quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Fórmula para o meu coração

Faz de conta que não tem nome. É uma sensação mais ou menos assim: a gente sorri de graça, e assim, docemente o controle se perde enquanto os sorrisos se encontram, e o céu se pinta de cores variadas, desfocadas - e mais, por favor, mais.

Tem fórmula para conquistar um coração? Tem, se esse coração for o meu. Tem, na medida em que essa fórmula é uma não-fórmula, na medida em que ela se forma enquanto se descobre os ingredientes tão únicos e já básicos da receita:

- 1 par de olhos da cor de tamarindo;
- 5 dedos direitos, dali, ávidos por encontrarem 5 dedos esquerdos de cá;
- 3 convites para ler livros infantins e de lá ver a lua, alta no céu;
- 1/2 dúzia de medos bobos;
- 3 casquinhas de sorvete de uva com abacaxi;
- 3.217 afinidades desconcertadamente alinhadas e gracejantes;
- 3 palavras bem compostas e dispostas, preferencialmente encadeadas na seguinte seqüência: "companheiro - amigo - amado."

Voilá! Devagar os pés - aqueles, que já tornavam a se acostumar ao frio e duro chão - ficam leves, como querendo dançar, como querendo subir.

"E há de se ter prudência e calma".
Respondo a esse escaldado e melindroso interlocutor do lado de lá do espelho, que lhe entendo e respeito os calos, mas a ele defendo, como se a mim, porque eu quero experimentar a sorte de um amor com paradoxos visíveis: ao mesmo tempo sereno e intranquilo como borboletas risonhas turbilhando o estômago. Amor daqueles que nos fazem perder as estribeiras, rir de besteiras e escolher trilhas sonoras para fazer chegar presenças a um coração que pulsa a cinco fronteiras daqui.

Imagem: Wolney Fernandes

Mais Madonnas

Quando Madonnas viram estampas de camiseta.

Livro da minha infância

Ganhar presente que a gente deseja há tempos é tão bom quanto sorvete de casquinha em dias de sol forte. Desta vez foi uma edição velhinha (do jeito que eu gosto) da Bolsa Amarela. A cada página folheada sinto o gostinho bom dos meus 9 anos. O curioso é que naquela época eu queria muito ser adulto e agora, sendo adulto, minha vontade é reviver aquelas sensações de criança. Vai entender...

Foto: Wolney Fernandes

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Estrada de neóns vermelhos

O vermelho dos faróis se transmutam em neóns que iluminam a noite. Enquanto caminho no compasso sereno do meu coração, minha cabeça revisita as impermanências que me cercam. O universo da minha solidão é permeado de vários funerais reservados. Me enterro e desenterro várias vezes. Sou aquele homem de 34 anos, com a barba por fazer, que desistiu da coerência na esperança de que do caos brote o pânico que resulte na fuga e no prazer de não saber mais onde piso.

Procuro reconhecer minhas fragilidades no reflexo que a chuva fina deixa na calçada. Antes, o único lugar seguro no mundo era aqui dentro de mim. Agora não mais. Sinto-me estrangeiro em minha própria terra. Pareço caminhar numa estrada de neóns vermelhos... pulsantes...

Molho meu AllStar na tentativa de desfazer a poça lameada de medos. Enquanto o tempo passa, um hedonismo toma conta de mim e faz com que eu não queira passar pelas coisas chatas para atingir meu deleite. Não, não quero utopias de felicidade. Desejo felicidades que eu consiga guardar no bolso de minha calça jeans.

Imagem capturada em http://flickr.com/photos/50378195@N00/1060177877

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Nas cores de Porto Alegre

Traços e cores de um final de semana com tantas bonitezas e gostosuras em Porto Alegre.

Fotos: Wolney Fernandes

Personagens Itinerantes

De dentro do ônibus, vejo a vida acontecer em seus pormenores:

Cena 01
O casal de namorados chora na hora da despedida. Ele embarca. Ela dá a volta para vê-lo pela janela do ônibus. Palavras de amor são balbuciadas no silêncio transparente que o vidro da janela constrói. Ela beija a aliança prateada que enfeita sua mão direita. O ônibus parte... Ela permanece imóvel, chorando na plataforma da rodoviária.

