quarta-feira, 29 de abril de 2009

terça-feira, 28 de abril de 2009

O mesmo, diferente!

A minha memória tem se tornado a minha imaginação. Assim, me conformo quando as lembranças começam a inventar alguns dos meus dias. Apesar de ainda ser díficil aceitar que talvez algumas das recordações de tempos de outrora tenham sido rabiscos escritos com brisas azuis.

Atravesso o que sou por estar cansado de mim. Na brincadeira de ir e vir, sou um tropeço da originalidade. Repito meu corpo e ele sempre me surpreende. Sofro um erro, que é o mesmo, diferente.

Imagem: Wolney Fernandes

Em três dias


Onde o rio faz a curva


"Hoje eu me lembro dos meus rios
Em mim mesmo mergulhado
Águas que movem moinhos
Nunca são águas passadas"

Versos de Roberto Mendes e Jorge Pontual
Fotos: Wolney Fernandes

sábado, 25 de abril de 2009

No divã

"Não, não era amor... Não era amor... Era melhor!
O fim nunca é bom. Se fosse bom, seria o começo!"

Do filme Divã.

Imagem: Eugène Delacroix - Nudez feminina reclinada no divã (1825-1826).

Medo

Quando a justiça é engaiolada pelo medo.

Imagem: Wolney Fernandes

Vertigem da queda

Do escuro eu só sentia o calor que a textura da parede imprimia em meus dedos. A luz difusa que espreitava embaixo da porta conduzia meu olhar e meus passos. Por um instante a frieza daquele corredor infinito se dissipou em pensamentos de esperança que reacendeu meus sentidos. O cheiro conhecido do alecrim já tomava meu corpo quando minha mão tocou a maçaneta fria. Não houve barulho quando a porta se abriu e eu pude ver meu quarto iluminado em listras amareladas projetadas pela persiana da janela. Um retrato riscado com 6B, repousava ao lado do meu próprio corpo que dormia serenamente de lado. Pude ver o vinco que a posição imprimia em meu rosto e contive a vontade de arrumar o cabelo emaranhado às dobras do travesseiro. Hesitei. Foi nesta breve hesitação que aquele lampejo de consciência me alertou: é só um sonho! Caminhei até a persiana e escureci ainda mais o lugar. Qualquer sinal de luz poderia me expulsar daquele encontro comigo mesmo. Tive vontade de velar por meu próprio sono, pois, ali em meio as lençol azul-escuro que minha mãe tanto odiava eu parecia mais um menino do que um homem de trinta e poucos anos. "Você está sonhando!" - outro lampejo de consciência me fez querer sair do quarto. Fui até o som e apertei o play sabendo que o Prelúdio da Suite nº 1 de Bach começaria a invadir meu sonho com a realidade que aquele gesto imprimia na rotina de minhas noites mal dormidas. Ouvi um barulho e, num sobressalto, meu olhar se voltou para a porta. Foi então que acordei ouvindo o finalzinho do CD com as sinfonias de Bach que eu tinha colocado pra tocar antes de dormir. Passam-se horas até descobrir onde esconder o medo que invadiu meu peito depois daquele sonho. Quando levanto, o mundo roda. Já disseram que a vertigem da queda é o melhor sentimento que existe?

Foto: Wolney Fernandes

Procura-se!

Seria trágico, se não fosse cômico.

Panfleto distribuído nas ruas de Goiânia.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

501

Variações em temas diversos para minha postagem de número 501:

- "Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se não fosse nada."
[Caio Fernando de Abreu]

- "A Igreja é o melhor lugar. Lá o gado de Deus pára pra beber água, rela um no outro os chifres e espevita seus cheiros que eu reconheço e gosto a modo de um cachorro. Igreja é a casamata de nós. Tudo lá fica seguro e doce, tudo é ombro a ombro buscando a porta estreita."
[Adélia Prado]

- "Desejo e esperança só existem perante as ausências. Como sentir saudades da pessoa amada se ela está ali, ao alcance da mão? Mas, quando a distância se interpõe, a saudade brota da falta, das palavras de amor que não podem ser ditas, por não haver ninguém para ouvi-las, e dos gestos de carinho que não ocorrem, porque o corpo se foi... Desejo e esperança são testemunhos da ausência."
[Rubem Alves]

- "Os olhos continuaram a dizer coisas infinitas, as palavras da boca é que nem tentavam sair, tornavam ao coração caladas como vinham."
[Machado de Assis]

Imagem: Wolney Fernandes

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Dia de São Jorge

"Quem é devoto 
é só fazer uma oração
Que o guerreiro sempre atende 
dando a sua proteção.

