sábado, 20 de dezembro de 2014

Balanço Cinematográfico - Os filmes de 2014


A contabilidade fechou assim: 50 sessões no cinema e 64 sessões em casa, totalizando 114 filmes assistidos em 2014. Em meio a essa soma, eu consegui listar aqueles que, de uma forma ou de outra, deixaram meu ano muito mais intenso.
    
Só pra lembrar: mesmo estando numerados, não há uma ordem de preferência e que nem todos os títulos foram lançados em 2014, mas se estão aqui é porque tive contato com eles neste ano. 

Os melhores filmes do ano:
1. Ela 
2. Boyhood - Da Infância à Juventude
3. Praia do Futuro 
4. O Grande Hotel Budapeste 
5. O Homem Duplicado

Os melhores filmes que (quase) ninguém viu:
1. Pelo Malo 
2. Alabama Monroe
3. Amantes Eternos 
4. Entre Nós
5. Um Estranho no Lago

Os melhores filmes que assisti em casa:
1. Santiago
2. Contato
3. À Prova de Morte
4. Louca Obsessão
5. Clube da Luta

As bombas do ano [melhor nem passar perto]:
1. Noé 
2. Malévola 
3. Um Conto do Destino
4. Uma nova chance para amar
5. Caçadores de Obras Primas

Constrangimentos do ano:
1. Malévola "despertando" a Bela Adormecida no filme "Malévola"
2. O romance água com açúcar de "Divergente"
3. Bebel Gilberto de cupido em Rio Eu Te Amo
4. Os 10 últimos minutos de Interestelar
5. Os monstros (anjos caídos) de "Nóe"

Cenas inesquecíveis:
1. O resgate de Magneto em "X-Men - Dias de um futuro esquecido"
2. A dança ao som de Aline em "Praia do Futuro"
3. Emma Thompson se deixando seduzir pela música "Let`s Go Fly a Kite" em "Walt nos bastidores de Mary Poppins"
4. Scarlett Johansson seduzindo suas presas em "Sob a Pele"
5. Princesa Elza construindo seu castelo de gelo em "Frozen"

Personagens inesquecíveis:
1. Adèle (Adèle Exarchopoulos) e suas descobertas sobre si mesma em "Azul é a cor mais quente"
2. Amy (Rosamund Pike) e sua beleza enigmática nos remetendo às louras de Hitchcock em Garota Exemplar
3. O romântico Theodore (Joaquin Phoenix) de Ela.
4. Leonardo (Guilherme Lobo), o garoto cego de Hoje eu quero voltar sozinho
5. A Philomena de Judi Denche sua força sem fim em Philomena

Os clássicos do ano e de sempre:
1. O Bebê de Rosemary 
2. A Piscina 
3. Quem tem medo de Virgínia Woolf?
4. Um Barco e Nove Destinos
5. A Felicidade não se compra 

Os cartazes mais incríveis:
1. Ela
2. Nebraska
3. Um Estranho no Lago
4. Ninfomaníaca
5. O Homem Duplicado 

Os filmes que me fizeram escrever a respeito:
01. Ela
02. Trapaça 
03. O Lobo de Wall Street
04. 12 anos de escravidão 
05. Philomena
06. Clube de Compras Dallas
07. Nebraska
08. Capitão Phillips
09. Praia do Futuro
10. Lucy
11. Noé

Imagem capturada aqui.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O Filho de Mil Homens


"Um homem chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter um filho."

Assim começa "O Filho de Mil Homens", livro do escritor português Valter Hugo Mãe que investiga novas relações familiares questionando a estrutura familiar tradicional. A história começa com o desejo de ser pai do pescador Crisóstomo e se estende pelas trajetórias de outros personagens diferentes, renegados e, exatamente por isso, infelizes.

Uma anã, um órfão, um gay e uma moça desvirginada compõem parte dessa galeria de proscritos que vivem sob o peso do julgamento de uma sociedade conservadora que não consegue conviver com as diferenças. Embora o autor não demarque um período histórico, fica muito claro que a trama se desenvolve de maneira muito próxima àquilo que testemunhamos na atualidade.

A solidão desses personagens é o ponto de partida para um desdobramento que vai aproximá-los, de modos muito distintos, deles mesmos. Uma busca pela felicidade é empreendida à partir de situações de esvaziamento, de perda de identidade e do prazer de viver.

"Não era mulher de reclamar grandes atenções, e por isso não retinha nada de especial. Era como aproveitar o amor possível. O amor dos infelizes."

De certa forma, os estigmas que pairam sob cada uma dessas pessoas é exacerbado pelos olhos dos outros à partir do uso da própria sexualidade. A anã, que perde o apoio social quando decide deixar o posto de "coitadinha" para vivenciar, em plenitude, o que significa ser mulher; o "homem maricas" que a própria condição parece instaurar um ódio gratuito nas pessoas que o rodeiam, inclusive na própria mãe; e a moça pura que ao perder a virgindade está fadada à viver só e infeliz.

"Era uma mulher carregada de ausências e silêncios. Para dentro da Isaura era um sem fim e pouco do que continha lhe servia para a felicidade. Para dentro da Isaura a Isaura caía."

Os laços que unem os destinos desses personagens é o que sustenta a história. Apesar do enredo não ser tão instigante - e na segunda metade do livro isso fica mais evidente - grande parte dos assombros e encantamentos está em acompanhar a trajetória de cada um deles e o modo como "o outro" pode exercer um papel primordial no entendimento do que significa ser humano e ser feliz. Do meio para o final do livro, as emoções mudam de tom e, quando reencontramos o Crisóstomo, já estamos enredados por sua vontade genuína de ser pai de mil homens. 

