quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Canções de "O Quinto Beatle"


"O Quinto Beatle" é uma Graphic Novel baseada em recortes da vida de Brian Epstein, visionário que descobriu e guiou os Beatles a um estrelato sem precedentes nos anos 1960. Brilhantemente escrita também à partir de [outras] referências musicais daquele período, a narrativa é muito bem elaborada e consegue entrelaçar várias canções como pano de fundo para uma história repleta de sonhos, apagamentos e outras delicadezas.
Escuta só!

01. Wondrous Place - Billy Fury
02. Love Of The Loved - Cilla Black
03. Anyone Who Had a Heart - Cilla Black
04. If Love Were All - Hellen Merrill
05. Blue Skies - Irving Berlin
06. We Love You, Beatles - The Carefrees
07. All You Need Is Love - The Beatles

Imagem capturada aqui.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Entre a delicadeza e a brutalidade de "Nossos Ossos"


"Quando eu morrer me enterrem dentro do coração de meu pai." 
[Amarildo Anzolin]

Feito movimento espiralado, o final de "Nossos Ossos" me remeteu, novamente, ao seu começo. Uma espécie de repetição sugerida pelo modo como a trama é estruturada. Minha vontade de releitura imediata, de escavar a escrita de Marcelino Freire foi impulsionada pelo desejo de buscar significados perdidos entre um parágrafo e outro, entre uma palavra e outra. Como se na dureza do que estava escrito ali houvesse uma fragilidade que precisava ser apurada.

O livro conta a história de Heleno, dramaturgo pernambucano que consolida sua carreira em São Paulo. Diante do assassinato de um amante e de uma crise interna, ele precisa lidar com o desejo e a burocracia de remeter o cadáver "do boy" para o interior do Nordeste. O livro é dividido em duas partes e capítulos bem curtos que se alternam entre a saga vivenciada no presente e algumas memórias desfiadas entre a infância e a chegada do protagonista na capital paulista.

Tendo o sofrimento como marca determinante para narrar a história de seu protagonista, Marcelino Freire deixa entrever doçuras e fragilidades entre as frestas abertas pela luxúria e ironia constantes. Uma gama de matizes emocionais que deixam o livro bem mais complexo do que aparenta. 

"Capa de couro bovino, espada de fêmur, saiote de cóccix e uma máscara natural, a minha cara borrada de carvão, gesticulava feito um demônio, assustava a todos com a minha voz de trovão saída do estômago, em pé, eu, sobre uma pedra, no deserto que foi a minha infância. 
Minha dramaturgia veio daí, hoje eu entendo, desses falecimentos construí meus personagens errantes, desgraçados mas confiantes, touros brabos, povo que se põe ereto e ressuscitado, uma galeria teimosa de almas que moram entre a graça e a desgraça."

A decisão do autor em estruturar os parágrafos só com o uso de vírgulas incomoda no início, mas logo a gente entra no ritmo e a leitura parece fluir com mais facilidade. Marcelino explica melhor esse recurso em uma entrevista que pode ser vista aqui.

Há ainda uma espécie de denúncia social diante da violência e da intolerância que rondam imigrantes, homossexuais e qualquer pessoa que não se limita a "rezar" segundo a cartilha da heteronormatividade. No entanto, essa denúncia não é permeada pelo compadecimento, mas pelo desnudamento de situações de dor que expõem, paulatinamente, as mazelas de uma sociedade machista e violenta. Há alguns escorregões aqui e ali, como por exemplo a notícia de que um dos personagens é soropositivo e que, a meu ver, é desnecessária para o andamento da história que, na altura dessa revelação, já se apresenta muito bem encaminhada. 

A escrita, que oscila entre a delicadeza e a brutalidade é capaz de criar imagens marcantes - "(...) seu rosto era feito de um pergaminho, estava escrito, nos livros mais esquecidos, tanto sofrimento". É preciso fôlego para dar conta das cores intensas com as quais o autor pinta o retorno do seu personagem à sua terra natal. 

"(...) por que a gente, em vez de ser enterrado em um chão, seco, não faz do oceano o nosso leito derradeiro, nosso abismo prateado, um céu ao fundo, vertical, abaixo, cheio de estrelas, luas, astros, planetas desconhecidos?"

Com o porte de uma novela, "Nossos Ossos" parece carecer de mais páginas e talvez também tenha sido isso que me levou à uma releitura imediata, com mais pausas, como se precisasse de mais tempo para chegar àquele final.

Sim, é um daqueles finais que nos deixam atordoados diante das revelações que ele contém. 

Mesmo amparado por um derradeiro recurso que abre brechas para dúvidas e inquietações acerca do que foi lido, o livro é honesto e marca, com qualidade, a estreia do autor nesse formato. Vale a pena uma conferida!
_________________

"Nossos Ossos" foi uma leitura compartilhada com o Bruno LazzFar do canal Des Palavreando.

Quando é difícil ser só espectador


O moço não estava nem aí pro movimento de ônibus e carros e pessoas apressadas pra chegar em seus destinos variados. Foi ali, na Avenida 10, umas quase dez horas e ele estava sujo, cabelo arrepiado, olhar de fome, encostado na parede limpa da igreja. Olhos no céu, pés no chão e todo cuidado do mundo em empinar, como uma pipa, uma sacolinha de supermercado cheia de ar que voava sob os cuidados do vento. Resmungava sei lá o quê.

Não sei ao certo, mas aquilo provocou em mim uma pausa que durou bem mais que o tempo do sinal vermelho.

Tem horas que é difícil demais ser só espectador. Talvez por isso a minha opção em ser roteirista. Ficou apenas um pensamento: se a história fosse minha, eu iria conseguir olhar para o céu?

A foto eu achei aqui.

O Apocalipse dos Trabalhadores


Maria da Graça e Quitéria são diaristas, - ou "mulheres a dias" como se diz em Portugal - fazem bico como carpideiras e protagonizam "O Apocalipse dos Trabalhadores", livro de Valter Hugo Mãe que eu acabei de ler.

Aprisionadas em um cotidiano opressivo, as duas sonham, cada uma à sua maneira, futuros distintos de um presente ausente de sentidos.

"toda a minha vida trabalhei, desde os meus doze anos que lavo roupa e limpo casas em toda a parte e não sei fazer mais nada. não sei fazer amor. eu não sei fazer amor."

Maria da Graça, mesmo casada, é apaixonada pelo senhor Ferreira, um velho que ama a obra de Rilke e passa os dias ouvindo Requiems variados. Quitéria, mesmo pragmática em relação ao amor, acaba enxergando em Andriy, um jovem imigrante ucraniano, a possibilidade de transformar sua necessidade sexual em amor.

Cada apocalipse diário vivenciado pelas amigas é também permeado pelo desejo de não ficar apenas às portas do paraíso, mas de adentrá-lo. Impulsionadas pela certeza de uma vida mais feliz, as duas buscam preencher seus dias com amores colecionados ao sabor da esperança e da certeza da morte.

O livro possui um tom de humor que permeia principalmente os primeiros capítulos. As noites em que Quitéria e Maria da Graça passam velando defuntos são escritas com uma agilidade que impressiona. Os diálogos entre as duas são muito mordazes e capazes de espalhar sorrisos por várias páginas. Há também os sonhos de Maria da Graça com São Pedro diante da porta do céu que faz cócegas a cada parágrafo. 

A escrita primorosa do autor parece nos conduzir progressivamente a um descortinar de tristezas embaladas por alegrias fugazes, pequeninas e diárias. Ao final do livro, percebemos que o tom de humor dá lugar a uma certa melancolia que parece (só parece) encobrir as esperanças cultivadas lá no início.

"acordou pesada. levantou muito ligeiramente a cabeça e começou logo a chorar. era um choro pequeno, de tristeza muito habituada, uma tristeza a vir quotidianamente para sempre, para completar o tempo que ainda teria de viver."

Capaz de criar situações de beleza ímpar, Valter Hugo Mãe consegue fazer da história dessas trabalhadoras portuguesas, a história de muitos, de seres apaixonados para quem o sentido da vida é uma esperança que está sempre no horizonte e, quase nunca, ao alcance da mão.  

Me impressionou bastante como o autor humaniza seus personagens, sem que a gente sinta pena ou os enxergue apenas como estereótipos. Mesmo depois de conseguir "esfregar o coração no chão", continuo achando que a escrita do Valter foi a melhor descoberta literária do ano.

