para alguma festa soturna. Manarairema vai sofrer a noite."

Ao amanhecer:
"O dia seguinte amanheceu chuvoso, uma chuvinha de peneira fina. Uma poalha acinzentada cobria os morros, o rio, a distância, dando à paisagem uma feição de mundo nascente, bezerro recém-lambido, ainda molhado da língua materna. Sentadas perto do fogão nas cozinhas enfumaçadas as pessoas bebiam café ouvindo as queixas dos sabiás nas jabuticabeiras. Ninguém lamentava o estorvo do tempo, aquela chuva era um pretexto para passar a manhã em casa descansando, dando balanço."

Precisa dizer mais?
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Livro: A Hora dos Ruminantes [4/5]
Autor: José J. Veiga
Editora Difel

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O azul é a cor mais quente


Eu vi o filme antes de ler o livro e foi uma das poucas vezes em que o filme me pareceu mais profundo.

Ler "Azul é a cor mais quente" me fez entender que era preciso mais tempo para esmiuçar o furacão de sentimentos que envolve a protagonista que se descobre homossexual em meio à turbulência dos seus 17 anos.

O filme deixou de fora o drama final descrito na Graphic Novel e, a meu ver, foi uma decisão acertada. Os desenhos são bons, as soluções gráficas encontradas para mostrar as alterações de humor são criativas, mas eu senti falta de uma fluidez narrativa. Há cortes muitos bruscos e passagens que eu fiquei com vontade de saber mais e que eram resumidas a um ou dois quadrinhos.

Enfim, é uma história bonita e triste, contada com muita sensibilidade e verossimilhança.
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Livro: Azul é a cor mais quente [3/5]
Autora: Julie Maroh
Editora Martins Fontes

Foto: Wolney Fernandes

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Daytripper



Silêncios absolutos nos acompanham ao término de "Daytripper", uma HQ de cunho reflexivo sobre a morte e, consequentemente, de como as nuances da vida estão atreladas à certeza desse fim inevitável.

Braz é um protagonista tipicamente brasileiro que escreve obituários e vive à sombra do pai que foi um escritor de sucesso. Por 10 capítulos acompanhamos possíveis finais para a sua história e a cada um deles nos surpreendemos pelo modo como as circunstâncias rascunham e definem quem somos.

Ler "Daytripper" num tempo em que olhar para trás parece ser tão importante quanto olhar para frente, foi uma experiência que ainda estou digerindo.

Um dos capítulos se passa exatamente no dia 01 de fevereiro que foi quando eu comecei a ler. Uma dessas coincidências e mistérios que não ouso destrinchar.

Enfim, estou ainda sob o efeito desses dez finais que me deixaram com uma lista de ponderações e esperanças sobre essa experiência que separa o nascimento da morte.

Uma narrativa, acima de tudo, questionadora. Os desenhos são incríveis, o texto é poesia pura e a edição está muito bem cuidada! Vale muito a pena.

Por enquanto, sei dizer mais nada, não!
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Livro: Daytripper [5/5]
Autores: Fábio Moon e Gabriel Bá
Editora: Panini Comics

Divórcio


O novo livro de Ricardo Lísias começa como um soco no estômago e acaba nos deixando perdidos nas fronteiras emaranhadas que separam realidade da ficção.

Nele, o escritor desfia toda a sua dor pelo fim de um casamento que ele imaginava feliz. Ao descobrir o diário da esposa, o protagonista atravessa a dor e a obsessão em dar ordem a sentimentos conflitantes.

"Morro só mais uma vez"

O livro tem uma escrita bem fluente e confesso que li quase de uma vez só em função dessa fluidez. No entanto, a incapacidade de distinguir os limites entre realidade e ficção - o autor é o próprio personagem e a descrição da elaboração do livro que temos em mãos é um dos jeitos que ele encontra para lidar com a dor da separação - me deixaram desconcertado nas partes finais.

