quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Ficar aqui


Por quatro anos seguidos, o dia 29 de fevereiro não existe. A ideia é usar os últimos minutos desse dia para podar toda pressa plantada à minha volta sem correr o risco de que ela brote novamente no ano que vem.

Que não me falte descanso e que não me escape a pausa, pois a vida não fugirá se eu me distrair. Quero estar sempre alerta para reverter minha respiração curta em cochilos de cama e sofá.

Na madrugada quero beijar silêncios para que no dia seguinte eu possa fazer o pensamento caber na fala. Quero ter tempo para escutar a vida que sempre me diz "Não tente me controlar". E se a pressa for condição para chegar lá, eu quero mesmo é fazer bonito ficando aqui!

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Poeme-se


Das bonitezas espalhadas por aí!  
Poeme-se é um tumblr tão lindo que dá vontade de habitá-lo e de lá nunca mais sair.

O Menino


Entrei no ônibus e fui logo tirando o caderninho de desenho da bolsa. A viagem de duas horas deveria ser preenchida com rabiscos, músicas e paisagens borradas. À minha frente, sentado do outro lado do corredor e distante duas fileiras da minha, estava o menino.

Seu olhar acompanhava atentamente o movimento de quem entrava pela porta do ônibus. Em seu colo, ele guardava uma trouxa de roupas envoltas por um forro de mesa florido. Tristeza e curiosidade pareciam co-habitar aqueles olhos.

Aquela imagem pedia para ser registrada. Comecei, então, a rabiscar um desenho com linhas bem finas. Na intermitência do meu olhar que dançava entre o menino e o desenho, percebi que a mulher a seu lado, que julguei ser sua avó, cochichou no ouvido dele e apontou para mim.

A distração que o entretinha pulou pela janela e sua atenção repousou sobre o meus traços. Levantei o caderno na altura dos olhos dele e perguntei: Gosta? Silenciosamente ele olhou a vó como se pedisse permissão para responder e em seguida balançou a cabeça afirmativamente. Rasguei a folha do caderninho e dei o desenho para ele.

Entre cochichos com a vó e uma foto que eu furtivamente consegui fazer com o celular, a viagem continuou sem que ele tirasse os olhos do desenho.

No exato momento que o ônibus parou em uma das tantas cidadezinhas do meio do caminho, percebi que ele guardou o a folha já amassada e me olhou rapidamente enquanto numa mão segurava a trouxa de roupas e, na outra, a vó que não conseguia se mover sem ajuda.

Pela janela, antes do ônibus continuar a viagem, ainda puder ver os dois sumindo vagarosamente calçada afora. No caminhar, rastros de infância deixados para trás não conseguiam acompanhá-lo.

Foto: Wolney Fernandes

Sem dúvidas

Sempre haverá sorrisos para quem achar que alegria não se encontra em lugares difíceis. Carinho não chega após decretos firmados por mil protocolos de boas intenções. Amor não bate à porta que vive trancada, nem se materializa por invocação ou encantamento.

A beleza existe para quem abre as janelas, as portas, desce as ruas e sobe aos edifícios, mesmo aqueles condenados a abandonos. Encantamento existe em cada esquina, em todo ponto de ônibus, em silêncios que pronunciam olhares.

Às vezes, para que os afetos transbordem, é preciso caminhar descalço, apertar os olhos e carimbar passarinhos em tudo que fizer. De uma coisa não duvido: há tanta alegria por aí, tanta, que por isso é preciso sorrir todo dia.

Imagem: Olhei aqui.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

"Todos os sonhos do mundo"


"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."

[Álvares de Campos]

Foto: Wolney Fernandes

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Dezessete de Fevereiro de 2012 - Sexta


Estou a pé. A cidade, sedutora, se despe mais à vontade pelo toque do meu caminhar. Os tempos não são marcados pelo sinal vermelho e a geografia escondida em calçadas desenhadas me abraça em curvas que percorro com música e devaneio.

Pensamentos sem freios se misturam a notas musicais. Tropeço. Tenho uma dessas doenças estranhas que me deixa boquiaberto frente a texturas, reflexos e composições urbanas, sempre mutantes. Gosto de me imaginar assim, mutável... aquele que, diante de paisagens tão conhecidas, celebra estranhamentos ao dobrar a esquina.

