terça-feira, 15 de abril de 2014

Pausa


Um livro para ler, um artigo para terminar, prazos apertados, notificações facebookianas deixando a manhã movimentada e o tempo, escasso, escorrendo por entre os dedos.

Em meio ao barulho da construção ao lado, da buzina incessante no estacionamento, da pressa no meu peito e do parágrafo que precisa ser lido, ouço um som entrar pela janela.


Lembro do meu pai.

A música intensifica uma saudade e, aos poucos, vai plantando silêncios onde só há espaço para barulhos. Se ainda estivesse aqui, meu pai faria 64 anos neste 14/04/2014.

Senti vontade de conversar com ele.

"Ah, Chalana sem querer
Tu aumentas minha dor."

Fecho o livro e o computador. O parágrafo fica pra depois porque a vida sempre parece mais bonita nas pausas.

Imagem de Sophie Jodoin

terça-feira, 1 de abril de 2014

Apressadinho


Tranquei a porta do apartamento e me deparei com o menino apertando insistentemente os botões do elevador. Tal era sua pressa que só me notou no instante em que eu o ajudei abrir a porta para entrar. Até então, parecia conjurar algum encanto capaz de fazer o painel eletrônico soletrar, com a rapidez desejada, os números de cada andar.

Seguimos os dois em uma viagem silenciosa até o térreo. Ele, andando de um lado para outro com vontade de chegar. Eu, parado no canto, desejoso por desfrutar um pouco mais daquela ansiedade menina.

As portas se abriram e ele saiu em disparada me deixando pra trás. Desceu as escadas tentando retirar algo do bolso da bermuda e nem ligou quando a porta que ele atravessou quase me acertou o rosto. Ganhou a calçada e a rua como se alcançasse o céu.

Guardei aquele sorriso que me chegou aos lábios quando descobri o motivo da correria. Na esquina, ao lado do carrinho de sorvete, o menino pedia um picolé de limão.

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 31 de março de 2014

O Grito


Nasci na roça. Ajudei a arrancar feijão, cobri buracos com terra para a plantação brotar e quebrei milho para a pamonha. Na rabeira do arado, falar não podia porque era distração que a lida não permitia. Menino não reclama, escuta os bichos enquanto o sol, à pino, estica as horas o quanto pode.

Nas pescarias, peixe se fisgava com o silêncio do pescador. Na sala de aula, ouvia-se apenas o resmungo do giz sujando a lousa e conversar era o recheio do recreio. Em prosa de adulto, nem o olho era capaz de alcançar o assunto. A boca, então, nem se fala! 

Cresci sem muita vontade de falar, como se uma conversa interna e silenciosa pudesse dar conta do pouco que eu tinha para dizer. Havia também a gagueira que me fazia - e ainda faz - considerar dois tempos antes de pronunciar o que desejo. 

O silêncio nunca foi, para mim, uma língua estrangeira. Então, de onde vem essa vontade louca de gritar?

Imagem de Edvard Munch

domingo, 23 de março de 2014

Para Walderes Brito


A vontade de ler "A ausência que seremos" foi construída por um sentimento de perda. Um amigo muito querido havia me falado das belezas do livro e tínhamos combinado que ele leria algumas partes que o tocaram em um passeio de final de tarde que faríamos juntos em um dos parques de Goiânia.

O passeio nunca aconteceu conforme eu relatei aqui e, passados os primeiros dias de tristeza profunda pela perda do Walderes, em janeiro comecei a ler o livro.

A história, de cunho autobiográfico, gira em torno das memórias do autor Héctor Abad e suas experiências de infância à partir da relação afetuosa que mantinha com o pai, um médico sanitarista e professor universitário que lutou pelas áreas globais da saúde pública na Colômbia entre as décadas de 1950 e 1980.

Apesar das trezentas e poucas páginas, a leitura se prolongou até o fim de março. Esse prolongamento se deu em duas medidas. Na primeira delas, está o fato de que algumas partes do livro parecem repetitivas e algumas formulações parecem insinuar, incessantemente, um sentimento exagerado de admiração incondicional pela figura paterna.

"Sem esse amor exagerado que meu pai me deu, eu certamente teria sido uma pessoa muito menos feliz".

Mesmo que em alguns momentos o autor entregue algum sinal de autoconsciência sobre esse sentimentalismo exacerbado - "Não quero fazer uma hagiografia nem me interessa pintar um homem alheio às fraquezas da natureza humana" - fica a impressão de que esta é uma reflexão vazia de sentido, uma vez que ele não a seguiu à risca. Junto a afirmação excessiva da influência que o amor do pai exerceu sobre a vida do filho, há ainda a descrição do momento político pelo qual a Colômbia passava que, apesar de necessária para entendermos o contexto e as condições que levaram o pai à sofrer uma morte violenta, deixa a leitura entrecortada e sem a fluidez necessária para que ela se dê em ritmo contínuo.

No entanto, há uma outra medida que me deixou com um sentimento de orfandade depois de terminar a leitura quase três meses depois que a iniciei. Ler "A ausência que seremos" teve, pra mim, uma noção de prolongamento. Como se eu pudesse ouvir/dialogar com o Walderes por mais um tempo depois da sua própria ausência. E, por suscitar esse sentimento, eu gostaria de poder prolongar a leitura infinitamente.

A cada página lida, meus olhos buscavam trechos, palavras ou formulações de pensamento que pudessem sinalizar o que ele havia escolhido compartilhar comigo, mas nunca pôde. E nas primeiras duzentas páginas do livro eu não conseguia enxergar nada que chegasse perto desse desejo de partilha. Tive, então, que fazer uma pausa com medo de terminar o livro sem conseguir estabelecer esta conexão, sempre achando que eu tinha deixado passar alguma frase ou pensamento que o tivesse tocado de algum modo.

