domingo, 22 de março de 2015

Os Mil Outonos de Jacob De Zoet


O David Mitchell eu conheci em 2008 quando li "Menino de Lugar Nenhum" e o livro se tornou um dos meus favoritos. Depois eu passei pelo incrível Atlas das Nuvens, mas quando li a sinopse de "Os Mil Outonos de Jacob De Zoet" me bateu uma frustração porque se tratava de um livro de aventura - gênero que não me atrai muito - com trama passada no Japão no final do século XVIII onde meu interesse é praticamente nulo. Mesmo reticente eu resolvi conferir o livro que acabou me conquistando, página a página, no modo detalhado como o autor consegue contar a história de um jovem escrituário que deixa sua vida na Europa e parte para o Oriente em busca de fortuna na feitoria mantida por holandeses às margens da costa de Nagasaki.

Envolto em negociações firmadas entre o pensamento ocidental e o oriental, Jacob é responsável pelo registro daquilo que acontece no local. O jovem é um protagonista solitário que, diante das dificuldades de se enturmar, funciona como ponte para que a gente compreenda as diferenças entre uma cultura e outra. Motivado por um idealismo mantido por sua história de vida, Jacob amadurece diante dos acontecimentos que testemunha e que não são poucos.

Organizado em cinco partes, o livro mantém uma estrutura que parece um palimpsesto de camadas flutuantes, uma vez que os coadjuvantes da primeira parte são trazidos à tona, na segunda, para revelar segredos e nos fazer mergulhar em pormenores obscuros da história. Essa movimentação entre as camadas narrativas é fluida o suficiente para manter o interesse do leitor e, por vezes, apresenta ganchos que tornam impossível fazer paradas durante a leitura. Em alguns pontos, os fatos apresentados suspendem sua respiração e logo em seguida, um corte na narrativa faz você se enfurecer por não ter as respostas para aquela suspensão na sequência. Desse modo, cenas inteiras mostradas no início só vão fazer sentido no final e isso pode acabar deixando rastros de frustração caso não se consiga atravessar as 568 páginas do livro.

"O desejo induz os pais a terem bebês tanto quanto o imprevisto, a obrigação (...) mas talvez os mais bem-aventurados sejam aqueles que nascem do impensado pensamento de que o abismo intolerável que separa os amantes só pode ser transposto pelos ossos e pela cartilagem de um novo ser."

Me impressionou bastante a riqueza de detalhes dada pelo autor ao se referir a um período muito específico da história do Japão e de um cotidiano muitas vezes envolto em mistério. Isso faz a narrativa ficar crível, mesmo se tratando de um livro de ficção. O modo como Mitchell orquestra sua aventura é permeado com delicadezas que se desprendem daquilo que os personagens trazem de mais íntimo. E aí reside uma das tantas qualidades do autor que consegue dar tridimensionalidade dramática ao mais insignificante dos coadjuvantes, apresentando cada um deles com seus medos, anseios e frustrações.

"De um instante para outro, desaparecemos, Shiroyama pensa. Há profundidades por trás das planitudes."

Apesar dessa riqueza de detalhes, nada é gratuito no livro. Da cor ruiva dos cabelos de Jacob até o modo peculiar de servir o chá são descritos com propósitos muitos específicos que, além de enriquecer a trama, funcionam como chaves de leitura para os temas abordados pelo autor. E eles são muitos. Ao entrelaçar as duas culturas, Mitchell aproveita as brechas para levantar discussões em torno de preceitos científicos e religiosos, da intolerância racial e das humanidades que independem de tons de pele ou nacionalidades e ainda questiona a redução do papel da mulher dentro de uma sociedade predominantemente machista.

"Dê-me coragem, Jacob reza. 'Minha vida está nas mãos de Deus.' 
Ah, quanto sofrimento essas palavras breves e fervorosas podem trazer."

No entanto, nada é panfletário e diferentes pontos de vistas são apresentados com uma desenvoltura invejável. Alternando esses diferentes enfoques narrativos, o livro apresenta um recheio bem diversificado. E tem de tudo: aventura com navegadores, mercenários e samurais, romances arrebatadores e triângulos amorosos, vilões ardilosos e um suspense construído com a mais fina ironia que eu já testemunhei.