"dizia-lhe, obrigado, quitéria, muito obrigado. e ela desfazia-se em coração e não imaginara nunca que aquele gesto poderia ser o mais mudador de toda a sua vida. aceitou aquele abraço pelo lado mais interior do amor, rasgando com o passado a costumeira ferocidade. [...] e agradeceu-lhe como pôde pela oportunidade única de se humanizar daquela maneira e percebeu a inteligência mais secreta de todas. esta é a inteligência mais secreta de todas, o amor."

Foto: Wolney Fernandes

domingo, 7 de setembro de 2014

Companheiro de viagem


Fui um dos derradeiros a entrar no avião. Do meu lado, um senhor que podia ser meu avô estava concentrado em olhar para a pequena tela instalada na poltrona da frente.

Pedi licença para me acomodar e ele, dono de uma simpatia silenciosa, olhou-me com um sorriso sereno. Enquanto apertava os cintos, ele sentou novamente e continuou a observar as imagens da TV de bordo. Na tela, um canal de rádio desses em que a música é acompanhada por fotos que se alternam, feito slides de powerpoint programados para repetir um conjunto de imagens. Notei que ele estava sem fones de ouvidos e, tentando um jeito de puxar conversa, ofereci os meus. Ele recusou!

Diante da recusa, minha tímida vontade de conversar se recolheu para as páginas do livro que eu tinha em mãos e decolamos os dois, lado a lado, em um silêncio que só aquele céu parecia caber. 

Meus olhos se mantinham no livro, mas a atenção insistia em observar aquele senhor ao meu lado numa aproximação insana que minha imaginação parecia repetir incessantemente: "E se ele fosse meu avô?" - Estaríamos conversando ou em silêncio? Ele teria aceito meu fone? Por que estaríamos viajando juntos? Ele gostaria de saber a trama do livro que eu lia? Que músicas ele estaria ouvindo? Eu teria insistido pra ele sentar na janela? Ele teria comentado sobre a paisagem que se distanciava de nós?

Num dado ponto da viagem, o senhor se remexeu na poltrona para ajeitar as pernas e resmungou. Aproveitei aquele muxoxo para fazer um breve comentário sobre a falta de espaço cada vez mais evidente em voos do tipo. Olhou me por um momento, mas não emitiu palavra alguma à respeito.

Em meio a possibilidades inventadas, decidi que era hora de me concentrar na leitura, recolher minha imaginação e deixá-la de castigo até segunda ordem.

Já absorto na trama do livro, fui surpreendido pela aeromoça que se aproximou para anotar pedidos de bebida. Imaginando que a pergunta tinha sido feita para ambos, eu e "meu avô temporário" respondemos em uníssono: Coca-cola!

Sorrimos os dois e cada um voltou ao seu silêncio particular. Abri o livro novamente e, antes de retornar àquelas páginas, olhei para a janela do avião com uma saudade daquilo que não vivi. 

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Lavoura Arcaica - Breviário de belezas e perturbações


Livro para o desafio literário: Os Componentes da Banda

Eu que já não rezo há bastante tempo, ao ler algumas partes de "Lavoura Arcaica"me senti recitando uma oração. A escrita de Raduan Nassar é tão apurada e precisa que cada palavra parece lapidada e minuciosamente escolhida para estar naquele ponto específico. É como se o texto inteiro dependesse dessa única fórmula e diante da possibilidade de retirar qualquer palavra do lugar, houvesse uma espécie de desmoronamento de capítulos inteiros.

Essa arquitetura apurada da escrita, a grande intertextualidade com temas e arquétipos bíblicos e até algumas repetições ampliaram essa sensação de estar diante de um texto sagrado.

"o tempo é largo, o tempo é grande, o tempo é generoso, o tempo é farto, é sempre abundante em suas entregas: amaina nossas aflições, dilui a tensão dos preocupados, suspende a dor aos torturados, traz a luz aos que vivem nas trevas, (...) em tudo ele nos atende, mas as dores da nossa vontade só chegarão ao santo alívio seguindo esta lei inexorável: a obediência absoluta à soberania inconstestável do tempo (...) é através da paciência que nos purifica, em águas mansas é que devemos nos banhar, encharcando nossos corpos de instantes apaziguados, fruindo religiosamente a embriaguez da espera no consumo sem descanso desse fruto universal"

Com estrutura decalcada, mas invertida, da parábola do Filho Pródigo, a trama gira em torno de uma família orientada por um pai rigoroso e cuja partida de um dos filhos contribui para seu desequilíbrio interno. O livro começa quando Pedro ("Tu és Pedro e sobre essa pedra edificarei a minha igreja" Mt. 16,18), o irmão mais velho, chega para levar André, o irmão desgarrado, de volta ao seio da família. Os fatos que levaram André a deixar a casa vão sendo revelados, aos poucos, e trazendo com eles as transgressões e perturbações de um protagonista atormentado por um segredo que ele carrega há muito.

Alternando entre o repúdio e a complacência, André vai esmiuçando a figura da família como uma sociedade inviolável e de como essa ideia sulca feridas incuráveis em quem submete os próprios sonhos e desejos à manutenção dessa imagem.

"que culpa temos nós se fomos duramente atingidos pelo vírus fatal dos afagos desmedidos? que culpa temos nós se tantas folhas tenras escondiam a haste mórbida desta rama? que culpa temos nós se fomos acertados para cair na trama desta armadilha?" [129]

Me impressionou bastante o modo como o autor consegue dar contornos poéticos e sagrados às questões relacionadas ao corpo numa outra inversão à máxima utilizada pela tradição cristã onde é a alma que merece toda pompa e circunstância. No livro, o corpo assume uma inteireza diante das grandes decisões que conduzem André a escrever sua história sob outra cartilha que não àquela ditada pelo pai.

"pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo." [p. 7]

Sem definir um tempo cronológico, Raduan instaura outros tempos dentro de cada parte de "Lavoura Arcaica" fazendo com que a gente navegue por seus capítulos, ora impulsionados por uma escrita sem pontuação e ora por um ritmo mais lento e pensativo, também imposto pelo uso preciso da linguagem. Há de se destacar também a simbiose dos personagens com os ambientes que os abrigam. Uma obra cuja forma e conteúdo comungam de modo muito íntimo.

Refletir sobre os personagens dessa história tão bem contada é pensar sobre as convenções trazidas e passadas de geração a geração. A correção do caráter e a necessidade de cuidar da união da família, o andar correto sob as leis da religião e a não transgressão das regras sociais são paradigmas mantidos pelo patriarca e quebrados, um por um, pelos atos de André que, humano como nós, se inquieta diante dos próprios desejos e os considera ao invés de ignorá-los.

"colherei, uma a uma, as libélulas que desovam no Teu púbis, lavarei Teus pés em água azul recendendo alfazema, e, com meus olhos afetivos, sem me tardar, irei remendando a carne aberta no meio dos Teus dedos; Te insuflarei ainda o ar quente dos meus pulmões e, quando o vaso mais delgado vier a correr, Tu verás então Tua pele rota e chupada encher-se de açucar e Tu boca dura e escancarada transformar-se num pomo maduro." [p. 103]

Ler "Lavoura Arcaica" - como eu disse no início - foi uma experiência religiosa tamanho o mergulho e o comprometido que a obra parece exigir de quem a lê. A diferença é que, ao chegar ao seu final, não precisei voltar ao começo para que ela se renovasse, pois diferente das orações, muitas vezes recitadas sem sentido, as palavras de Raduan além de remexerem em concepções internas, também tatuaram arrepios na minha pele.

P.S.: Há uma adaptação do livro feita para o cinema pelas mãos sensíveis de Luiz Fernando Carvalho. O filme completo está disponível no YouTube e vale uma conferida, pois uma de suas inúmeras qualidades é a manutenção fiel do texto do Raduan na transposição para as telas. Para assistir, clique aqui.

Imagem: Wolney Fernandes

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Amarelos despencados e amores perfeitos


Atravessei a Avenida Anhanguera no meio da tarde. Calor, tumulto, pressa, buzinas e ipês. Sim, uma fileira abusadamente florida. Parei. Olhei o céu e a calçada, ambos salpicados de amarelo. Tão bonita a cadência das flores que caíam desenhando no ar uma canção silenciosa.

Minhas vistas só decifraram isso daquele amarelo despencado, mas havia um sentimento fortuito tão gostoso de sentir que nem sei...