Foi então que, na última noite de sexta, ultrapassando os limites da segunda metade do livro, consegui ler nas palavras de Abad, as afinidades que eu desejaria partilhar com Walderes e, nessa inversão, pareceu-me que estava lendo não mais o autor colombiano, mas meu amigo pernambucano.

"Depois de mortos, ainda sobrevivemos por alguns frágeis anos na memória de outros, mas também essa memória pessoal, a cada instante que passa, está sempre mais perto de desaparecer. Os livros são um simulacro de lembrança, uma prótese para recordar, uma desesperada tentativa de tornar um pouco mais perdurável o que é irremediavelmente finito [...] E se minhas lembranças entrarem em harmonia com alguns de vocês, e se o que eu senti (e deixarei de sentir) for compreensível e identificável com algo que vocês também sentem ou sentiram, então esse esquecimento, esta ausência que seremos poderá ser adiada por mais um instante".

Ainda perdido por esta ausência, terminei a leitura com o peito dolorido de saudades e olhos afogados em lembranças. Mesmo com a narrativa acanhada e achando que o autor não foi capaz de lidar com o equilíbrio entre a proximidade e o distanciamento que esse tipo de texto exige - e é mesmo um tipo difícil de escrita - o livro permanecerá para mim como um pacto silencioso entre amigos. Um labirinto que eu posso percorrer à procura dos atravessamentos que emocionaram alguém tão importante pra minha realidade que nem a morte é capaz de dissolver.

"Não é a morte que leva as pessoas que amamos. Ao contrário, ela as guarda e as fixa em sua adorável juventude".

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A Boa Manhã*


Apenas passo os olhos pelos jornais; jogo-os fora, alegremente, porque eles pretendem dar-me notícia de muitos problemas, e eu não tenho nem quero problema nenhum.

Acordei um pouco tarde, abri todas as janelas para o sábado louro e azul, e o mar me deu bom-dia. Passa um pequeno barco branco no mar de safira: como vai ligeiro, como vai contente, com seu bigodinho de espumas brilhantes! Uma ave se detém um instante peneirando, depois mergulha na vertical em grande estilo; quando volta, um pequeno peixe brilha em seu bico.

Chupo uma laranja, e isto me dá prazer. Estou contente. Estou contente da maneira mais simples – porque tomei banho e me sinto limpo, porque meus braços e pernas e pulmões funcionam bem; porque estou começando a ficar com fome e tenho comida quente para comer, água fresca para beber.

Nenhuma tristeza do mundo nem de meu passado me pega neste momento. Tenho prazer em ver que a Ilha Rasa está lá direitinha, em seu lugar, com o farol branco. Vejo ao longe, saindo da praia, dois amigos; estão conversando e rindo. Tomaram seu banho de mar, vão almoçar; estou contente porque os amigos vão bem e suas mulheres esperam crianças. Saúde e prosperidade! Estou contente porque recebi uma boa notícia. Nada de extraordinário, mas uma notícia muito simpática.

Sei que o mundo está cheio de horríveis problemas – e eu mesmo, pensando bem, tenho alguns bem chatos. Mas não estou pensando neles; estou vivendo nesta fresca manhã um momento de bem-estar, de felicidade.

Ora, considerando que a felicidade é uma suave falta de assunto, eu me despeço de todos com um cordial bom-dia e vou almoçar. Não quero contar prosa, mas tenho arroz, feijão, carne, alface, laranja, pão, tudo o que um ser humano necessita para viver bem.

Um velho amigo vem honrar a minha mesa; falaremos com simpatia das mulheres bonitas desta formosa capital. Conversa de brasileiros! Bom dia, passem bem todos com suas mulheres, com seus amigos, com suas amantes também.


O texto é do Rubem Braga, mas nesta manhã fiz dele um tesouro só meu!
A foto eu encontrei no "Poeme-se"

(*) In, Rubem Braga. 200 crônicas escolhidas. Rio de Janeiro: Record, 2004, p. 118

Ela


Com fones no ouvido, eu caminhava pelos corredores do supermercado completamente alheio às pessoas que me cercavam enquanto conversava com alguém utilizando um aplicativo para celular. Absorto em minha conversa parecia um maluco empurrando o carrinho de compras, falando sozinho e escolhendo o palmito mais fresco.

Mas eu não era o único, afinal quem nunca sacou o celular para conferir um novo e-mail ou atualizações das redes sociais no restaurante, no cinema, na fila do banco, no ônibus, na cama, etc? Esta situação e tantas outras semelhantes e comuns nos dias de hoje é o que nos aproxima do futuro onde a história de Ela (Her, EUA, 2013) se passa.

Destaque seja dado ao belíssimo desenho de produção do filme que projeta um mundo “instagramizado” como bem definiu uma amiga fazendo referência a uma realidade filtrada por cores e camadas programadas para realçar só o que nos interessa.

A linha que o filme traça entre realidade e ficção é realmente nebulosa. Para entender isso basta ler a sinopse. Theodore (Joaquin Phoenix), um homem comum, com alguns poucos amigos, está passando por um doloroso processo de divórcio com a ex-mulher que ele ainda ama.