"O melhor médico de Middelburg guarda um semblante sombrio, mas está satisfeito por ter feito tudo o que era possível pelo paciente durante o breve e lucrativo período da doença e porque poderá chegar em casa a tempo do jantar."

Através de uma escrita sensível, Mitchell conseguiu mais uma vez emocionar-me em diversos pontos da narrativa, mas uma em especial eu gostaria de registrar que é o encontro amoroso entre Jacob e a parteira Orito, fruto do seu interesse. Os dois se encontram em uma horta e a cena envolve ramos de alecrim, significado dos nomes e o sabor de um caqui que toma contornos eróticos ao ser degustado pelo protagonista:

"Sem faca ou colher à mão, ele prende a pontinha da casca cerosa entre os indicadores e a rasga; o suco escorre pelo corte; ele lambe os pingos adocicados, suga para fora um naco gotejante de carne filamentosa e o prende suavemente, suavemente, contra o céu da boca, onde a poupa desintegra em jasmim fermentado, canela oleosa, melão perfumado, ameixas derretidas... e no coração da fruta ele encontra dez ou quinze pedras chatas, da mesma cor marrom e formato dos olhos asiáticos. (...) e como um diapasão posto a vibrar, Jacob reverbera com as partes e com o todo de Orito, com tudo o que faz com que ela seja ela. (...) A Criação não terminou na sexta noite, ocorre ao jovem. A Criação se desdobra ao redor de nós, apesar de nós e através de nós, na velocidade dos dias e das noites, e gostamos de chamá-la de Amor."

Precisa dizer mais?

Precisa! Só mais uma coisa: se você não gosta de spoilers como eu, evite ler as orelhas desta edição porque ela traz um acontecimento importante por onde todo o andamento da trama é apoiado.

Foto: Wolney Fernandes

sexta-feira, 20 de março de 2015

Em busca do tempo perdido


A experiência de ler Proust pela primeira vez foi permeada por sentimentos controversos e já digo, de antemão, que é preciso persistência para atravessar as lembranças desfiadas pelo autor nesse primeiro volume da série "Em busca do tempo perdido". Não quero dizer com isso que seja uma leitura difícil em função de um rebuscamento ou uma erudição que se findam nelas mesmas. Não é! A questão é que Proust escreve sobre detalhes e divaga, com muita propriedade, sobre resquícios do efêmero. Mais do que acontecimentos, o que importa em sua escrita parece ser a experiência que se extrai desses mesmos acontecimentos. O narrador da história se detém na observação profunda daquilo que aguça seus sentidos e investiga as sensações e as memórias que se descolam deles.

"Em breve, maquinalmente, acabrunhado com aquele triste dia e a perspectiva de mais um dia tão sombrio como o primeiro, levei aos lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madalena. Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta migalhas do bolo, tocou meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim."

E assim, desde a luz que o desperta pela manhã até o gosto da "madalena" que se dissolve na boca transmutam-se em descrições elaboradas com um apuro estético de encher as vistas. As palavras, cuidadosamente lapidadas, compõem uma espécie de mosaico ornamentado pela experiência do sensível que se desdobra diante de um sabor, de um som, de um cheiro, de um lugar...

"Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde me teria vindo aquela poderosa alegria? Senti que estava ligada ao gosto do chá e do bolo, mas que o ultrapassava infinitamente e não devia ser da mesma natureza. De onde vinha? Que significava? Onde apreendê-la?"

O livro é dividido em três partes. Na primeira delas [minha preferida, diga-se de passagem] diante de um fiapo de história somos apresentados pelos personagens que orbitam em torno do narrador e que irão exercer alguma influência sobre ele no futuro. Há os membros da família, passando pelos avós e os tios mais distantes, mas não só. Pela figura do Sr. Swann, um amigo da família, passamos também a acompanhar outra gama de personagens que serão os protagonistas da segunda parte do livro. E foi exatamente nesse ponto da narrativa que comecei a ter que me esforçar um pouco mais na leitura, uma vez que o autor parece andar em círculos para contar a história de amor entre Swann e Odete e de como o amor pode se retrair diante de um ciúme desmedido.

