quarta-feira, 30 de maio de 2012

Maratona Sentimental

Nina Simone pertence. Essa frase é assim mesmo, com o verbo pedindo complemento, mas seu sentido já está completo. Nina reinventa uma música de pertencimento. Quando sinto as palavras reverberadas na sua voz saio de qualquer vazio e passo a pertencer, ainda que não saiba direito a quem ou ao quê. Atravessar "Wild is the wind" de mãos dadas com Nina é uma espécie de maratona sentimental. Díficil chegar a linha de chegada porque selvagem é o vento e talvez seja a ele que pertencemos.

Pequenas realizações


Abandonei minha ambiciosa lista de ano novo para abraçar pequenas listas mensais: terminar de ver a série "A Sete Palmos", não abandonar a academia, fazer mais piqueniques no parque, ler menos notícias e mais Manoel de Barros, aprender as 117 funções extras que o celular oferece, não deixar e-mails acumulados na caixa de entrada, organizar a coleção de DVDs... foram alguns dos desafios do mês de Maio.

A satisfação é quase imediata, pois quando chega o dia 30 e vejo que cumpri apenas três dos itens listados já me sinto um homem feliz.

Tudo bem que isso não vai mudar a crise na Europa e nem vai ajudar a acabar com a corrupção no país, mas arrisco dizer que esse movimento de mudança torna possível uma vida mais tranquila, recheada de realizações... destas pequenas, mas reais, que cabem até em textos com três parágrafos.

Foto: Wolney Fernandes

domingo, 27 de maio de 2012

Segunda Tese


Eu insisto na segunda tese. Repare: uma mensagem assim não pode ser conjugada no passado.

Foto: Wolney Fernandes

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Mistérios Gozosos


A seleção que faço dos pensamentos vagos para postar aqui no blog pode até parecer toda a composição do meu horizonte pessoal, mas felizmente não é. Eu próprio, perante minhas escolhas, por vezes, ao escrever, me faço autor de uma escrita bonitinha, varrendo as farpas daquilo que me faz um cara normal para debaixo do tapete. Tudo como um filminho, todo "inho", tipo apresentação brega em Power Point.

Outro dia escrevi "punheta" em meio a palavras sobre as delícias da boca, e uma boa parte dos/as leitores/as conhecidos se empertigaram dizendo do estranhamento de ver expressão dessa natureza por aqui. Por minha culpa [minha tão grande culpa] mostro sensatez ao invés de confusão, sobriedade em vez de porraloquice, calmaria mesmo quando o peito parece um vulcão. Equilibrista em corda bamba, tudo suporto numa falsa inocência, tão linda que nem tenho noção.

Aliás, tenho sim! É, a verdade é que não consigo deixar de admirar as pessoas que têm o mundo dividido em dois. Aquela lição dicotômica e católica de bem e mal. Aquela coisa dos filmes de vilões e mocinhos que eu vivo tentando instaurar na vida real com minha parca pretensão de que os finais sejam sempre felizes.

No entanto, que a vida não tem cura, o tempo me ensina, dia após dia. Preciso mesmo é relativizar mais. Profanar mais ainda. Achar lógica na postura insensata e não me culpar por ser tão maleável, mesmo sabendo que nem todo mundo vai ficar satisfeito com minhas atitudes.

Sempre me mostro pelas idealizações. Platonismos. Exercício de suposições doces, irreais - mas tão boas para se matar o tempo e, assim, ser colocado em altares de pura ilusão. Sempre preferi dizer de um mundo edulcorado enquanto o coração, amargo, conjura pragas e maldições.

A verdade é que, silenciosamente, fito as pessoas e os problemas e as tempestades e as intempéries com olhos de-não-estou-nem-aí. Porque ninguém é só inocência, integridade e candura.

Pergunto: continuamos bonitos apesar das cicatrizes e das obscuridades que fazemos quando ninguém está olhando?

Leviano, sinto como se a beleza escorresse por meus dedos em mistérios gozosos. Porque minhas mãos, na verdade, são ásperas, duras, insensíveis. Quase estéreis. A não ser quando embalam punhetas de pura sacanagem e induzem a luxúrias e devassidões difíceis de nomear.

Imagem: Wolney Fernandes

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Dias silenciosos


De repente há tanta coisa na minha cabeça e nenhuma palavra que dê conta. Elas se recusam. Elas fogem para um lugar onde não consigo alcançar, num esforço teimoso e completamente inédito de autopreservação.