O moço solitário acaba procurando conforto – e encontra!!! - em um sistema operacional do tipo faz-tudo. Desenvolvido com inteligência artificial e voz de Scarlett Johansson, esse misto de secretária, amiga e namorada é batizado como Samantha e, aos poucos, passa a ser a solução perfeita para todos os problemas de Theodore que não consegue interagir com o meio social.

Aliás, sociabilidade não é bem a palavra para definir o modo como as pessoas interagem no longa. Quando Theodore anda pelas ruas, o que vemos são pessoas que - assim como ele no filme e eu no supermercado -caminham com um fone de ouvido conversando com seus próprios aparelhos.

Cada pessoa parece presa em um mundo particular com seus sistemas operacionais onde tudo é perfeito... ou quase, como nos deixa entrever o roteiro tão bem articulado de Spike Jonze que dirige o filme com maestria e sabe colocar o dedo na ferida dessa geração que caminha para esse futuro individualista que já está bem ali, pertinho de nós.

Dentre as tantas qualidades da obra, também merece destaque a trilha sonora composta por William Butler e Owen Pallett do Arcade Fire. O tom melancólico dá a exata medida para acompanharmos essa história de amor tão peculiar.



Ao se apaixonar por Samantha, Theodore inicia o que ele acha ser um relacionamento ideal, pois ela está sempre à sua disposição e, atuando em função dele, sabe exatamente como agradá-lo. Esse estado de eterna permanência se contrapõe aquilo que levou o casamento de Theodore ruir: o fato dele e da ex-mulher (Rooney Mara) terem mudado. Não é assim na vida real? Quando o outro se torna diferente daquilo que a gente estabeleceu como perfeito, tudo parece desandar.

O filme questiona o tipo de relações que queremos e que necessitamos para evoluir. Afinal, amar quem só concorda com a gente ou que nos serve é fácil. As relações humanas, no entanto, existem justamente para aprendermos com o que é diferente, com o que nem sempre nos agrada e com o que se volta difícil.

Por outro lado, Se Theodore ri do sarcasmo de Samantha, se preocupa com ela e fica angustiado quando eles não estão bem, estes sentimentos não seriam reais? E se forem reais, a relação também não seria? Enfim, questões profundas, bastante pertinentes para o tempo que vivemos e, por isso, tão inquietantes.

Eu acredito que filmes realmente bons são esses que permanecem com a gente, mesmo depois do fim. E se Ela me fez pensar nas diferenças entre comprar palmito hoje e há 10 anos atrás, já vale uma indicação. Pode confiar!



Texto publicado no "A Gambiarra"

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Contaminações


Atrasado, saí da loja com as fotos nas mãos e os fones no ouvido. O sinal abriu para pedestres e eu tinha aquela faixa inteira só pra mim. Antes de atravessar, vasculhei minha lista de músicas à procura de Modern Love do David Bowie. Apertei o play. Respirei por dois segundos e atravessei a avenida e o próximo quarteirão inteiro correndo feito Francis Ha.

Cheguei no carro com sorriso no rosto e uma sensação de que a vida pode ser uma aventura cinematográfica.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Borges e seus itinerários afetivos


Me interessei por Jorge Luís Borges ao ler "No meu peito não cabem pássaros" do escritor português Nuno Camarneiro. Nele, há um menino que olha o mundo de um modo muito peculiar e que foi inspirado em Borges. A identificação com o personagem foi tanta, que terminada a leitura do livro fui atrás de algo escrito pelo famoso escritor argentino.

Minha predileção por preambulações e itinerários afetivos me fizeram começar a leitura de Borges pelo livro Atlas. Uma espécie de mapeamento que o autor faz dos lugares que visitou na década de 80. E por lugares entenda cidades, esquinas, desertos, sonhos e até um brioche. Qualquer dispositivo que lhe incitava à escrita é registrado no livro que ele divide com María Kodama, cujas fotos também tecem narrativas e impressões sobre os caminhos percorridos pelo casal.

Borges herdou uma doença que ia lhe tirando as vistas na medida do seu envelhecimento. Desse modo, ler suas histórias e divagações acerca dos lugares explorados por seus toques, cheiros, sabores e sons, tornam a leitura de Atlas um desvelamento de pessoas, assombros e alegrias de um modo singular.

"Aqui sentimos de maneira inequívoca a presença do tempo, tão rara nestas latitudes. Nas muralhas e nas casas está o passado, sabor que se agradece na América. Não se exigem datas nem nomes próprios; basta o que sentimos de imediato, como se fosse uma música."

A escrita de Atlas abriu brechas, me fez desenrolar novelos de cotidianidades e deixou pontas soltas para que eu, como leitor, as atasse. Gosto assim, quando me sinto partícipe da narrativa. Há, ainda, uma dimensão poética tão forte no jeito que ele escreve os textos que os lugares vistos pelos "olhos" de Borges acionam inquietações breves, mas latentes sobre como pequenos gestos podem alterar a noção que temos de uma determinada realidade.

"A uns trezentos ou quatrocentos metros da Pirâmide me inclinei, peguei um punhado de areia, deixei-o cair silenciosamente um pouco mais adiante e disse em voz baixa: Estou modificando o Saara."

Se alguém ainda não conhece, recomendo a edição de capa dura feita pela Cia das Letras que é graficamente deslumbrante na mesma medida das palavras e imagens que a narrativa apresenta. Atlas foi pra mim uma porta de entrada para uma literatura que eu quero explorar para descobrir cada vez mais sobre mim mesmo.

"Não há um único homem que não seja um descobridor. Ele começa descobrindo o amargo, o salgado, o côncavo, o liso, o áspero, as sete cores do arco-íris e as vinte e tantas letras do alfabeto; passa pelos rostos, mapas, animais e astros; conclui pela dúvida ou pela fé e pela certeza quase total da própria ignorância."