Por isso mesmo, 
não devemos esquecer 
a grande data: 
dia 23 de abril!"

Versos cantados por Maria Bethânia no CD Brasileirinho
Imagem capturada em http://jcorreiadias.wordpress.com

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Frida

Frida em pinturas, rabiscos, sorrisos, dores e realidades.

Motivações

Redescobrindo em cores, poemas e canções de rio e de mar, motivações para uma apresentação que se aproxima.

Foto: Wolney Fernandes

Wake Me Up - Norah Jones



Wake me up when it's over,
Wake me up when it's done,
When he's gone away and taken everything,
Wake me up.

Wake me up when the skies are clearing,
When the water is still,
'cause I will not watch the ships sail away so,
Please say you will.

If it were any other day,
This wouldn't get the best of me.

But today I'm not so strong,
So lay me down with a sad song,
And when it stops then you know I've been,
Gone too long.

But don't shake me awake,
Don't bend me or I will break,
Come find me somewhere between my dreams,
With the sun on my face.

I will still feel it later on,
But for now I'd rather be asleep.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Cartas a um jovem poeta

Aprendendo com Rainer Maria Rilke:

"Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza - relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de suas lembranças. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente."

Texto do livro "Cartas a um jovem poeta" de Rainer Maria Rilke.
Imagem: Wolney Fernandes

Presença silenciosa

Quando se lê a mesma carta pela 17ª vez, as palavras parecem fazer ciranda do coração para os olhos e vice-versa. Tanta coisa a ser dita e assimilada que o papel se transforma em tela de pintar memórias. Tantos olhares... tantos sentidos ainda pulsantes na voz de Miguel Bosé, na sobrancelha de andorinha da Frida, no sabor do suco de cajá, nas poucas linhas de um depoimento secreto pela manhã, na saudade de um corpo/lugar cuja geografia íntima anula todas as minhas fronteiras.

Escrevo para que as lembranças se tornem presença silenciosa.
Sem culpas, mas com vontades!
Sem dramas, mas com sinceridades!

Imagem: Wolney Fernandes

Um livro por e-mail

Imagem recebida por e-mail. Infelizmente sem os merecidos créditos.

Vontade de retratos

A vontade de riscar retratos continua. De onde ela veio? Pra onde ela vai?

Imagem: Wolney Fernandes

Grandes Esperanças

O Filme:
Grandes Esperanças (Great Expectations, EUA, 1998)

Sinopse:
Adaptação do clássico de Charles Dickens sobre um jovem artista e seu amor pela bela e fria Estela, criada por senhora cruel que busca vingança contra os homens por ter sido abandonada à beira do altar.

Grande questão:
Quais os limites que definem a busca empreendida para se viver um grande amor?

Detalhes preciosos:
1. A cenografia exuberante e ao mesmo tempo decadente da mansão da Sra. Dinsmoor (Anne Bancroft);
2. Os desenhos e pinturas que aparecem nos créditos iniciais do filme;
3. A trilha sonora perfeita que nos conduz com precisão pelos momentos tensos e leves da narrativa.

Frase:
“Talvez, quando criança, tenha vislumbrado um mundo tão livre como raramente ou nunca verei novamente.”

Música:
Stella's theme - Patrick Doyle

Cena que adoro:
O beijo das crianças na pequena fonte de água. Clique aqui para ver.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Me aproximar dos começos

E tudo que eu quero agora é ar refrigerado e músicas sobre as avenidas lotadas de carros e gente. Tirando a roupa, lentamente, abrir a janela pro mundo, pra rua, pros outros. Ver um fio de luz lá adiante e segui-lo. De que forma me aproximo mais e mais dos começos?

Imagem: Wolney Fernandes

domingo, 19 de abril de 2009

Escutar o que se cala

Era quase de manhã. Um sonho agitado me acordou na primeira luz matutina e, esperando meu coração voltar ao ritmo desacelerado de sempre, comecei a estranhar as ausências.

Difícil é viver sem presenças.

A experiência do vazio não se configura salvação quando nela se aprisionam deslizamentos sem esperança de preenchimentos posteriores. Vendo a luz tênue alcançar o anjo que guarda minha cabeceira recordei-me de Clarice em ÁguaViva:

"Ouve- me, ouve o silêncio.
O que te falo nunca é o que eu te falo e sim outra coisa.
Capta essa coisa que me escapa..."