[suspiro...]

Nenhum lugar me deixa mais pleno do que dentro desse Wolney - versão fevereiro de 2012. Porém, ainda sinto dores nestes pés que me trouxeram até aqui! Penso que toda mudança termina [ou começa, não sei] com uma fenda. Nem que seja para marcar o lugar dos tropeços.

Eu vivo mudando porque esse movimento me alimenta. Mas, apesar de ser um delicioso jantar, parece que as mudanças nunca são suficientes para o café da manhã do dia seguinte. Então eu sofro com os estranhamentos - meus e dos outros - advindos dessa movimentação.

Odeio a noção de que é preciso sofrer para aprender, pois já faz muito tempo que o sofrimento não é gasolina suficiente para minha ignição. Todo aprendizado deveria brotar daquele caminhar frouxo que ajuda a gente perceber no céu uma nuvem e desejar guardá-la no bolso.

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Livro Esquecido


Hoje eu esqueci, de propósito, um livro em um ponto de ônibus da Avenida Tocantins no Centro. Quem o encontrará?

Foto: Wolney Fernandes

Enquanto você caminha


01. Walk - Foo Fighters
02. The Melody of a Fallen Tree - Windsor for the Derby
03. Love for Sale - Mickey ft. Monarchy
04. Friday Night - Lilly Allen
05. Go Outside - Cults
06. No Light, No Light - Florence + The Machine
07. Reptile - Citizens!
08. Shooting Stars - Bag Raiders
09. Invisible Light - Scissor Sisters
10. ÜBerlin - R.E.M.

Foto: Wolney Fernandes

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

No meu filme preferido


Vez em quando eu fujo para dentro do meu filme preferido e fico por lá, escondido. Dentro da película é mais fácil instaurar sentidos do absurdo e atiçar a facilidade de tudo celebrar. Dançar na festa do trágico.

No meu filme preferido as comemorações de despedida ganham um tom eterno, que na vida se perdem nas fotos esquecidas... nas fotos não tiradas. As cenas sempre promovem a facilidade de se espelhar no outro mais bonito, mais atraente... mas, principalmente, no outro que tem a coragem de ousar o absurdo que eu não tenho.

No meu filme preferido brinco com o impossível, que não seria tão impossível se eu tivessse a pequena coragem de escrever o roteiro da minha vida com um pouco mais de fôlego. Ou se admitisse que a vida não tem absolutamente nada de racional e me deixasse embalar pelo absurdo que de fato ela é.

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

"Poesia é Voar fora da Asa"


Aos 16 anos, a morte de meu pai definiu irremediavelmente minha entrada na vida adulta. No entanto, só agora, 20 anos depois, ouso dizer [chego a espalhar] que ser adulto também é uma delícia.

Conforme o tempo passa, percebo que vou me libertando da ideia de que crescer é um tormento. A Terra do Nunca, lugar onde o prazer nos isenta de toda e qualquer responsabilidade, é uma ilha. E ilha tem fim quando principia o mar.

"Deus ao mar o perigo e o abismo deu. Mas nele é que se espelha o céu" 
[Fernando Pessoa]

Por um longo período habitei a "Ilha do Nunca" indagando porque a vida havia me impedido de experimentar da própria vida no tempo certo. Enquanto a maioria começava a faculdade aos 18, eu comecei aos 24. Os amigos já sabiam de todas as artimanhas de um namoro enquanto eu ainda ensaiava um jeito de dizer dos meus afetos a quem eles eram destinados. Morar sozinho é (ou era) quase uma lei antes dos 30, eu estou com 37 e até agora divido meu espaço com família...

Mas quem disse que há um tempo certo para experimentar a vida? Ela, em toda sua nuance e beleza, desfiou embaraços e urdiduras para tramar sentimentos de pertencimento e aconchego onde, em mim, só existia intolerância e azedume. Salve o Deus da mudança!