Fotos: Wolney Fernandes

Opções de ano novo


Esqueçam as passas e o champagne, os desejos e as cuecas brancas. Para mim o ano muda no exato dia em que, ao voltar para casa, percebo que nada de importante está diferente. Exceto minha alegria. Tão bom deixar as frustrações do dia no banco da praça e continuar o caminho. É assim que eu sei que o tempo passou e que eu, tal como as águas de um rio, estou cada vez mais igual, cada vez mais diferente.

Moderar as exigências não é, necessariamente, contentar-se com pouco. É aprender a enxergar as próprias limitações e, com isso, identificar o que me aprisiona no vale das lamentações e medir o trabalho necessário para que as coisas cheguem no devido lugar.

Tendo, neste janeiro de atropelos e pequenas alegrias, sempre optar pela felicidade.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O taxista


Coloquei o cinto de segurança e ao indicar o destino ao taxista, percebi que o conhecia. Mas de onde? Traição tamanha essa da memória que reconhece, mas não localiza. Passei o restante do trajeto assim, num jogo de 'pega-pega' com aquele rosto que, embora mais velho, me pareceu familiar.

Já perto do meu prédio, arrisquei: "Tenho a impressão que conheço o senhor de algum lugar", mas a resposta me veio bem evasiva como eu já suspeitava: "Como motorista de táxi eu já transportei muita gente. Deve ser isso." Seguimos calados o restante do trajeto.

Depois de pegar minha bagagem no porta-malas do carro, ele me disse o valor da corrida e, ao retirar a carteira do bolso para pagá-lo, a memória funcionou como deveria. O ano era 1999. Segunda-feira, segundo dia da segunda fase das provas do vestibular da UFG. Eu estava desacreditado do meu desempenho nas avaliações do dia anterior e tinha um plano secreto: não fazer as provas do segundo dia porque, do alto da minha descrença e falta de confiança, eu já tinha proclamado a minha reprovação. O plano era seguir para outro local, passar o tempo com alguma atividade mais prazerosa do que me afundar em provas e voltar pra casa no final do dia como se tudo tivesse acontecido conforme manda o protocolo.

No caminho até o ponto de ônibus, sem saber direito ainda pra onde ir, resolvi fazer a tarde ficar mais divertida. Me lembro de ter cerca de trinta reais na carteira. Calculei que gastaria metade daquela fortuna pegando um táxi e pedindo que o motorista me deixasse em qualquer lugar da cidade até que o taxímetro marcasse quinze reais. Peguei um táxi do ponto perto da minha casa no Setor Universitário e fiz o pedido ao motorista.

Ele ficou meio desconfiado, sem saber para onde seguir, mas pôs o carro em movimento enquanto questionava a razão do meu pedido. Para diminuir um pouco da desconfiança que eu já via refletida no modo como ele fez a pergunta, decidi contar a história toda. Ele ouviu tudo sem dizer nada e depois de um breve silêncio só perguntou onde seriam as provas. Eu respondi já satisfeito por conseguir contar com a cumplicidade dele na realização da primeira parte do meu plano.

Meu mundo caiu quando vi que o taxímetro ultrapassou o valor que eu tinha previsto e ao pedir que ele parasse o carro, ele não obedeceu. Um medo percorreu minha espinha inteira e na minha vez de desconfiar do plano secreto do motorista insisti que precisava descer. Recém chegado a Goiânia, eu não conhecia direito a cidade e, para minha surpresa, ele parou bem em frente ao local das provas e ordenou: "Desça e faça a prova!"

Havia tanta convicção naquela sentença que eu paguei os quinze reais sem dizer nada [a corrida tinha dado um pouco mais] e saí do táxi ainda surpreso com a atitude daquele senhor desconhecido. Dei de ombros e entrei pelos portões. Fiz as provas.

A notícia da minha aprovação, meses depois, veio acompanhada da vontade de agradecê-lo e até tentei fazê-lo, num dia que passei perto do ponto de táxi onde ele ficava. Não tive sucesso porque nunca o encontrei novamente. Tinha se mudado para Anápolis, conforme me esclareceu um colega de profissão.

15 anos depois, em uma corrida do aeroporto para casa, reencontro o motorista e para confirmar minhas suspeitas, ao entregar o dinheiro da corrida perguntei: "O senhor já trabalhou em um ponto de táxi na rua 242 no Setor Universitário?". O telefone dele tocou e já fazendo a manobra para ganhar a avenida ele me disse que sim e, preocupado em responder a chamada e acelerar antes do sinal fechar, foi embora sem ouvir o obrigado que eu pronunciei por duas vezes parado na calçada.

A foto eu achei aqui.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O Sentido de um Fim


"Sempre achei que o paraíso seria uma espécie de biblioteca" 
[Jorge Luís Borges]

Ano passado eu li bem pouco. Neste ano, desejo mudar essa estatística para que os livros que sempre me acompanharam saiam dos acúmulos da estante para repousarem em arrepios que me tirem do lugar. Comecei com um livro do Julian Barnes.

O Sentido de um Fim conta a história de Tony Webster, um homem cujas lembranças se desfiam entre lacunas e reflexões acerca de como a memória pode ser irônica, imperfeita e permeada por subjetividades na [re]construção de um passado, mesmo que seja o seu próprio.