É interessante o contraponto feito pelo autor ao explicitar preconceitos em torno do que é visto como diferente e confrontá-los com a experiência de transformação gerada por relações afetivas construídas exatamente pelo respeito à essa diferença. Crisálidas prestes a se romperem em vôos coloridos e diversificados. 

"Ser o que se pode é a felicidade. Não adianta sonhar com o que é feito apenas de fantasia e querer aspirar ao impossível. A felicidade é a aceitação do que se é e se pode ser."

"O Filho de Mil Homens" é um livro de tristezas, mas não aquelas que se afundam em si mesmas. As tristezas reveladas por Valter Hugo Mãe funcionam como camadas que se misturam a cotidianidades e a destinos muito próximos da realidade. Com destreza invejável, o autor consegue balancear drama e humor em doses certeiras (o capítulo 11 particularmente me fez dar boas risadas) e sua prosa poética, sempre repleta de termos e expressões inteligentes, me fez parar por diversas vezes para suspirar, para reler um parágrafo ou mesmo olhar pra janela em busca de espaço para fazer todos os sentidos caberem no meu peito.

"Farto como estava de ser sozinho, aprendera que a família também se inventava"

Terminei a leitura uma vontade de que todo mundo pudesse ler esse livro, cuja trama, tão atual, parece afinar nossas humanidades pelo ritmo das batidas do coração. Para terminar com chave de ouro, a nota do autor, depois do final da história nos dá a justa medida de como literatura e vida parecem indissociáveis. 

"Hoje é do que tenho mais saudade. Desse sentimento, que na sua plenitude talvez se reverte às crianças, de acreditar que alguém cuida de nós segundo o nosso mérito. Quando se perde essa convicção, fica-se irremediavelmente sozinho. Os pais e os filhos são o único modo de interferir positivamente nessa solidão."

Imagem: Wolney Fernandes

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Fazes-me falta*


Trezentos passos em poucos instantes
Pele de pedra sobre a minha cabeça
Os mortos e as moscas transparentes.
Quem são? E eu o que conto?
Talvez a morte não leve tudo.

Versos de Antonio Verri
Imagem de Wolney Fernandes
Título do livro de Inês Pedrosa

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Canções de 2014


Lá se vão quatro anos desde que comecei a registrar aqui no blog as músicas, os filmes e os livros que me atravessaram durante o ano. Para quem me conhece sabe que fazer listas é sempre um prazer que me acalma e diverte. Guardo aqui para não esquecer aquilo que fez meus dias mais sublimes. As escolhas, como sempre, não seguem nenhuma regra muito rígida, a não ser minha subjetividade carregada de inconstâncias, dilemas e outros caprichos. É bom lembrar que a ordem das músicas não altera a preferência e nem tudo que aparece na lista foi necessariamente produzido em 2014, mas se estão aqui é porque chegaram até mim nesta data... e permaneceram. 

As músicas internacionais de todas as playlists do ano:
1. Elastic Heart - Sia
2. Something in my heart - Royksopp ft. Jamie Irrepressible
3. Let me down easy - Paolo Nutini
4. Lifelines - A-ha
5. Rolling in the Deep - Aretha Franklin

As músicas nacionais de todas as playlists do ano:
1. Como Vês - Alice Caymmi
2. Okinawa - Silva e Fernanda Takai
3. Me Leva - Marjorie Estiano
4. Ralador - Roque Ferreira e Amélia Rabello
5. Quero ser seu cão - Thiago Pethit

As músicas de filmes:
1. Hero - Family of the Year [Do filme "Boyhood"]
2. Lighthouse - Patrick Watson [Do filme "Yves Saint Laurent"]
3. Can't Hardly Stand It - Charlie Feathers [Do filme "Amantes Eternos"]
4. Mi limon, Mi limonero - Henry Stephen [Do filme "Pelo Malo"]
5. Divorce Papers - Arcade Fire [Do filme "Ela"] 

Os refrãos mais grudentos:
1. I Don't Want to Change You - Damien Rice
2. Fade Away - Susanne Sundfør
3. Fire Meet Gasoline - Sia
4. Pretty Hurts - Beyoncé
5. The Phoenix Alive - Monarchy 

As músicas que me fizeram dançar pela casa afora:
1. Uptight Downtown - La Roux
2. Living Without You - Monarchy
3. (H)ours - Juce
4. Froot - Marina & The Diamonds
5. In Your Pocket - Maroon 5

As músicas que (quase) ninguém conhece:
1. The Leading Bird - Marketa Irglova
2. Limit to your Love - James Blake
3. Preen Your Own Wings - Bibio
4. One Thing - Peter and Kerry
5. Simply Falling - Iyeoka

Os discos que ouvi do princípio ao fim
1. Vista pro Mar - Silva
2. James Blake - James Blake
3. Fairy Tales & Fantasies - Nancy Sinatra & Lee Hazlewood
4. Rock'nRoll Sugar Darling - Thiago Pethit 
5. 1000 forms of fear - Sia

Clássicos de sempre
1. Make Someone Happy - Jimmy Durante
2. Vienna - Billy Joel
3. Things Have Changed - Bob Dylan
4. That's Life - Frank Sinatra 
5. "Vissi Darte" Puccini - Maria Callas 

Globo de Ouro do Ano
1. Fanatismo - Fagner 
2. Sonho de Amor - Patrícia Marx
3. O que é que há? - Fábio Jr.
4. Beijinho na Boca - Beto Barbosa
5. Foi tudo culpa do amor - Diana

Os clipes incríveis:
1. We Exist - Arcade Fire
2. Hazey - Glass Animals
3. Romeo - Thiago Pethit
4. Chandelier - Sia
5. My Lord, My Love - Antony and the Johnsons

Imagem: Wolney Fernandes

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

"Foi. Nunca mais será. Lembre-se."