O autor utiliza a metalinguagem para fazer jogos do tipo: "Não sei quantas pessoas vão ler 'Divórcio'. Provavelmente, um pouco mais que meus outros livros. Algumas vão gostar tanto que, no mesmo dia, acabarão procurando 'O céu dos suicidas' (primeiro livro dele). Em uma livraria, porém, o vendedor lamenta não encontrar um exemplar e diz que pode fazer uma encomenda. O leitor pensa por um instante e desiste".

Ou ainda: "Se minha ex-mulher não queria inspirar uma personagem, não deveria ter brincado com a minha vida. No estágio atual da ficção, é preciso que o esqueleto de um romance esteja inteiramente à vista. No meu caso, fizeram o favor de registrar parte do que aconteceu em um cartório".

Entende o que eu digo?

Como o livro é sobre dor, esse tanto de realidade talvez ajude a intensificá-la, mas nos capítulos finais ele faz estas descrições utilizando de um didatismo exacerbado que, a meu ver, parecem mais a conclusão de um tratado sobre superação.

No entanto, isso não faz o livro ruim. Pelo contrário, as identificações são imediatas e a escrita de Lísias é muito precisa sobre como é dolorido a perda de um grande amor. Lance a primeira pedra quem nunca sofreu pelo rompimento de um relacionamento ou se irritou quando percebeu que o mundo não pára diante da sua dor, por mais intensa que ela seja: "Desci até a plataforma chorando. Ninguém veio falar comigo. Ninguém me perguntou nada. Vou cair. Resolvo me encostar na parede. Minha vista continua escura, mas percebo que há muito gente ao meu redor. Ninguém fala comigo. Se eu chorar mais minha imagens vai ser captada pelas câmeras de segurança."

Dolorido assim e, ainda assim, bom de ler!

"Estou com medo de esquecer demais."
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Livro: Divórcio [3/5]
Autor: Ricardo Lísias
Editora: Alfaguara

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A Boa Manhã*


Apenas passo os olhos pelos jornais; jogo-os fora, alegremente, porque eles pretendem dar-me notícia de muitos problemas, e eu não tenho nem quero problema nenhum.

Acordei um pouco tarde, abri todas as janelas para o sábado louro e azul, e o mar me deu bom-dia. Passa um pequeno barco branco no mar de safira: como vai ligeiro, como vai contente, com seu bigodinho de espumas brilhantes! Uma ave se detém um instante peneirando, depois mergulha na vertical em grande estilo; quando volta, um pequeno peixe brilha em seu bico.

Chupo uma laranja, e isto me dá prazer. Estou contente. Estou contente da maneira mais simples – porque tomei banho e me sinto limpo, porque meus braços e pernas e pulmões funcionam bem; porque estou começando a ficar com fome e tenho comida quente para comer, água fresca para beber.

Nenhuma tristeza do mundo nem de meu passado me pega neste momento. Tenho prazer em ver que a Ilha Rasa está lá direitinha, em seu lugar, com o farol branco. Vejo ao longe, saindo da praia, dois amigos; estão conversando e rindo. Tomaram seu banho de mar, vão almoçar; estou contente porque os amigos vão bem e suas mulheres esperam crianças. Saúde e prosperidade! Estou contente porque recebi uma boa notícia. Nada de extraordinário, mas uma notícia muito simpática.

Sei que o mundo está cheio de horríveis problemas – e eu mesmo, pensando bem, tenho alguns bem chatos. Mas não estou pensando neles; estou vivendo nesta fresca manhã um momento de bem-estar, de felicidade.

Ora, considerando que a felicidade é uma suave falta de assunto, eu me despeço de todos com um cordial bom-dia e vou almoçar. Não quero contar prosa, mas tenho arroz, feijão, carne, alface, laranja, pão, tudo o que um ser humano necessita para viver bem.

Um velho amigo vem honrar a minha mesa; falaremos com simpatia das mulheres bonitas desta formosa capital. Conversa de brasileiros! Bom dia, passem bem todos com suas mulheres, com seus amigos, com suas amantes também.