Cena 02
Um rapaz de 30 anos atravessa o país com a esposa e três filhos pequenos. A partida do Maranhão, na quinta-feira, só encontrará chegada em Santa Catarina, no domingo. A proposta de um salário de mil reais tira a jovem família de sua terra natal para inseri-la em uma região desconhecida. Ali, uma vida inteira cabe em duas malas, três sacolas e um sonho de felicidade.

Cena 03
O garotinho chora no colo do avô que sussura pacientemente um pedido de silêncio. O choro tem a distância que separa Goiânia de Minas Gerais.

Cena 04
A moça com a mala azul abraça o livro que carrega nos braços enquanto as lágrimas correm em seu rosto pálido. Ela olha o celular e seus olhos parecem não enxergar o que a diminuta tela lhe mostra. O mundo que a rodeia se esvai em imagens sem foco. Ela tira um envelope de dentro do livro e rasga, como se naquele gesto depositasse toda a raiva escondida no choro contido. Seu olhar contempla a madrugada. Decidida, ela adentra a escuridão da cidade empurrando a mala azul.

Imagem: Wolney Fernandes

sábado, 17 de janeiro de 2009

Minutos antes de ir

Mantra para a viagem:

"Mais que tudo quero ter
Pé bem firme em leve dança
Com todo o saber de adulto
Todo o brincar de criança."


Agostinho da Silva

Imagem: Wolney Fernandes

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Culpa Zero

"Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres:
Primeiro: a dizer NÃO.
Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO.
Culpa por nada, aliás.
Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero.
Pois inclua na sua lista a Culpa Zero."

Tá anotado! Vou já incluir na minha lista.

Trecho do texto "Mulheres Possíveis" de Martha Medeiros, publicado na Revista do Jornal O Globo.
Imagem capturada no blog de tirinhas do Recruta Zero. Eu recomendo!

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Costuras

Dois livros de moda do brilhante Ronaldo Fraga para ajudar alinhavar a forma e o conteúdo da minha dissertação sobre oralidade e representações visuais. O resultado dessa costura, só em março!

Imagem: Livro Moda, Roupa e Tempo e Coleção Moda Brasileira - Ronaldo Fraga

Quando se aprende a sorrir

Quando se aprende a sorrir...
os instantes transmutam-se em eternidades;
Quando se aprende a sorrir...
a esperança-menina sobe no pé de fruta madura;
Quando se aprende a sorrir...
suspiros, aromas e bonitezas perpetuam presenças;
Quando se aprende a sorrir...
corações se transformam em casas com varanda;
Quando se aprende a sorrir...
as vontades se colorem de realidades.

Fotos: Wolney Fernandes

sábado, 10 de janeiro de 2009

O Corpo é o que você gosta

Arte para a capa de DVD do espetáculo "O Corpo é o que você gosta" da Cia. Sarx de Teatro-Dança.

para Francisco



Nascimento e morte compõem o ritmo natural da vida. No entanto, quando os dois acontecimentos se cruzam na vida de Cristiana Guerra ela decide criar um blog. O "Para Francisco" foi o jeito que a publicitária mineira encontrou para apresentar ao filho Francisco, o pai, que teve morte súbita dois meses antes do nascimento do bebê.

O blog fez tanto sucesso que virou livro. Tocante e intimista, o livro traz textos do blog misturados à fotografias, letras de música e correspondências trocadas pelo casal. Um livro cuja ousadia vai além da tristeza para tocar na força que constitui a natureza humana. Seja em momentos de dor ou na vivência de um amor constituído pelos movimentos delicados do cotidiano:

"Começo pelo fim. Depois da morte do seu pai, meu coração me contou minha própria história, seguindo a ordem do que para ele era mais importante.Escrevi. Movida por uma angústia e por um medo.
A angústia de não poder falar com seu pai nem com você, pois ele tinha acabado de ir e você tinha acabado de chegar. O medo de ver fugirem as palavras que me vinham naquele turbilhão. A angústia de amar um homem e querer que o mundo inteiro também se apaixonasse por ele. O medo de você se perder da sua origem.
Escrevi para não esquecer."

