domingo, 27 de novembro de 2011

Sobre o grande amor


"Eu sempre achei que o amor, o grande amor fosse incondicional. Que quando houvesse um grande encontro entre duas pessoas, tudo pudesse acontecer. Porque se aquele fosse o grande amor, ele sempre voltaria triunfal. Mas nem todo amor é incondicional. Acreditar na eternidade do amor é precipitar o seu fim. Porque você acha que esse amor aguenta tudo, então, de um jeito ou de outro você acaba fazendo esse amor passar por tudo. Um grande amor não é possível. E talvez por isso é que seja grande - para que nele caiba o impossível."

Texto da série "Afinal, o que querem as mulheres?"
Imagem: Ilustração de Olaf Hajek

Delícias em papel pólen


01. Travessuras da Menina Má - Mário Vargas Llosa
02. Dois Rios - Tatiana Salem Levy
03. A Arte de Viajar - Alain de Botton
04. Reflexos e Sombras - Saul Steinberg
05. Nada a Dizer - Elvira Vigna
06. Coração - Edmondo De Amicis
07. Quando eu Nasci - Isabel Minhós Martins
08. Liberdade - Jonathan Franzen
09. Na Estrada - Marcos Strecker
10. Asterios Polyp - David Mazzuchelli

Foto: Wolney Fernandes
Sede
A Todo Instante por Adriano Antunes


Longo é o caminho que percorro a procura de respostas para indagações antigas. Percurso intransferível que gera desconforto, totalmente compreensível, como sentir sede no deserto. O viver ensina, e a todo instante surge nova peça desse quebra-cabeça gigante, composto por inúmeros efeitos sem aparente causa. Sigo a dica dos testados, ato contínuo, inicio pelos cantos sem noção de centro, remonto a causa pelos efeitos, esforço paciente. Ontem, asas amarradas ao solo; hoje, tentativas de vôo raso, rápido, observo maravilhado, a sede de busca que sempre habitou em mim.

Adriano Antunes ventila escritas vindas do sul com a propriedade de quem deixa pegadas difíceis de apagar. Para seguir seus rastros, clique aqui.
Imagem: Marcelo Fedrizzi, fotógrafo

Onde começa a saudade


A saudade não começa no aeroporto e nem quando o carro desaparece estrada afora. A saudade não começa no adeus ou no último suspiro compartilhado. A saudade não começa quando tento mapear os cheiros pelo abraço. A saudade começa quando o fim se desenha no horizonte. A saudade começa quando, desajeitadamente, começo a vivenciar rotinas que a minha vida terá durante a ausência.

Foto: Wolney Fernandes

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Desassossego


A vontade de escrever foi mal educada comigo hoje. Tanta coisa pra acabar, mas precisava registrar em escrita borrada, um desassossego. Não espero ser inteiramente preenchido, mesmo tentando de várias formas cruas me sentir aquecido por dentro.

Em minha reabilitação particular, fico com preguiça dos planos que eu próprio tracei e, para esquecê-los, eu durmo. Se pudesse, não sairia do meu quarto, mas a vida me apressa. Pareço não ter direito a folgas. E eu que sonho tirar uma pequena folga das minhas ansiedades causadas pelos projetos riscados ou de risco, não sei...

Nos últimos dias eu busco uma doce sensação de uma noite durante a chuva, quando a ansiedade é banhada pelo frescor dos sossegos. Daqueles despidos de pretensões, mas tatuados com liberdades.

Foto: Wolney Fernandes

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Para meu querido Wolney, com amor.
A Todo Instante por Gwavira Gwayá


A todo instante, a vida pode nos surpreender. Qual a melhor maneira para estarmos receptivos às surpresas? Será preciso andar distraídos por veredas pouco familiares? Ou seria melhor nos colocarmos atentos, observadores obstinados? Não nos é dado saber, jamais... Quando a vida explodirá a poucos passos de nós, rompendo cascas, ali, à beira da via movimentada, na forma de uma ninhada de quero-queros? Como saber qual sobreviverá à difícil travessia dos primeiros dias? E, de repente, a breve visão da luz da manhã banhando a cria nova, depois da chuva, sob os olhos atentos do casal de quero-queros, prontos a atacar qualquer visitante indesejado... Pronto: o dia já terá valido a pena!

Gwavira Gwayá
Terra Gwayá, 9 de novembro de 2011

Gwavira Gwayá borda delicadezas e trança alegrias com risos soltos. Possui a voz mais linda que eu já ouvi e tem um blog de notas e rabiscos. Para conhecer mais, clique aqui.