O texto é do Rubem Braga, mas nesta manhã fiz dele um tesouro só meu!
A foto eu encontrei no "Poeme-se"

(*) In, Rubem Braga. 200 crônicas escolhidas. Rio de Janeiro: Record, 2004, p. 118

Ela


Com fones no ouvido, eu caminhava pelos corredores do supermercado completamente alheio às pessoas que me cercavam enquanto conversava com alguém utilizando um aplicativo para celular. Absorto em minha conversa parecia um maluco empurrando o carrinho de compras, falando sozinho e escolhendo o palmito mais fresco.

Mas eu não era o único, afinal quem nunca sacou o celular para conferir um novo e-mail ou atualizações das redes sociais no restaurante, no cinema, na fila do banco, no ônibus, na cama, etc? Esta situação e tantas outras semelhantes e comuns nos dias de hoje é o que nos aproxima do futuro onde a história de Ela (Her, EUA, 2013) se passa.

Destaque seja dado ao belíssimo desenho de produção do filme que projeta um mundo “instagramizado” como bem definiu uma amiga fazendo referência a uma realidade filtrada por cores e camadas programadas para realçar só o que nos interessa.

A linha que o filme traça entre realidade e ficção é realmente nebulosa. Para entender isso basta ler a sinopse. Theodore (Joaquin Phoenix), um homem comum, com alguns poucos amigos, está passando por um doloroso processo de divórcio com a ex-mulher que ele ainda ama.


O moço solitário acaba procurando conforto – e encontra!!! - em um sistema operacional do tipo faz-tudo. Desenvolvido com inteligência artificial e voz de Scarlett Johansson, esse misto de secretária, amiga e namorada é batizado como Samantha e, aos poucos, passa a ser a solução perfeita para todos os problemas de Theodore que não consegue interagir com o meio social.

Aliás, sociabilidade não é bem a palavra para definir o modo como as pessoas interagem no longa. Quando Theodore anda pelas ruas, o que vemos são pessoas que - assim como ele no filme e eu no supermercado -caminham com um fone de ouvido conversando com seus próprios aparelhos.

Cada pessoa parece presa em um mundo particular com seus sistemas operacionais onde tudo é perfeito... ou quase, como nos deixa entrever o roteiro tão bem articulado de Spike Jonze que dirige o filme com maestria e sabe colocar o dedo na ferida dessa geração que caminha para esse futuro individualista que já está bem ali, pertinho de nós.

Dentre as tantas qualidades da obra, também merece destaque a trilha sonora composta por William Butler e Owen Pallett do Arcade Fire. O tom melancólico dá a exata medida para acompanharmos essa história de amor tão peculiar.



Ao se apaixonar por Samantha, Theodore inicia o que ele acha ser um relacionamento ideal, pois ela está sempre à sua disposição e, atuando em função dele, sabe exatamente como agradá-lo. Esse estado de eterna permanência se contrapõe aquilo que levou o casamento de Theodore ruir: o fato dele e da ex-mulher (Rooney Mara) terem mudado. Não é assim na vida real? Quando o outro se torna diferente daquilo que a gente estabeleceu como perfeito, tudo parece desandar.

O filme questiona o tipo de relações que queremos e que necessitamos para evoluir. Afinal, amar quem só concorda com a gente ou que nos serve é fácil. As relações humanas, no entanto, existem justamente para aprendermos com o que é diferente, com o que nem sempre nos agrada e com o que se volta difícil.

Por outro lado, Se Theodore ri do sarcasmo de Samantha, se preocupa com ela e fica angustiado quando eles não estão bem, estes sentimentos não seriam reais? E se forem reais, a relação também não seria? Enfim, questões profundas, bastante pertinentes para o tempo que vivemos e, por isso, tão inquietantes.

Eu acredito que filmes realmente bons são esses que permanecem com a gente, mesmo depois do fim. E se Ela me fez pensar nas diferenças entre comprar palmito hoje e há 10 anos atrás, já vale uma indicação. Pode confiar!