"Quantas vezes nós contamos a história da nossa vida? Quantas vezes nós a ajustamos, embelezamos, editamos espertamente? E quanto mais longa a vida, menos são os que ainda estão por perto para nos contradizer, para nos lembrar que nossa vida não é a nossa vida, mas a história que nós contamos a respeito da nossa vida. Contamos para outros, mas - principalmente - para nós mesmos."

Tony tem sessenta anos e relembra fatos marcantes da amizade com Adrian, um garoto inteligente na época do colégio e de uma namorada que volta a atravessar seu caminho depois de 40 anos. Só descobrimos o porquê dessas lembranças lá no meio da história quando Tony recebe uma carta que o conduz a uma reflexão vertiginosa acerca dos fatos narrados na primeira metade do livro.

Creio que não saber o porquê da seleção daquelas lembranças, me deixou, à priori, um pouco decepcionado com o começo da narrativa quando eu me perguntava porque ele não se aprofundava em nenhuma das memórias e pulava partes que eu, gostaria de saber. No entanto, quando a sombra daquela amizade volta a encobri-lo, o livro ganha uma profundidade que eu achava impossível caber nas 160 páginas que compõem esta edição da Editora Rocco.

As dúvidas e os arrependimentos são postos à prova a cada nova revelação. E cada uma delas nos conduz a reflexões sobre nossas próprias decisões e consequentes arrependimentos. Não foram poucas as pausas que eu precisei fazer diante de determinados trechos onde transferi os questionamentos do protagonista para mim mesmo:

"Quanto menos tempo de vida lhe resta, menos você quer desperdiça-lo. [...] Como empregar as horas economizadas?"

Com um humor afiado, o autor britânico Julian Barnes vai recheando a narrativa dessas memórias com ironias do tipo: "O casamento é uma refeição comprida e sem graça onde servem o pudim primeiro". O enfoque na história do protagonista, faz com que as outras personagens não passem de meras lembranças. Eu gostei bastante do livro, embora ao terminá-lo a vontade de me aprofundar mais em cada um daqueles personagens complexos e pouco explorados tenha ficado para além do fim.

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Quereres, mentiras e desatinos de ano novo


Todo princípio de ano eu suspeito dos meios, mas nunca tenho ideia dos fins. Não é de hoje que meus desejos se transmutam em realidades que nem sempre dão conta das vontades todas. Considerando que a única constante da vida é a certeza da mudança, faço dessas resoluções de ano novo desatinos primeiros que levarão a desatinos segundos ou até a mentiras que foram sonhadas como verdades nos primeiros dias de janeiro.

Apesar de gostar de listas, a vida não pode reduzir-se a prioridades que a gente vá simplesmente riscando e passando aos itens seguintes. Descabida que só, a vida transborda para além das nossas tentativas de dobrar o tecido do universo com as mãos. Há porém, um conselho dado pelo gato à Alice - aquela do País das Maravilhas - que me faz refletir: "Se você não sabe para onde ir, qualquer caminho serve". Felizmente já tenho idade suficiente para saber que não quero seguir qualquer caminho. E nem tenho tempo para tal aventura [ah, meus vinte anos...].

Gosto de saber que priorizar metas me ajuda a focar esforços e a diminuir ansiedades. O exercício proposto aqui nem se trata de resoluções grandiosas ou mudanças bruscas, mas da certeza de que recomeçar é muito bom, mesmo que seja só para desfiar continuidades, dia após dia. Nada de página em branco, pois todos os hábitos, conhecimentos e obrigações continuam valendo e, talvez os cinco quilos que eu preciso perder fiquem aqui, mas a brevidade da vida me traz quereres assim:

Sobre o tempo e aqueles caprichos
1. Fazer pausas, ter tempo de olhar para o tempo. Reservar os finais de semana para gastar com vontades e atividades outras que não tenham relação direta com o trabalho semanal. Parar durante o dia para ouvir aquela música que eu adoro ou olhar para o movimento da rua, lá fora.

2. Procrastinar menos, me organizar para as ideias renderem ações e ter respostas rápidas para os e-mails que se acumulam ou as questões que precisam de encaminhamentos.

3. Priorizar meu trabalho artístico e valorizá-lo na medida da minha experiência pessoal, entendendo-o como possibilidade de atuação dentro e fora dos espaços acadêmicos. Viabilizar o projeto e a publicação de um livro meu.

Sobre os acúmulos desnecessários
4. Ler os livros que eu já tenho antes de comprar novos. O mesmo vale para os filmes que adquiri, mas que ainda não assisti.

5. Fotografar menos. Vivenciar as experiências antes de querer registrá-las com fotos.

6. Não trocar o guarda-roupa, mas fazer minhas roupas caberem em três portas.

7. Cuidar melhor dos meus gastos. Gerenciar o que entra e sai da minha conta com mais propriedade e, quem sabe, fazer um fundo de reserva para viagens e outros prazeres do tipo.

Sobre autoconhecimento e essa tal felicidade
8. Prestar atenção nas pessoas que me ajudam na árdua tarefa de me conhecer melhor, pois todo processo de autoconhecimento passa também pelo/a outro/a.

9. Aprender a cozinhar. Substituir doces por frutas e, às vezes (só as vezes), fazer o contrário!

10. Fazer exercícios físicos, nem que seja uma caminhada. Sempre que possível, andar a pé. Dormir mais. Optar por ficar mais tempo diante de mim mesmo do que diante de uma tela de computador.

11. Dizer "não" sem sofrer e buscar derramar o que sinto na medida da minha vontade, sem sufocá-la.

12. Olhar para as pessoas que encontrar. Ser cordial e cortês, mesmo em situações complicadas. Crer.

E se ao final de 2014, nada disso fizer sentido, continuar acreditando nos sentidos que existem em cada recomeço... a cada dia.