Fiquei pensando que se o mundo tem um manual, essa parte deve estar lá nas letrinhas miúdas do rodapé, daquelas que pouca gente lê.

Será que é nessa parte que também estão as considerações sobre os amores perfeitos?

Voltei pra casa decidido a encontrar uma lupa!

Imagem: Wolney Fernandes

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Memórias Literárias - Parte 1


Dia desses, mapeando os primeiros livros que eu li quando criança, tive vontade de ler todos eles nas edições antigas. Um jeito de trazer o passado para o presente e levar o presente para brincar no passado.

Ali pelos nove anos, os gibis já não eram suficientes e minha vontade de leitura encontrou outros caminhos com a chegada da Ciranda de Livros na escola da minha cidadezinha. A possibilidade de levar o livro comigo pra casa parecia fundada naquela felicidade clandestina que Clarice Lispector descreveu: "Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo."

Três livros me marcaram bastante neste período:
1. O Menino Maluquinho - Ziraldo
2. A Bolsa Amarela - Lygia Bojunga Nunes
3. Caçadas de Pedrinho - Monteiro Lobato

Em casa não havia dinheiro para se gastar com livros. Desse modo, os poucos que eu conseguia comprar eram lidos e relidos à exaustão. E desse período, alguns títulos do Círculo do Livro me acompanharam por muito tempo:
4. Heidi - Johanna Spyri
5. Outra vez Heidi - Johanna Spyri
6. Uma História de Amor - Carlos Heitor Cony

Os dois últimos títulos que compõem essa cartografia de memórias literárias eu consegui porque amigos me emprestaram. Foram esses dois títulos que me conduziram à adolescência:
7. A Montanha Encantada - Maria José Duplé
8. O Caso da Borboleta Atíria - Lúcia Machado de Almeida

À partir daí, meu pequeno mundo nunca mais foi o mesmo. Meus olhos já queriam saber o que havia do outro lado do rio e minha vontade já não cabia nos limites do meu povoado. "Não era mais um menino com um livro", era um homem com vontade de céu!

E você? Quais os livros marcaram sua infância? Que lembranças eles carregam em suas páginas?

Imagem: Wolney Fernandes

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Teletransporte


Cabia mais do que se podia prever naquele sorriso fechado e no apertar dos olhos grandes. Esse era o sinal pouco preocupado em disfarçar a vontade de desordenar o mundo só para testar os limites entre a teoria e a prática, entre o real e o fictício. Naquele tempo, tudo no mundo tinha um quê de faltar algo, nem que fosse um suspiro comprido e carregado de vontades.

Pular de cima da árvore com um guarda-chuva e torcer com toda força do mundo para voar carregado pela brisa; virar o chinelo ao contrário e correr até a porta para impedir o azar de entrar; tomar banho depois de almoçar e não passar mal; misturar leite com manga na mesma batida e jogar baralho escondido durante a quaresma sem ser atormentado pelo capeta... Bons tempos em que o desafio era só provar ao mundo que as teorias da avó eram ultrapassadas.

Experimento, agora, o contrário: estico o sorriso, aperto os olhos grandes, esqueço os limites da física e tento brincar de teletransporte.

Vai que dá certo!

Imagem de Beth Hoeckel

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

"Viver é viver de outra maneira"


"Existem momentos na vida em que a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se vê é indispensável para continuar a olhar ou a refletir." 
[Michel Foucault]

Eu só queria passar mais um Dia dos Pais sem que a euforia e as demonstrações de carinho em torno dessa data me afetassem tanto. Então, longe das redes sociais, mergulhei no livro de Mathieu Lindon que, pela temática, me parecia um bom lugar para encontrar refúgio.

"O que amar quer dizer" (CosacNaify, 2014) é um retrato afetuoso de Michel Foucault, decalcado da amizade do autor do livro com o filósofo francês no início dos anos 80. Afoito, em parte pela curiosidade em saber da vida íntima de um dos maiores pensadores do século XX, comecei a leitura e nada me preparou para o que eu encontraria nas 285 páginas desta edição.

"Pode vir cuidar das rosas quando eu não estiver aqui."

A história narrada por Lindon tem o encontro com Foucault como ponto de apoio, mas o que sua escrita reflete é muito mais sobre seu próprio amadurecimento frente a essa amizade do que qualquer outro desnudamento por parte da vida desregrada de Michel, encerrada pela AIDS em 1984. E mais, essa relação de confiança serve também como espelho para refletir as nuances que se assemelhavam e se diferenciavam daquela que o autor travava com o próprio pai. Esse jogo de reflexos vai, aos poucos, revelando as escolhas que Mathieu foi levado a fazer vida afora. 

"A gratidão é um sentimento suave demais para se guardar."

Por entre a descoberta do corpo, da sexualidade, das drogas, dos livros, das amizades, dos amantes, de viagens sem data de retorno, o que a escrita do autor deixa entrever é uma abertura dentro da sua bibliografia para celebrar o "prazer de viver sem saber que isso era crescer". Com Foucault, o tímido Mathieu descobre ser capaz de ter amigos fora do círculo familiar e, assim, libertar-se dos ressentimentos para receber e retribuir o amor de seu pai de modo muito peculiar.

"Só espero que quando chegar a hora eu sinta que não lhe causei nenhum grande dano, o que me dará o direito de lhe pedir, com um beijo, que me esqueça."

Pela primeira vez, eu, Wolney, entendi que falar de esquecimento é também falar de amor. Logo eu que sempre me desdobrei para lembrar, ao terminar o livro passei a me perguntar: O que é preciso esquecer para que os mortos não se fechem em seus próprios túmulos? 

Há 23 anos, meu próprio pai também me ensinou a morte e todos os apagamentos advindos desse fato imutável, inclusive o meu próprio. Meu pai morreu, o tempo passou e há anos penso em como me relacionar com ele, uma vez que, desde então, só eu alimento nossa relação. 

"Minha imaginação não serve para mais nada. Sim, os seres que amamos morrem e não ressuscitam."

Faz tempo que a morte ecoa em mim um tom que me aterroriza porque tenho me prendido a ela por aquilo que ela me negou. Talvez seja a hora de reconhecê-la pelos desvios que ela criou e, de outros modos, também me concentrar nas reminiscências advindas desses trieiros que me provocam a ser feliz, vivo, agora. 

"Como acreditar no que é, sem dúvida, a verdade?"

O livro escrito por Mathieu, 30 anos depois de ter vivido entre dois homens - o próprio pai e Foucault - "sem nunca tentar substituir um por outro" não nos dá uma resposta pronta, mas aponta um jeito bonito de ver/entender a si próprio à partir do amor que nos é oferecido de modos distintos. Cada um a seu modo, plantaram nele (e em mim) a certeza de "é preciso tempo para compreender o que amar quer dizer".

Seja qual for o valor dos diversos protagonistas da história [re]contada por Lindon o que sei é que, por eles, me dou conta de que é possível redimensionar a experiência vivida e encontrar jeitos de poder dar à luz ao meu próprio pai sem, com isso, aplainar seus defeitos e/ou exacerbar suas qualidades. 

Tramar literatura e vida é o que eu tenho tentado fazer com os livros que me atravessam. "Tenho a sensação paradoxal de que, estando neles (nos livros), nada me atinge, ao passo que eles me perturbam de forma doentia, vítima de uma sensibilidade extrema à escrita."

De certa forma [ou de muitas formas], meu envolvimento com esse livro borra os limites da literatura com a vida. E, apropriadamente, ao associar pequenas epifanias cotidianas à leituras de Proust, Victor Hugo, Adalbert Stiffer e outros autores que mantivera contato durante parte da sua formação, Mathieu Lindon ensina como fazer brotar, do lado de cá, as ramificações ternas e eternas de uma obra pungente. Por suas reflexões literárias foi possível me entender como um "herói de um romance de aprendizado perpétuo, de reeducação permanente".

Eu teria gostado de poder dizer ao meu pai o quanto sua falta, feroz ou suavemente, moldou o homem que eu sou. Diante da impossibilidade de fazê-lo e apoiado no esquecimento de uma imagem da morte que eu mesmo criei, sigo, então, na certeza de que "viver é viver de outra maneira".