Escutar o que se cala e olhar o que se oculta tem dilacerado meus dias e minhas noites, mas não vou me entregar às ausências... nem posso! Prefiro criar historias e imagens em torno delas, e assim algo de um sentido se coloca.

E nas frestras destas invencionices constantes "capto essa coisa que me escapa..." e faço preenchimentos. Nesse exercício, algo de uma verdade se coloca para mim. Sei que ainda não são as presenças, mas uma espécie de pulsação que eu encontro nas permanências.
Sigo assim!

Imagem: Wolney Fernandes

Campos de dança

"Até o céu caminhemos de mãos dadas pelo azul. Perto das estrelas mais luminosas..."
(Cândido Portinari)

Não há um só dia em que meu coração não se transforme em campos de dança embalada pelas saudades dos olhos de tamarindo, dos braços de abraçar e da pele de azuis-portinari.

Imagem: Sete cavalos - Cândido Portinari

Vontade de multidões

No meio do caminho para o cinema eu percebi que não era lá que queria estar. 
Voltei! 
Nesta noite de sábado tive vontade de multidões.

sábado, 18 de abril de 2009

Sereia de água doce

"Andando de manhãzinha
um compadre amigo meu
se assustou com a moça linda
que passou ao lado seu.

Correndo ele veio avisar
branco, tremeu, gritou:
Você não vai acreditar
na sereia que por aqui passou."

Versos de Vanessa da Mata
Imagem: Wolney Fernandes

Pássaros imaginados

Desenhando silêncios

Tenho passado dias e madrugadas assim: desenhando silêncios de brisas azuis, projetando escritas e recitando imagens. Foi em um destes desenhos que encontrei as linhas sinuosas de cores esmaecidas que, de hoje em diante, darão cara nova ao blog. As alterações começaram na madrugada do dia 17, mas como toda arrumação conduzida por minhas mãos, vai se desenrolar aos pouquinhos, sem muita pressa... De um jeito bom e gostoso como há tempos não me permito trabalhar. Um traço aqui, uma entrelinha maior ali, um colorido bonito de cá e quando menos se espera, tudo está no lugar.

[pausa]

Será que consigo fazer isso também do lado de cá do teclado?

Imagem: Wolney Fernandes

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Achados na madrugada

Cinco CDs "garimpados" em madrugadas sem sono.

The Greatest - Cat Power
Não há como ficar indiferente à voz desta excelente cantora estadunidense. Poucos acordes de piano e um dedilhado na guitarra já bastam para nos embalar ao som de músicas lindas como "The Greatest" que dá nome ao disco e está na trilha sonora do filme "Um beijo roubado". Confira aqui.

Vicky Cristina Barcelona - Trilha sonora
A trilha do filme que rendeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante para Penélope Cruz traz músicas com nuances latinas e usa e abusa de cordas para dar o tom deste drama dirigido por Woody Allen. O filme se passa na Espanha. Caliente! Confira aqui.

Heartbreaker - Ryan Adams
Simples, Ryan Adams, sempre emociona com canções que falam das alegrias e dores de gente comum. "Heartbreaker" é seu primeiro álbum após deixar a banda Whiskeytown. Destaque para a participação de Emmylou Harris, grande cantora do country-rock em bonitos duetos com o cantor. Confira aqui.



Little broken words - Keane
O disco de "covers" da banda inglesa, traz versões de musicas conhecidas em roupagens bem melancólicas (que eu adoro!). Destaque para "Goodbye Yellow Brick Road" de Elton John. Confira aqui.

Cassadaga - Bright Eyes
Conheci o Bright Eyes quando me emocionei com o clipe da música "First Day of my life" e de lá pra cá, sou fã de Connor Oberst, cantor/compositor e guitarrista da banda Oberst. Baladas que lembram Bob Dylan completam esse CD gostoso de ouvir do início ao fim.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Caneca de presente

Uma visita às 22 horas de terça-feira.
Uma caneca com arte rupestre para celebrar uma amizade que não precisa de movimentos constantes para que as certezas se instaurem.

Imagem: Wolney Fernandes

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Guardador de Sonhos

Meu coração é caixa de papel que guarda sonhos.
Tudo muito simples, sem necessidade de maiores explicações.

Imagem: Wolney Fernandes

domingo, 12 de abril de 2009

Aulas de Desenho

Quando as aulas de desenho artístico eram segunda, quarta e sexta, com objetos em cima da mesa para copiar.