Feliz 'hoje' pra todo mundo!

Imagem de Vânia Mignone. Peguei aqui.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Filmes de 2013


52 sessões no cinema e 47 sessões em casa fizeram de 2013 uma temporada fraca. Compare: em 2011 eu assisti 95 filmes só na tela grande. No entanto, os deslumbramentos continuam tão intensos como nunca. Abaixo minhas escolhas em uma lista de filmes que me atravessaram nesse ano. 

Ah, é bom lembrar que, mesmo estando numerados, não há uma ordem de preferência e que nem todos os títulos foram lançados em 2013, mas se estão aqui é porque tive contato com eles neste ano.

Os melhores filmes do ano:
1. Antes da Meia-Noite
2. Frances Ha
3. O Abismo Prateado
4. Gravidade
5. Blue Jasmine

Os melhores filmes que ninguém viu:
1. Uma Garrafa no Mar de Gaza
2. Deixe a Luz Acesa
3. Elena
4. A Delicadeza do Amor
5. Entre o amor e a paixão

Os melhores filmes que assisti em casa:
1. A Fonte das Mulheres
2. Taxi Driver
3. Carrie, a estranha
4. Carne Trêmula
5. O Iluminado

Constrangimentos do ano:
1. As piadas estendidas além da conta de "Minha Mãe é uma Peça"
2. O trailer incrível do filme mais ruim do ano: "Mamma"
3. As inúmeras maquiagens pesadas de "A Viagem"
4. A morte de "Lincoln" no final do filme do Spielberg.
5. A maquiagem risível que tentou transformar Anthony Hopkins em "Hitchcock"

Cenas inesquecíveis:
1. O por do sol visto pelo casal Jesse e Celine em "Antes da Meia-Noite"
2. Frances correndo pelas ruas de Nova York ao som de Modern Love no filme "Frances Ha"
3. A valsa de "Anna Karenina"
4. As várias mulheres flutuando na água no filme "Elena"
5. O número musical feito pelos comissários pelos corredores do avião em "Amantes Passageiros"

Os cartazes mais incríveis:
1. A vida secreta de Walter Mitty
2. Frances Ha
3. Deixe a luz acesa
4. Elena
5. Era uma vez, eu, Verônica

Personagens inesquecíveis:
1. O mordomo vivido por Samuel Lee Jackson em "Django Livre"
2. Alma, a esposa de Hitchcock, vivida magistralmente por Helen Mirren
3. A protagonista (em queda livre) vivida por Cate Blanchet no filme "Blue Jasmine"
4. A velhinha do filme "Histórias existem quando lembradas" interpretada por Sonia Guedes
5. Fuzil, a matriarca rebelde de "A fonte das Mulheres"

Os filmes que me fizeram escrever:
01. Antes da Meia-Noite
02. Invocação do Mal
03. Blue Jasmine
04. As Vantagens de ser invisível
05. A vida secreta de Walter Mitty
06. Carrie
07. The Bling Ring
08. O Homem de Aço
09. Os Amantes Passageiros 

Imagem capturada aqui.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Imprevisto de Natal


Era sonho de menino: ter um Ferrorama da Estrela para brincar.
Era realidade de menino: meus pais não tinham condições financeiras de me dar um de presente.

Ontem, quase 30 anos depois, um Ferrorama original, reuniu a família inteira em torno do brinquedo que chegou aqui em casa acionando muito mais do que uma locomotiva apenas. A cada volta nos trilhos de plástico, memórias eram acionadas e histórias recontadas. Em meio às lembranças, risos, chuva, choros, sopa quente e outros tantos desatinos.

Era noite de Natal!

A gente só não sabia que a celebração aconteceria um dia antes do previsto.

Foto: Wolney Fernandes

Melhores do Instagram

O Instagram é, sem sombra de dúvida, minha rede social favorita. E nesse último ano, os recursos aumentaram com as possibilidades de postar vídeos e fazer postagens endereçadas. Pra ficar melhor, só falta mesmo um controlador de intensidade para os filtros (ajuda aí, equipe do Instagram!).

Para continuar a brincadeira das listas de fim de ano, abaixo apresento uma inteirinha com as melhores fotos do ano. Vai lá: @wolneyfernandes


Top 5







Os amores de esquina





Os/as anônimos/as que me pegam pelos olhos





As melhores composições





Os autorretratos







As paisagens mais lindas





Os melhores vídeos

1. Tempo marcado
2. Sob o vento das últimas flores
3. Em dias de chuva


As fotos que o pessoal mais curtiu

355 curtidas

360 curtidas

363 curtidas

domingo, 22 de dezembro de 2013

Vidas Secretas


Eu tenho lapsos oníricos. Seja na reunião chata do trabalho ou enquanto caminho pelo centro da cidade, vez por outra, encontro um lugar que foge aos sentidos. É certo que a capacidade de inventar realidades para dar conta dos meus sonhos já foi maior. Hoje são lapsos apenas, mas antes, sonhar era um estado, quase uma permanência. O primeiro fato que me fez sair desse lugar/estado e me me enfiou, goela abaixo, uma realidade de onde não era possível sempre fugir foi a morte do meu pai.

Quando a morte soprou sua sentença ao pé do meu ouvido, há 22 anos atrás, ela não só pronunciou vazios e saudades, como também ditou ordens severas: "Saia daí!" Não há tempo para devaneios futuros porque o presente não espera a brincadeira terminar.