Mesmo assim, preciso admitir: quanto a mim, não estou completamente à vontade nesse mar de perigos e abismos, mas pelo menos não me faltam forças para nadar. E embora eu tenha saído da ilha, vez por outra é preciso tomar fôlego, olhar para a praia e ter certeza de que o que importa é nadar junto com o presente e criar meu próprio olhar para o mundo. Mesmo que esse olhar seja em direções e horizontes jamais vislumbrados por meus olhos.

Hoje, o livre arbítrio da maturidade me autorizou a tatuar um desenho meu em minha própria pele. Um sinal permanente em quem acaba de entender que a única constante da vida é sua impermanência.

Com certeza alguém anunciará: "Mas que falta de coerência!"
Talvez alguém constatará: "Tudo isso por causa de uma simples tatuagem?"

Explico, sem precisar: hoje, no espelho, quem me encarava com um peixe e um pássaro tatuados no ombro me pareceu um completo estranho. E sei que depois desta tatuagem parecerei estranho também para um monte de gente que eu amo. Mas é bom lembrar, para nunca esquecer, que estranhamento é condição para enxergar o céu pelo reflexo do mar.

Título decalcado da poesia de Manoel de Barros
Imagem: Wolney Fernandes

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Extremamente Alto & Incrivelmente Perto


O cartão de visitas de Oskar diz assim:
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OSKAR SCHELL
Inventor, desenhista de jóias, fabricante de jóias, entomologista amador, francófilo, vegan, origamista, pacifista, percussionista, astrônomo amador, consultor de informática, arqueólogo amador, colecionador de: moedas raras, borboletas que morreram  por razões naturais, cactos em miniatura, memorabilia dos Beatles, pedras semipreciosas e outras coisas.
E-mail: oskar_schell@hotmail.com
Fone residencial: privado
Celular: privado
Fax: Ainda não tenho uma máquina de fax
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Oskar tem 9 anos, perdeu o pai no atentado de 11 de Setembro em Nova York e é a personagem principal do livro "Extremamente Alto & Incrivelmente Perto" de Jonathan Safran Foer que eu acabei de ler.

A narrativa utiliza várias possibilidades gráficas como fotos, desenhos, diálogos espalhados, páginas apenas com números, com apenas uma frase ou sem nada. Estas referências visuais [veja exemplo na imagem abaixo] nos ajudam a mergulhar na busca que esse menino empreende para descobrir a fechadura da chave que ele encontra no closet do Pai, um ano depois da tragédia.

"Aquele segredo era um buraco dentro de mim, para dentro do qual todas as coisas alegres caíam"


A odisséia de Oskar fala de dores que a vida tatua em nós e de como lidamos com as perdas repentinas, pois nunca é possível reconhecer o último momento de felicidade que antecede uma tragédia. Sua busca é por algo mais complexo que uma simples fechadura. O que ela pode abrir afinal? Talvez ele só queira exorcizar a tragédia.

Sua inteligência fora do comum o ajuda menos do que se ele fosse uma criança "normal", já que sua precocidade reveste sua dor e o obriga a ser extremamente maduro.


"Uma ambulância passou pela rua entre nós e me perguntei quem estaria lá dentro e o que teria acontecido com essa pessoa [...] Haveria qualquer possibilidade de ser um conhecido meu? Será que alguém tinha visto a ambulância e se perguntado se era eu quem estava lá dentro?"


Ao longo de sua peregrinação pelos cinco distritos de Nova York, sem perceber Oskar consegue atar o fio geracional que se perdeu quando o avô abandonou seu pai. Descobrir como isso acontece é uma das delícias desse livro de linguagem incrivelmente peculiar.

"A Vó acredita em Deus, mas não acredita em táxis"

No último dia 24, fiquei sabendo que o filme inspirado no livro está indicado ao Oscar desse ano na categoria principal. Só me resta esperar que a adaptação cinematográfica confirme toda a genialidade da narrativa de Foer, um autor extremamente sensível e incrivelmente inteligente.