"Antes, sonhava-se possuir o coração da mulher amada; mais tarde, sentir que se possui o coração de uma mulher pode bastar para que nos enamoremos dela. E como antes de tudo se procura no amor um prazer subjetivo, assim, nessa idade em que seria de esperar que o gosto pela beleza feminina constituísse a maior parte desse sentimento, pode nascer o amor sem que tenha havido em sua base um desejo prévio. Nessa época da vida já se foi atingido várias vezes pelo amor e este já não evolui por si mesmo segundo as suas próprias leis desconhecidas e fatais, ante o nosso coração atônito e passivo."

Há de se entender a insistência do autor em investigar a natureza desses dois sentimentos gigantescos, mas foi aqui que senti que a leitura começou a se arrastar. O movimento em torno da vida social parisiense do início do século XX é ricamente escancarado e isso ajudou bastante a manter meu interesse pelo livro. Mexericos, arranjos sociais, traições e toda sorte de infortúnios advindos de um convívio em festas e jantares não deixam "a peteca" cair. Há de se ressaltar também os diálogos afiados e muito bem elaborados que fazem o texto vivo e pulsante.

Na terceira parte do livro encontramos o narrador, já adolescente, e acompanhamos as belezas do primeiro amor incrustadas em referências cotidianas e que aguçam a curiosidade para se enveredar pelo segundo volume. Ultimamente andava com uma preguiça fenomenal em ler séries literárias, mas Proust conseguiu soprar pra longe esse meu desânimo. Apesar de lenta, a leitura de "No Caminho de Swann" foi repleta de bons momentos. É, sem dúvida, um livro incrível, mas difícil de atravessar em função dessa relação tão íntima com os detalhes e divagações que parecem infindáveis dentro da escrita que, a meu ver é o ponto alto da obra. Proust tem a capacidade de suspender nossos pensamentos congregando todos os sentidos para aquilo que lemos.

Ao terminar de ler, fiquei pensando que a dimensão da sensibilidade descrita por Proust toca naquilo que compõe a matéria-prima da arte. É pelos sentidos que experimentamos o mundo e ao se debruçar naquilo que ele chama de lembranças involuntárias, acaba por nos provocar a olhar para dentro de nós mesmos [bem lá no fundo] e, então percebermos, na partícula mais ínfima daquilo que nos constitui, um universo inteiro a explorar.

"Os lugares que conhecemos não pertencem tampouco ao mundo do espaço, onde os situamos para maior facilidade. Não eram mais que uma delgada fatia no meio de impressões contíguas que formavam a nossa vida de então; a recordação de certa imagem não é senão saudade de certo instante."

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 19 de março de 2015

O que me falta é nada


O território demarcado por meu papel como artista, mesmo no campo da arte, sempre foi uma zona de risco, de desconforto e inadequação. E não tem sido diferente agora. Os sentidos invisíveis que fazem circular meus desejos poéticos se cumprem em revoluções internas, mas se entopem toda vez que preciso deles para continuar. E aquilo que eu sou se retrai em silêncios pronunciados na dureza de quem tem que conjurar: “só desta vez” ou “só até terminar isso ou aquilo”. Nessa pretensa efemeridade, meio cheio de tudo, mas oco daquilo que me refaz, faço caber tornados e ventanias em recipientes onde também preciso me equilibrar. O que me falta é nada. É só ar.

Foto de Nino Cais

segunda-feira, 2 de março de 2015

A Vida na Hora - Poemas de Wislawa Szymborska


Porque afinal cada começo 
é só uma continuação
e o livro dos eventos 
está sempre aberto ao meio.

Os poemas de Wislawa Szymborska (pronuncia-se Vissuáva Chembórska) me fez vir aqui para escrever sobre um livro de poesia. Tarefa árdua e um tanto nova para alguém que, como eu, mergulha nos versos e, por vezes, não deseja (ou não consegue) mais emergir. Caso os parágrafos abaixo não façam sentido algum, peço desculpas porque daqui do meio dos versos a realidade parece bem mais assombrosa e repleta de fabulações.

Não há devassidão maior que o pensamento.

