sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Badia do Tunico

O motivo da loucura ninguém sabe, ninguém explica. Uns contam que foi por causa das atrocidades do pai... Outros acusam as maldades do marido que a abandonou depois de submetê-la a dias de cativeiro sem água e sem comida.

Depois que perdeu a razão, Badia anda pelas ruas de Lagolândia desafiando padrões e subvertendo a moral dos/as moradores/as do vilarejo. "Cuidado com ela!" - repetem amiúde.

Em dias de veneta, dependendo de como é olhada, retribui o pecado atirando a primeira pedra que a mão alcançar. O xingamento que lhe sai da "boca suja" se completa com o gesto de mostrar a própria bunda sem os pudores exigidos pela "pura e casta" população lagolandense.

Na festa do Divino, de tamborete na mão, ela sai à procura de lugares pra sentar, desde a escadaria da igreja à porta do ranchão, pois não fica satisfeita com nenhum deles por mais do que 5 minutos.

Badia do Tunico é sempre apontada como "a louca" que perdeu o juízo. Vez por outra é lembrada pela lucidez que o trabalho manual, entre bordados e crochês, sugere. Prendada, ela mesma fabrica as próprias roupas com alinhavos, babados e coloridos que só ela sabe compor.

Ao destoar do restante da cidade, sua imagem revela medos, [des]afetos e mistura [in]tolerâncias éticas e estéticas. Todas elas, fruto de ruminações filosóficas que nos ajudam a proclamar nossas semelhanças pela diferença.

Foto: Agno Santos

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Luminosamente

Dia desses, enquanto procurava vestígios de cerrado pela universidade.

Foto: Wolney Fernandes

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Ismália*

Quando o poema de Alphonsus de Guimaraens encontra repouso nas páginas ilustradas por Odilon Moraes, a pele da gente se arrepia com tanta boniteza reunida.

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

(*) Poema de Alphonsus de Guimaraens e Ilustração de Odilon Moraes

domingo, 24 de outubro de 2010

Numerações

01. 4 & 20 ..................Joss Stone
02. 11:11 ....................Rufus Wainwright
03. 9,000 days .........Overtone e Yollandi Nortjie
04. 21 guns ................Green Day e Elenco da Broadway
05. 22 .........................Lily Allen
06. 30.000 pés .........Pato Fu
07. 4 minutes ............Madonna e Justin Timberlake
08. 24 .........................Jem
09. 24-25 ...................Kings of Convenience
10. 25th december ...Everything but the Girl
11. 1973 ......................James Blunt
12. 3ª do plural .........Engenheiros do Hawaii

Imagem capturada em http://www.tapedeck.org/icm/

sábado, 23 de outubro de 2010

Cansaço

Não teve muito tempo para pensar na partida até então. Caminhão carregado com a pouca mobília que a mãe custara a pagar. Era tarde de poeira e silêncio como tantas outras no vilarejo que o viu crescer. À sua frente só o horizonte da capital desconhecida para vasculhar e, atrás, a casa onde crescera, o rio dos peixes mágicos e a segurança que a sombra do pé de flamboyant projetava.

O medo já lhe fazia doer as vistas, mais do que o sol lá adiante. Cada farpa de arame que seus olhos encontrava pelas cercas da estrada, arranhava uma lembrança de antes. Não deveria ser tão difícil deixar a própria terra em busca do que sempre desejou - pensou enquanto construía desenhos com a poeira que o caminhão deixava para trás - mas os pensamentos ficaram frouxos diante da realidade apertada.

Chamar de "casa" um lugar desconhecido parecia encurralá-lo diante das impossibilidades daquela partida. Era chegada a hora de crescer, mas ele só queria segurar as mãos daquela criança que lhe acenava de longe.

Vez em quando, ao recordar aquele dia, mesmo convivendo melhor com os medos de antes, sua vontade é repousar seu corpo junto àquele menino e descansar.

Imagem capturada em http://www.zaroio.com.br/br/imagem/20912/passaro_patas_arame_farpado/

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Exercício para designer*

Cada foto sugere uma sensação, um estado, uma emoção. O desafio é elaborar composições com cores e formas para ampliar estas situações.