Vários sonhos eu tive que guardar. Alguns se perderam pelo caminho e outros eu escondo em traços de desenhos, em objetos que coleciono, em manchas de umidade na parede ou em percursos feitos pelos meus olhos em cada esquina. São vestígios de sonhos, guardados para ventilar a realidade que caminha em compasso diferente dos meus desejos. 


"A vida secreta de Walter Mitty" [The Secret Life of Walter Mitty, EUA, 2013] é recheado com esses sopros oníricos. A cada fuga cinematográfica do protagonista - todas muito bem alinhavadas - eu embarcava, com ele, numa viagem sem passagem de volta. A beleza de cada uma das cenas, brilhantemente fotografadas e ordenadas para agradar os olhos e a alma asséptica de qualquer designer gráfico ajudaram bastante nisso! No mundo idealizado, no meu e no de Mitty, tudo está no lugar e obedece uma grid imaginária que enquadra nosso cotidiano ao som da melhor trilha sonora (Space Oddity do David Bowie, só pra começar!) e o conduz por aventuras mirabolantes sob o azul de um céu que está sempre aberto.

Uma realidade imaginada assim é, de longe, um deleite visual. E se digo "de longe" é porque, de perto, bem ali na tela do cinema e aqui na minha cabeça, algumas delas parecem slides de powerpoint motivacionais. 

Embora fale, exalte e até exagere um pouco nas virtudes de "acreditar em si mesmo", Walter Mitty é mais do que um filme de autoajuda. É também sobre os conflitos do digital sobre o analógico e das estratégias que precisamos rever para que essas duas esferas não se contraponham, mas se complementem em maior ou menor escala, dependendo do modo como nos relacionamos com elas.

A história, bem simples, gira em torno de um homem frustrado que usa a imaginação como maneira de escapar de seu cotidiano opressivo. Chefe do departamento de negativos da revista Life, Walter precisa encarar a realidade quando a foto que irá estampar a capa da última edição impressa da publicação desaparece.


Walter Mitty, como eu, surge como um sonhador naturalmente incorrigível e, ao menor sinal de problema, planta os dois pés nas nuvens. Medos e inseguranças permeiam seu cotidiano fazendo com que ele o recrie mentalmente, imaginando as situações de um ponto de vista ideal.

Quantas vezes eu também já fiz isso? Inúmeras. Na mais recorrente delas, eu saio de casa para estudar, ainda na adolescência, e ganho o mundo sem precisar olhar para trás.

Foi preciso a morte me tocar de maneira tão próxima para que eu compreendesse que "olhar para trás" também é movimento da vida, essa danada que além de não caber nos sonhos, ainda não se desenha em linha reta. Nesse constante ir e vir, eu sigo. E se não dá para saber a trilha da felicidade ou amarrar todas as pontas soltas como no filme, o jeito é aprender a "mastigar as dores e colocar a vida no presente"*.

(*) Citação de Walderes Brito

Filas, paçocas e bem-querer


A casa lotérica derramava gente pela calçada, mas de onde eu estava dava pra ver o começo da fila. Três atendentes, dois rapazes e uma moça tentavam, sem muito sucesso, dar cabo das curvas que se encaracolavam naquele espaço minúsculo. Era da moça, a responsabilidade da fila preferencial. 

Antes de chegar a vez da senhora com saia de passarinhos, vi um homem baixinho se adiantar até a atendente e, com dois toques feitos com o dedo indicador, conseguir a atenção da moça por trás do vidro. Ela sorriu e lhe entregou dinheiro. Junto do gesto, uma expressão apenas: "o de sempre!"

Ele se virou seguindo a orientação e saiu da casa lotérica. Dois atendimentos depois e eu já tinha me esquecido da cena até que, uns vinte minutos depois, vejo o homem voltar com uma marmitex. A moça que já tinha encerrado o atendimento do seu guichê, abriu a porta para receber a encomenda e após um breve agradecimento, foi surpreendida com uma paçoquinha que o homem tirou do bolso e entregou junto com um sorriso.

Passei o resto daquele dia me perguntando quanto de bem-querer coube naquele gesto e quantos gestos de amor podem existir no tempo que dura uma fila? 

Imagem capturada aqui.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A ausência que seremos


Na caixa de mensagens, um pedido: "Se estiver inteiro, vou aceitar que me leve para um parque". Embora eu não soubesse, aquele seria o último desejo do Walderes, registrado em linhas breves, mas cujo sentido eu faço ressoar de um jeito novo depois que ele partiu.

Tínhamos combinado uma tarde juntos, no parque, onde ele iria inaugurar uma cadeira de armar e eu ouviria trechos de um livro que ele tinha gostado bastante. Pediu para ler em voz alta pra mim. Vontade de anunciar as belezas que, em meio as dores que o câncer lhe impunha, também lhe atravessavam o peito nos últimos dias.

Os dias... tão banais até que se saibam últimos, tão cheios de depois até que se mostrem derradeiros. Por distração ou cansaço - nunca se sabe! - entupimos os universos contidos em cada instante na esperança de haver uma próxima oportunidade. O domingo acabou e Walderes não conseguiu ir ao parque comigo. Não estava inteiro. Era preciso juntar os pedacinhos que ele bravamente respigava a cada procedimento médico.

Na última vez que nos vimos, subi as escadas do primeiro andar do seu apartamento, decidido a convocá-lo a ler para mim. Desejava ouvir os trechos descolados das páginas do livro ao som da sua voz serena. Já que não era possível no parque, seria ali mesmo, no quarto onde ele repousava sob os cuidados da mãe. Os princípios da conversa me mostraram que ele não desejava falar, mas ouvir apenas. Perguntou-me tudo sobre os dias que estive em Recife e, enquanto eu falava, sem que ele soubesse, dobrei a vontade de ouvi-lo e coloquei-a no bolso. Ainda não era a hora.