Texto publicado no "A Gambiarra"

sábado, 25 de janeiro de 2014

Fun Home


Nada sabia de Fun Home, a não ser a indicação de um amigo que, vendo minha empolgação diante da leitura de outras Graphic Novels (só no mês de janeiro eu li cinco HQ's) resolveu me emprestar o livro sem que eu pedisse.

E foi arrebatador me ver diante da relação que Alison Bechdel estabelece com o próprio pai, um homem distante e preocupado em organizar o mundo conforme seu olhar apurado, mesmo que, para tanto, precisasse passar por cima dos desejos da família.

A descoberta da própria homossexualidade de Alison, vai desfiando incertezas e revelando conflitos que ela tenta sanar em meio a lembranças dos dias em que passou com o pai antes dele se matar - E não! Isso não é spolier, pois a morte do pai é o que desencadeia esse retorno e já está bem no início da narrativa.

O modo como a autora alinhava às atitudes e traços da personalidade do pai ao seu amor por literatura é surpreendente! O livro é recheado de citações literárias tendo a obra de Marcel Proust como carro chefe para associações carregadas de humor e beleza.

Com um traço sensível, detalhista e uma escrita densa, Bechdel consegue traçar paralelos da própria história com as paixões que, por tanto tempo, ela repudiava ao vê-las descritas nas ações paternas. E só o amadurecimento vai lhe mostrando quão próximos eles foram e do quanto ela carregava do pai.

É lindo acompanhar essas descobertas. As últimas páginas são de uma beleza ímpar que até agora, quase 15 dias depois que terminei de ler, ainda me emocionam.

Há um outro livro em que a autora investiga a relação com a mãe, mas confesso que ainda não tive coragem de começar a leitura.

"Fun Home" é uma daquelas histórias que todo mundo deveria ter contato e, junto com Asteiros Polyp, já figuram como as leituras mais incríveis do último mês.
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Livro: Fun Home [5/5]
Autora: Alison Bechdel
Conrad Editora

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Noites de Alface


Da Vanessa Barbara eu conhecia o ótimo "O Livro Amarelo do Terminal" que eu devorei num fôlego só. Com uma escrita afiada e dona de um humor elegante, a autora conseguiu traçar um painel polifônico do dia a dia da Rodoviária do Tietê. Para quem não conhece, fica a indicação.

Foi com muita sede ao pote que eu cheguei a este "Noites de Alface" e ao ler o primeiro parágrafo (costume meu) fiquei tão impressionado diante da beleza e profundidade daquelas linhas que cheguei a reproduzi-las em minha timeline aqui mesmo no facebook, há alguns dias atrás. Vejam só:

"Quando Ada morreu, as roupas ainda não tinham secado. O elástico das calças continuavam úmido, as meias grossas, as camisetas e as toalhas de rosto penduradas do avesso, nada estava pronto. Havia um lenço de molho dento do balde. Os potes recicláveis lavados na pia, a cama desfeita, os pacotes de biscoito aberto, em cima do sofá - Ada tinha ido embora sem regar as plantas. As coisas da casa prendiam a respiração e esperavam. Desde então, a casa sem Ada é de gavetas vazias."

Profundo, né? Porém, apesar de um começo tão intenso, a história contada por Vanessa não mexeu tanto comigo. Talvez minha expectativa exacerbada tenha impedido de me deixar levar pelas lembranças de Otto em torno do vazio deixado pela esposa Ada.

Cada capítulo do livro apresenta um dos vizinhos desse casal peculiar que, embora sejam personagens muito divertidos, acabam por desviar, o foco da relação do casal de protagonistas. Opostos por natureza, Ada é toda espontânea e Otto é um velho ranzinza, mas que viveram um casamento repleto de cumplicidades.

Há também um mistério que envolve esses vizinhos que fica aparente frente as relações que são estabelecidas entre eles. No entanto, a explicação desse segredo me pareceu muito surreal para um livro de começo tão calcado na realidade de uma perda.