"O Inventor da Solidão" é um livro dividido em duas partes que se complementam. Na primeira, diante da morte do pai, o autor mergulha em lembranças que se avolumam à medida que precisa vasculhar a casa e os objetos da casa onde o pai viveu isolado por quinze anos. O relato, terno e sagaz, descortina segredos familiares e revela a história de um homem cuja vida foi marcada por uma tragédia que o levou a se isolar do mundo.

"Comia, ia para o trabalho, tinha amigos, jogava tênis, e apesar disso não estava ali. No sentido mais profundo e inabalável, era um homem invisível. Invisível aos outros, e muito provavelmente invisível a si mesmo. Se, enquanto esteve vivo, eu costumava procurá-lo, tentando encontrar o pai que não estava lá, agora que morreu ainda acho que devo continuar a procurá-lo. A morte nada mudou. A única diferença é que para mim o tempo se esgotou."

Na segunda metade da obra, acompanhamos a elaboração criativa em torno do livro que temos em mãos num exercício de metalinguagem muito bem articulado. É nessa parte que as reflexões se adensam em um mar de referências advindas da literatura, da música, da poesia, das artes plásticas, das viagens e da natureza dos acasos que marcaram a vida de Auster e do sentimento que ele investiga.

"A memória, portanto, não apenas como a ressurreição do próprio passado particular, mas uma imersão no passado dos outros. O que vale dizer: a história - da qual a pessoa tanto participa quanto é testemunha, faz parte dela e está à parte dela."

O livro transita entre a fragilidade da vida e a certeza da morte, entre a linha tênue que separa a literatura da realidade, a recordação do esquecimento... O texto desencadeia também, com muita propriedade, um panorama tocante da relação entre pais e filhos e nos lembra, o tempo todo, do caráter efêmero daquilo que vivemos.

"Vagar pelo mundo, então, é também vagar por nós mesmos."

Para deixar um pouco do sabor intenso da leitura, segue abaixo algumas das referências utilizadas pelo autor na composição da obra. Cada uma delas, a seu modo, funciona como uma nota cuja partitura parece conter uma canção inesquecível.

Um poema de Mallarmé:
"Encontrar apenas 
ausência
na presença
de roupas
etc.

não - eu não
desistirei
do nada

pai - eu
sinto o nada
a me invadir"

Uma canção interpretada por Billie Holiday
Para ouvir, clique aqui

Um trecho do Livro de Jonas:
"Faz-me bem sentir raiva, mesmo até a morte".

Uma pintura de Vermeer



Foto: Wolney Fernandes
Imagem: Detalhe da obra "Mulher de Azul lendo uma carta" (1664) de Johannes Vermeer

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O Homem Duplicado


"O Homem Duplicado" foi meu primeiro Saramago. A leitura, repleta de altos e baixos, me ensinou a:

a) Nunca ler Saramago em edições de bolso - o autor português não utiliza parágrafos e nem pontuação para marcar diálogos e outras particularidades no texto. Desse modo, as letras pequenas e atochadas, as entrelinhas condensadas em um bloco só dificultam o andamento da leitura que parece durar mais do que deveria.

b) Pensar duas vezes se vale a pena ler o livro depois de ter gostado (e muito) da sua adaptação para o cinema - Eu assisti o filme (incrível) do diretor Denis Villeneuve e adorei! Aliás, foi o longa que me instigou a fazer a leitura, mas confesso que ter gostado demais da versão cinematográfica me fez querer imprimir o mesmo ritmo ao livro. O que é um erro, eu sei, pois são duas linguagens diferentes e blá blá blá... No entanto, passar mais de 30 páginas acompanhando o personagem se decidir se envia ou não envia uma carta é entediante quando, no filme, tudo se resolve com dois clique no Google. O livro é de 2002 e o filme de 2013.

c) Lembrar que depois de um começo instigante e um meio arrastado, pode estar um final incrível.

d) Entender que apesar do ritmo instável da narrativa, Saramago sabe como ninguém utilizar imagens e contextos metafóricos para tratar de questões muito atuais como identidades híbridas, ética e controle social, solidão e a ditadura da felicidade.

e) Não esquecer de colocar a sinopse do livro quando for escrever a respeito do mesmo. Nesse, para quem ainda não sabe, um professor de história descobre que há um duplo dele mesmo vivendo outra vida e resolve investigar

f) Utilizar menos adjetivos no próximo texto.

Foto: Wolney Fernandes

domingo, 23 de novembro de 2014

Nos confins de uma gaveta esquecida


Na gaveta esquecida estavam cinco CDs, um moletom que não me serve mais, um par de luvas de gosto duvidoso, uma meia púrpura, dois óculos antigos que envergonhariam até a mais hipser das almas, um guarda-chuva quebrado, dez latinhas redondas (ainda no plástico), uma luminária japonesa comprada na Liberdade em 2008 (também ainda no plástico), um lenço xadrez usado para amarrar no pescoço em festas juninas (e só nelas, of course!), todos os recibos de pagamento do aluguel da garagem, uma revista, dois negativos e cerca de três reais em moedas espalhadas pelos cantos. 

E ainda me acham a pessoa mais organizada do mundo.

Imagem: Salvador Dalí

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Sussurro pela vida


Não há como falar da minha relação com a Casa da Juventude Pe. Burnier sem contar, primeiro, essa história: Lá pelos inícios da década de 90, às voltas com o grupo de jovens da minha pequena cidade natal, chegou às minhas mãos um livrinho míudo, em preto e branco, mas com jeitos e imagens que encantaram meus olhos. O encantamento com o material era tanto a ponto de querer saber de onde tinha saído aquela publicação que sabia falar a minha língua e me impelia, pelas vias da autonomia, a olhar minha própria história.