(*) Elaborados em 2002, quando meu lugar era do lado de lá da sala de aula.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Quereres

Quero leveza, beleza das dores de Frida Kahlo e carinho de malha de algodão.
Quero assistir "Antes do Amanhecer" até poder recitar cada cena do filme com a mesma paixão de outrora.
Quero ouvir Nina Simone, sandália de tiras finas para passear e sossegos em noites de domingo.
Quero desenhos e bordados atravessando meu corpo e bom estômago para comer pamonha a qualquer hora.
Quero pássaros enfeitando fios, brisa em noite quente e cinema no início da tarde.
Quero sono nas manhãs de verão e máquina fotográfica para perpetuar tudo o que beija meus olhos.

Foto: Wolney Fernandes

domingo, 17 de outubro de 2010

Não me abandone jamais

Até ontem tinha lido apenas 112 das 343 páginas do livro "Não me abandone Jamais" de Kazuo Ishiguro. Das pequenas sessões de leitura feitas antes de adormecer passei a um domingo mergulhado nas memórias e melancolias vividas por Kathy H. e sua longa amizade com Ruth e Tommy em Hailsham, o internato onde passaram toda a infância.

Pela voz contida de Kathy, descubro que os dilaceramentos da vida também se ocultam nas coisas simples, nas rotinas diárias e atitudes corriqueiras. Como aparência e essência, a realidade mostrada pelo livro conseguiu me falar sobre minha própria existência.

Vidas que não merecem ser vividas, destinos traçados e olhares para dentro da alma são os contornos para esta ficção cientifica(?!) que, potencialmente, se apresenta como uma história de rupturas e entrega. Mexido, terminei as 231 páginas restantes (em um único dia), com aquela sensação de que havia explorado, como nunca, o limite entre sensibilidade e crueldade.

"De olhos semicerrados, pensei no lixo, no plástico balançando nos galhos, na franja de objetos vários ao pé da cerca, e imaginei que esse era o lugar onde tudo o que eu havia perdido desde os tempos de infância tinha ido parar, e que se eu, ali imóvel, esperasse o suficiente, uma minúscula figura apareceria no horizonte, lá bem ao longe, e iria aumentando aos poucos [...]"

Aviso aos leitores possíveis: antes de se aventurarem pela leitura da obra, não leiam nenhuma sinopse mais longa da trama para não estragar as surpresas e revelações trazidas por Ishiguro. Sua regência, pela escrita, é capaz de orquestrar a precisão e a fluidez necessárias para uma experiência, no mínimo, instigante.

A adaptação cinematográfica do livro ainda não tem data para estrear no Brasil, mas já está em cartaz nos EUA. Veja trailer aqui.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Reflexo

Sou só eu. Sou eu só.

Foto: Wolney Fernandes

Deus e o Diabo na Tela

PARAÍSO

Jeffrey Hunter em "Rei dos Reis" de 1961.

Antônio Fagundes em "Deus é Brasileiro" de 2003.

Willem Dafoe em "A última tentação de Cristo" de 1988.

Leon Robinson no clipe "Like a Prayer" de 1989.

Ted Neeley em "Jesus Cristo Superstar" de 1973.

Maurício Gonçalves em "O Auto da Compadecida" de 2000.

Lothaire Bluteau em "Jesus de Montreal" de 1989.

Jim Caviezel em "A Paixão de Cristo" de 2004.

Alanis Morissette em "Dogma" de 1999.


INFERNO

Rosalinda Celentano em "A Paixão de Cristo" de 2004.

Jack Nicholson em "As Bruxas de Eastwick" de 1987.

Al Pacino em "O Advogado do Diabo" de 1997.

Jason Lee em "Dogma" de 1999.

Harvey Keitel em "Little Nicky - Um Diabo Diferente" de 2000.

Laird Cregar em "O Diabo disse Não" de 1947.

Elizabeth Hurley em "Endiabrado" de 2000.

João Sabiá em "Hoje é dia de Maria" de 2005.

Robert De Niro em "Coração Satânico" de 1987.

