sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Ouvir para Ver

I See You - Mika
O seu Olhar - Ceumar
Suddenly I See - KT Tunstall
I've Got to See You Again - Norah Jones
Sombra em nosso olhar - Selma Reis
You'll See - Susan Boyle
Sob o efeito de um olhar - Guilherme Arantes
Seeing Other People - Belle and Sebastian
O Olhar - Madredeus
I See You - Leona Lewis

Imagem capturada em http://www.tapedeck.org/icm/

Capas de roxos tipográficos

Uma capa roxa para o caderno de professor.
Um nome decomposto em tipografias embaralhadas.
Uma pincelada de meninice recortada.

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Permissões

Querida Sofia,

Meu olhar arde buscando repouso em imagens conhecidas. Pela janela salpicada de chuva é difícil reconhecer a paisagem dos dias quentes. São 2h58 da madrugada. Há quanto tempo estou aqui? Eu me pergunto pelos tempos de antes... pelos meus próprios tempos. Ultimamente, eu, os tempos e os lugares parecemos meros desconhecidos.

Estranho perceber como estes desconhecimentos revelam meu avesso. E, desse outro lado, percebo que minhas preleções nunca resistem ao peso das realidades e, ao confrontá-las, só consigo afirmar minha perenidade.

O que há de concreto em mim, escondo! O que sobra são virtudes inventadas. É embaraçoso descobrir-me sem coragem pra cuidar daquilo que meu corpo - desprezado - padece. Olho e não tenho argumento contra meu olhar.

Minhas intermináveis sessões de cinema e computador justificam os olhos vermelhos e inchados pelas distâncias. O reflexo no espelho zomba da minha inércia ao tentar encontrar a beleza que eu nunca terei. Minhas insônias esbofeteiam minha face de moço feliz enquanto as dores de cabeça do lado esquerdo sinalizam patologias invisíveis.

Ao pular de segunda em segunda, lanço mão da influência gerada pelas expectativas e me contento com elas. Prendo a respiração diante da janela e, em silêncio, como em uma oração, aceno para a espiritualidade que deixei pra trás fazendo um gesto obsceno. Despido das amenidades que cobrem minhas chagas, me permito, pelo menos nesta madrugada sem fim, lançar-me em melancolias e dores que não passam.

Beijos nauseados.
Wolney

Imagem: Wolney Fernandes

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Por aí

No parapeito da janela:
"Voe!"

Na capa do notebook:
"Na vida não existe Ctrl+Z"

Na loja de DVDs:
"- Minha mãe me proibiu de ver esse filme - diz a adolescente para a amiga, apontando 'O Segredo de Brokeback Montain'.
- Por que?
- Porque meu pai estava na sala e é um filme de gays. Disse que não era bom ficar vendo aquelas coisas. Você nunca viu?
- Vi sim, eu acho a história bonita, tirando a parte da "semvergonhice", é claro!"

Na voz da Céu:
"Minha natureza é mais que estampa"

Imagem: Wolney Fernandes

ETV - 03

Proposta de Adriano Antunes:

"Tudo acabado. Queria não ter escrito. Não conte nada a ninguém. - Helen.
Mas Tia Juley já havia partido - partido definitivamente, e nada no mundo seria capaz de detê-la."

E.M.Forster "Howards End" (1910)
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De Wolney Fernandes, "AUSÊNCIAS"


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De Adriano Antunes, "LIGAÇÕES"

Mas o que ela não sabia
E por certo não esperava
Que seria alvejada
Pela força da palavra.

Abriu o envelope delicado
De amarelo pardo encerado
Que em folha alva dobrada
Exibia o detalhe que faltava:

“Maria da Luz não é sua verdadeira mãe”... dizia

Com injetados olhos de tristeza
Entre espasmos e histeria
Os dedos trêmulos atestavam
Que sua vida mudaria.

De afeto legítimo, registrado
Se possível fosse, faria
Um NÃO tremido, covarde
Daquela frase excluiria.