Imagem: Desenho em 6B do meu tênis de 9 anos atrás.

sábado, 11 de abril de 2009

[des]arrumações

[des]arrumações de uma tarde atravessada pelas esperas.

Saudade desconhecida

O final da noite de sexta foi permeada pelas cartas, bandeiras e imagens do vô Jorge, pai da minha mãe.
Quando você se reconhece em um retrato amarelado e sente lágrimas involuntárias percorrerem seu rosto já marcado pelo tempo.
É possível sentir saudade de quem a gente nem chegou a conhecer?

Imagem: Wolney Fernandes

Santos modificados

Infelizmente não sei de quem é a autoria, mas a idéia é genial!

A mesma coisa dia após dia*

Os últimos dias no décimo andar do Edifício Rio São Francisco pelas palavras de Karen Armstrong:

Sobre a religião:
"A verdade é que eu agora detestava tudo que se relacionava com devoção. Achava não só uma tremenda perda de tempo e energia, mas algo decididamente nocivo. No metrô, ao ver alguém lendo um livro de teologia ou de orações, ficava enojada e até virava a cabeça, como se tivesse visto algo repugnante. Palavras com 'Deus', 'Jesus', 'igreja' provocavam em mim uma lassidão semelhante à náusea. A religião convencional me exaurira, e eu não queria mais nada com ela. Se possível, gostaria de esquecer sua existência."

Sobre o presente:
"Estar presente por inteiro no momento, sem olhar para a frente nem para trás, sem desejar o que não existe. E o momento presente não é um mau lugar para se estar."

(*) Frase que a autora encontrou, em grafite, num muro de Londres.

Imagem: Wolney Fernandes

sexta-feira, 10 de abril de 2009

O natal que eu celebro na páscoa

Tinha algo ali que me inebriava. Talvez o cheiro da parafina queimada misturado ao ardume fétido de côco dos morcegos que habitavam o teto da igreja. Talvez os contornos das flores de plástico e o colorido psicodélico dos altares pintados de rosa, azul e laranja. Talvez fosse simplesmente os olhos de vidro da imagem de Nossa Senhora do Rosário que brilhavam para mim e, como em um encanto hipnótico, me conduzissem àquele lugar todas as vezes que o sino badalava anunciando a hora da reza.

Sentado naqueles bancos de madeira rústica pintados de azul eu era um menino feliz. E por mais que procure, hoje, uma materialização que explique meu estado de alegria e felicidade diante da missa que o Pe. Jesus conduzia sem pressa, simplesmente não consigo. As respostas prontas que eu não entendia direito, mas repetia com profunda convicção, e as ladainhas em latim puxadas pela dona Vita faziam eu ter a certeza de que era exatamente ali que eu gostaria de estar pra sempre.

Deus habitava pertinho de mim. Ali no meu catecismo de capa branca, com a imagem de Jesus traçada em azul, eu podia carregá-lo. E nossos encontros eram simples. Deus me pegava pela mão quando minha vela era acesa. Juntos, eu e Ele, caminhávamos em procissão em torno da praça ouvindo "Ave-Marias" murmuradas em fila. Ele me alimentava quando pétalas de rosas brancas viravam Seu corpo nas missas que eu secretamente celebrava no quintal de casa. As incoerências não existiam, pois não havia nenhuma cobrança, nem da minha parte, nem da Dele. E assim, nossa amizade se fortalecia naquela cumplicidade mútua de meninos do interior.

Naquela época, para mim Deus era mais menino do que propriamente um deus que tinha o poder sobre a morte. A grande festa da liturgia que me rodeava não era a Páscoa, mas sim o Natal. Quaresma terminava no sábado da aleluia e pronto! Domingo era apenas o dia das normalidades, onde não se conjurava milagres de ressurreição.

No Natal tudo era festa, quando Deus-menino invadia as casas de quem quisesse fazer um presépio para recebê-lo. Na primeira vez, eu mesmo preparei o lugar que Ele habitaria: Um canto da parede da sala com meus brinquedos compunha com os aromas dos jasmins colhidos no brejo, um altar para recebê-lo. Simples assim. Sem agonias, traições ou mortes. Só alegrias pela chegada.

Hoje já não sei como me encontrar com Deus nos lugares onde dizem ser a casa d'Ele. É por isso, que em véspera de Páscoa, eu me junto a Alberto Caeiro para me postar desejoso daquele encontro em que nossas mãos se juntem novamente, como no Natal. E que meus brinquedos o alegrem tanto quanto me fazem feliz.
Eu e Deus-menino.
Aquele que foge do céu, para comigo morar:

"[...] No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura [...]
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo. [...]

