quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Carta de Amor

Passou a mão pela saia tentando fazer desaparecer o amarrotado aparente e saiu porta afora. Os cabelos escuros, presos num rabo de cavalo não brilhavam à luz do sol forte daquela tarde de abril que seguiu seus passos ligeiros. Estava atrasada. A pressa fez com que esquecesse seus pés doídos de cansaço e nem notar aquele olhar blasé que a acompanhava pela calçada.

De supetão, lembrou-se do guarda-chuva que usava para guardar o sol em tardes ensolaradas como aquela. Parou indecisa olhando o ponto de ônibus à frente e resolveu voltar. Os pés doídos agora já reclamavam por descanso, mas ela ignorou a dor e retornou até a porta do prédio simples e antigo onde alugava um quarto/sala. Os olhos cor de tamarindo tinham as pupilas dilatadas pelo sol e mal enxergaram o moço de camiseta marron que descia correndo a escada que ela tentava subir.

Abriu a pequena bolsa de tecido de chita à procura da chave e, enquanto chegava à porta, sentiu uma pontada forte no pé esquerdo. Resolveu ficar de cócoras ali mesmo, no corredor e derramar sobre o capacho todo o conteúdo da bolsa para encontrar a chave. Vou perder o “bendito” ônibus – pensou. Com um resmungo impaciente resolveu tirar o sapato para aliviar um pouco dor que invadia seus pés.

Foi ali, no instante daquele gesto, que seus olhos enxergaram a ponta do envelope deixado embaixo do capacho. Parou no meio do movimento e puxou o papel até descobrir que era uma carta endereçada a ela. Virou o envelope duas vezes como se procurasse uma confirmação.
Nem se lembra como foi que encontrou a chave, só sentia o peito pulsar de um jeito frenético. Uma pequena vertigem tomou conta do corpo quando ela levantou-se procurando o buraco da fechadura sem olhar pra ele. Deu uma ultima olhada pelo corredor vazio, mas os olhos de tamarindo agora só enxergavam o próprio nome escrito com caneta vermelha em letra irregular no papel já meio amassado: Jesuênia.

Nunca em toda a vida tinha recebido carta alguma, a não ser as contas que não paravam de encher sua caixa de correio todo mês. Entrou pela pequena sala, já esquecida das dores dos pés e do guarda-chuva que voltara para buscar. Fechou a porta com as costas. Suspirou.

Ao abrir a janela emoldurada por vidros embaçados e nem viu seu ônibus passar pela rua dobrando a esquina. Projetou quase metade do corpo para fora da janela, rasgou o envelope e começou a leitura.

Assim que terminou de ler, Jesuênia descobriu-se em meio a uma excitação latente. Nunca recebera uma carta de amor antes, tão simples, tão verdadeira. Aquelas palavras, escritas à mão com caneta de tinta vermelha, fizeram-na marejar os olhos e suspirar. Soltou o elástico que lhe prendia os cabelos em rabo-de-cavalo, deixando que os fios crespos ganhassem vida própria. Sentiu-se, naquele momento, a moça mais linda da rua. Estava tão esfuziante que lançou longe os sapatos e dançou com o canto dos passarinhos que povoavam sua cabeça. Sozinha.

Leu, então, mais uma vez, aquela carta. Seu coração batia em ritmos alternados, quase que em escala exponencial. Com olhos ágeis deslizando por sobre as linhas, ela podia sentir a pressão usada para grafar cada palavra. Seus dedos acariciavam o papel, que exalava um cheiro adocicado. Parecia ter sido especialmente perfumado para ela.

Num dado momento, depois de tanto admirar aquela página, deu-se conta de um pequeno detalhe. Algo que, no ápice do entusiasmo, passara despercebido. Não havia remetente, nem assinatura. Estava apaixonada por um alguém que sequer sabia o nome. Amava, sim, a simples idéia de ter um admirador. E isso, por enquanto, era o suficiente.

03 de janeiro de 2008
Imagem capturada em http://4.bp.blogspot.com/_DfZYvGONIQ0/R3z0r_B-ckI/AAAAAAAAALs/6cl9-ED9NzA/s1600-h/cartas.jpg

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