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Seminário dos Ratos


Livro para o desafio literário: Os Componentes da Banda

“Seminário dos Ratos” foi um daqueles livros enigmáticos em que durante a leitura eu não tinha certeza se estava gostando ou não. Ao passar de um conto a outro, a impressão que eu tinha era de estar diante de uma obra mediana da Lygia Fagundes Telles. Acho que essa impressão se acentuou porque eu tinha lido a “A Estrutura da Bolha de Sabão” da mesma autora e gostado mais, uma vez que os temas dos contos me pareciam mais palatáveis.

No entanto, terminada a leitura de "Seminário dos Ratos" era como se eu não conseguisse me desvencilhar daquilo que tinha lido em cada conto e, como costumo fazer, deixei passar alguns dias até poder emitir uma impressão mais apurada sobre o livro.

Também não sei se consigo fazer isso agora, mas já posso afirmar que “Seminário dos Ratos” é sim, uma obra incrível. Os 13 contos reunidos parecem dar conta de apontar a instabilidade pela qual passam as mais diferentes posições do mundo. É como se sujeito e situação fossem interdependentes e a relação dos dois atuassem como uma sinfonia perfeita sem que um prevaleça sobre o outro. Esse estado cambiante em que cada personagem se encontra, ora sujeito da ação, ora subordinado pela mesma situação, me fez elaborar sentidos muito próximos da minha realidade.

E é impressionante como Lygia consegue dar conta de tanta realidade utilizando o insólito, o surreal e o fantástico. Amores plantados por toda vida, acertos de contas com o passado e o encontro com a morte parecem visões milimetricamente arquitetadas para habitar nosso imaginário mesmo depois dos pontos finais.

“As Formigas” já figura entre os contos de terror mais assustadores que já li, “Herbarium” tem a doçura dos primeiros encantos que enlaçam nosso coração diante do primeiro amor e “Pomba Enamorada” é dolorido e bonito na medida de um amor não correspondido e que se estende por toda uma vida. A morte anunciada em sonho e descrita em “A mão no ombro” nos faz pensar na fragilidade de cada acordar e nas dimensões existentes nos sabores experimentados durante o café da manhã.

Há tanto nas linhas tão bem elaboradas de cada diálogo que poderia ficar horas desfiando as inúmeras camadas que possuem. Um deles, em especial, me emocionou sobremaneira e é do conto “Lua Crescente em Amsterdã”:

- Quando acaba o amor, sopra o vento e a gente vira outra coisa - respondeu ele.
- Que coisa?
- Sei lá. Não quero voltar a ser gente (...) Queria ser passarinho, vi um dia um passarinho bem de perto e achei que devia ser simples a vida de um passarinho de penas azuis, os olhinhos lustrosos. Acho que eu queria ser aquele passarinho.
- Nunca me teria como companheira, nunca. Gosto de mel, acho que quero ser borboleta. É fácil a vida de borboleta?
- É curta."
[p. 104]

Na edição da Companhia das Letras há ainda um posfácio incrível do José Castello que traz a melhor de todas as histórias em torno da autora. Ao narrar uma volta do cinema cercada pelo medo de ser morta por um motoqueiro desconhecido, Lygia sacode nossos pensamentos ao evidenciar que amor e morte se confundem, pois “medo e paixão ocupam um só lugar. Avesso e direito. Uma coisa só.”

Precisa dizer mais?

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Tempo de Guerra


"Volta pra calçada porque eles vão passar o pneu em cima do seu pé" - A senhora me alertou quando eu discretamente ensaiei esperar o sinal verde no cantinho da esquina. Com cara de poucos amigos e reverberando uma impaciência no modo como trocava os pés a cada dois segundos, desfiou histórias de atropelamentos vistos e imaginados por ela, ali, naquela faixa para pedestres.

Enquanto atravessávamos juntos, (ela abrindo o caminho, é claro!) continuou inquisidora como se estivéssemos num campo de batalha:

"Você mora por aqui?" - Balancei a cabeça que sim enquanto ela esbravejava: "Eu moro naquela favela ali!" apontou, com o queixo, um dos edifícios mais imponentes do centro.

"Um inferno! Ainda bem que estou me mudando desse país de merda!"

Ao chegar do outro lado da rua, corrigiu: "O problema aqui é o povo! Odeio brasileiro!" E adentrou a portaria do prédio já resmungando com o porteiro e batendo o portão.

Entendi que, para ela, o sinal vermelho era uma constante. Foi assim que, ao ganhar a próxima esquina, diante do sinal verde, recitei baixinho:

"Que eu sempre encontre um modo de me apaziguar. De não estar o tempo todo em guerra com o mundo e, principalmente: ali, nas primeiras horas da manhã, que eu não me odiasse tanto.

A imagem eu achei aqui.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Top Friday


Hoje, juntei as sete primeiras músicas que apareceram no feed do meu facebook e acabei com uma playlist deliciosa. Escuta só!

01. You - Keaton Henson [da timeline do Jorge A. Santana]
02. Take me to Church - Kiesza [da timeline do Ricardo Rodrigues]
03. There's a place in hell for me and my friends - Morrissey [da timeline da Isabela Preto Junqueira]
04. True Colors - Cindy Lauper [da timeline do Raul Castro]
05. You Can't Hurry Love - The Supremes [da timeline da Lúrian Louise]
06. I Blame Myself - Sky Ferreira [da timeline do Acrop Acrop]
07. Come Get it Bae - Pharrell Williams e Miley Cyrus [da timeline do Vitor Marques]

Imagem capturada aqui.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Os Componentes da Banda* - Desafio Literário


A Tatiana Feltrin do Vlog Tiny Little Things mostrou os 100 livros essenciais da Literatura Brasileira segundo uma lista compilada pela Revista Bravo e propôs um desafio: ler todas as obras que compõem essa lista. Eu achei a ideia ótima, mas entre os desejos de leitura e o tempo escasso para dar conta de todas elas, resolvi adaptar o desafio para a minha realidade.

Então, eu fiz assim: percorri toda a lista, item por item, buscando na minha estante os títulos que eu já tinha aqui em casa. No total, 17 livros. Alguns já lidos e que eu desejo reler para o desafio e outros que estão comigo há tempos à espera de bons motivos para serem devorados. Se os motivos não se aprontam, eu mesmo os desenho!

Os títulos que irão compor esse desafio literário, pela ordem que aparecem na foto, são:

1. Grande Sertão Veredas - Guimarães Rosa
2. Morte e Vida Severina - João Cabral de Melo Neto
3. 200 Crônicas Escolhidas - Rubem Braga
4. A Vida como ela é...  - Nelson Rodrigues
5. O Analista de Bagé - Luís Fernando Veríssimo
6. O Pica-Pau Amarelo - Monteiro Lobato
7. Dom Casmurro - Machado de Assis
8. Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis
9. Baú de Ossos - Pedro Nava
10. Seminário dos Ratos - Lygia Fagundes Telles OK (Escrevi sobre o livro aqui)
11. O Encontro Marcado - Fernando Sabino
12. Bagagem - Adélia Prado
13. São Bernardo - Graciliano Ramos
14. Vidas Secas - Graciliano Ramos
15. Os Cavalinhos de Platiplanto - José J. Veiga
16. Lavoura Arcaica - Raduan Nassar OK (Escrevi sobre o livro aqui)
17. Morangos Mofados - Caio Fernando Abreu

Primeira Atualização - Livro que estava emprestado no dia da foto:
18. A Obscena Senhora D - Hilda Hilst

Segunda atualização - Na empolgação, resolvi que vou incluir na lista os títulos que tenho no Kindle:
19. A Escrava Isaura - Bernardo Guimarães
20. A Moreninha - Joaquim Manuel de Macedo
21. Espumas Flutuantes - Castro Alves
22. Eu - Augusto dos Anjos
23. Gabriela Cravo e Canela - Jorge Amado
24. Macunaíma - Mário de Andrade
25. Noite na Taverna - Álvares de Azevedo
26. O Cortiço - Aluísio de Azevedo
27. Os Ratos - Dyonelio Machado
28. Os Sertões - Euclides da Cunha
29. Romance da Pedra do Reino - Ariano Suassuna
30. Viva o Povo Brasileiro - João Ubaldo Ribeiro
31. A Paixão segundo GH - Clarice Lispector
32. As Meninas - Lygia Fagundes Telles

Não vou estabelecer nem tempo e nem uma sequência para orientar a leitura. Deixo essa escolha ao bel prazer das minhas vontades e dos acasos que a vida soprar. 
Vamos comigo?