O tempo passou e em 1997 eu me mudei para Goiânia. Coincidentemente (ou nem tanto assim, vai saber, né?) eu passei a morar há exatas três quadras de onde se encontrava a Casa responsável pela produção daquele livrinho e pela formação de uma juventude inteira. Numa dessas vontades que a gente não explica, um dia eu fui visitar o lugar e de lá não saí mais. Foram cursos, tardes de formação, escolas, festas e toda sorte de acontecimentos.

Um desses acontecimentos foi o encontro com Walderes Brito que, na época, era responsável pela comunicação da Casa e com o Berg, designer do lugar e colega de faculdade, mesmo ele estando dois anos à frente de mim. Esses encontros me possibilitaram apresentar meus desenhos (tímidos e inseguros numa pasta catálogo) e a começar uma relação mais próxima com os trabalhos que a CAJU desenvolvia na época. Comecei fazendo ilustrações para o informativo e logo meus desenhos se espalharam para os cartazes, folderes e corredores do lugar.

Esse "namoro" durou um tempo e no dia 01 de Maio de 2005 fui contratado pela Casa da Juventude para fazer parte do Setor de Comunicação atuando como designer gráfico. De lá pra cá, a CAJU foi responsável em grande parte pela minha formação profissional, projetando meu trabalho para o Brasil e América Latina afora. De repente, eu era o responsável pelos desenhos e pelas formas das publicações que, como aquele livrinho lá na década de 90, rodavam o mundo encantando outros jovens.

Depois de nove anos, ontem fui oficialmente desligado do trabalho da CAJU. E é impossível deixar aquele lugar sem registrar aqui minha gratidão pelas possibilidades que o trabalho na Casa me apresentou. Muito mais do que fazer design para jovens, esse tempo foi um tempo de diálogo com os sonhos de juventudes tantas, onde o que eu desenhava era sempre colorido por outros sentidos e significados que deixavam meu trabalho muito, mas muito mais bonito. Meu agradecimento é sem fim...

Esse tempo também bordou minha existência com encontros e(ternos) e amizades sensíveis que valem por uma vida inteira. Na impossibilidade de nomear todos aqui, passo à lembrança, em especial, do Pe. Geraldo Nascimento, que no calor do seu abraço sabia abrir horizontes com generosidade e comprometimento. À Gardene Leão, pelos dias regados a muita cumplicidade, música e outras gostosuras que ainda dão água na boca só de lembrar. À Carmem Lucia pela inquietude, por sempre me desafiar a olhar a juventude de um outro lugar, estranho e inquieto, mas sem jamais perder a ternura. Ao Berg, companheiro de trabalho e amigo fiel que ainda me ensina como fazer e como não esmorecer. À Márcia, por plantar alegria onde eu só enxergava aridez e por fazer das últimas tardes - ao som de Fábio Jr. e outras tantas canções do Globo de Ouro - as mais bonitas de todas! Ao quadro de funcionários de antes e ao quadro de agora, mesmo sem os nomes marcados aqui, saibam que meu peito segue marcado, rabiscado e colorido por todos/as. Obrigado, muito obrigado!

Os últimos tempos na Casa me puseram à prova e atestaram, com veemência a efemeridade das coisas, mas não das relações. Esse período, embora menos desafiador em se tratando de trabalho, foi intenso naquilo que realmente importa: o entrelaçamento de forças e o ajuntamento de esperanças para olhar adiante que é o que eu faço agora. Meu olhar segue alternando entre o céu e aquilo que virá. A imagem que fica é a imagem daquela pipa, desenhada lá em 2005 e transformada até hoje por onde quer que ela voe. A juventude segue com seus gritos pela vida, eu de cá sigo sussurrando por ela também!

domingo, 16 de novembro de 2014

Precipícios particulares


Ultimamente, para dentro de mim mesmo eu pareço cair. Vivo trasbordamentos pelo avesso. Sabe espelhos por todos os lados? Pois é. Porque a verdade é que você sabe que está ali, olhando para aquele rosto e sabendo que é você mesmo, mas se enxergando de outro modo.

Um desdobrar-se. Por vezes, esgarçar-se. 
Certezas? Mexe. Mexe. Mexe.

Cabeça, olhos e dedos na lua desse infinito particular. Pés a flutuar em gravidade zero. A vontade é voltar para um lugar seguro, mas na volta dá pra se achar e se reconhecer? Como ser maleável consigo quando seu ombro tá doendo e você sabe que é o peso de suas escolhas?

Eu que já desejei exclamações, ando de namoro com interrogações pra ir pra cama com afirmações. Uma gramática da vida onde não é preciso falar nada, onde as aprovações alheias passem à margem desse silêncio bom que sempre me ajuda a encontrar o vento que me refrigera inteiro.

É possível ser feliz só desejando ventos?
É possível ser feliz só desejando?
É possível ser feliz só?
É possível ser feliz?
É possível?
É.

Foto: Wolney Fernandes

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Iniciantes - Do que falamos quando falamos de Raymond Carver


“Naquela manhã, ela derrama uísque Teacher’s em cima da minha barriga e lambe. De tarde, tenta se jogar pela janela.”

Talvez essa seja a frase que resuma com precisão as contradições (deliciosas, diga-se de passagem) que permeiam os contos de Raymond Carver no livro "Iniciantes". Quando falo em contradições procuro ressaltar que as histórias escritas pelo autor nos colocam sempre diante de personagens moldados por sentimentos antagônicos, por vezes duvidosos, mas nunca irreais.

Os dezessete contos que dão corpo a esta edição transitam por histórias de amor mal resolvidas, brigas entre casais, perdas, acertos de contas entre pais e filhos, entre esposas e maridos e amizades que surpreendem por seus contornos contrastantes. As relações desfiadas pelo autor estão sempre em mutação e, por isso, são muito palpáveis, muito parecidas com a vida real.