Ancorado na pequena palavra
O peso de sua história resistia
De um lado o inesperado aguardava
E do outro a certeza lhe sumia.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

"Sem nada de próprio"

Projeto Gráfico e parte das ilustrações para a Agenda da Rede Educacional Franciscana (REF).

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Onde vivem os Monstros

"Onde vivem os monstros" (EUA, 2009) é um daqueles filmes que fazem a gente olhar para dentro de nós mesmos/as sem permitir que passemos imunes às inquietações (boas ou ruins) que nossos medos e incertezas teimam em sacudir.

Apesar de ser inspirado no livro infantil de Maurice Sendak, alerto aos pais, mães e tios/as desavisados/as que o filme em questão não foi feito para crianças. Embora trate essencialmente de infância, a narrativa nos impele a enxergá-la pelo viés complexo que emoldura nossos amadurecimentos.

Tal qual no livro de 1963, Max é um garoto que, depois de uma malcriação, se isola de todos e entra em um mundo só seu, onde vivem os tais monstros do título. Daí, então, passamos a uma viagem de imaginação onde cada um dos bichos peludos são projeções de aspectos da personalidade do garoto e, por vezes, da nossa própria.

Saí do cinema tentando, em vão, localizar em minhas memórias o(s) fato(s) que fez o wolney-adulto se despedir do wolney-criança. "O que teria feito brotar minha adultice?"

Respostas não tive ainda e, confesso que nem sei ao certo por que eu quero responder esta pergunta. O fato é que o filme transmitiu-me de forma eficaz, pelo olhar de serenidade de uma criança, que nem sempre "a felicidade é o único caminho para ser feliz".

Imagem capturada em http://holyjunk.files.wordpress.com/2009/10/onde-vivem-os-monstros_wallpaper.jpg

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Inacabada Criação

Ainda arde em meu peito as palavras de J. R. Duran para a revista TRIP de dezembro de 2009:

"Sou um homem que acredita, que tem fé. E me parece que as duas coisas [fé e ciência] se complementam. Explico. O fato de Deus ter feito o homem à sua imagem e semelhança em sete dias não quer dizer, necessariamente, que os dias bíblicos tenham 24 horas. Penso que podem ser anos, ou séculos. O que seja. Poderia fazer um pequeno sofisma aqui e dizer que, pelo andar da carruagem, pode-se imaginar que esses sete dias não tenham nem passado ainda. O mundo não estaria pronto [...] Isso sim seria fantástico."

Para ler o texto na íntegra, clique aqui.
Imagem: Ilustração de Wolf Erlbruch para o livro "A Criação" de Bart Moeyaert.

Realidades possíveis

Depois da partida, chego em casa e percebo que falta um sorriso, uma brisa de cumplicidade, um compasso de dança, um verbo no infinitivo inventado e terminado em "ge"... Choro baixinho as ausências, mas recito amores-perfeitos que adornam sonhos distantes. E assim, em mim, florescem realidades possíveis.

Imagem: Wolney Fernandes

Três Corrupios

Em dois tempos chegaram os três Corrupios desejados. Todos caprichosamente embalados e prontos para usos descabidos. Adorei!

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Operação Alfa-Beto

Com soldadinhos recrutados em feira de antiguidades (presente do Berg).

"Eu não sei desenhar"

Quantas vezes a gente já pronunciou ou já ouviu esta frase? Toda vez que isso acontece, nos esquecemos que desenhar é projetar, com os olhos, com o corpo, com as mãos, com a mente, com nossos desejos.

As imagens abaixo (uma pequena seleção dentre muitas) mostram uma maneira de fazer isso sem utilizar lápis e papel. As autoras são alunas da oficina de desenho que ministrei no mês de janeiro.