Enfim, é uma boa leitura com rimas narrativas muito bem construídas e a escrita da Vanessa continua deliciosa e cheia de detalhes que deixam a leitura bem divertida. Pena que a história não tenha a mesma força.
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Noites de Alface [3/5]
Autora: Vanessa Barbara
Ed. Alfaguara

Imagem: Wolney Fernandes

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Contaminações


Atrasado, saí da loja com as fotos nas mãos e os fones no ouvido. O sinal abriu para pedestres e eu tinha aquela faixa inteira só pra mim. Antes de atravessar, vasculhei minha lista de músicas à procura de Modern Love do David Bowie. Apertei o play. Respirei por dois segundos e atravessei a avenida e o próximo quarteirão inteiro correndo feito Francis Ha.

Cheguei no carro com sorriso no rosto e uma sensação de que a vida pode ser uma aventura cinematográfica.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Aos 7 e aos 40


"Aos 7 e aos 40" passou na frente dos livros que eu já estava lendo porque sua leitura é cativante e melancólica. Dessas que me pegam pelos detalhes e pelas incontáveis identificações.

Em duas narrativas, uma quando criança e outra já adulto, vemos o protagonista dizer adeus àquilo que separa o homem do menino.

Não conhecia o autor, mas fiquei impressionado com o modo como ele usa as palavras e faz combinações que nos puxa para a profundidade daquilo que ele descreve e tudo com muita delicadeza.

"Eu vivia entre as pessoas, as árvores, as casas. Não tinha aprendido ainda a viver na sua raiz, só saltava sobre seus galhos, no espaço entre uma e outra. Ignorava o que era voltar, eu só ia às coisas -era o meu tempo de começos. Pra mim havia o dia (a escola, os amigos, as brincadeiras) e a noite; mas a noite não era o fim do dia, a noite (o medo, o cansaço, o sono) era apenas uma escura hora antes de um novo dia.

Então foi que entendi, e, mais do que entender, eu senti o que era partir, quando num sábado, fui com meu pai, cinco horas de viagem, visitar o tio Zezo."


Uma história para quem gosta de olhar para trás para saber como continuar seguindo em frente. Triste, mas de uma beleza ímpar e íntima.

Tudo isso é ressaltado em um projeto gráfico incrível que divide as páginas do livro em duas narrativas: a infância na sua parte superior e vida adulta na sua parte inferior, estabelecendo uma cadência bem apropriada para a leitura.

Terminei o livro com uma vontade de escrever melhor.

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Aos 7 e aos 40 [4/5]
Autor: João Anzanello Carrascoza
Editora: Cosac Naify

domingo, 12 de janeiro de 2014

Maus


Nada me preparou para a leitura de Maus, essa HQ incrível sobre sobreviventes do Holocausto. Digo isso porque sempre me perguntei: O que ainda não foi dito ou escrito sobre as atrocidades vivenciadas pelos judeus por ocasião da Segunda Guerra Mundial?

Muitas coisas! É a resposta que Art Spiegelman nos dá ao narrar a história do próprio pai, um sobrevivente que conseguiu, com inteligência e um pouco de sorte, sair vivo dos horrores de Auschwitz. Dizendo assim, parece uma narrativa óbvia demais, mas não é! E não é porque o autor não se concentra apenas na parte histórica do relato, mas mostra, inclusive, a relação problemática que ele trava com o próprio pai, agora já idoso e cheio de manias.

Ao utilizar o recurso da metalinguagem com inteligência - na HQ, acompanhamos todo o processo de elaboração da mesma - o autor compartilha suas dúvidas, seus medos e expectativas em tornar público as dores do pai. Um filho tentando entender suas origens e mergulhando vertiginosamente na própria história.

O traço de Spiegelman é pesado e possui a densidade que a história sugere. É curiosa a escolha do artista em desenhar os judeus como ratos, os alemães como gatos, poloneses como porcos e americanos como cachorros. No entanto, na metade do livro há uma citação sobre o Mickey Mouse que justifica essa escolha de modo brilhante:

"Mickey Mouse é o ideal mais lamentável de que se tem notícia [...] As emoções sadias mostram a todo rapaz independente, todo jovem honrado, que um ser imundo e pestilento, o maior portador de bactérias do reino animal, não pode ser o tipo ideal de animal [...] Abaixo a brutalização do povo propagada pelos judeus. Abaixo Mickey Mouse! Usem a Suástica!" (artigo de jornal, Alemanha, meados da década de 1930).