"A morte é lugar nenhum, Nancy. Pode escrever o que estou dizendo."

"Quer ver uma coisa?" foi um dos contos que conseguiu fazer com que eu olhasse pra mim mesmo em busca daquilo que, de certa forma, desconecta quem eu quis ser de quem eu sou e, pelas indagações da esposa que acorda no meio da noite para conversar com o vizinho pude enxergar minhas próprias limitações com muito mais clareza tamanha a inquietação que a história imprime.

"Não sei por quê, mas de repente me senti muito longe de todo mundo que eu tinha conhecido e amado quando era garota. Senti uma saudade das pessoas. Por um momento, fiquei lá parada e desejei poder voltar para aquela época. Então, quando pensei de novo, entendi com clareza que não podia fazer aquilo. Não, mas então me veio a cabeça que a minha vida não se parecia nem remotamente com a vida que eu achava que ia ter quando era jovem e vivia cheia de expectativas,"

"O lance" é uma conversa difícil entre pai e filho onde o pai deseja relatar ao filho o tal lance que mudou a vida de ambos e é escrita de forma tão incrível que não dá para tecer julgamentos diante de personagens tão complexos. Isso é uma característica marcante do autor que consegue, em poucas páginas, moldar e desenvolver personagens tão verossímeis.

Carver é dono de uma escrita crua, precisa, por vezes, dura e, em função disso, suas histórias não seguem uma estrutura convencional. Entramos por seus contos como se estivéssemos de passagem, em constante movimento. Passa-se pelos conflitos e pelas situações e é como se as histórias continuassem para além do nosso olhar de leitor. Por isso não há desfechos, mas portas de saída sem ápices ao final de cada uma delas.

O conto que dá título ao livro é quase todo construído por diálogos entre dois casais que, reunidos na casa de um deles discutem suas convicções acerca do que é o amor. O modo como Carver tece a escrita entre os diálogos e o que acontece entre eles é muito dinâmico, quase como se não se tratasse de ficção, mas de realidade.

O livro "Iniciantes" lançado pela Cia. das Letras em 2009 é a reunião dos contos em sua versão original, assim como o autor os escreveu e com diferenças bem marcantes da sua primeira publicação em 1981. Sob o belo título "Do que estamos falando quando falamos de amor" estes mesmos contos foram editados por Gordon Lish, editor de Carver na época do primeiro lançamento, que cortou quase 50% do conteúdo original. Polêmicas à parte, fica a certeza do talento de um escritor que eu nunca tinha ouvido falar, mas que já figura entre os melhores que eu já li nessa categoria.

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Em coro!


01. I Want You - Elvis Costello
02. I Want You - Beatles
03. I Want You - Kings of Leon
04. I Want You - Bob Dylan
05. I Want You - Cee Lo Green
06. I Want You - Plastic
07. I Want You - Martin Solveig
08. I Want You - Madonna ft. Massive Attack
09. I Want You - Tom Waits

A foto eu achei aqui.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

The Beatles Book Tag


Tomei fôlego, coloquei Beatles para tocar - Come Together - e resolvi responder a Beatles Book Tag criada pela Aline Aimée do blog e canal Little Doll House e pela Tatianne Dantas do País das Entrelinhas. A brincadeira consiste em atribuir algumas categorias literárias a músicas dos Beatles. Abaixo estão minhas escolhas. Para saber mais sobre os livros, basta clicar nos títulos, pois para alguns deles eu fiz textos mais detalhados aqui mesmo no blog.

Quem quiser responder também, sinta-se convidado(a)! 

01. Twist and Shout - um livro que sempre te deixa feliz.
Atlas - Jorge Luis Borges
Acompanhar Borges em suas andanças pelo mundo e o modo peculiar com o qual ele enxerga cada esquina ou situação parece desvelar dentro de mim um jeito novo de olhar pra mim mesmo. A cegueira que atravessou o caminho do autor à medida que envelhecia ajuda a compor, com outras sensibilidades, vários dos meus contentamentos. O livro é composto por pequenos textos elaborados pela experiência com a paisagem de vários lugares que o autor visitou.

02. All my loving - um livro com uma história romântica 
Rakushisha - Adriana Lisboa
"Rakushisha" opera pelas vias de um romance não convencional, pois o que se instaura no encontro entre Celina e Haruki é uma viagem interior que cada um faz em busca de si mesmos. Ao se conhecerem por acaso no metrô, uma ligação é estabelecida e os dois decidem se curvar a ela com todas as consequências que podem advir desse desejo que acaba levando o casal para uma viagem ao Japão. Delicado e muito preciso, tal como os haikais de Bashô que permeiam a narrativa, o livro é para mim, uma das histórias de amor mais bonitas que eu li esse ano.

03. Across the universe – um livro transcendente
Lavoura Arcaica - Raduan Nassar
Ler "Lavoura Arcaica" com certeza é uma experiência transcendente. O livro que conta a história de André, filho desgarrado da família regida pelos princípios do patriarcado, é narrado sob as tintas fortes das influências bíblicas. O texto de Raduan parece ter a estrutura de uma oração onde cada palavra compõe, com precisão e poesia, uma trama que faz arder o peito e arrepiar a pele.

04. Help! – um livro onde o protagonista sofra/coma o pão que o diabo amassou.
A Desumanização - Valter Hugo Mãe
A história da menina que perde a irmã gêmea e se vê perdida entre o julgo de pais desorientados e a ausência de sonhos próprios é, de longe, a mais triste que eu já li. Ambientado no interior da Islândia, a trama parece ser concebida se valendo das sensações de frio e de vazios tão característicos daquele lugar. Com uma escrita repleta de poesia, o escritor português consegue evidenciar cada etapa da vida de Halla pelas vias da tristeza, mas uma tristeza bonita, dessas que faz o peito apertar e o horizonte marejar.