Meryl Streep em "O Diabo veste Prada" de 2003.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Testemunha ocular

Meus olhos cansados de evitar.

Foto: Wolney Fernandes

Autoajuda nº 2

Tava aqui pensando em como não "ser" professor. É, talvez "estar" professor seja uma boa conjugação para posturas diferenciadas diante das verticalidades tradicionalmente vinculadas a esse ofício. "Ser" professor é condição que ainda carrega supremacias porque elas são cultivadas, dia a dia, pelos vícios e endurecimentos que atribuímos ao verbo "ser" desta profissão. Foi pensando nisso que, a seguir, apresento minha autoajuda nº 2 [versão 2010 para professores] .

Ser professor é erguer trincheiras e traçar estratégias para se defender do aluno (leia-se "inimigo") que a qualquer hora pode atacar.
Estar professor é brincar em quintais repletos de novidades, ora sendo o dono da bola, ora se divertindo com o brinquedo alheio.

Ser professor é dar voz a quem não tem.
Estar professor é dialogar pela escuta e [re]conhecimento de outras vozes que não a própria.

Ser professor é construir saberes para a vida.
Estar professor é questionar certezas, instaurar conflitos e [re]elaborar saberes e fazeres.

Ser professor é dar prova 'ferrada' e mostrar pulso firme, mesmo que para isso seja necessário reprovar metade da turma.
Estar professor é repartir responsabilidades e não ficar imune à indiferenças que, ocasionalmente, se espalham pela sala de aula.

Ser professor é reconhecer o próprio lugar e mostrar o devido lugar de cada um.
Estar professor é estranhar o lugar que se ocupa a ponto de dançar em campos movediços para, assim, ensinar de vez em quando e aprender sempre.

Estar professor é ainda, resistir a endurecimentos esperados e, por isso mesmo, vez por outra, ser considerado fraco, relapso e incapaz... e aguentar firme! Porque caminhar por outros trieiros, não significa abrir mão de horizontes a serem alcançados com o rigor e o suor necessários a qualquer jornada.

Sei que é ingenuidade da minha parte, imaginar que toda a complexidade deste ofício pode ser expremida em breves parágrafos de uma simples postagem com 'cara' de autoajuda. Mas é pelo exercício de imaginar que eu também consigo elaborar significados variados e possíveis. Pela novidade dos sentidos, abrem-se ranhuras, fissuras e rachaduras que desenham lugares entre o "ser" e o "estar" onde é possível habitar.

Este texto nasceu dos estranhamentos entre ser e estar professor. Em cumplicidades trocadas entre mim e a Rosi - companheira de ofício, 'risaiadas' e desabafos em tardes quentes de outubro.
Imagem: Wolney Fernandes

Dúvidas por aí

Peixe nadando na grama em frente a Casa da Juventude. Será o Calor?


Pelas ladeiras do Pelourinho. Versão baiana de Emaús?


Na caixa de fusíveis da Faculdade de Artes Visuais da UFG. Medo ou traquinagem?
Fotos: Wolney Fernandes

Estudos em preto e branco

Foto: Wolney Fernandes

terça-feira, 12 de outubro de 2010

"Fora da beleza não há salvação"

Vago em busca de salvação. Sei que ela se esconde, sorrateira, à sombra do belo, como bem disse Rubem Alves ao profanar o dogma da Igreja: "Fora da beleza não há salvação". Assim, quase sempre costuro meus dias com instantes de felicidade; destes bem fuleiros, pueris, de bolso... que começam em trilhas sonoras antigas, passam por imagens que inundam olhares, seguem pelas cores do pôr-do-sol e terminam nos dilemas de Jesse e Céline.

Vago ao encalço da salvação carregando no peito minha indiferença a sentimentos que eu mesmo cultivei um dia e, nestes descaminhos, sigo tocando a vida em dias errantes. No fundo, desconfio da inutilidade da minha busca. Pecador e profanador que sou, não conseguirei a salvação almejada.

Talvez eu me canse da busca, mas por hora, vale pelas fagulhas de beleza e pelo desassossego que me sacode em ímpetos de silêncio e fúria.

Foto: Wolney Fernandes

Infância em cores, sabores e outras preguiças