Fotos: Wolney Fernandes

"Roteiro básico para fabricar Sereias"


“Piso na areia, percebo o bilhete laranja espetado no graveto seco,
'escolha uma dia de verão em que a água esteja muito
fria, aguarde até que uma menina (dessas com menos de
nove anos, com os ossos ainda tenros) entre no mar, sem
que haja alguém por perto, e, sem desvestir as roupas, entre
no mar também e a carregue pela cintura, nadando rápido
até os dois desfalecerem; ela se tornará sereia',
dobro obilhete e o enfio no bolso, evito encarar o oceano,
algo me aguarda nas espumas da rebentação”

Poesia de Paulo Scott
Imagem: Wolney Fernandes

Datas marcadas pelas estrelas


Como estariam as estrelas no dia do meu nascimento? Que roupas as pessoas usavam naquela época? Quais as canções que embalaram meus choros de criança? Que acontecimentos foram traçados naquele ano? Que fatos marcaram o mês de junho de 1974?

Dia desses, com aquela vontade de cruzar minha vida com a do meu avô [que nunca conheci] me passei a repetir estas mesmas perguntas em torno do dia que ele nasceu. Comecei a investigar.

O nome Jorge indicava uma data: 23 de Abril. "Naquela época era comum batizar as crianças com o nome do santo do dia".  E ninguém tinha dúvidas, afinal cresci aprendendo de minha mãe e parentes que meu avô tinha nascido no dia de São Jorge. O ano ninguém lembrava.

Abri a caixa de papéis deixados por meu avô e o primeiro documento que encontrei foi a certidão de casamento. Supresa nº 1: A data do nascimento era 20 de Abril de 1914. Levei ao conhecimento de minha mãe que pacientemente me explicou que não dava para confiar na certidão de casamento. Ela se lembrava de um arranjo para que as datas de nascimento de meu avô e de minha avó fossem trocadas. Naquele período, o marido não poderia ser mais jovem que a esposa, como era o caso. Então a solução foi colocar meu avô nascido em 1914 e minha avó em 1916. No entanto, nem o dia era o mesmo que minha mãe se lembrava.

Segui remexendo os papéis e encontrei uma escritura cuja data de nascimento do Vô Jorge estava registrada em 23 de Abril de 1911. Confusão total! Continuei a busca até que encontrei sua certidão de nascimento lavrada dois dias depois do fato e a surpresa foi maior ainda: a data correta do nascimento do meu avô é 20 de Junho de 1912.

Junho é o mês que eu também nasci e 2012 é o ano que meu avô faria 100 anos se estivesse vivo. Cruzamentos como estes me fazem pensar que o desenho que as estrelas traçam no céu é capaz de sulcar destinos em nossas mãos e deixar o tempo marcado com linhas misteriosas. Um tempo que não cristaliza os acontecimentos, mas os reconstrói pelo perfume das lembranças. Marcas que aprofundam relações, pois reforçam vínculos identitários espelhados nos objetos e nas histórias de pessoas que precisam ser contadas.

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Para hoje apenas


Para hoje, eu quero o melhor poema e não o livro inteiro. Dos textos longos eu só quero a primeira página, um cheiro suave de sexo e o medo de mim mesmo. Preciso insistir no refrão para que a melodia não cresça e queira ser trilha sonora.

Meu decreto profano é que a felicidade não seja um lugar, nem um instante e sim um movimento que eu faço com meu corpo. Faço silêncio porque prefiro que o movimento permaneça na memória sem o risco do compromisso.

Foda é perceber que a memória é amante da imaginação, e pode me trair mesmo permanecendo fiel.

Imagem de Egon Schiele. Olhei aqui.

Reinvenções


Numa espécie de epifania, recolho os fragmentos de uma realidade sem muitas novidades para trazer pra cá. Se fico longe por uns tempos significa que vou guardando os pedacinhos em vontades, saudades e inquietudes. Com o coração arfante e com um medo do inapreensível, recolho os resíduos dos meus dias e misturo com o pó dos meus sonhos. Nesse céu virtual, meu desespero por uma unidade e alguma coesão sucumbe frente aos cacos, memórias, rastros e índices com suas ventanias e aleatoriedades.

Uma vez, alguém me disse que quem se perde em devaneios, perde a capacidade de manter o foco e se reinventar. Eu discordo! Solto meus fragmentos e deixo que os alinhavos que os unem me reinventem sempre! Passei estes dias desenhando. Isso é mais ou menos o que eu faço fora da internet, onde, além de tudo, eu posso abraçar.

Imagem: Wolney Fernandes