(*) Esse título bonito eu peguei do livro da Adélia Prado.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Beijo Roubado


Virei a esquina, já bem pertinho de casa e avistei o casal apaixonado a trocar beijos numa tarde qualquer. Fiquei ali com eles. Desconhecido, testemunha a metamorfosear o que via em cantigas de amor.

Enquanto o sinal verde ordenava "atravesse!", eu empaquei.

Guardei para mim aquele momento que era só deles. Quem dera pudesse encontrar toda a felicidade do mundo escondida no céu da boca. Desejei compartilhar a imagem, mas em algum lugar aqui dentro, alguma coisa muito frágil, um quase nada me soprava pudores.

Sempre que eu olhava para a foto no álbum do meu celular, lembrava do conselho dado pelo Walderes diante de uma imagem semelhante: "Você ainda vai revelar segredos impronunciáveis ao flagrar beijos pelas esquinas!"

Visível, ainda que impronunciável, aquela intimidade se derramava pela calçada afora. O instante foi apenas um resquício que eu peguei pra mim.

Desculpa, Walderes!

Alguns dias depois e nenhuma fagulha daquele pudor que eu mesmo ensaiara, a foto embelezava, em preto e branco, o álbum do meu instagram.

Para a minha surpresa, sete dias após a publicação, os protagonistas do beijo, anônimos pra mim, chegaram até a foto! Diante da imagem roubada - tão minha! - celebraram o afeto, compartilharam o beijo e vislumbraram corações ao redor daquela felicidade tão deles.

Que mundo pequeno e bonito esse nosso.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

A Desumanização


Sempre que termino de ler um livro de Valter Hugo Mãe fico com a sensação de que a língua portuguesa é o idioma mais bonito do mundo.

“Só existe a beleza se existir interlocutor. A beleza da lagoa é sempre alguém. Porque a beleza da lagoa só acontece porque a posso partilhar. (...) A beleza é sempre alguém, no sentido em que ela se concretiza apenas pela expectativa da reunião com o outro.”

“A Desumanização” é o mais recente livro do aclamado escritor português e parece o mais coeso e pungente dos que li até agora. No entanto, talvez seja o mais difícil de acessar pela liberdade com a qual o autor realiza sua escrita, notoriamente um pouco mais alargada no seu sentido poético. As frases curtas parecem poemas que se ligam uns aos outros para perscrutar a dor em suas características mais diversas. Lançado em setembro de 2013 e publicado no Brasil no primeiro semestre de 2014, o livro apresenta uma história embalada pela tristeza de uma solidão espiritual ambientada nos fiordes islandeses.

Halla, uma menina de 11 anos que perdeu sua irmã gêmea, desfia amadurecimentos a partir do sentimento de perda que a acompanha e da convivência com a dor de carregar o peso de duas almas.

“Tudo em meu redor se dividiu por metade com a morte.”

Por ser muito próxima da irmã morta, Halla se vê sozinha e desamparada. Sigridur, “a irmã plantada”, era quem orientava os passos de Halla rumo a um futuro sonhado fora daquele lugar.

“Quando for grande, Halla, não quero ser cozinheira das baleias. Não vou ficar aqui encalhada a fazer doces para que elas se consolem. Quando for grande quero ser longe.”

Ela traçava planos para ambas e isso acaba cavando um vazio no peito da “irmã menos morta” que se vê solitária e sem direções possíveis. A pulsação de vida parecia característica daquela que se foi e isso acaba deixando a menina sem referências. Para piorar a situação, os pais das gêmeas, incapazes de se curar dos exageros da morte, acabam por abandonar a filha viva de modos distintos: a mãe pela negação e o pai pela apatia e constante perda da alegria anterior. A relação familiar fica diferente e isso intensifica a dor do momento vivido por Halla.

“A minha mãe, por seu lado, perdera o modo de se apaziguar. Rejeitava cada coisa. Era rigorosa, não desculpava ninguém e não se desculpava. Estava em guerra. Não sabia nada, na verdade, punha as mãos às cegas no mundo. Como se estivesse viva num mundo morto.”

O fato da menina também passar por transformações físicas típicas da sua idade, intensifica o caráter transformador que o percorre toda a narrativa. Outro fator pungente desse processo é o lugar onde a história se passa e o modo como é apresentado pelo autor.

A Islândia se desenha como uma paisagem forte e mística. Com um quê de lugar misterioso e incompreensível. O antagonismo entre o gelo dos glaciais e o fogo dos vulcões ao mesmo tempo deslumbra e dá medo. A imagem que se evoca da natureza em todo o livro é muito bonita e a relação entre os que vivem naquela terra e a própria terra parecem simbióticos, reforçando o caráter vivo do lugar que condiciona muito a vida dos personagens e o desenvolvimento da história.

“Chamávamos-lhes deus ou Islândia sem ter como atribuir a cada nome um significado. As palavras eram inúteis para abordar algo que estava proibido à pequenez humana. Qualquer nome não passava de uma blasfêmia, como qualquer ideia que quiséssemos guardar segura acerca da grandeza de deus, da Islândia ou da morte."

Todos esses fatores acumulados vão contando a história dessa menina que, sem sombra de dúvidas, é uma das personagens mais fortes que eu já acompanhei. E é estranho porque ela é apenas uma criança precisando assumir uma sabedoria, um modo de se expor à vida mapeando cada mudança que a atravessa. Ela muda ao longo da narrativa e a gente evolui com ela ao transferir seu olhar do mundo para nossa própria realidade.

Tanto pela escrita, quanto pelo enredo, o livro é arrebatador e vai desconstruindo as coisas e acrescentando a elas uma grande carga poética que permanece conosco mesmo depois de terminada a leitura. É também muito impressionante o modo como Valter Hugo Mãe consegue falar de amor, sobretudo na dor e na perda, à partir de um olhar infantil que olha para o mundo como se conseguisse apreender somente a essência daquilo nos cerca.

“Não guardes vazios os meus lugares. Deixa-me ir. Olha pelo meu pai. Se ele te falar dos poemas, ouve tudo. É a única coisa que conta, a poesia. No lugar da Islândia colocar um poema. No lugar do coração colocar um poema. Depois, dizê-lo uma e outra vez, até ser tudo.”

Depois de ler isso, o mundo parece fazer mais sentido. As certezas que “A Desumanização” planta na gente são todas de ordem pulsantes. Daquelas que ultrapassam as fronteiras das páginas do livro e transbordam pelas diferentes formas como passamos a encarar a vida. Uma jóia rara, lapidada com o cuidado e a relevância que todo leitor merece.

Imagem capturada aqui.

domingo, 22 de junho de 2014

Como respirar debaixo d`água


Como respirar debaixo d'água em 17 lições:

01. Vista pro mar - Silva
02. Bobagem - Céu
03. Façamos - Elza Soares e Chico Buarque
04. Concha do mar - Ana Clara Horta
05. De papo pro ar - Ney Matogrosso
06. Ouro de Tolo - Caetano Veloso
07. A Verdade sobre o Tempo - Pato Fu
08. Não é proibido - Marisa Monte
09. Envelhecer - Arnaldo Antunes
10. Vira Pó - Karina Buhr
11. Tempos Modernos - Lulu Santos
12. Vagalumes Cegos - Cícero
13. De Graça - Marcelo Jeneci
14. Voa liberdade - Jessé
15. Brincar de Viver - Maria Bethânia
16. Questão de Tempo - Nara Leão
17. Preciso me encontrar - Cartola

terça-feira, 17 de junho de 2014

Poema para Walderes


Dezessete. Essa data pode ser nosso poema. Uma rima onde tudo está contido: a alegria que a vida realça e a saudade que a morte desdobra. E assim, ficamos os dois para sempre neste dia. Eu porque nasci e você porque morreu. Meu aniversário de vida é seu aniversário de morte. Um memorial daquilo que foi e é parte importante também agora. Estendidos como versos, dor e contentamento se recitam mutuamente, em uníssono. E assim, os dias dezessetes passam a ser essa garantia de nunca esquecer. 

Plantado de volta na terra que te pariu, ainda estende suas raízes até o chão das minhas tristezas e faz desabrochar presentes... faz chover doçuras e circular perfume de agoras.

Imagem de René Magritte

Dezessete


Tem dias que cada passo dado, cada movimento que o peito faz e cada mergulho em pensamentos que te assolam merecem ser embalados por uma canção.
Hoje é um desses dias!