"Scooby Doo" [óculos e ventilador]
Joventina Camêlo Moreira


"Casal de Namorados" [alças de sandálias]
Jacirema Teixeira da Costa


"Sem Título" [peças de roupa, sapato e brincos]
Lucineide Pereira Dutra Ramos


"Robô" [celular, alicate, caixa e talheres]
Cláudia Drigo


"Moça Elegante" [bijouterias e tecido]
Míriam de Oliveira Sebastião Moura

ETV - 02


Proposta de Wolney Fernandes:

"Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome."
(Clarice Lispector em Perto do Coração Selvagem)
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De Wolney Fernandes, "O que não se nomeia"

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De Adriano Antunes, "O Retorno"

Acometido de uma gana instintiva pelo desconhecido, de ultrapassar limites, de estabelecer nova ordem, certa manhã, resolvi fugir.

Desesperava-me viver naquele mundinho restrito, naquele lugarejo ultrapassado, sem provar das maravilhas do mundo. Acreditava-me, que um mundo perfeito deveria existir em algum lugar, e se me desse ao luxo de ali ficar, jamais o encontraria.

Coloquei a velha mochila nas costas. Caprichei na quantidade de coragem e vaidade e fui bem econômico com a humildade, afinal; um guerreiro deve ser altivo, destemido e imbatível.

Percorri os mais variados caminhos. Em alguns lugares fiz amigos, colhi sorrisos e semeei meus sonhos. Noutros, recebi incompreensão, deixei cair lágrimas de desencanto e solidão, mas nunca deixei que percebessem o medo da derrota em meus olhos.

Refugiava-me na desculpa de estar lutando pelo meu sonho, de estar tentando ser feliz. E se alguém se machucasse no caminho: ”paciência” - gritava eu – “culpem o cosmo pelo estrago”.

Mas numa tarde quente de verão, de sensação térmica beirando 45ºC, percebi que o chão se abrira em profundo abismo sob meus pés. Não conseguia acreditar no que via. Em segundos meus planos se desfizeram. Olhei para os lados e percebi que a fenda varava leste a oeste. Contorná-lo fazia-se impossível. Minhas forças não seriam suficientes para mais uma tentativa insana. Restava-me pular ou retornar. Então, embora cansado, optei por viver.

Olhei para trás. Observei meu rastro. Não havia percebido que chegara até ali arrastado. Aos poucos fui tomando conhecimento dos meus passos. Pude ver cada tropeço, cada corrida, cada fuga, momentos de hesitação; outros de excitação e alguns onde caminhava em círculos, perdido.

E foi nessa longa volta ao início, no micro-cosmo da minha insignificante e bela infância; de desajeitada e rebelde adolescência, que encontrei exatamente o que eu não via: a liberdade de estar justamente onde se deve estar.

O que eu quero agora, talvez não tenha nome, mas sei que está aqui, plantado, enraizado no afeto daqueles que incondicionalmente esperaram meu retorno.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Invencionices

Bom é perceber que minha memória se tornou imaginação. Assim, as lembranças da minha infância começam a inventar alguns dos meus dias de adulto. Quero livros escritos com terra e lápis de cor. Rabiscos ditando a pedagogia das nuvens, dos silêncios, das cambalhotas, da bolinha de gude e beijo no pescoço.

Imagem: Wolney Fernandes

O "bichinho" da maçã

Chegou!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Preciosa

Preciosa (Precious, EUA, 2009) é um filme pequeno de temática universal que revela cenas de uma vida de silêncios e privações. A narrativa apresenta uma adolescente obesa, analfabeta e grávida do segundo filho, fruto do incesto cometido por seu pai alcóolatra.

Espancada pela mãe (vivida pela comediante Mo'Nique em atuação visceral) e basicamente ignorada pelo mundo à sua volta, Clareece Precious Jones empreende uma jornada em busca de uma segunda chance em uma escola experimental. As muitas tragédias que cercam a vida da protagonista dizem mais da esperança perdida e depois reencontrada do que propriamente das obscuridades típicas uma vida sem perspectivas.

É esse equilíbrio entre a realidade opressiva da personagem e sua esperança, quase impensável, em deixar os dramas para trás que faz de "Precious" um filme intenso e eficaz. Mais do que resultados, o filme apresenta processos. Os caminhos percorridos vão desenhando transformações sutis e encorajando-nos a desengavetar os melhores aspectos da natureza humana.