05. Beatles For Sale – um best seller favorito
A Garota Exemplar - Gillian Flynn
Não sou muito de ler best-sellers, mas esse em especial chamou minha atenção por oferecer uma narrativa ágil e repleta de reviravoltas. Na história, um casal perfeito completa cinco anos de casados, mas a esposa desaparece na data. Narrada de vários pontos de vista, a trama se desenrola permeada por mistérios e até a metade do livro não se sabe as verdadeiras intenções dos personagens e isso deixa a leitura muito instigante. Surpreendentemente, depois das revelações típicas desse tipo de narrativa, quando eu pensei que o livro fosse ficar meio chato, eis que passou a me surpreender a cada página até seu desfecho permeado de inquietações.

06. Penny Lane - um livro que te lembre o lugar onde você nasceu
A Hora dos Ruminantes - José J. Veiga
José J. Veiga é um escritor goiano que sabe falar com o jeito de situações muito particulares de quem vive no Centro-Oeste do país. Tendo nascido no interior de Goiás, ao ler "A Hora dos Ruminantes" eu sempre retorno ao tempo vivenciado entre quintais, rios e morros. A história do livro gira em torno dos habitantes de uma pequena cidade que tem seu cotidiano alterado com a chegada de desconhecidos que acampam do outro lado do rio. Costurado com os fios da literatura fantástica, tão comum por estas bandas, a cada nova indagação que os moradores fazem acerca dos eventos ocorridos na pequena vila somos surpreendidos por respostas cada vez mais estranhas. Impossível não me lembrar do meu tempo de infância na minha cidade-natal onde histórias de assombração, de fantasia e mistério são muito comuns.

07. In my life – biografia ou memória favorita
O que amar quer dizer - Mathieu Lindon
Para esta categoria nada mais adequado do que o livro de memórias do francês Mathieu Lindon onde ele relembra o tempo passado junto com Michel Foucault na Paris dos anos 80. Um retrato sensível e sincero acerca de como as relações alteram nossa compreensão do mundo e nos moldam para o resto da vida. Dono de uma escrita sensível e muito concatenada, Lindon desfia suas memórias para tecê-las junto a descobertas que a juventude descortina. Sem dúvidas, uma das melhores leituras que eu já fiz.

08. Strawberry Fields Forever - um livro que te fez crescer de alguma forma
Tudo se Ilumina - Jonathan Safran Foer
"Tudo se Ilumina" é o livro da minha vida, uma vez que possibilitou com que eu olhasse para minhas próprias origens e quisesse escrutiná-las pelas vias afetivas. A história do neto que parte para a Ucrânia em busca da história do avô judeu que fugiu do nazismo é uma das mais bonitas do mundo. Narrado com brilhantismo e um tanto de humor (daquele mais refinado), o livro vai entrelaçar a história do próprio autor a de outras pessoas que ele encontra durante a viagem. Fugindo dos clichês do gênero (não há campo de concentração nem sentimentalismo exagerado - ufa!), Safran Foer consegue fazer com que passado e presente se alternem e se mesclem de forma fluida e cheia de boas surpresas. A cada iluminação, o autor nos apresenta a personagens fortes (o guia Alex, a mulher que coleciona poeira…) e estabelece metáforas inesquecíveis como a do rio por onde correm imagens de uma cidade inteira. De longe, uma leitura para a vida toda.

09. Revolver – livro policial favorito
Crônica de uma morte anunciada - Gabriel Garcia Marquez
De verdade eu também não sou leitor de histórias policiais. Na adolescência eu lia muito Agatha Christie, mas hoje em dia é raro me aventurar por livros do tipo. Ao encaixar "Crônica de uma morte anunciada" nesta categoria minha tentativa é realçar os contornos do gênero policial contidos na maneira (genial, diga-se de passagem) como o autor utiliza de vários pontos de vista para narrar um assassinato. Não há um mistério a ser decifrado uma vez que já sabemos, de início, quem é o autor do crime. No entanto, o modo como Gabriel Garcia Marquez entrelaça os fatos e vai revelando, aos poucos, toda a rede tecida em torno dos motivos dessa morte nos deixa muito curiosos para saber o "como" tudo aconteceu. 

10. Sgt. Pepper’s Lonely Heart Club Band – livro fantástico favorito
Sonhos de Einstein - Alan Lightman
"Sonhos de Einstein" é um livro fantástico na medida que nos apresenta pequenos sonhos que Einstein teria tido durante o período em que desenvolveu a teoria da relatividade. Cada capítulo mostra o funcionamento dessas noções de tempo diferenciadas em histórias diversas que desencadeiam modos de relacionar passado, presente e futuro. Um belo modo de reordenação da noção de tempo e um jeito gostoso de atribuir outros sentidos aos movimentos que fazemos cotidianamente.

11. Magical Mistery Tour – um livro que contenha um universo mágico, fantasioso, surreal.
O Perfume - Patrick Suskind
Só mesmo suspendendo a realidade para adentrar no universo surreal das peripécias de Jean-Baptiste Grenouille, um perfumista nascido na fétida Paris do século XVI, às voltas com o desejo sem limites de conseguir o aroma perfeito. Mesmo partindo de um cenário histórico, à medida que a trama se desenvolve, a fantasia de intensifica a ponto de deixar todo mundo inebriado com a história.

12. White Album – um calhamaço
O Pintassilgo - Donna Tartt
"O Pintassilgo" nem é um calhamaço assim feito o Ulysses (que estou quase na metade), mas atende bem a esta categoria, uma vez que suas quase 800 páginas fazem desse livro, um livro de peso. E não só pelo volume, mas também por seu conteúdo. Nele, acompanhamos Teo, um jovem cuja trajetória de vida está atrelada à pintura famosa que dá título à obra. O livro, amado por uns e odiado por outros, esteve nas principais manchetes do meio literário por ser o ganhador do prêmio Pulitzer de 2013. 

