domingo, 31 de janeiro de 2010

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

O que me atravessa

"'Quem é você?', perguntou a Lagarta.
Não era uma maneira encorajadora de iniciar uma conversa. Alice retrucou, bastante timidamente: "Eu - eu não sei muito bem, Senhora, no presente momento - pelo menos eu sei quem eu era quando levantei esta manhã, mas acho que tenho mudado muitas vezes desde então."

(Lewis Carroll: Alice no País das Maravilhas)

Sou cartógrafo de afetos, camisetas pintadas à mão, rosto sisudo, gagueiras sem fim, delicadezas pueris, cabelo de corte ultrapassado, olhos de tamarindo, livros de criança, cozinheiro de araque, silêncio dentro da vontade de gritar.

Sou aridez em terra fértil e vento em dias de calor. Menino de lugar nenhum, homem de muitas descobertas, multiplicidades desconhecidas, cuecas de "perninha", pés calçados, inconstância, choro em cinema, havaianas desenhadas, contradição, medo, literatura, preguiças em tardes de terça, excentricidade, birra, chatice, alegria ligeira, tristeza passageira.

Sou um monte de tentativas e mais um monte de erros. Personagem de meu discurso, pamonhas na madrugada, ocultação e revelação desmedidas. Sou as amizades que cultivo, dietas sem disciplina, desenhos de cotidianos e livros no banheiro.

Sou aquilo que me atravessa e me toma pelas mãos, sem que eu saiba bem. Dessas coisas todas e mais outras, sou feito e vou me constituindo vida afora.

Imagem: Luiz Zerbini

sábado, 23 de janeiro de 2010

O Livro Amarelo do Terminal

"A rodoviária do Tietê é uma cidade de coisas perdidas. [...] é uma cidade de pessoas que andam com um monte de fiapo preso aos pés, de gente que derruba café no chão e joga o papel higiênico fora do lixo. De moças que exigem cartões telefônicos e praguejam do alto de seus óculos escuros. [...] A rodoviária do Tietê é uma cidade de chicletes abandonados, de pessoas com pressa e de coisas perdidas."

Para Vanessa Barbara, a rodoviária do Tietê é um mundo polifônico. Pela escrita precisa, com toques de um humor prosaico, a jornalista vai trançado uma rede de histórias acerca do terminal. Ao apresentar as personagens anônimas e protagonistas das narrativas que ela recolheu, vai dando-nos instrumentos para adentrar na beleza das chegadas e das partidas; das esperas e dos encontros; das complexidades e das simplicidades da nossa humanidade.

Tudo isso embalado por um projeto gráfico inovador que usa elementos decalcados do universo dos terminais e das passagens antigas. Um bom exemplo de como um trabalho de conclusão de curso (de jornalismo, nesse caso) pode explorar universos que vão além do rigor acadêmico sem perder o foco do seu conteúdo.

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Livro: O livro amarelo do terminal
Autora: Vanessa Barbara
Editora: CosacNaify

Imagem: Capa do livro

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Para celebrar São Sebastião

"Imagem da Igreja de Lagolândia" - O São Sebastião da minha infância.


"Imagem da devoção popular"


"São Sebastião nº 1" - Oscar Magnan


"San Sebastiano d'apres Guido Reni" - Luigi Ontani


"São Sebastião" - Keith Haring


"Autorretrato como São Sebastião" - John Douglas


"Autorretrato como São Sebastião" - Egon Schiele


"Queer Saint" - Joel-Peter Witkin


"Costuras em vales de lágrimas" - Minha versão gótica para o santo.

Mais do santo aqui no blog.

Imagens 1 e 9: Wolney Fernandes
Imagens 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8 capturadas em http://bode.diee.unica.it/~giua/SEBASTIAN/

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Agenda 2010 da CAJU

Orquestrando grafites, poemas e calendários.