Faço isso porque a sensação que tenho é de que tudo me afeta, tudo me atinge, tudo é uma pequena prévia do apocalipse. As coisas que me dizem, as coisas que não me dizem, as coisas que dizem, mas puxa vida! eu gostaria ter ouvido de outro jeito...

E assim, meus dias se tornam mais silenciosos do que o normal.


Imagem capturada em minhas navegações pela internet. Infelizmente sem os devidos créditos. Se alguém souber a autoria é só gritar!

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Prece pelos contornos de uma nuca


Nesta semana matei minha vontade de assistir "Asas do Desejo" do Wim Wenders no cinema. Na sala escura, enquanto o calor de uma mão me aquecia, repeti baixinho a seguinte prece:

"Às vezes me canso dessa existência espiritual. Não quero pairar para sempre. Quero sentir um certo peso que ponha fim à falta de limite e me prenda ao chão.

Eu gostaria de dizer 'agora' a cada passo, a cada rajada de vento. 'Agora' e não mais para sempre e eternamente.

Ter febre, dedos pretos por causa do jornal. Não vibrar apenas pelo espírito, mas por uma refeição, pelos contornos de uma nuca, de uma orelha.

Sentir os ossos se movendo enquanto caminho. Supor em vez de saber sempre.

Poder dizer 'ah!', 'oh!' em vez de 'sim' e 'amém!'. Poder me empolgar com o mal, atrair todos os demônios da terra e sair pelo mundo".

Trechos do filme "Asas do Desejo" (Der Himmel über Berlin, ALE, 1987)
Imagem capturada aqui.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Dezessete de maio de 2012 - Quinta


Seir eu conheci em 1994 quando começamos a trabalhar juntos na escola da minha cidade-natal.

Manoela eu conheci em 2006 quando ensaiava voltar para a faculdade no desejo de fazer mestrado.

De cara, Seir e eu, sonhadores com um cotidiano escolar repleto de experimentações, nos aproximamos para pensar projetos, organizar desfiles históricos culturais e planejar inúmeras festas do calendário escolar encenadas em palcos montados nas carrocerias de caminhão.

Em 2006, Manoela me ensinou a carimbar imagens com borrachas brancas tirando o princípio da gravura de dentro dos ateliês para colocá-lo na palma da minha mão. Quatro anos depois, em 2010, em uma aula inaugural do mestrado, percebemos o quanto nossos desejos poéticos eram parecidos. Das muitas coisas em comum, o fato de nascermos no mesmo dia, 17 de junho, nos motivou a combinarmos um café que só se tornaria realidade um ano mais tarde.

De 1994 a 1997, Seir e eu compartilhamos risos frouxos, escrevemos juntos e encenamos entrevistas, brigas de mãe e filho e dirigimos as produções escolares mais divertidas daquela época. Depois disso eu me mudei para Goiânia e Seir, algum tempo depois, mudou-se para a Irlanda.

No ano passado, Manoela e eu firmamos parceria em uma disciplina de Poéticas Urbanas, pensada e ministrada em conjunto, e inauguramos uma amizade que rendeu um coletivo de arte, orgulhosamente nomeado de DUPLICATA17. Tudo isso para oficializar desejos e criar opções coletivas de encontros ligados a experiência de convívio e troca de afetos. Agora, em 2012, Manoela está partindo para Londres.

Hoje, 17 de maio de 2012:

Seir voltou da Irlanda e, embora ainda não tenhamos nos encontrado pessoalmente, hoje pela manhã ela me ligou e conversamos como se o tempo não tivesse passado desde que nos vimos pela última vez.

À tarde, Manoela e eu nos encontramos, por acaso, naquele que certamente foi nosso encontro de despedida, já que ela parte em dois dias para as terras da rainha.

Pelos [re]encontros e despedidas, os cruzamentos misteriosos que a vida traça cartografam uma geografia de sentimentos que me atravessa e tatua afetos em meu peito. São marcas que aprofundam relações e que reforçam vínculos de amizade e sincronicidade. As vidas destas duas amigas estarão [e]ternamente trançadas à minha própria história e, é por estas idas e vindas, que sigo celebrando o agora, o antes e todos os dias dezessetes que estão por vir!

