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domingo, 17 de outubro de 2010

Não me abandone jamais

Até ontem tinha lido apenas 112 das 343 páginas do livro "Não me abandone Jamais" de Kazuo Ishiguro. Das pequenas sessões de leitura feitas antes de adormecer passei a um domingo mergulhado nas memórias e melancolias vividas por Kathy H. e sua longa amizade com Ruth e Tommy em Hailsham, o internato onde passaram toda a infância.

Pela voz contida de Kathy, descubro que os dilaceramentos da vida também se ocultam nas coisas simples, nas rotinas diárias e atitudes corriqueiras. Como aparência e essência, a realidade mostrada pelo livro conseguiu me falar sobre minha própria existência.

Vidas que não merecem ser vividas, destinos traçados e olhares para dentro da alma são os contornos para esta ficção cientifica(?!) que, potencialmente, se apresenta como uma história de rupturas e entrega. Mexido, terminei as 231 páginas restantes (em um único dia), com aquela sensação de que havia explorado, como nunca, o limite entre sensibilidade e crueldade.

"De olhos semicerrados, pensei no lixo, no plástico balançando nos galhos, na franja de objetos vários ao pé da cerca, e imaginei que esse era o lugar onde tudo o que eu havia perdido desde os tempos de infância tinha ido parar, e que se eu, ali imóvel, esperasse o suficiente, uma minúscula figura apareceria no horizonte, lá bem ao longe, e iria aumentando aos poucos [...]"

Aviso aos leitores possíveis: antes de se aventurarem pela leitura da obra, não leiam nenhuma sinopse mais longa da trama para não estragar as surpresas e revelações trazidas por Ishiguro. Sua regência, pela escrita, é capaz de orquestrar a precisão e a fluidez necessárias para uma experiência, no mínimo, instigante.

A adaptação cinematográfica do livro ainda não tem data para estrear no Brasil, mas já está em cartaz nos EUA. Veja trailer aqui.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Reflexo

Sou só eu. Sou eu só.

Foto: Wolney Fernandes

Deus e o Diabo na Tela

PARAÍSO

Jeffrey Hunter em "Rei dos Reis" de 1961.

Antônio Fagundes em "Deus é Brasileiro" de 2003.

Willem Dafoe em "A última tentação de Cristo" de 1988.

Leon Robinson no clipe "Like a Prayer" de 1989.

Ted Neeley em "Jesus Cristo Superstar" de 1973.

Maurício Gonçalves em "O Auto da Compadecida" de 2000.

Lothaire Bluteau em "Jesus de Montreal" de 1989.

Jim Caviezel em "A Paixão de Cristo" de 2004.

Alanis Morissette em "Dogma" de 1999.


INFERNO

Rosalinda Celentano em "A Paixão de Cristo" de 2004.

Jack Nicholson em "As Bruxas de Eastwick" de 1987.

Al Pacino em "O Advogado do Diabo" de 1997.

Jason Lee em "Dogma" de 1999.

Harvey Keitel em "Little Nicky - Um Diabo Diferente" de 2000.

Laird Cregar em "O Diabo disse Não" de 1947.

Elizabeth Hurley em "Endiabrado" de 2000.

João Sabiá em "Hoje é dia de Maria" de 2005.

Robert De Niro em "Coração Satânico" de 1987.

Meryl Streep em "O Diabo veste Prada" de 2003.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Testemunha ocular

Meus olhos cansados de evitar.

Foto: Wolney Fernandes

Autoajuda nº 2

Tava aqui pensando em como não "ser" professor. É, talvez "estar" professor seja uma boa conjugação para posturas diferenciadas diante das verticalidades tradicionalmente vinculadas a esse ofício. "Ser" professor é condição que ainda carrega supremacias porque elas são cultivadas, dia a dia, pelos vícios e endurecimentos que atribuímos ao verbo "ser" desta profissão. Foi pensando nisso que, a seguir, apresento minha autoajuda nº 2 [versão 2010 para professores] .