Pilatos pós-gripe suína

Segunda-feira. A última de 2009. Olhei desoladamente para a enorme fila em curvas que se desenhava à minha frente. No início dela, apenas um caixa parecia se divertir por ser o único atendente do banco naquela manhã. Respirei fundo e me posicionei no final, já arrependido por não ter comigo meu iPod ou sequer uma revista para ler.

Alguns poucos passos depois e já perdido em pensamentos variados ouvi uma voz se destacar no burburinho da fila para questionar: "Você sabia que para Jesus não existe esse negócio de tecnologia, né?" - Localizei, com meu olhar, o interlocutor da questão. Era um homem baixo, todo engomadinho, perto dos 50 anos que, em tom de discurso, voltou a perguntar ao seu companheiro de fila: "Você sabe, não sabe? Pra Jesus não existe tecnologia."

O moço que estava ao lado, arregalou os olhos, mas não se pronunciou a respeito da pergunta dirigida a ele. Talvez temesse que uma simples resposta desencadeasse um falatório sem fim acerca das habilidades tecnológicas de Jesus. Aproveitando o silêncio que se instaurou no ambiente, o "grande questionador" fez de sua pergunta uma afirmação, desta vez se dirigindo a todos da fila: "Vocês sabem que para Jesus não existe esse negócio de tecnologia e...".

Exatamente no ponto em que a afirmação iria se desenvolver, uma mulher intercedeu por todos que estavam ali, dizendo em alto e bom tom:

"Moço! Faça-me o favor! Hoje é segunda-feira, estou há duas horas nessa fila que não anda, só tem um caixa pra fazer todo o atendimento, está um calor danado aqui dentro e não estou nem um pouco afim de ouvir pregação. Então o senhor, por favor, me poupe do sermão."

Novo silêncio se fez na fila, mas dava para ver a expressão aliviada no rosto da maioria das pessoas. Olhei novamente para o homem que iniciou aquele evento, esperando uma resposta dele para nossa salvadora, mas ele nada pronunciou.

De repente, como se qualquer palavra fosse muito pouco para dar conta de sua indignação, o referido homem saiu da fila, foi até o balcão do caixa onde havia um pequeno recipiente com álcool gel e colocou um pouco em suas mãos. Esfregando uma mão na outra em um gesto quase ofensivo ele se virou para todos da fila e olhando todos de forma desafiadora disse sem pronunciar uma só palavra: "Eu lavo minhas mãos!"

Olhando para aquele 'Pilatos pós-gripe suína', sorri disfarçadamente enquanto a fila voltava ao seu estado tedioso de antes.

Imagem capturada em http://bastianocuntrari.blogspot.com/2009/06/come-ponzio-pilato.html

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Epifanias cotidianas

Os começos são sempre os mais difíceis. No entanto, começo 2010 silenciosamente e vou adentrando pé ante pé diante das (im)possibilidades que um novo ano descortina. Talvez, serenamente, eu esteja desejoso das epifanias que se refazem cotidianamente. Daquelas bem simples... daquelas bem óbvias:

1. Acordar com a serenidade das noites embaladas por trilhas sonoras selecionadas;
2. Perceber que ganhar tempo é bom, mas que perdê-lo é melhor ainda.
3. Experimentar movimentos e sabores que conectem meu corpo com a idéia do cuidado.
4. Tirar as idéias do porto seguro e lançá-as em barquinhos de papel para navegarem em enxurradas de ações.
5. Desejar cores que não sei nomear e emoções desconhecidas quando um beija-flor me visitar.
6. Desenhar no parque, no quarto, na pele, no trabalho, na parede, no cantinho do caderno...
7. Namorar minhas vontades a ponto de transformá-las em realidades.

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

"Prestando atenção em cores"*

"Eu ando pelo mundo
prestando atenção em cores
que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo
Cores"

Adriana Calcanhoto

(*) Da música "Esquadros" de Adriana Calcanhoto
Imagem: Wolney Fernandes sobre desenho do cartaz de Volver