01. Lucky Man - The Verve
02. Live and Learn - The Cardigans
03. Hero - Family of the Year
04. Green Lights - Aloe Blacc
05. Nowhere Man - The Beatles
06. Real Life - Cat Power
07. It's Amazing - Jem
08. Scenic World - Beirut
09. Waves - Blondfire
10. The Symphony - Snow Patrol
11. Memoir - Charlotte Gainsbourg
12. Blowing in the Wind - Bob Dylan
13. Feel it All - KT Tunstall
14. Uptight Downtown - La Roux
15. It's My Life - Bon Jovi
16. It's Wonderful LIfe - Black
17. Que Sera Sera - Doris Day

E é bom que seja assim!

terça-feira, 15 de abril de 2014

Pausa


Um livro para ler, um artigo para terminar, prazos apertados, notificações facebookianas deixando a manhã movimentada e o tempo, escasso, escorrendo por entre os dedos.

Em meio ao barulho da construção ao lado, da buzina incessante no estacionamento, da pressa no meu peito e do parágrafo que precisa ser lido, ouço um som entrar pela janela.


Lembro do meu pai.

A música intensifica uma saudade e, aos poucos, vai plantando silêncios onde só há espaço para barulhos. Se ainda estivesse aqui, meu pai faria 64 anos neste 14/04/2014.

Senti vontade de conversar com ele.

"Ah, Chalana sem querer
Tu aumentas minha dor."

Fecho o livro e o computador. O parágrafo fica pra depois porque a vida sempre parece mais bonita nas pausas.

Imagem de Sophie Jodoin

terça-feira, 1 de abril de 2014

Apressadinho


Tranquei a porta do apartamento e me deparei com o menino apertando insistentemente os botões do elevador. Tal era sua pressa que só me notou no instante em que eu o ajudei abrir a porta para entrar. Até então, parecia conjurar algum encanto capaz de fazer o painel eletrônico soletrar, com a rapidez desejada, os números de cada andar.

Seguimos os dois em uma viagem silenciosa até o térreo. Ele, andando de um lado para outro com vontade de chegar. Eu, parado no canto, desejoso por desfrutar um pouco mais daquela ansiedade menina.

As portas se abriram e ele saiu em disparada me deixando pra trás. Desceu as escadas tentando retirar algo do bolso da bermuda e nem ligou quando a porta que ele atravessou quase me acertou o rosto. Ganhou a calçada e a rua como se alcançasse o céu.

Guardei aquele sorriso que me chegou aos lábios quando descobri o motivo da correria. Na esquina, ao lado do carrinho de sorvete, o menino pedia um picolé de limão.

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 31 de março de 2014

O Grito


Nasci na roça. Ajudei a arrancar feijão, cobri buracos com terra para a plantação brotar e quebrei milho para a pamonha. Na rabeira do arado, falar não podia porque era distração que a lida não permitia. Menino não reclama, escuta os bichos enquanto o sol, à pino, estica as horas o quanto pode.

Nas pescarias, peixe se fisgava com o silêncio do pescador. Na sala de aula, ouvia-se apenas o resmungo do giz sujando a lousa e conversar era o recheio do recreio. Em prosa de adulto, nem o olho era capaz de alcançar o assunto. A boca, então, nem se fala! 

Cresci sem muita vontade de falar, como se uma conversa interna e silenciosa pudesse dar conta do pouco que eu tinha para dizer. Havia também a gagueira que me fazia - e ainda faz - considerar dois tempos antes de pronunciar o que desejo. 

O silêncio nunca foi, para mim, uma língua estrangeira. Então, de onde vem essa vontade louca de gritar?

Imagem de Edvard Munch

domingo, 23 de março de 2014

Para Walderes Brito


A vontade de ler "A ausência que seremos" foi construída por um sentimento de perda. Um amigo muito querido havia me falado das belezas do livro e tínhamos combinado que ele leria algumas partes que o tocaram em um passeio de final de tarde que faríamos juntos em um dos parques de Goiânia.

O passeio nunca aconteceu conforme eu relatei aqui e, passados os primeiros dias de tristeza profunda pela perda do Walderes, em janeiro comecei a ler o livro.

A história, de cunho autobiográfico, gira em torno das memórias do autor Héctor Abad e suas experiências de infância à partir da relação afetuosa que mantinha com o pai, um médico sanitarista e professor universitário que lutou pelas áreas globais da saúde pública na Colômbia entre as décadas de 1950 e 1980.

Apesar das trezentas e poucas páginas, a leitura se prolongou até o fim de março. Esse prolongamento se deu em duas medidas. Na primeira delas, está o fato de que algumas partes do livro parecem repetitivas e algumas formulações parecem insinuar, incessantemente, um sentimento exagerado de admiração incondicional pela figura paterna.

"Sem esse amor exagerado que meu pai me deu, eu certamente teria sido uma pessoa muito menos feliz".

Mesmo que em alguns momentos o autor entregue algum sinal de autoconsciência sobre esse sentimentalismo exacerbado - "Não quero fazer uma hagiografia nem me interessa pintar um homem alheio às fraquezas da natureza humana" - fica a impressão de que esta é uma reflexão vazia de sentido, uma vez que ele não a seguiu à risca. Junto a afirmação excessiva da influência que o amor do pai exerceu sobre a vida do filho, há ainda a descrição do momento político pelo qual a Colômbia passava que, apesar de necessária para entendermos o contexto e as condições que levaram o pai à sofrer uma morte violenta, deixa a leitura entrecortada e sem a fluidez necessária para que ela se dê em ritmo contínuo.

No entanto, há uma outra medida que me deixou com um sentimento de orfandade depois de terminar a leitura quase três meses depois que a iniciei. Ler "A ausência que seremos" teve, pra mim, uma noção de prolongamento. Como se eu pudesse ouvir/dialogar com o Walderes por mais um tempo depois da sua própria ausência. E, por suscitar esse sentimento, eu gostaria de poder prolongar a leitura infinitamente.

A cada página lida, meus olhos buscavam trechos, palavras ou formulações de pensamento que pudessem sinalizar o que ele havia escolhido compartilhar comigo, mas nunca pôde. E nas primeiras duzentas páginas do livro eu não conseguia enxergar nada que chegasse perto desse desejo de partilha. Tive, então, que fazer uma pausa com medo de terminar o livro sem conseguir estabelecer esta conexão, sempre achando que eu tinha deixado passar alguma frase ou pensamento que o tivesse tocado de algum modo.

Foi então que, na última noite de sexta, ultrapassando os limites da segunda metade do livro, consegui ler nas palavras de Abad, as afinidades que eu desejaria partilhar com Walderes e, nessa inversão, pareceu-me que estava lendo não mais o autor colombiano, mas meu amigo pernambucano.

"Depois de mortos, ainda sobrevivemos por alguns frágeis anos na memória de outros, mas também essa memória pessoal, a cada instante que passa, está sempre mais perto de desaparecer. Os livros são um simulacro de lembrança, uma prótese para recordar, uma desesperada tentativa de tornar um pouco mais perdurável o que é irremediavelmente finito [...] E se minhas lembranças entrarem em harmonia com alguns de vocês, e se o que eu senti (e deixarei de sentir) for compreensível e identificável com algo que vocês também sentem ou sentiram, então esse esquecimento, esta ausência que seremos poderá ser adiada por mais um instante".

Ainda perdido por esta ausência, terminei a leitura com o peito dolorido de saudades e olhos afogados em lembranças. Mesmo com a narrativa acanhada e achando que o autor não foi capaz de lidar com o equilíbrio entre a proximidade e o distanciamento que esse tipo de texto exige - e é mesmo um tipo difícil de escrita - o livro permanecerá para mim como um pacto silencioso entre amigos. Um labirinto que eu posso percorrer à procura dos atravessamentos que emocionaram alguém tão importante pra minha realidade que nem a morte é capaz de dissolver.

"Não é a morte que leva as pessoas que amamos. Ao contrário, ela as guarda e as fixa em sua adorável juventude".

Foto: Wolney Fernandes

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Não Atravesso a Rua Sozinho


A vontade de ler "A ausência que seremos" foi construída por um sentimento de perda. Um amigo muito querido havia me falado das belezas do livro e tínhamos combinado que ele leria algumas partes que o tocaram em um passeio de final de tarde que faríamos juntos em um dos parques de Goiânia.

O passeio nunca aconteceu conforme eu relatei aqui e, passados os primeiros dias de tristeza profunda pela perda do Walderes, em janeiro comecei a ler o livro.