Sob o signo da simplicidade, os poemas de Wislawa dão conta das profundezas contidas nas coisas miúdas e daquilo que preenche os dias mais comuns. Seus versos carregam um frescor e uma alternância entre a dor e a beleza das experiências vividas. Conseguem estreitar laços entre o privado e o político e ainda possuem uma capacidade de questionar as dúvidas que rondam nossa capacidade de ordenar o mundo.

Sem apelar por nenhum tipo de sentimentalismo, a poeta nascida na Polônia e ganhadora do Nobel de Literatura orienta nosso olhar para o prosaico sob um ângulo inusitado. 

Comparada com as nuvens
a vida parece muito sólida,
quase perene, praticamente eterna.
[...]
Sobre a tua vida inteira
e a minha, ainda incompleta,
elas passam pomposas como sempre passaram.

Não têm obrigação de conosco findar.
Não precisam ser vistas para navegar.

Há traços de uma intensa preocupação com o gênero, pois a perspectiva de vários poemas são desenhadas para marcar um olhar feminino.

Vietnã
Mulher, como você se chama? – Não sei.
Quando você nasceu, de onde você vem? – Não sei.
Para que cavou uma toca na terra? – Não sei.
Desde quanto está aqui escondida? – Não sei.
Por que mordeu o meu dedo anular? – Não sei.
Não sabe que não vamos te fazer nenhum mal? – Não sei.
De que lado você está? – Não sei.
É a guerra, você tem que escolher. – Não sei.
Esses são teus filhos? – São.


Entre o peso dos temas e a leveza de sua escrita, residem a ironia e um olhar teatral para aquilo que nos move. A poesia de Wislawa coloca o foco na vida como se ela se movimentasse entre o palco e as coxias fazendo os sentidos transitarem entre lá e cá numa mistura visceral que pede licença para "que a felicidade não se ofenda por tomá-la como minha".

A Vida na Hora
A vida na hora.
Cena sem ensaio.
Corpo sem medida.
Cabeça sem reflexão.

Não sei o papel que desempenho.
Só sei que é meu, impermutável.

De que se trata a peça
devo adivinhar já em cena.

Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco, me explicando,
é tanto mais humilhante.
As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.

Não dá para retirar as palavras e os reflexos,
inacabada a contagem das estrelas,
o caráter como o casaco às pressas abotoado-eis os efeitos deploráveis desta urgência.

Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira
antes ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
Mas já se avisinha a sexta com um roteiro que não conheço.

Isto é justo-pergunto
(com a voz rouca
porque nem sequer me foi dado pigarrear
nos bastidores).

É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
feita em acomodações provisórias. Não.
De pé em meio à cena vejo como é sólida.
Me impressiona a precisão de cada acessório.
O palco giratório já opera há muito tempo.
Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.
E o que quer que eu faça,
vai se transformar para sempre naquilo que fiz.


Foto: Wolney Fernandes
Trechos dos poemas: Amor à primeira vista; Opinião sobre a pornografia; Nuvens; Sob uma estrela pequenina.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Achados


Uma pista ali, um filme visto aqui e logo uma playlist com músicas novas se materializa.

01. Walk unafraid - R.E.M.
02. Good day bad - Meshell Ndegeocello
03. Primavera - Carlos Lyra
04. When I fall - Lizz Wright
05. O doce e o amargo - Secos & Molhados
06. I'll have to dance with Cassie - God Help The Girl
07. A different room - Travis
08. La nuit n'en finit plus - Petula Clark
09. Earned it - The Weekend
10. Happy - Marina & The Diamonds
11. Felicidade - Noel Rosa
12. Mon coeur s'ouvre a ta voix - Maria Callas

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

"Oh, arte! - O que não faço por você!"


"Seria de enlouquecer imediatamente qualquer um fraco de alma, e logo eu ficaria também caso tivesse de me embotar por dias inteiros; então - arrancado com as raízes do solo do meu fazer, como agora -, para não ficar louco, comecei a pintar, com o dedo trêmulo mergulhado na saliva amarga e usando as manchas do cimento, paisagens e cabeças nas paredes da cela, e fiquei olhando-as secar aos poucos, empalidecer e sumir nas profundezas da alvenaria, como se apagadas por uma mão invisível, fantasticamente forte.