13. The long and winding road – um livro triste
Não me abandone jamais - Kazuo Ishiguro
Os personagens desse livro carregam uma tristeza que atravessa toda a história contada por Ishiguro. Ao investigar essa tristeza, o trio de protagonistas (um jovem e duas moças) vão descobrindo que a orfandade que os une parece traçar destinos impossíveis de se alterar. Olhares para dentro da alma fazem os contornos dessa ficção científica (!) um dos mais tristes que eu já li. Uma dica: não leia nada a respeito da história, pois o mistério que envolve esses jovens é uma da partes mais legais de se descobrir aos poucos. Um livro lindo e repleto de bons motivos para começar a ler agora.

14. Revolution – um livro com personagem questionador
Fun Home - Alison Bechdel 
Alison faz dela mesma uma personagem forte em Fun Home, graphic novel em que a autora investiga sua relação como próprio pai. Entre conflitos e incertezas o traço questionador da protagonista é o que permanece e atravessa toda a história. Tocante na medida certa e irônica quando preciso, Bechdel vai desdobrando a personalidade do pai até encontrar-se nessas dobras. Uma história inspiradora!

Foto: Wolney Fernandes

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Pit Stop



Apressado, o moço que leva o carrinho parece ignorar o aviso de parada estendido em letras garrafais na parede ao lado. Não fosse o vento, tão raro por estas bandas nos últimos dias, ele seguiria sem aprender nada com a brisa.

Eu, de dentro do carro, aprendo [de novo!] que a vida só acontece [de verdade] nas pausas.

Não quero que o vento me faça parar. O que eu quero mesmo é que o vento me encontre parado para que, incansavelmente, eu possa aproveitá-lo.

Fotos: Wolney Fernandes

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Morto de Fome


O Café da Tia Nair é um dos lugares que eu mais frequento aqui no centro de Goiânia. Além de um bolo de laranja primoroso, o lugar é agradável e a dona é a simpatia em pessoa. Costuma puxar papo para saber se o suco está gostoso, para avisar quando o pão de queijo acabou de sair do forno e outras delicadezas do tipo.

Faminto, nesse final de tarde de segunda, cheguei no café para esperar um amiga e pedi o costumeiro bolo de laranja que, para mim, é a prata da casa.

Não demorou até a dona começar a circular pelas mesas muito sorridente e atenciosa. Na mesa, bem ao lado da minha, ela explicou para duas moças que estava feliz porque o Aécio tinha garantido sua vaga no segundo turno e que, finalmente, o Brasil iria sair da lama na qual se encontra!

Nesse ponto, engoli seco, mas o pior ainda estava por vir. Sorrindo após a adesão das moças ao seu comentário ela complementou: "Essa Dilma que vá morar em Cuba. E que leve junto o Lula e todos os mortos de fome desse país."

O bolo de laranja se fez amargo na minha boca diante do comentário carregado de preconceito. Como bem alertou o Afonso Medeiros em uma postagem no facebook: "No único momento em que se discute política no país (bem ou mal, mas se discute), muitos não sentem nem vergonha de expor seus mais íntimos e recalcados preconceitos".

Minha tristeza diante daquela cena se prolongou e, agora, beira um medo profundo. Nesses dias, em meio a tantas desumanidades só me resta a certeza de que não volto mais ali. Mal sabe a dona do comentário (ou talvez até saiba, sim!) que eu, ali, comendo aquele bolo de laranja também era um morto de fome que ela queria ver bem longe.

Imagem capturada aqui.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Academicidades


Deliberações acadêmicas:

"ATENÇÃO!
NÃO inserir linha acima do nome dos componentes da banca na dissertação e tese."

Eu leio e penso: Que as linhas sigam caindo... uma a uma.

A imagem eu achei aqui.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Nome próprio


Para soletrar usando notas musicais.

01. Romeo - Thiago Pethit
02. Laura - Bat For Lashes
03. Daniel - Elton John
04. Jezebel - Depeche Mode
05. Dolores - Frank Sinatra
06. Natasha - Rufus Wainwright
07. Terezinha - Cesaria Evora
08. Rosa Maria - Ceumar & Itamar Assumpção
09. Lola - Mika
10. Eva - Radio Taxi
11. Isaac - Madonna
12. Jimmy - Moriarty
13. João e Maria - Nara Leão
14. Jessica - Regina Spektor
15. Emily - Dan Griffin
16. Fernando - Abba
17. Judy - The Pipettes
18. Napoleão - Ney Matogrosso & Pedro Luís e a Parede
19. Michelle - The Beatles
20. Yolanda - Simone & Chico Buarque
21. Miriam - Norah Jones
22. Léo e Bia - Oswaldo Montenegro
23. Annie - James Blunt
24. Sophia - Laura Marling
25. Isobel - Dido
26. Antonico - Gal Costa
27. Amie - Damien Rice
28. Beatriz - Mônica Salmaso & Pau Brasil
29. Aline - Christophe
30. Seu Nome - Luiza Possi

A foto eu encontrei aqui.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O apanhador de desperdícios*


Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.

Texto: Manoel de Barros
Foto: Wolney Fernandes

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O Pintassilgo - tentativa de nos conectar a uma beleza maior


"Amar demais os objetos pode te destruir. Mas, se você ama uma coisa o suficiente, ela ganha vida própria, não ganha? E o objetivo todo das coisas - das coisas belas - não é te conectarem a uma beleza maior?"