Imagem: Manoela e eu na Praça 17 (Recife/PE) diante do monumento que marcou a chegada de aviadores no Brasil no dia 17 de junho de 1922. Foto de Alexandre Strapasson

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Delícias da boca


A boca é um paraíso pouco sagrado por onde a maioria absoluta dos desejos humanos precisam passar em algum momento.

Escrevi a frase acima umas 15 vezes antes de lhe colocar um ponto final. No final dos pontos é sempre assim: escrevo, apago, refaço. Redigo, repenso, até conseguir me distrair dos dias atarefados e abarrotados de leituras, acidentes no trânsito e rotinas que sufocam. Escrevo sobre as delícias da boca para que elas me tirem das obrigatoriedades e me levem a tentar outra coisa: tv, sofá, punheta, piquenique ou download de músicas aleatórias.

Outro dia, percebi que o luxo dos nossos dias é ter tempo para olhar para o tempo. Feito criança de interior que se diverte contando vagalumes ou tentando advinhar a sequência de acendimento das lâmpadas que iluminam a pequena cidade onde vive.

Ainda bem que, apesar das correrias, sempre dá tempo de conjurar pedidos para não lamentar os amores que desfiz com os próprios dedos e não esquecer a inutilidade que é correr de sol-a-sol perseguindo os desejos dos outros.

Se tenho obrigações? Muitas. Mas até arrisco dizer que há tanta vida para se enfrentar por aí que bom mesmo é cultivar essa vontade de bocas profanas. Daquelas que plantam oxigênio nos mergulhos do dia a dia e deixam ardências e sabores nos lugares mais inusitados. Daquelas que nos ajudam a perceber os próprios desejos sem o desvio natural da vergonha e da civilidade.

Foto: Wolney Fernandes

terça-feira, 15 de maio de 2012

Passageiro do fim do dia*


Nota falsa
Peço um vale transporte com duas viagens e pago com uma nota de cinco reais. Minutos depois o vendedor me interpela com cara de bravo, estendendo a nota em minha direção, diz: "Essa nota é falsa. Essa não aceito, não!" Calmamente eu pego a nota de volta e finjo trocar por outra na carteira. Sem perceber que lhe devolvi a mesma nota de antes, ele dobra os cinco reais e guarda no bolso todo satisfeito.

Educação
O ônibus pára e uma mulher corre da esquina até a porta do veículo. Sem fôlego, mas muito educada pergunta ao motorista: "Será que eu posso entrar?"

Sobre garotas
No banco detrás, dois adolescentes com pouco mais de doze anos conversam sobre garotas. Um deles cita uma menina nova que o amigo não conhece ao passo que esse pergunta: "E ela é bonita?". O garoto pensa um pouco e responde: "Comestível".

A Torta
A mulher sobe com dificuldade os degraus e se esgueira entre as pessoas para chegar à catraca. Em uma das mãos, um embrulho parece lhe tirar o equilíbrio. Ao conseguir dar dois passos em direção a uma cadeira desocupada, o ônibus freia bruscamente e o embrulho vai ao chão revelando seu conteúdo: uma torta doce que se despedaça corredor afora.

A pé
Apressado, subo no ônibus e respiro aliviado por conseguir um lugar vago para a viagem. O veículo dá a volta na Praça Cívica e não entra na avenida que eu achei que ele fosse virar. Puto de raiva, desço no ponto seguinte e resolvo ir a pé para o trabalho.

[*] Título emprestado do ótimo livro de Rubens Figueiredo
Imagem: recorte da capa do livro "Passageiro do Fim do Dia"

Românticos como antigamente



01. I'll Be Seeing You - Jimmy Durante
02. Back In The Crowd - Tom Waits
03. Autumn Leaves - Nat King Cole
04. A Song for You - Donny Hathaway
05. Não Precisa Chorar - Roberto Carlos
06. For Your Precious Love - Otis Redding
07. Strangers in The Night - Frank Sinatra
08. Peito Vazio - Cartola
09. For You - Johnny Cash
10. Ultimo Desejo - Wilson das Neves

Imagem capturada aqui.

sábado, 5 de maio de 2012

Agridoce


Percebo tantos defeitos ao olhar no espelho do outro - e tenho medo de faltar, de não ser bom o suficiente. De escancarar o coração e parar em lugares onde nada sei dizer, onde nada me faz sorrir [de novo!]. Mas no inquérito dos dias partilhados, as respostas são dadas pelas ações que ultrapassam a efemeridade das palavras. E isso me basta!