Frida em caixinha

Quando Fridas vêm estampadas em caixas de fósforos.
Essa daí foi presente do João.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Interpretações

Uma imagem do blog da Manoela ficou grudada em mim. No mesmo dia, eu li uma frase e por uma razão que desconheço resolvi juntá-las.

"Toda obra sobrevive graças às interpretações. Essas interpretações são na verdade ressurreições: sem elas não haveria obra. Ela transpõe sua própria história para se inserir em outra."
Octavio Paz

Que esse vôo seja minha ressurreição!

Imagem capturada em http://manoelaafonso.zip.net/index.html da exposição 'arte para crianças', em cartaz no ccbb-brasília.

Semana da Cidadania

O cartaz para a Semana da Cidadania 2009 já está pronto para ganhar as ruas da cidade.

Retratos Perdidos

Encontrei dois desenhos jogados na calçada, aqui no centro da cidade. Quem serão os retratados?

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Adiadas Arrumações

Querida Sofia,

Olho à minha volta e vejo meu quarto revirado. Montes de papéis, a mala no canto, roupas na cadeira, DVDs e livros espalhados. O guarda-roupa abarrotado de coisas que não uso mais. Dá um desconforto danado. Por que manter tanta coisa que não uso mais? Será uma ilusão de que posso perder meus instantes passados? Será que sem minhas bugigangas não vou conseguir reviver momentos de antes?

Pautado nessa ilusão vou acumulando ingressos de shows, bilhetes escritos há meses, catálogos com capas bonitas, calendários de anos anteriores e toda sorte de "sinais" daquilo que eu vi e vivi. A promessa de arrumação é adiada frente a demanda do dia-a-dia que não me dá tempo para ajeitar tudo com o capricho de sempre. Sim, porque cada item guardado pode expor um novo foco de bagunça.

Eu sei também que tinha prometido começar 2009 com tudo no lugar, mas para mim, o ano só termina em março quando eu me livrar da minha dissertação e concluir o mestrado que arrastou 2008 até aqui. É incrível como essa arrumação externa move, aqui dentro de mim, uma espécie de organização interna. Um algo intangível que inaugura nova fase na vida mental. Em meus devaneios, com tudo no lugar eu posso aumentar meu campo de visão e ir adiante, sem tropeços. Quando entro em meu quarto e assisto a essa desordenação fico mais intolerante a minha própria balbúrdia.

Desculpa te incomodar com essa carta sobre faxinas não cumpridas. Prometo um assunto melhor no futuro. Daqui, do meio da bagunça, sigo tentando encurtar distâncias e calculando se Goiânia é mais perto do Rio Grande do Sul do que de Minas Gerais.

Beijos de sempre! Bem desordenados.
Wolney

Imagem: Wolney Fernandes

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Na beleza da saudade

A saudade tem inundado tudo por aqui. Em dias assim, saio pelas ruas e te encontro na beleza daquilo que vejo.

Foto: Wolney Fernandes

Desenho a três

Sabe estes desenhos coletivos que vc começa e o outro vai completando? Pois é, este aí foi feito a 3 mãos para encurtar esperas, celebrar encontros e firmar amizades novas e antigas. Saudade daquela manhã de dezembro...

Imagem: João Júnior, Odailso Berté e Wolney Fernandes

Nove Discos

Nove discos, descobertos no último ano* que não saem do meu iPod.

01. Papito
Miguel Bosé
O disco celebra 30 anos da carreira do cantor espanhol em companhia de grandes artistas. Um disco de duetos que reúne as músicas escolhidas pelos fãs como as melhores do cantor.
Destaque para "Si tu no volves" com participação de Shakira.

02. The Orchard
Lizz Wright
Com uma mistura de Jazz, Soul e Pop, a cantora norte-americana Lizz Wright é uma das mais belas vozes do Jazz contemporâneo.
Destaque para a faixa "My Heart".