Falar de "O Pintassilgo" de Donna Tartt é falar também da minha paixão por imagens e objetos que, com um tanto de apreço e um pouco de ilusão, guardo comigo numa vontade menina de que, por eles, a vida continue de outro modo. Foi assim com a viola que pertenceu a meu pai, com as cartas de amantes do século passado que encontrei numa feira de antiguidades na Cidade do México, com a bandeira de folia do meu avô e com os livros e fotos que trazem dedicatórias anônimas… A posse desses artefatos faz circular histórias, intimidades, dores, saudades e outros mistérios que se misturam aos meus próprios por razões que eu próprio desconheço.

Com Theo Decker, protagonista do livro, também é assim. A posse de uma pintura que chega às mãos desse garoto de 13 anos vai alterar, significativamente, as escolhas e rumos que ele precisa traçar - ou que traçam pra ele - depois de um trágico acidente vivenciado no Metropolitan Museum, em Nova York.

"O Pintassilgo" do título faz referência direta à uma pequena pintura do século XVII do holandês Carel Fabritius que acaba nas mãos de Theo e segue com ele por toda a trama. Uma história muito bem escrita em quase 800 páginas de reviravoltas que iniciam em Nova York, continuam em Las Vegas e terminam em Amsterdam que é onde o livro começa.

Por um enredo que se move como um jogo de espelhos entre destino e livre arbítrio, o que se vê é um herói atormentado por um evento que vai marcá-lo vida afora. No espaço entre ser o que se deseja e ser aquilo que realmente se é, a autora consegue esboçar questões que ressoam para além do romance.

"Um eu que não se quer. Um coração que não se pode evitar."

A aventura pelo submundo da arte, seus originais e falsificações compõem, com muita propriedade, esse cenário onde perda, obsessão e sobrevivência são sentimentos que sempre vem à tona. Abandonado pelo pai e sozinho diante das perdas que o acidente lhe impõe, Theo se apega à misteriosa pintura que o levará a questionar sua ligação com um passado que ele desconhece e com as relações que irá estabelecer vida afora.


"Se uma pintura realmente afeta e muda sua maneira de ver, de pensar, de sentir, você não pensa 'Ah, eu amo essa pintura porque ela é universal' (...) Não é por isso que alguém ama uma obra de arte. É um sussurro secreto vindo de um beco. (…) Um choque individual no coração."

Embora os "ganchos" sejam bem poucos entre um capítulo e outro, a leitura transcorre de forma fluída muito em função de uma escrita bem articulada e cheia de imagens sutis que ajudam a compor um painel hipnotizante - destaque para as cenas de ação no Metropolitan - que nos leva ao fim do livro com muita rapidez. E é justamente no final onde está o grande escorregão da obra, pois só ali vemos as reflexões do protagonista tomarem forma de uma tacada só e Donna Tartt faz isso de um jeito bem primário. Quase como uma bula explicativa, a autora parece temer outras interpretações que não aquela que ela faz transbordar em páginas desnecessárias.

Theo passa grande parte do livro cometendo os mesmos erros e só no final, com 27 anos, parece reconhecê-los de uma tacada só. A meu ver, teria sido mais sensato espalhar "os aprendizados" [se é que é preciso haver algum] durante a jornada de amadurecido do herói.

Essa pequena decepção [que não estraga o prazer da leitura] me fez pensar que os reconhecimentos e os questionamentos que fazemos vida afora nunca se completam e é justamente em função dessa incompletude que seguimos na tentativa de nos conectarmos "a uma beleza maior". Tenho suspeitado que o grande mistério da vida é essa conexão que pode ser estabelecida, gradativamente, à partir do olhar de um passarinho pintado há muito ou de um abraço desejado e rabiscado com caneta Bic no verso de uma foto.

Foto: Wolney Fernandes
Pintura de Carel Fabritius

sábado, 20 de setembro de 2014

Letra sem melodia


Um pedacinho de papel brinca de desafiar os carros no meio da rua: leve e feliz. Sobe, desce, passeia na altura da janela do terceiro andar, faz um looping e se mete entre um carro vermelho e outro prata. Fragmentos dessa manhã de sábado, quente e sem qualquer plano pronto para o resto de toda a vida.

- Um dia de cada vez. Não é assim?

O coração, sem sossego, bate em disritimia. A barba tenta esconder, sem sucesso, o trincar dos dentes em desalinho. O passeio disfarça, por breves esquinas, a pouca vontade de ficar em casa. O mormaço desse tempo que se prepara para parir a primavera comprime todas as minhas vontades. Se é que resta alguma. Ando com vontade de nada. Isso sim!

Essa sinceridade sem premeditação denuncia um quase calar-se no meio da frase, incomoda às vezes, mas inspira a não deixar meias verdades entre os lábios e a garganta.

- Língua não é pra isso, eu bem sei!

Assim, sem meias verdades ou meios planos ou pensamentos meio tortos é que vale ter um emaranhado de saudade daquilo que ainda não vivi.

- São metáforas, baby. Vem cá que eu te explico.

E depois de tanto tempo, me descubro um homem cheio de metáforas, uma letra de música que ainda não conhece a melodia.

Foto de Ben Zack

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Canções de "O Quinto Beatle"


"O Quinto Beatle" é uma Graphic Novel baseada em recortes da vida de Brian Epstein, visionário que descobriu e guiou os Beatles a um estrelato sem precedentes nos anos 1960. Brilhantemente escrita também à partir de [outras] referências musicais daquele período, a narrativa é muito bem elaborada e consegue entrelaçar várias canções como pano de fundo para uma história repleta de sonhos, apagamentos e outras delicadezas.
Escuta só!

01. Wondrous Place - Billy Fury
02. Love Of The Loved - Cilla Black
03. Anyone Who Had a Heart - Cilla Black
04. If Love Were All - Hellen Merrill
05. Blue Skies - Irving Berlin
06. We Love You, Beatles - The Carefrees
07. All You Need Is Love - The Beatles

Imagem capturada aqui.