Soco no estômago. Do princípio ao fim!
Tenha coragem e leia porque vale a pena!
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Maus [5/5]
Autor: Art Spiegelman
[Quadrinhos na Cia.]

Imagem capturada aqui

Histórias Reais


Para cada objeto ou situação uma foto, para cada foto, uma história.

Neste livro, a artista francesa Sophie Calle usa objetos do cotidiano para desfiar histórias e memórias trançadas à sua experiência como artista. Um roupão, um bilhete ou um bordado vão descortinando narrativas singulares sobre o modo como a autora enxerga o mundo.

Com uma escrita extremamente mordaz e carregada de ironias, Sophie consegue nos revelar intimidades e mostrar peculiaridades no modo como ela marca suas experiências com algum tipo de rito.

Em uma das melhores histórias ela encontra um bilhete do marido e tem uma surpresa, ao imaginar ser uma mensagem endereçada a ela:

"Continuei a ler de baixo para cima: 'Um dia você me perguntou se eu acreditava no amor à primeira vista. Eu cheguei a responder?'. Só que esse bilhete não era para mim: no alto havia um H. Risquei o H. e coloquei um S. Essa carta de amor passou a ser a que eu nunca recebi".

Provocativa e surpreendente, a artista consegue nos enredar pelas poucas páginas da publicação com amostras de uma vida vivida com uma intensidade invejável.


_____________ Histórias Reais [5/5]
Autora: Sophie Calle
Ed. Agir


Foto: Wolney Fernandes

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Borges e seus itinerários afetivos


Me interessei por Jorge Luís Borges ao ler "No meu peito não cabem pássaros" do escritor português Nuno Camarneiro. Nele, há um menino que olha o mundo de um modo muito peculiar e que foi inspirado em Borges. A identificação com o personagem foi tanta, que terminada a leitura do livro fui atrás de algo escrito pelo famoso escritor argentino.

Minha predileção por preambulações e itinerários afetivos me fizeram começar a leitura de Borges pelo livro Atlas. Uma espécie de mapeamento que o autor faz dos lugares que visitou na década de 80. E por lugares entenda cidades, esquinas, desertos, sonhos e até um brioche. Qualquer dispositivo que lhe incitava à escrita é registrado no livro que ele divide com María Kodama, cujas fotos também tecem narrativas e impressões sobre os caminhos percorridos pelo casal.

Borges herdou uma doença que ia lhe tirando as vistas na medida do seu envelhecimento. Desse modo, ler suas histórias e divagações acerca dos lugares explorados por seus toques, cheiros, sabores e sons, tornam a leitura de Atlas um desvelamento de pessoas, assombros e alegrias de um modo singular.

"Aqui sentimos de maneira inequívoca a presença do tempo, tão rara nestas latitudes. Nas muralhas e nas casas está o passado, sabor que se agradece na América. Não se exigem datas nem nomes próprios; basta o que sentimos de imediato, como se fosse uma música."

A escrita de Atlas abriu brechas, me fez desenrolar novelos de cotidianidades e deixou pontas soltas para que eu, como leitor, as atasse. Gosto assim, quando me sinto partícipe da narrativa. Há, ainda, uma dimensão poética tão forte no jeito que ele escreve os textos que os lugares vistos pelos "olhos" de Borges acionam inquietações breves, mas latentes sobre como pequenos gestos podem alterar a noção que temos de uma determinada realidade.

"A uns trezentos ou quatrocentos metros da Pirâmide me inclinei, peguei um punhado de areia, deixei-o cair silenciosamente um pouco mais adiante e disse em voz baixa: Estou modificando o Saara."