Ser professor é erguer trincheiras e traçar estratégias para se defender do aluno (leia-se "inimigo") que a qualquer hora pode atacar.
Estar professor é brincar em quintais repletos de novidades, ora sendo o dono da bola, ora se divertindo com o brinquedo alheio.

Ser professor é dar voz a quem não tem.
Estar professor é dialogar pela escuta e [re]conhecimento de outras vozes que não a própria.

Ser professor é construir saberes para a vida.
Estar professor é questionar certezas, instaurar conflitos e [re]elaborar saberes e fazeres.

Ser professor é dar prova 'ferrada' e mostrar pulso firme, mesmo que para isso seja necessário reprovar metade da turma.
Estar professor é repartir responsabilidades e não ficar imune à indiferenças que, ocasionalmente, se espalham pela sala de aula.

Ser professor é reconhecer o próprio lugar e mostrar o devido lugar de cada um.
Estar professor é estranhar o lugar que se ocupa a ponto de dançar em campos movediços para, assim, ensinar de vez em quando e aprender sempre.

Estar professor é ainda, resistir a endurecimentos esperados e, por isso mesmo, vez por outra, ser considerado fraco, relapso e incapaz... e aguentar firme! Porque caminhar por outros trieiros, não significa abrir mão de horizontes a serem alcançados com o rigor e o suor necessários a qualquer jornada.

Sei que é ingenuidade da minha parte, imaginar que toda a complexidade deste ofício pode ser expremida em breves parágrafos de uma simples postagem com 'cara' de autoajuda. Mas é pelo exercício de imaginar que eu também consigo elaborar significados variados e possíveis. Pela novidade dos sentidos, abrem-se ranhuras, fissuras e rachaduras que desenham lugares entre o "ser" e o "estar" onde é possível habitar.

Este texto nasceu dos estranhamentos entre ser e estar professor. Em cumplicidades trocadas entre mim e a Rosi - companheira de ofício, 'risaiadas' e desabafos em tardes quentes de outubro.
Imagem: Wolney Fernandes

Dúvidas por aí

Peixe nadando na grama em frente a Casa da Juventude. Será o Calor?


Pelas ladeiras do Pelourinho. Versão baiana de Emaús?


Na caixa de fusíveis da Faculdade de Artes Visuais da UFG. Medo ou traquinagem?
Fotos: Wolney Fernandes

Estudos em preto e branco

Foto: Wolney Fernandes

terça-feira, 12 de outubro de 2010

"Fora da beleza não há salvação"

Vago em busca de salvação. Sei que ela se esconde, sorrateira, à sombra do belo, como bem disse Rubem Alves ao profanar o dogma da Igreja: "Fora da beleza não há salvação". Assim, quase sempre costuro meus dias com instantes de felicidade; destes bem fuleiros, pueris, de bolso... que começam em trilhas sonoras antigas, passam por imagens que inundam olhares, seguem pelas cores do pôr-do-sol e terminam nos dilemas de Jesse e Céline.

Vago ao encalço da salvação carregando no peito minha indiferença a sentimentos que eu mesmo cultivei um dia e, nestes descaminhos, sigo tocando a vida em dias errantes. No fundo, desconfio da inutilidade da minha busca. Pecador e profanador que sou, não conseguirei a salvação almejada.

Talvez eu me canse da busca, mas por hora, vale pelas fagulhas de beleza e pelo desassossego que me sacode em ímpetos de silêncio e fúria.