Tenho vontade de fazer planos, mas eles se diluem porque talvez eu queria mesmo é uma epifania, destas óbvias, brilhantes e simples. Mas apesar desse desejo, sei que a vida não é assim. Sei disso pelo afeto que me atravessa não apenas pelas vias do prazer, mas também pela racionalização dos movimentos cotidianos, suas sombras e por aquilo que não é dito.

Acredito numa espécie de fé: de que tudo irá se resolver. Mesmo sabendo que, às vezes, este caminho não seja de todo indolor. Tentam me convencer que vivo numa irrealidade otimista e que logo logo virá a vida cobrar o seu preço: desde as horas de estudo que estrategicamente negligencio enquanto vou ao cinema ou até percebendo que a consciência dos outros talvez seja muito mais estreita do que se prega.

Dizem que me iludo. Daí me questiono: será? O mundo é tão grande que não acredito que não exista um quinhão para eu ser feliz. Não exijo muito, acho. E se tudo der errado, sempre existe o fôlego pra recomeçar.

Tem dias que fecham assim, agridoces. No decorrer destes dias ando pé ante pé, silenciando a respiração e esperando que o que vem, o que será, aí sim, arrebentará em doçuras indizíveis.

Imagem capturada aqui.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Asas de Papelão


Estes dias pelos versos de Amália Rodrigues

Talvez que o anjo esquecido,
O anjo da poesia,
Se tenha de mim perdido
Sem reparar que o fazia...
Por isso me faltam asas
E me sobejam as penas
De um desejo inalcançado:
Que eu gostava de voar
Até ao anjo perdido
O anjo de mim esquecido,
Que por mim é tão lembrado.
Ai se eu tivesse voado
Aonde queria voar
Não estava agora a rimar
Versos de asas cortadas.
Voava junto de si
Assim fico aonde me vê
Mesmo pregadinha ao chão
Com asas de papelão
E sem entender porquê.

Texto: Trecho do poema de Amália Rodrigues
Imagem capturada aqui

terça-feira, 1 de maio de 2012

Eu, leitor


Eu aprendi a ler em uma cartilha azul com uma fada na capa. O título eu não lembro, mas sei dizer das volutas que moldavam cada cacho do cabelo da fadinha que eu desenhava exaustivamente.

Meu primeiro gibi era um do Chico Bento, de 1982, que eu mantenho até hoje com certo orgulho. A porta de entrada no mundo dos quadrinhos foi pela Turma da Mônica, mas transitei pelos clássicos Disney - de Tio Patinhas a Urtigão - passando por uma fascinação pelo Homem-Aranha e toda legião de heróis dos universos Marvel e DC.

Na escola, mergulhei na literatura pela Ciranda de Livros e sei de cor e salteado os títulos que lia e relia sem me cansar: O Menino Maluquinho do Ziraldo, Caçadas de Pedrinho de Monteiro Lobato e A Bolsa Amarela da Ligya Bojunga só para citar os que me atravessam até hoje.

As revistas de moda e fotonovelas da minha mãe ajudaram a cultivar meu amor pelos periódicos e meu sonho em trabalhar numa banca de revista para poder ler o dia inteiro.

Na adolescência conheci os livros de bolso da literatura pulp e devorei histórias de amor aos moldes dos romances açucarados do tipo Júlia, Sabrina e Bianca. Dos mistérios de Agatha Chistie eu nunca conseguia descobrir quem era o assassino, mas me deleitava em saber cada detalhe dos crimes ardilosamente calculados e tão bem descritos nos livros da autora.

Pelos livros da Ediouro [que podiam ser encomendados pelo correio] me aventurei nas histórias em que eu podia decidir o final e passeei por cavernas com Ali Babá! Quando entrei em uma biblioteca pela primeira vez, meu amor pela literatura nacional estava latente. Foi nessa época que me encantei por Machado de Assis, José de Alencar e tantos outros figurões da nossa história.

Ainda hoje, toda vez que entro em uma livraria, minha vontade é sair de lá com um livro que me rouba o olhar pela capa ou que me seduz pelas linhas das sinopses tão bem escritas em orelhas cada vez mais sofisticadas. Assim, a pilha de livros vai aumentando, naquele movimento lento que, sem pressa ou hora para terminar, vai desfiando leituras de todo dia... de dia inteiro.

Foto: Wolney Fernandes