Mapeando abandonos


São Luís em ruas de pura poesia e abandono:

Rua do Alecrim, Rua dos Prazeres, Rua dos Afogados, Rua da Viração, Rua do Veado, Rua da Palma, Rua do Giz, Rua da Alegria, Rua da Estrela, Rua do Sol, Rua Azul, Rua das Flores, Rua da Saudade...

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

[a]guardando instantes
A Todo Instante por Odailso Berté


Instantaneamente vários deles desfilam pela minha memória: o poço onde fios de cabelo viravam cobras, o açude rodeado por pés de ariticum e guavirova, o parreiral onde a cobra verde me assustou, os canteiros de flores que ajudei minha mãe fazer, a xícara de café com leite sobre a mesa na manhã em que acordei sozinho, o dia em que calcei uma sandália feminina envergonhando meu pai perante amigos, a flor amarela que avistei perto do limoeiro, as garças brancas na aveia verde, o lapso entre o músico e o policial, amor e título, exigência e displicência, o medo de...

Desde sempre os movemos e somos movidos por eles. Revendo-os me abraço e me [co]movo. Vou e volto neles, pois me constituem. Os que foram e os que virão, com suas cobras, flores, sandálias e amores.

Parafraseando Cazuza, o instante não pára. O mundo não pára, nos não paramos. Quer dizer, um dia vamos parar, depois de [a]guardarmos muitos instantes. Mas eles seguirão acontecendo.

Odailso Berté veio do sul e vive inventando passos de dança para levantar a poeira e as folhas do cerrado. Para conhecer mais: Dançamentos

Na hora do lanche


Um dia antes, Dona Biga entrava nas salas de aula para avisar da sopa do dia seguinte. Das hortas cultivadas no quintal das casas, saíam tomates, cebolinha, batata doce, cenoura e até giló. O caldo da sopa ficava bem mais consistente com a contribuição da meninada.

Sirene não havia. A marcação do recreio era feita pela entrada da merendeira com as tijelas de plástico azul em um grande tabuleiro. Nessa hora, todos entoavam desafinadamente "Bom dia, merendeira como vai?..."

O cardápio, variado, era sempre intercalado por lanches gostosos: sopa, arroz com carne, paçoca, macarrão com sardinha e feijão tropeiro [quem levasse ovo, tinha direito de ter a iguaria inteira cozida no meio do feijão]. Nos dias fracos eram servidos leite com bolacha ou mingau [que de gostoso só tinha a cor].

O sabor dessas lembranças eu encontrei dentro da mesma vasilha azul que ainda serve a merenda em muitas escolas por aí.

Foto: Wolney Fernandes

Quando


Roberto Carlos eu descobri há pouco em lindas canções dos anos 60.

01. Não precisas chorar
02. Eu te darei o céu
03. Ar de moço bom
04. Quando
05. Eu te amo, te amo, te amo
06. Quero ter você perto de mim
07. Eu não vou deixar você tão só
08. É tempo de amar
09. Como é grande o meu amor por você
10. O tempo vai apagar

Imagem: detalhe da capa do LP "O Inimitável" de 1968.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011


Perca=Encontre
A Todo Instante por Cristian Mossi


Cristian Mossi vive em Santa Maria no Rio Grande do Sul. Para conhecer mais: meus(des)enredos

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Autorretrato*


Me colaram no tempo, me puseram uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo, a leste pela impossibilidade de voar, a oeste pela minha educação.

Me vejo numa nebulosa, fluido... mesmo assim, me puseram o rótulo de sério, centrado. Vou rindo, vou andando aos solavancos. Desenho, rio e choro. Estou aqui e ali em desarticulações de dar dó.

Sou um cemitério pelo avesso, pois meus mortos estão em covas rasas. Carrego minhas saudades com o carinho de quem vive pelas memórias. São elas que me revelam o sentido verdadeiro das coisas. A morte só pesa por fora, tudo por dentro tem intenção de vida.

Toda segunda eu deixo de lado minhas imperfeições para, então, recolhê-las na terça. Ô caminho longo esse que coloca na vida o gosto de brevidade. Escrevo, agora, querendo terminar logo, no desejo tardio de ainda escrever muito.

Gosto do vento que me suspende os passos e, vez por outra, bagunça todas as agonias. No espelho, fico aliviado quando não me reconheço. Tenho vontade de inaugurar no mundo o estado de bagunça transcendente. Mas sou a presa do homem que fui há vinte anos passados, dos amores raros que tive, de uma vida de planos ardentes, de desertos vibrando por instantes de felicidade.

(*) Postagem de número 1000.
Foto: Wolney Fernandes