Feliz Natal a todos/as!

Foto: Wolney Fernandes

terça-feira, 7 de abril de 2009

Para uma tarde chuvosa de terça-feira

Um desenho para criar;
Uma trilha instrumental para ouvir;
Chá com Pão de queijo para comer.
Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Tudo é o agora!

Do estreito da janela sinto uma lufada de vento frio. Estremeço. Sinto o cheiro de alecrim que vem do armário do banheiro. Devoro uma lembrança como uma imagem estagnada e meu lembrar não se comporta fazendo canção com o vento que sibila lá fora.

"Tudo é o agora" - em um pensamento fugaz, concluo que talvez seja esta a melhor solução.

Imagem capturada em www.luizabarcelos.com.br/blog/

domingo, 5 de abril de 2009

"Para compor meus silêncios..."

'' Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras fatigadas de informar.
Dou mais respeito ás que vivem de barriga no chão
tipo- água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões
Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença
Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior que o mundo
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos como as boas moscas
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios..."

Manoel de Barros

Imagem: Wolney Fernandes

Mais dois

Mais dois livros para a pilha enorme que se acumula deliciosamente na minha estante. No entanto, algo me diz que vou furar a fila!

Foto: Wolney Fernandes

sábado, 4 de abril de 2009

Fraquezas permanentes

Querida Sofia,

Confesso que pensei em não mais te escrever, mas minha permanência na solidão atordoada de sábado a noite me fez querer desfiar a trama destes dias difíceis. O outono trouxe um clima mais ameno e mesmo as noites chegando mais cedo, passo por elas sem conseguir me acalmar diante desse mar de fatalidades que me encontro. A morte prematura de um amigo, a falta de dinheiro, as tentativas frustradas de emprego, os sonhos novamente adiados, as saudades tatuadas na pele... É tanta realidade que minha vocação para Dom Quixote tem se esvaido nas brechas inexoráveis da razão.

Da janela do décimo andar, olho ao meu redor e tenho a sensação de que, na vida, estou andando em círculos, pois sempre venho parar no mesmo lugar. Quisera eu conseguir a estranha felicidade de avançar! Mas pareço não ter forças para me mover naquele movimento espiralado que eu tanto vislumbro. Fico aqui repetindo a mesma pergunta: Em que ponto do caminho eu me perdi? Haverá redenção para um sonhador que se perde em fraquezas permanentes?

Tenho raiva! Não de você, mas de mim mesmo, por sempre repetir os mesmos erros sem conseguir aprender com nenhum deles. E pareço gostar da melancolia, pois sempre me permito a ela me lançar sem medo. Daí eu sonho, sofro, choro, mas finjo que nada acontece. Sigo naquela brandura que o "tudo bem!" espalha em conversas reais e virtuais. Prometo ficar no meu canto com meus desenhos, uma vez que eles têm sido minha salvação. Me embrenho pelas cores e texturas e os traçados vão me livrando da incontrolável vontade de emudecer, escurecer e fenecer numa espécie de auto flagelação.

Prometo não escrever mais, mas sei que acabo por não cumprir a promessa. No fim das contas e dos contos, minhas imperfeições insistem em se sobrepor aos encantamentos.

Estou cansado! Quero colo para acordar e, assim, conseguir dormir.
Beijos comedidos.

Wolney

Imagem: Wolney Fernandes

Animais do meu imaginário

Do quintal de casa até o outro lado do rio: galinhas, vacas, peixes e cobras.

Sagrado Coração

Um coração sagrado para perpetuar histórias de anjos e serpentes.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Toda escrituragem

Minha escrituragem está pronta!
Trabalho de 2 anos de mestrado, de 4 anos de graduação e de uma vida inteira em Lagolândia.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Das coisas como elas são

Meus medos invisíveis tomam forma e contornos de tristezas indomáveis. Por vezes me pego chorando, mesmo sorrindo... Minhas alegrias fugidias se perdem em mantras e orações que, mesmo conjuradas repetidamente, nunca me livram da rotina dos amores difíceis, do trabalho sem graça, de uma vida repleta de recordações e virtualidades.
Longe de mim, as realidades!
Longe de mim, as possibilidades!
Longe de mim, as felicidades!
E é assim, tão somente, como as coisas são.

Imagem: Wolney Fernandes