Foto: Wolney Fernandes

Infância em cores, sabores e outras preguiças












segunda-feira, 11 de outubro de 2010

"All That Jazz"*

01. Your heart is as black as night - Melody Gardot
02. Mack the Knife - Bobby Darin
03. Sentimental Journey - Doris Day
04. Time after time - Chet Baker
05. Unforgetable - Nat King Cole
06. Thinking about you - Norah Jones
07. But for now - Jamie Cullum
08. I put a spell on you - Nina Simone
09. Cry me a river - Diana Krall
10. I'm a fool to want you - Billie Holiday

(*) Título da música de John Harold para o musical Chicago
Imagem capturada em http://progshine.com/?p=4340

sábado, 9 de outubro de 2010

Pássaros engaiolados

Quando as mesmas chaves já não libertam pássaros engaiolados dentro do peito.

Foto: Wolney Fernandes

Fale com Ela


O Filme:
Fale com Ela (Hable con Ella, ESP, 2002)

Sinopse:
Benigno e Marco são dois desconhecidos que acabam virando amigos enquanto esperam as mulheres por quem são apaixonados saírem do estado de coma do hospital.

O que ficou em mim:
A maneira sutil como questões morais são apresentadas dentro da narrativa.

Detalhes preciosos:
1. Abertura e encerramento do filme com trechos de espetáculos de Pina Bausch.
2. O modo como uma das pacientes é vestida pelos enfermeiros.
3. A música "Por toda a minha vida" embalando uma tourada.

4. Os delírios do filme-mudo inserido na trama.
5. A imagem das duas pacientes em coma maquiadas e sentadas uma ao lado da outra.

Frase:
“Continuo acendendo velas, mas ter fé dá muito trabalho.”

Música:
Cucurrucucu Paloma - Caetano Veloso

Cena que adoro:
São tantas que não consegui escolher. Clique aqui para ver um conjunto delas.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Invento*


"Vento
Quem vem das esquinas
E ruas vazias
De um céu interior

Alma
De flores quebradas
Cortinas rasgadas
Papéis sem valor

Oh, vento que vem
Pode passar
Inventa fora de mim
Outro lugar"

(*) Trechos da música de Vitor Ramil
Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

"Suave Cair da Tarde"

Hoje, ao chegar no trabalho, discos antigos cobriam a mesa. Em um deles, uma dedicatória de 1988 dizia assim:

"À Juciene (meu grande amor)
Nestes dias que passei aqui sem você pude perceber, ou melhor, confirmar aquilo que sempre senti: À partir desse momento não vivo sem você.
Te amo muito.

Do seu, Juarez"

Onde estarão Juciene e Juarez? Casados? Separados? Viúvos? Ainda apaixonados? [...]

Abaixo, a seleção de músicas do disco-presente "Suave Cair da Tarde":

LADO A
1. Eu sei que vou te amar
2. Eu e a brisa
3. As time goes by
4. Modinha
5. Yesterday
6. Moonlight Serenade

LADO B
1. Poinciana
2. Apelo
3. Copacabana
4. New York, New York
5. Nossos momentos
6. Passion flower hotel

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Desconhecimentos

Sintomas e desconhecimentos que habitam em mim sem que eu saiba bem:

- A bandeja do DVD travou pela segunda vez prendendo o disco dentro do aparelho. Minutos depois, quando dei por mim, tinha nas mãos os pedaços do player destroçado e um disco inutilizado por meu acesso de fúria.

- O braço começou a formigar e então mudei a posição. Lancei um olhar até o relógio do celular: 3h12 da madrugada de segunda-feira e nada do sono chegar. Caminhei até o chão do banheiro e sentei no escuro tentando ouvir os sons da cidade que entravam pela janela.

- Feito crise de adolescência, quando a terceira camisa que eu experimentei parecia estar um número menor do que eu havia comprado há alguns dias antes, minha vontade era não ir à festa. Rangendo os dentes, fui até a geladeira à procura de algo que servisse para comer e me acalmar.

- A mulher falava do trabalho que queria me encomendar e meus olhos passeavam pelo pescoço dela naquela vontade de estrangulá-la para que ela parasse de tagarelar e me deixasse ir embora dali.

Imagem: Jackson Pollock, "Number One", 1948.

Azuis

Quando utopias se vestem de azul.