03. Onde brilhem os olhos seus
Fernanda Takai
O primeiro disco solo de Fernanda Takai não poderia ter repertório mais apropriado. A vocalista do Pato Fu dá outros tons às belas músicas de Nara Leão.
Destaque para a versão de "Diz que fui por aí".

04. Safe Trip Home
Dido
O terceiro álbum da cantora inglesa é talvez o mais coeso de sua discografia. Mais madura, ela propõe músicas mais reflexivas com um tom melancólico que perpassa todas as faixas. Difícil é escolher uma entre tantas lindas.
Destaque para "The day before the day".

05. Once
Marketa Irglova and Glen Hansard
O projeto do disco nasceu quando o diretor John Carney encomendou a Glen Hansard, líder da banda irlandesa "The Frames", a compor algumas canções para que, a partir delas, o roteiro do filme "Apenas uma vez" fosse desenvolvido. A música tema acabou ganhando o Oscar de Melhor Canção e consagrou esta como uma das mais belas trilhas sonoras do cinema alternativo.
Destaque para "When Your Mind's Made Up".

06. Que belo estranho dia para se ter alegria
Roberta Sá
Um disco delicioso que aposta na intimidade com cada unidade das canções. As boas escolhas na lista de compositores culmina em melodias que têm a leveza para se esquecer o peso do dia-a-dia.
Destaque para "Janeiros".

07. Lo Que Te Conté Mientras Te Hacías La Dormida
La Oreja de Van Gogh
O disco do grupo espanhol do gênero pop traz baladas originais e bem diferentes no ritmo. Para dançar ou ouvir quietinho.
Destaque para a faixa "Rosas".

08. Release The Stars
Rufus Wainwright
Pretensioso e seguro em arranjos, Rufus é fabuloso. Sua voz melancólica é de uma estranhice sem tamanho e é exatamente isso que faz dele um cantor ímpar. O disco traz canções belas, por vezes dissonantes, mas tão pregnantes a ponto de não sairem mais da cabeça. Para passar a o dia cantarolando.
Destaque para "Going To A Town".

09. Chega de Saudade
Elza Soares e Marku Ribas
A trilha do belíssimo filme "Chega de Saudade" é tão deliciosa que a vontade é sair dançando toda vez que a roz rasgada de Elza Soares entoa "Não deixe o samba morrer". Músicas já consagradas com arranjos da Banda Luar de Prata dão o tom nostálgico do disco.
Destaque para "Você não vale nada".

(*) Nem todos os discos da lista foram lançados em 2008.
Imagem: Montagem com capas dos discos.

Existe um lugar

Existe um lugar onde os anjos têm rosto indígena
e suas cores se espalham pelas praças e catedrais.

Existe um lugar onde os tetos dão lugar ao céu.
Onde cemitérios revelam um cantinho do paraíso.
Onde catedrais contam histórias ao anoitecer
de um tempo de fartura e prosperidade.

Existe um lugar onde corpos são atravessados pelas luzes
para dançar a identidade de um povo.

Existe um lugar de montes verdejantes,
de gatos pretos preguiçosos
e pássaros que se deixam eternizar.

Existe um lugar onde os caminhos são coloridos com sonhos.
Onde os sonhos são atravessados por uma realidade simples e bonita.

São 15 imagens que completam este texto. Todas elas são registros da minha última viagem ao Rio Grande do Sul na cidade de Santo Ângelo na região das Missões. Para ver todas, clique AQUI.

Para Esquecer e Lembrar

Eu amo fazer listas. Estas eu vi no Blog da Deire e gostei tanto da idéia que resolvi copiar. Curiosamente, a primeira lista é bem menor que a segunda. Será que 2008 foi recheado de acontecimentos bons ou eu simplesmente já esqueci metade das coisas ruins?