Se alguém ainda não conhece, recomendo a edição de capa dura feita pela Cia das Letras que é graficamente deslumbrante na mesma medida das palavras e imagens que a narrativa apresenta. Atlas foi pra mim uma porta de entrada para uma literatura que eu quero explorar para descobrir cada vez mais sobre mim mesmo.

"Não há um único homem que não seja um descobridor. Ele começa descobrindo o amargo, o salgado, o côncavo, o liso, o áspero, as sete cores do arco-íris e as vinte e tantas letras do alfabeto; passa pelos rostos, mapas, animais e astros; conclui pela dúvida ou pela fé e pela certeza quase total da própria ignorância."

Foto: Wolney Fernandes

Opções de ano novo


Esqueçam as passas e o champagne, os desejos e as cuecas brancas. Para mim o ano muda no exato dia em que, ao voltar para casa, percebo que nada de importante está diferente. Exceto minha alegria. Tão bom deixar as frustrações do dia no banco da praça e continuar o caminho. É assim que eu sei que o tempo passou e que eu, tal como as águas de um rio, estou cada vez mais igual, cada vez mais diferente.

Moderar as exigências não é, necessariamente, contentar-se com pouco. É aprender a enxergar as próprias limitações e, com isso, identificar o que me aprisiona no vale das lamentações e medir o trabalho necessário para que as coisas cheguem no devido lugar.

Tendo, neste janeiro de atropelos e pequenas alegrias, sempre optar pela felicidade.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O taxista


Coloquei o cinto de segurança e ao indicar o destino ao taxista, percebi que o conhecia. Mas de onde? Traição tamanha essa da memória que reconhece, mas não localiza. Passei o restante do trajeto assim, num jogo de 'pega-pega' com aquele rosto que, embora mais velho, me pareceu familiar.

Já perto do meu prédio, arrisquei: "Tenho a impressão que conheço o senhor de algum lugar", mas a resposta me veio bem evasiva como eu já suspeitava: "Como motorista de táxi eu já transportei muita gente. Deve ser isso." Seguimos calados o restante do trajeto.

Depois de pegar minha bagagem no porta-malas do carro, ele me disse o valor da corrida e, ao retirar a carteira do bolso para pagá-lo, a memória funcionou como deveria. O ano era 1999. Segunda-feira, segundo dia da segunda fase das provas do vestibular da UFG. Eu estava desacreditado do meu desempenho nas avaliações do dia anterior e tinha um plano secreto: não fazer as provas do segundo dia porque, do alto da minha descrença e falta de confiança, eu já tinha proclamado a minha reprovação. O plano era seguir para outro local, passar o tempo com alguma atividade mais prazerosa do que me afundar em provas e voltar pra casa no final do dia como se tudo tivesse acontecido conforme manda o protocolo.

No caminho até o ponto de ônibus, sem saber direito ainda pra onde ir, resolvi fazer a tarde ficar mais divertida. Me lembro de ter cerca de trinta reais na carteira. Calculei que gastaria metade daquela fortuna pegando um táxi e pedindo que o motorista me deixasse em qualquer lugar da cidade até que o taxímetro marcasse quinze reais. Peguei um táxi do ponto perto da minha casa no Setor Universitário e fiz o pedido ao motorista.

Ele ficou meio desconfiado, sem saber para onde seguir, mas pôs o carro em movimento enquanto questionava a razão do meu pedido. Para diminuir um pouco da desconfiança que eu já via refletida no modo como ele fez a pergunta, decidi contar a história toda. Ele ouviu tudo sem dizer nada e depois de um breve silêncio só perguntou onde seriam as provas. Eu respondi já satisfeito por conseguir contar com a cumplicidade dele na realização da primeira parte do meu plano.

Meu mundo caiu quando vi que o taxímetro ultrapassou o valor que eu tinha previsto e ao pedir que ele parasse o carro, ele não obedeceu. Um medo percorreu minha espinha inteira e na minha vez de desconfiar do plano secreto do motorista insisti que precisava descer. Recém chegado a Goiânia, eu não conhecia direito a cidade e, para minha surpresa, ele parou bem em frente ao local das provas e ordenou: "Desça e faça a prova!"