A história, de cunho autobiográfico, gira em torno das memórias do autor Héctor Abad e suas experiências de infância à partir da relação afetuosa que mantinha com o pai, um médico sanitarista e professor universitário que lutou pelas áreas globais da saúde pública na Colômbia entre as décadas de 1950 e 1980.

Apesar das trezentas e poucas páginas, a leitura se prolongou até o fim de março. Esse prolongamento se deu em duas medidas. Na primeira delas, está o fato de que algumas partes do livro parecem repetitivas e algumas formulações parecem insinuar, incessantemente, um sentimento exagerado de admiração incondicional pela figura paterna.

"Sem esse amor exagerado que meu pai me deu, eu certamente teria sido uma pessoa muito menos feliz".

Mesmo que em alguns momentos o autor entregue algum sinal de autoconsciência sobre esse sentimentalismo exacerbado - "Não quero fazer uma hagiografia nem me interessa pintar um homem alheio às fraquezas da natureza humana" - fica a impressão de que esta é uma reflexão vazia de sentido, uma vez que ele não a seguiu à risca. Junto a afirmação excessiva da influência que o amor do pai exerceu sobre a vida do filho, há ainda a descrição do momento político pelo qual a Colômbia passava que, apesar de necessária para entendermos o contexto e as condições que levaram o pai à sofrer uma morte violenta, deixa a leitura entrecortada e sem a fluidez necessária para que ela se dê em ritmo contínuo.

No entanto, há uma outra medida que me deixou com um sentimento de orfandade depois de terminar a leitura quase três meses depois que a iniciei. Ler "A ausência que seremos" teve, pra mim, uma noção de prolongamento. Como se eu pudesse ouvir/dialogar com o Walderes por mais um tempo depois da sua própria ausência. E, por suscitar esse sentimento, eu gostaria de poder prolongar a leitura infinitamente.

A cada página lida, meus olhos buscavam trechos, palavras ou formulações de pensamento que pudessem sinalizar o que ele havia escolhido compartilhar comigo, mas nunca pôde. E nas primeiras duzentas páginas do livro eu não conseguia enxergar nada que chegasse perto desse desejo de partilha. Tive, então, que fazer uma pausa com medo de terminar o livro sem conseguir estabelecer esta conexão, sempre achando que eu tinha deixado passar alguma frase ou pensamento que o tivesse tocado de algum modo.

Foi então que, na última noite de sexta, ultrapassando os limites da segunda metade do livro, consegui ler nas palavras de Abad, as afinidades que eu desejaria partilhar com Walderes e, nessa inversão, pareceu-me que estava lendo não mais o autor colombiano, mas meu amigo pernambucano.

"Depois de mortos, ainda sobrevivemos por alguns frágeis anos na memória de outros, mas também essa memória pessoal, a cada instante que passa, está sempre mais perto de desaparecer. Os livros são um simulacro de lembrança, uma prótese para recordar, uma desesperada tentativa de tornar um pouco mais perdurável o que é irremediavelmente finito [...] E se minhas lembranças entrarem em harmonia com alguns de vocês, e se o que eu senti (e deixarei de sentir) for compreensível e identificável com algo que vocês também sentem ou sentiram, então esse esquecimento, esta ausência que seremos poderá ser adiada por mais um instante".

Ainda perdido por esta ausência, terminei a leitura com o peito dolorido de saudades e olhos afogados em lembranças. Mesmo com a narrativa acanhada e achando que o autor não foi capaz de lidar com o equilíbrio entre a proximidade e o distanciamento que esse tipo de texto exige - e é mesmo um tipo difícil de escrita - o livro permanecerá para mim como um pacto silencioso entre amigos. Um labirinto que eu posso percorrer à procura dos atravessamentos que emocionaram alguém tão importante pra minha realidade que nem a morte é capaz de dissolver.

"Não é a morte que leva as pessoas que amamos. Ao contrário, ela as guarda e as fixa em sua adorável juventude".

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A Boa Manhã*


Apenas passo os olhos pelos jornais; jogo-os fora, alegremente, porque eles pretendem dar-me notícia de muitos problemas, e eu não tenho nem quero problema nenhum.

Acordei um pouco tarde, abri todas as janelas para o sábado louro e azul, e o mar me deu bom-dia. Passa um pequeno barco branco no mar de safira: como vai ligeiro, como vai contente, com seu bigodinho de espumas brilhantes! Uma ave se detém um instante peneirando, depois mergulha na vertical em grande estilo; quando volta, um pequeno peixe brilha em seu bico.

Chupo uma laranja, e isto me dá prazer. Estou contente. Estou contente da maneira mais simples – porque tomei banho e me sinto limpo, porque meus braços e pernas e pulmões funcionam bem; porque estou começando a ficar com fome e tenho comida quente para comer, água fresca para beber.

Nenhuma tristeza do mundo nem de meu passado me pega neste momento. Tenho prazer em ver que a Ilha Rasa está lá direitinha, em seu lugar, com o farol branco. Vejo ao longe, saindo da praia, dois amigos; estão conversando e rindo. Tomaram seu banho de mar, vão almoçar; estou contente porque os amigos vão bem e suas mulheres esperam crianças. Saúde e prosperidade! Estou contente porque recebi uma boa notícia. Nada de extraordinário, mas uma notícia muito simpática.

Sei que o mundo está cheio de horríveis problemas – e eu mesmo, pensando bem, tenho alguns bem chatos. Mas não estou pensando neles; estou vivendo nesta fresca manhã um momento de bem-estar, de felicidade.

Ora, considerando que a felicidade é uma suave falta de assunto, eu me despeço de todos com um cordial bom-dia e vou almoçar. Não quero contar prosa, mas tenho arroz, feijão, carne, alface, laranja, pão, tudo o que um ser humano necessita para viver bem.

Um velho amigo vem honrar a minha mesa; falaremos com simpatia das mulheres bonitas desta formosa capital. Conversa de brasileiros! Bom dia, passem bem todos com suas mulheres, com seus amigos, com suas amantes também.


O texto é do Rubem Braga, mas nesta manhã fiz dele um tesouro só meu!
A foto eu encontrei no "Poeme-se"

(*) In, Rubem Braga. 200 crônicas escolhidas. Rio de Janeiro: Record, 2004, p. 118

Ela


Com fones no ouvido, eu caminhava pelos corredores do supermercado completamente alheio às pessoas que me cercavam enquanto conversava com alguém utilizando um aplicativo para celular. Absorto em minha conversa parecia um maluco empurrando o carrinho de compras, falando sozinho e escolhendo o palmito mais fresco.

Mas eu não era o único, afinal quem nunca sacou o celular para conferir um novo e-mail ou atualizações das redes sociais no restaurante, no cinema, na fila do banco, no ônibus, na cama, etc? Esta situação e tantas outras semelhantes e comuns nos dias de hoje é o que nos aproxima do futuro onde a história de Ela (Her, EUA, 2013) se passa.

Destaque seja dado ao belíssimo desenho de produção do filme que projeta um mundo “instagramizado” como bem definiu uma amiga fazendo referência a uma realidade filtrada por cores e camadas programadas para realçar só o que nos interessa.

A linha que o filme traça entre realidade e ficção é realmente nebulosa. Para entender isso basta ler a sinopse. Theodore (Joaquin Phoenix), um homem comum, com alguns poucos amigos, está passando por um doloroso processo de divórcio com a ex-mulher que ele ainda ama.


O moço solitário acaba procurando conforto – e encontra!!! - em um sistema operacional do tipo faz-tudo. Desenvolvido com inteligência artificial e voz de Scarlett Johansson, esse misto de secretária, amiga e namorada é batizado como Samantha e, aos poucos, passa a ser a solução perfeita para todos os problemas de Theodore que não consegue interagir com o meio social.

Aliás, sociabilidade não é bem a palavra para definir o modo como as pessoas interagem no longa. Quando Theodore anda pelas ruas, o que vemos são pessoas que - assim como ele no filme e eu no supermercado -caminham com um fone de ouvido conversando com seus próprios aparelhos.

Cada pessoa parece presa em um mundo particular com seus sistemas operacionais onde tudo é perfeito... ou quase, como nos deixa entrever o roteiro tão bem articulado de Spike Jonze que dirige o filme com maestria e sabe colocar o dedo na ferida dessa geração que caminha para esse futuro individualista que já está bem ali, pertinho de nós.