Para Esquecer:
- Cirurgia no olho direito
- Término de namoro no carvanal
- Morte da Vó Madalena
- Noites mal dormidas por falta de dinheiro
- Viagem a Belo Horizonte
- Músicas do Flávio Venturini
- Falta de motivação para terminar a dissertação
- Despedidas
- Defeitos do carro
- Crise da Engenho
- Doenças de amigos
- Acidente com máquina fotográfica
- O mês de novembro
- Seleções de Mestrado
- Agenda dos Franciscanos
- Diretores da Escola de Lagolândia

Para Lembrar:
- Viagem a Nova York
- Bolsa do Mestrado
- Vó Madalena
- Caminhadas no Bosque
- Procissão do Fogaréu em Goiás
- Wall-E
- Festa dos Doces com milhões de amigos
- Encontro com um dançarino do sul
- A volta de Carrie, Samanta, Charlote e Miranda
- Camisetas estampadas
- Encontro com Lygia Bojunga no Salão de Livro Infantil
- O show da Elza Soares
- René Magritte
- Bolinho de milho da lanchonete do CEBROM
- Presentes vindos do sul (incluindo um peixe chamado Nestor)
- O livro "Menino de Lugar Nenhum" do David Mitchell
- P.S. Eu te Amo!
- Meu iPod
- As Cartas à Sofia
- A série Brothers & Sisters
- Abertura das Olimpíadas de Pequim
- Fernanda Takai cantando Nara Leão
- Espetáculo Pó
- Talento Intense da Garoto
- Pina Baush
- Seminário de Pesquisa em Junho
- Meryl Streep cantando músicas do ABBA
- Turismo em Goiânia
- Dois dias especiais em Pirenópolis
- Meu portfolio de ilustração
- O filme "Apenas uma vez" e sua trilha sonora
- A Festa dos Anjos
- Os discos do Miguel Bosé
- Depoimentos no Orkut
- Comentários no Blog
- Capitu na TV
- Show da Madonna em São Paulo
- Viagem ao Rio Grande do Sul

Imagem capturada em http://www.mesclasonora.com/

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

"A Vida é uma Ópera"

Sou mesmo um ser influenciável pela mídia. Confesso com todas as culpas que essa declaração pode conter no julgamento daqueles/as mais extremistas e politicamente engajados. Mas é a mais pura verdade. Bastou estrear a minissérie Capitu na TV para eu querer revisitar o famoso romance de Machado de Assis. Vasculhei os baús antigos e encontrei minha edição velhinha da "Coleção Jabuti", da época do 2º grau (e lá se vão 17 anos), para reler Dom Casmurro buscando, agora, novas referências que só os anos podem descortinar.

O tempo, aliado à visão contemporânea da minissérie, instigou-me a refletir sobre aspectos da obra e relacioná-las com minhas próprias experiências. "De mergulhos em olhares ao ato de atar as duas pontas da vida para restaurar, na velhice, a adolescência" o livro se atualiza com uma facilidade assustadora. Por vez, obrigou-me a desbravar meus sentimentos contraditórios para tentar demarcar a linha tênue existente(?) entre eles.

Terminada a releitura, a vontade que permaneceu foi a de fuçar coisas que eu tenho guardado em gavetas sem trancas para ir riscando meus sonhos de agora com o giz de realidades possíveis. Note que eu disse "realidades", no plural. "Que minha alma, por mais lacerada que tenha sido, não fique por aí para um canto como uma flor lívida e solitária". Afinal, se "a vida é mesmo uma ópera", não quero só ficar à espera do final triunfante e, por vezes, trágico desse espetáculo. Quero sim, re-escrever meu enredo e sujar minhas mãos com tintas fortes para vivê-lo impregnado com todas emoções advindas das alegrias e dos dramas cotidianos. Que o Wolney de ontem e o de hoje se misturem e se empastelem feito as camadas de papel sobrepostas da abertura da minissérie. Tudo isso "(...) sem que o encardido do tempo lhes tire a primeira expressão. Como fotografias instantâneas da felicidade".

Imagem: montagem da capa do livro com imagens capturadas no site da minissérie http://capitu.globo.com/

domingo, 4 de janeiro de 2009

A Lista

Meu gosto por listas me fez recordar essa música do Oswaldo Montenegro que parece perfeita para uma reflexão de início de ano. Alguém ainda faz isso em 2009?

Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais...

Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar!
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar...

Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria?
Quantos amigos você jogou fora?

Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber?

Quantas mentiras você condenava?
Quantas você teve que cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?

Quantas canções que você não cantava
Hoje assovia pra sobreviver?
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você?



Imagem capturada em http://quenemumavacalouca.blogspot.com/2008/04/mirror-on-wall.html

Grudenta e Doce

18 de Dezembro de 2008.

Quando o ponteiro marcou 21h50 as luzes do estádio se apagaram e a imensa caixa que ocupava o centro do palco se dividiu em cinco telões móveis. O show marcado para as 20h começou com imagens de engrenagens de uma fábrica de doces que se misturavam nas telas, fazendo o público delirar.

O flash da câmera que eu tentava equilibrar em meio a multidão que me cercava não dava conta de captar a magnitude do momento. Sentada em seu trono, Madonna surgiu demarcando seu posto de Rainha Pop para agraciar seus súditos brasileiros com o show "Sticky & Sweet".

Confesso que era um súdito mais fiel quando, há 15 anos atrás, a cantora veio ao Brasil pela primeira vez. No auge dos meus 19 anos eu ostentava com orgulho os discos comprados com meu primeiro salário e até uma pasta com fotos, reportagens e outras bugigangas que traziam o nome da estrela estampado.

Em tempos de "Erótica", eu sequer sonhava poder vê-la, um dia, no palco. Da minha cidadezinha com pouco mais de 300 habitantes eu me contentava com a euforia atrasada que chegava pelo rádio e telejornais. Talvez por isso, neste dia 18, quinze anos depois, há menos de 20 metros de Madonna eu tenha me dado conta que na verdade ela nunca perdeu seu posto de rainha no meu Olimpo particular.

Madonna consegue se atualizar deixando para trás outras estrelas daquela época (Cindy Lauper, Michael Jackson... só pra citar alguns). Como um Picasso do mundo da música, ela decompõe seus sucessos de sempre e os apresenta de forma inédita, firmando-os numa espécie de bricolagem que tanto fascina nossos sentidos nos dias atuais.

As tintas com as quais ela pinta sua carreira mistura tons de disciplina, ousadia, consciência e diversão. Como na Bíblia, a leitura descontextualizada de sua obra pode virar discurso fundamentalista. É preciso olhar o entorno, o contexto, saber por que ela aparece de noiva cantando "Like a Virgin" na década de 80 e porque aparece, agora, crucificada com uma coroa de espinhos.

Ela consegue, com a mesma desenvoltura de antes, sair de uma roda tipicamente cigana para comandar uma rave porque transita e costura esses mundos, à princípio tão distintos, com o alinhavo do respeito às diferenças.

Ela também é completa porque, mesmo sem discursos (feministas, políticos e tantos outros), seus shows divertem e tiram a gente do chão. Faz com que esqueçamos, em breves minutos, as duas horas de atraso que fizeram as pernas doerem ou a fome e a sede aumentarem.

Quando as luzes do estádio se acendem, os pés ainda demoram a tocar o chão. A vontade é se embriagar ainda mais desse reinado "Grudento e Doce". Então passamos os dias com as imagens e os sons em nosso corpo, naquela repetição incessante, como o tic-tac de um relógio:
Get Stupid!
Don't Stop It!
Get Stupid!
Don't Stop It!
Get Stupid!
Don't Stop It!"



Foto: Odailso Berté

Silêncio

15 dias ausente.
1 dia de muito barulho no show da Madonna.
13 dias de muitas descobertas na Cidade dos Anjos.
2 dias de silêncio inspirado nas palavras de Guimarães Rosa:

"A gente quer se afastar de si próprio...
Pra isso é que o muito se fala.
O senhor sabe o que é o silêncio?
O silêncio é a gente mesmo, demais".

(Guimarães Rosa em Grande Sertão Veredas)

Foto: Wolney Fernandes