Para ver o trailler do filme, clique aqui.
Imagem capturada em http://www.adorocinema.com/filmes/preciosa/

Ainda é tempo

E de repente, já é mais tarde do que a gente imagina e mesmo ali, depois do ponto almejado, ainda é tempo de acordar de nossa letargia e voar.

Imagem: Wolney Fernandess

Entretextos Visuais - Edição 2010

O projeto "Entretextos Visuais" (ETV) nasceu de um diálogo entre um escritor e um ilustrador que, em maio de 2009, começaram a trocar experiências pelos percursos da escrita e da imagem. A cada semana, um tema gerador impulsiona criações variadas entre as duas linguagens. A cada semana, similaridades ou disparidades criam relações textuais e visuais para além das intenções de cada um.
A edição de 2009 contou com 13 propostas. Agora, à partir do post abaixo, damos início à edição 2010 do projeto.

ETV - 01

Proposta de Adriano Antunes:

"Senhor... Mire veja: o mais importante e bonito,

do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre
iguais, ainda não foram terminadas - mas
que elas vão sempre mudando."

(Luiz Horácio - Jornal Rascunho Agosto/09)
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De Wolney Fernandes, "[In]completudes".

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De Adriano Antunes, "Ponto de Partida".

- Eu não lembro bem a data, mas o cheiro de terra úmida do pátio da casa de minha avó, ah senhor, prendeu-se ao meu nariz.

Fez uma pausa, olhou o céu e continuou:

- Toda vez que minha família chegava de cansativa viagem desde Santa Catarina para férias na casa de minha avó Alice, meus olhos pequeninos procuravam identificar as grandes ruas, as árvores floridas e a terra arenosa, úmida, que se estendia do portão por entre as folhagens até a porta da cozinha.
Meu coração batia descompassado.

Sorriu por um instante, inclinou a cabeça para o lado e logo os olhos brilharam:

- Eu corria na frente de todos e afoito empurrava aquele portão de ferro pesado pintado de verde escuro. Contornava a casa em direção a cozinha, passando as mãos em um canteiro de margaridas que indicavam o caminho com uma sequência de dentes branquinhos a sorrir e dar boas vindas.

Levantou-se, foi até a sacada em apenas dois passos. Olhou a cidade.

- Eu adorava o conjunto de xícaras de minha avó Alice. Ela sabia telepaticamente, como toda avó, e me esperava com leite quentinho na xícara que eu mais gostava. Era um conjunto de porcelana muito delicado e pintado a mão, como tudo naquela época, onde gnomos faceiros, multicoloridos, trabalhavam alegremente. Eu os achava tão felizes que me tornava feliz em observá-los.

Parou na entrada, pensou um pouco, depois continuou:

- Havia uma grande taquareira nos fundos da casa. Era o quartel general de meus primos. Ali, escondidos por entre taquaras e folhas secas, bolávamos os mais mirabolantes planos. Inclusive o de fugir de casa quando nossos pais exigiam tema feito e banho tomado.

Olhou desta vez para o pequeno apartamento. Observou a mobília, os quadros, as cores. Desviou o olhar novamente para a sacada.

- Hoje, depois de muito tempo, permiti ao meu corpo de adulto percorrer os arredores de minha infância. Sinto que nesses anos todos impermeabilizei o olhar sobre o meu passado andando por caminhos definidos, paralelos. A casa de minha avó continua lá. Três ruas daqui. Mas eu fui crescendo e limitando minha vida ao meu estacionamento, ao prédio, ao horizonte distante que vejo da minha sacada. Mas hoje, por quase duas horas, percorri meu bairro. Reconheci a Relojoaria Lino, onde minha mãe comprou meu primeiro relógio e me transformou em senhor do tempo; o Mercado Rabaioli, de pães quentinhos pela manhã e corridas urgentes no meio da tarde, quando de súbito faltava manteiga para o lanche da gurizada; a Estofaria Estrela, com seus sofás encalhados, na frente do prédio, expondo suas vísceras de espuma.

Sorriu.

- O bom da vida é isso: as coisas só desaparecem quando morrem dentro da gente.