Na saída, fiz carinho e desejei tranquilidades, embora meu próprio coração intranquilo, se apertava ao vê-lo mais silencioso do que o normal. Instantes depois, já no elevador, conjurei uma máxima que ele sempre repetia pra mim: "Coragem, hombre!"

Por todas as vezes que Walderes me encorajou é que, desde as 17 horas do último dia 17, a cada hora tento me rebelar com a morte que o silenciou. Afinal, foi ele quem proclamou valor aos meus desenhos, quem sussurrou direções para eu seguir, quem anunciou um Wolney que nem eu mesmo conseguia pronunciar.

Mais que um amigo, um irmão. Um homem com ideias e jeitos para felicidades.

A saudade, essa fenda que vai nos dilapidando lentamente num traço rápido, já me fez ler e reler o que ele escrevia numa tentativa de ouvi-lo novamente. Receio que, agora, como da última vez, ele só queira escutar. Acho que chegou a hora de levá-lo para o parque, não aquele dos nossos últimos planos, mas um outro que eu carrego aqui dentro do meu peito e onde há girassóis a se perder de vista.

Sentados em cadeiras de armar, eu confessaria:

"Walderes, você bem sabe que eu não sei estradas para longe de mim. Mas sinto vontade de encontrar muitos caminhos que sonhamos juntos em passos tortos, mas ritmados. Já sei que se perder o passo, terei a calma de reencontrar, noutra estação, qualquer coisa que valha. Viu como aprendi? Hoje, eu consegui o livro cujos trechos ouviria da sua boca. Ironia, premonição ou só mais uma coincidência - o que importa isso agora? - depois de chorar um pouco, olhei outra vez para a foto da capa, li o título do livro e me encontrei na certeza da 'Ausência que Seremos'. Fique tranquilo! Meu coração há de ficar também. Enquanto eu leio o livro, aproveita a vista."

A foto é minha. 
O título do texto eu peguei emprestado do livro de Héctor Abad

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Canções de 2013


Tem coisa melhor do que passear pelas inúmeras listas "dos melhores do ano" que pipocam por aí nesta época? A gente se indigna, descobre coisas novas e, no final das contas [e dos contos], se diverte um tanto conferindo os rankings e suas idiossincrasias. Em 2010, 2011 e 2012 eu listei livros, filmes e músicas que embalaram meu ano e gostei de guardar estas referências para, no futuro, poder lembrar e experimentar os acordes, as histórias e as cenas que me emocionaram no passado. Agora, em 2013, as regras continuam as mesmas. Vou começar pelas músicas e reforço o aviso de que nem todas as produções são desse ano, mas se estão aqui é porque tive contato com elas só agora. Vamos lá!

As músicas internacionais de todas as playlists do ano:
1. Instant Crush - Daft Punk
2. Lovers In The Parking Lot - Solange
3. Wings - Birdy 
4. Always Hate Me - James Blunt
5. MegalomaniaDavid Lemaitre

As músicas nacionais de todas as playlists do ano:
1. De Graça - Marcelo Jeneci
2. Fred Astaire - Clarice Falcão
3. Ali sim, Alice - Thaís Gulin e Tom Zé
4. Capim-Limão - Cícero
5. Amor meu grande Amor - Lucas Santana

As músicas de filmes:
1. Together - The XX [Do filme "O Grande Gatsby"]
2. Franky's Princess - Émilie Simon [Do filme "A Delicadeza do Amor"]
3. Freedom Anthony Hamilton e Elayna Boynton [Do filme "Django Livre"]
4. Dirty Paws - Of Monsters and Men [Do filme "A Vida Secreta de Walter Mitty]
5. Turn to Water - Maggie Clifford [Do filme "Elena"]

Os refrãos mais grudentos:
1. Origin of Love - Mika
2. Lovebird - Leona Lewis
3. Wrecking Ball - Miley Cyrus
4. Daylight - Maroon 5 
5. Brave - Sara Bareilles  

As músicas que me fizeram dançar pela casa afora:
1. Blurred Lines - Robin Thicke
2. Dance ApocalypticJanelle Monáe
3. Move in the Right Direction - The Gossip
4. Do What U Want - Lady Gaga
5. Dancing on my Own - Robyn

As músicas que (quase) ninguém conhece:
1. Running To The Sea - Royksopp ft. Susanne Sundfor
2. I Heard - Young Fathers
3. Glow - Retro Stefson
4. Carried Away - Passion Pit
5. Different Pulses - Asaf Avidan

Os discos que ouvi do princípio ao fim
1. Moon Landing - James Blunt
2. O Grande Gatsby - Vários Artistas
3. Coexist - The XX
4. This Is - Icona Pop
5. Love me back to Life - Celine Dion

Globo de Ouro do Ano
1. Felicidade - Fábio Jr.
2. Chuva de Verão - José Augusto
3. Dona Felicidade - Trem da Alegria
4. Meu Mel - Markinhos Moura
5. Separação - Simone


Os clipes marcantes:
1. Mirrors - Justin Timberlake
2. Reflektor - Arcade Fire
3. Queenie Eye - Paul McCartney 
4. Like a Rolling Stone - Bob Dylan
5. The Fall - The Rhye
Bônus: Pompeii - Bastille

Imagem capturada aqui.