Havia tanta convicção naquela sentença que eu paguei os quinze reais sem dizer nada [a corrida tinha dado um pouco mais] e saí do táxi ainda surpreso com a atitude daquele senhor desconhecido. Dei de ombros e entrei pelos portões. Fiz as provas.

A notícia da minha aprovação, meses depois, veio acompanhada da vontade de agradecê-lo e até tentei fazê-lo, num dia que passei perto do ponto de táxi onde ele ficava. Não tive sucesso porque nunca o encontrei novamente. Tinha se mudado para Anápolis, conforme me esclareceu um colega de profissão.

15 anos depois, em uma corrida do aeroporto para casa, reencontro o motorista e para confirmar minhas suspeitas, ao entregar o dinheiro da corrida perguntei: "O senhor já trabalhou em um ponto de táxi na rua 242 no Setor Universitário?". O telefone dele tocou e já fazendo a manobra para ganhar a avenida ele me disse que sim e, preocupado em responder a chamada e acelerar antes do sinal fechar, foi embora sem ouvir o obrigado que eu pronunciei por duas vezes parado na calçada.

A foto eu achei aqui.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O Sentido de um Fim


"Sempre achei que o paraíso seria uma espécie de biblioteca" 
[Jorge Luís Borges]

Ano passado eu li bem pouco. Neste ano, desejo mudar essa estatística para que os livros que sempre me acompanharam saiam dos acúmulos da estante para repousarem em arrepios que me tirem do lugar. Comecei com um livro do Julian Barnes.

O Sentido de um Fim conta a história de Tony Webster, um homem cujas lembranças se desfiam entre lacunas e reflexões acerca de como a memória pode ser irônica, imperfeita e permeada por subjetividades na [re]construção de um passado, mesmo que seja o seu próprio.

"Quantas vezes nós contamos a história da nossa vida? Quantas vezes nós a ajustamos, embelezamos, editamos espertamente? E quanto mais longa a vida, menos são os que ainda estão por perto para nos contradizer, para nos lembrar que nossa vida não é a nossa vida, mas a história que nós contamos a respeito da nossa vida. Contamos para outros, mas - principalmente - para nós mesmos."

Tony tem sessenta anos e relembra fatos marcantes da amizade com Adrian, um garoto inteligente na época do colégio e de uma namorada que volta a atravessar seu caminho depois de 40 anos. Só descobrimos o porquê dessas lembranças lá no meio da história quando Tony recebe uma carta que o conduz a uma reflexão vertiginosa acerca dos fatos narrados na primeira metade do livro.

Creio que não saber o porquê da seleção daquelas lembranças, me deixou, à priori, um pouco decepcionado com o começo da narrativa quando eu me perguntava porque ele não se aprofundava em nenhuma das memórias e pulava partes que eu, gostaria de saber. No entanto, quando a sombra daquela amizade volta a encobri-lo, o livro ganha uma profundidade que eu achava impossível caber nas 160 páginas que compõem esta edição da Editora Rocco.

As dúvidas e os arrependimentos são postos à prova a cada nova revelação. E cada uma delas nos conduz a reflexões sobre nossas próprias decisões e consequentes arrependimentos. Não foram poucas as pausas que eu precisei fazer diante de determinados trechos onde transferi os questionamentos do protagonista para mim mesmo:

"Quanto menos tempo de vida lhe resta, menos você quer desperdiça-lo. [...] Como empregar as horas economizadas?"

Com um humor afiado, o autor britânico Julian Barnes vai recheando a narrativa dessas memórias com ironias do tipo: "O casamento é uma refeição comprida e sem graça onde servem o pudim primeiro". O enfoque na história do protagonista, faz com que as outras personagens não passem de meras lembranças. Eu gostei bastante do livro, embora ao terminá-lo a vontade de me aprofundar mais em cada um daqueles personagens complexos e pouco explorados tenha ficado para além do fim.

Foto: Wolney Fernandes