Dentre as tantas qualidades da obra, também merece destaque a trilha sonora composta por William Butler e Owen Pallett do Arcade Fire. O tom melancólico dá a exata medida para acompanharmos essa história de amor tão peculiar.



Ao se apaixonar por Samantha, Theodore inicia o que ele acha ser um relacionamento ideal, pois ela está sempre à sua disposição e, atuando em função dele, sabe exatamente como agradá-lo. Esse estado de eterna permanência se contrapõe aquilo que levou o casamento de Theodore ruir: o fato dele e da ex-mulher (Rooney Mara) terem mudado. Não é assim na vida real? Quando o outro se torna diferente daquilo que a gente estabeleceu como perfeito, tudo parece desandar.

O filme questiona o tipo de relações que queremos e que necessitamos para evoluir. Afinal, amar quem só concorda com a gente ou que nos serve é fácil. As relações humanas, no entanto, existem justamente para aprendermos com o que é diferente, com o que nem sempre nos agrada e com o que se volta difícil.

Por outro lado, Se Theodore ri do sarcasmo de Samantha, se preocupa com ela e fica angustiado quando eles não estão bem, estes sentimentos não seriam reais? E se forem reais, a relação também não seria? Enfim, questões profundas, bastante pertinentes para o tempo que vivemos e, por isso, tão inquietantes.

Eu acredito que filmes realmente bons são esses que permanecem com a gente, mesmo depois do fim. E se Ela me fez pensar nas diferenças entre comprar palmito hoje e há 10 anos atrás, já vale uma indicação. Pode confiar!



Texto publicado no "A Gambiarra"

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Noites de Alface


Da Vanessa Barbara eu conhecia o ótimo "O Livro Amarelo do Terminal" que eu devorei num fôlego só. Com uma escrita afiada e dona de um humor elegante, a autora conseguiu traçar um painel polifônico do dia a dia da Rodoviária do Tietê. Para quem não conhece, fica a indicação.

Foi com muita sede ao pote que eu cheguei a este "Noites de Alface" e ao ler o primeiro parágrafo (costume meu) fiquei tão impressionado diante da beleza e profundidade daquelas linhas que cheguei a reproduzi-las em minha timeline aqui mesmo no facebook, há alguns dias atrás. Vejam só:

"Quando Ada morreu, as roupas ainda não tinham secado. O elástico das calças continuavam úmido, as meias grossas, as camisetas e as toalhas de rosto penduradas do avesso, nada estava pronto. Havia um lenço de molho dento do balde. Os potes recicláveis lavados na pia, a cama desfeita, os pacotes de biscoito aberto, em cima do sofá - Ada tinha ido embora sem regar as plantas. As coisas da casa prendiam a respiração e esperavam. Desde então, a casa sem Ada é de gavetas vazias."

Profundo, né? Porém, apesar de um começo tão intenso, a história contada por Vanessa não mexeu tanto comigo. Talvez minha expectativa exacerbada tenha impedido de me deixar levar pelas lembranças de Otto em torno do vazio deixado pela esposa Ada.

Cada capítulo do livro apresenta um dos vizinhos desse casal peculiar que, embora sejam personagens muito divertidos, acabam por desviar, o foco da relação do casal de protagonistas. Opostos por natureza, Ada é toda espontânea e Otto é um velho ranzinza, mas que viveram um casamento repleto de cumplicidades.

Há também um mistério que envolve esses vizinhos que fica aparente frente as relações que são estabelecidas entre eles. No entanto, a explicação desse segredo me pareceu muito surreal para um livro de começo tão calcado na realidade de uma perda.

Enfim, é uma boa leitura com rimas narrativas muito bem construídas e a escrita da Vanessa continua deliciosa e cheia de detalhes que deixam a leitura bem divertida. Pena que a história não tenha a mesma força.
__________
Noites de Alface [3/5]
Autora: Vanessa Barbara
Ed. Alfaguara

Imagem: Wolney Fernandes

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Contaminações


Atrasado, saí da loja com as fotos nas mãos e os fones no ouvido. O sinal abriu para pedestres e eu tinha aquela faixa inteira só pra mim. Antes de atravessar, vasculhei minha lista de músicas à procura de Modern Love do David Bowie. Apertei o play. Respirei por dois segundos e atravessei a avenida e o próximo quarteirão inteiro correndo feito Francis Ha.

Cheguei no carro com sorriso no rosto e uma sensação de que a vida pode ser uma aventura cinematográfica.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Histórias Reais


Para cada objeto ou situação uma foto, para cada foto, uma história.

Neste livro, a artista francesa Sophie Calle usa objetos do cotidiano para desfiar histórias e memórias trançadas à sua experiência como artista. Um roupão, um bilhete ou um bordado vão descortinando narrativas singulares sobre o modo como a autora enxerga o mundo.

Com uma escrita extremamente mordaz e carregada de ironias, Sophie consegue nos revelar intimidades e mostrar peculiaridades no modo como ela marca suas experiências com algum tipo de rito.

Em uma das melhores histórias ela encontra um bilhete do marido e tem uma surpresa, ao imaginar ser uma mensagem endereçada a ela:

"Continuei a ler de baixo para cima: 'Um dia você me perguntou se eu acreditava no amor à primeira vista. Eu cheguei a responder?'. Só que esse bilhete não era para mim: no alto havia um H. Risquei o H. e coloquei um S. Essa carta de amor passou a ser a que eu nunca recebi".

Provocativa e surpreendente, a artista consegue nos enredar pelas poucas páginas da publicação com amostras de uma vida vivida com uma intensidade invejável.


_____________ Histórias Reais [5/5]
Autora: Sophie Calle
Ed. Agir


Foto: Wolney Fernandes

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Borges e seus itinerários afetivos


Me interessei por Jorge Luís Borges ao ler "No meu peito não cabem pássaros" do escritor português Nuno Camarneiro. Nele, há um menino que olha o mundo de um modo muito peculiar e que foi inspirado em Borges. A identificação com o personagem foi tanta, que terminada a leitura do livro fui atrás de algo escrito pelo famoso escritor argentino.

Minha predileção por preambulações e itinerários afetivos me fizeram começar a leitura de Borges pelo livro Atlas. Uma espécie de mapeamento que o autor faz dos lugares que visitou na década de 80. E por lugares entenda cidades, esquinas, desertos, sonhos e até um brioche. Qualquer dispositivo que lhe incitava à escrita é registrado no livro que ele divide com María Kodama, cujas fotos também tecem narrativas e impressões sobre os caminhos percorridos pelo casal.

Borges herdou uma doença que ia lhe tirando as vistas na medida do seu envelhecimento. Desse modo, ler suas histórias e divagações acerca dos lugares explorados por seus toques, cheiros, sabores e sons, tornam a leitura de Atlas um desvelamento de pessoas, assombros e alegrias de um modo singular.

"Aqui sentimos de maneira inequívoca a presença do tempo, tão rara nestas latitudes. Nas muralhas e nas casas está o passado, sabor que se agradece na América. Não se exigem datas nem nomes próprios; basta o que sentimos de imediato, como se fosse uma música."

A escrita de Atlas abriu brechas, me fez desenrolar novelos de cotidianidades e deixou pontas soltas para que eu, como leitor, as atasse. Gosto assim, quando me sinto partícipe da narrativa. Há, ainda, uma dimensão poética tão forte no jeito que ele escreve os textos que os lugares vistos pelos "olhos" de Borges acionam inquietações breves, mas latentes sobre como pequenos gestos podem alterar a noção que temos de uma determinada realidade.

"A uns trezentos ou quatrocentos metros da Pirâmide me inclinei, peguei um punhado de areia, deixei-o cair silenciosamente um pouco mais adiante e disse em voz baixa: Estou modificando o Saara."

Se alguém ainda não conhece, recomendo a edição de capa dura feita pela Cia das Letras que é graficamente deslumbrante na mesma medida das palavras e imagens que a narrativa apresenta. Atlas foi pra mim uma porta de entrada para uma literatura que eu quero explorar para descobrir cada vez mais sobre mim mesmo.

"Não há um único homem que não seja um descobridor. Ele começa descobrindo o amargo, o salgado, o côncavo, o liso, o áspero, as sete cores do arco-íris e as vinte e tantas letras do alfabeto; passa pelos rostos, mapas, animais e astros; conclui pela dúvida ou pela fé e pela certeza quase total da própria ignorância."

Fotos: Wolney Fernandes