Agora, felizmente, tenho de novo material para desenhar e escrever. Consigo trabalhar e assim suportarei o que senão seria insuportável. Para isso me ajoelhei, me humilhei, supliquei, orei, mendiguei, e teria ganido, caso não houvesse outra saída. Oh, arte! - O que não faço por você!"


[Em abril de 1912, o artista austríaco Egon Schiele fez desenhos e escreveu um diário durante os vinte e quatro dias em que esteve na prisão. Os dois parágrafos acima fazem parte da primeira página desse registro.]

Imagem: "A laranja era a única luz", 1912, Egon Schiele

Stoner


"...como se o amor e o saber fosse um só processo."

William Stoner vem de uma família humilde que mora no interior dos Estados Unidos e cujo trabalho se efetiva na lida com a terra apenas para a subsistência. Tendo seu destino já traçado na medida do cotidiano sofrido experimentado por seus progenitores, Stoner é surpreendido pelo próprio pai quando este lhe oferece a oportunidade de estudar. Em meio a dificuldades, a faculdade [mais especificamente a literatura] acaba por mudar os horizontes vislumbrado pelo protagonista a ponto dele questionar seu lugar no mundo.

Esse mote pode parecer banal demais se dito assim em um único parágrafo, mas é, sem nenhuma dúvida, a realidade de muitos [a minha, inclusive!]. Mas é à partir daí que a história desse ótimo livro do americano John Williams se desenrola. É claro que a identificação com a história contribuiu bastante para estreitar minha relação com a obra, mas tenho a impressão que ela possui tantas outras camadas capazes de abrir entradas para que algum tipo de aproximação aconteça que minha vontade é reler e ver se isso se confirma.

Confesso que me incomodou um pouco o fato do autor sempre antecipar os acontecimentos que virão a seguir. No primeiro parágrafo do livro já se tem um resumo de como foi a vida toda do protagonista e em vários outros pontos da narrativa, Williams resume o que vai desenvolver depois. No entanto, esse desenvolvimento conseguiu me envolver de modo satisfatório e, em alguns momentos, até me surpreender.

Há de se ressaltar que, por investigar nossas humanidades, Stoner não é um livro fácil. Não que tenha uma escrita hermética ou algo parecido, muito pelo contrário! A dificuldade, aqui, reside no clima melancólico que permeia toda a história e nem sempre é confortável acompanhá-la ou perceber as perdas e as injustiças que transitam em torno dela. Stoner é um homem bom e sereno que se descobre professor, mas que também carrega consigo uma solidão de dimensões continentais e, mesmo depois de ser marido e pai, não abandona esse sentimento. E dói perceber que a consciência do próprio lugar e da própria história de vida não garante facilidades diante das certezas (nem sempre dóceis) que o tempo vai sulcando na vida do herói.

"Em seu quadragésimo terceiro ano William Stoner aprendeu o que outros, muito mais jovens que ele, tinham aprendido antes dele: que a pessoa que se ama no começo não é a pessoa que enfim se ama, e que o amor não é um fim, mas um processo atráves do qual uma pessoa experimenta conhecer outra."

O ambiente acadêmico que serve de pano de fundo para a história é retratado de modo muito fiel em seus encantamentos, em seus jogos de poder e nas relações que transitam [quase sempre] entre a vontade de fazer diferença e a resignação diante daquilo que é impossível mudar. Escrita na metade da década de 1950 e ambientada no período entre guerras, a narrativa chega a espantar por ser tão atual no que diz respeito da vida dentro de uma universidade. A experiência do autor que também foi professor por trinta anos, consegue gerar esse sentimento de verdade diante das situações vividas por um acadêmico. No que diz respeito aos processos, às regulações e aos labirintos burocráticos, chega a dar medo perceber que depois de cem anos muita coisa continua ressoando de modo idêntico ao que se faz, atualmente, nos corredores universitários.

Com um final difícil de encarar, Stoner resvala naquele sentimento profundo que dá sentido às nossas escolhas e permite questionar os limites construídos entre a razão e a experiência. A história do camponês solitário que encontra na literatura um sentido para a vida mostra, com precisão dolorida, como a vida acadêmica pode aplainar nossos sentidos, nossas paixões e a matéria vital daquilo que nos [co]move. É preciso vigilância constante para que seja de outro modo. Vigiemos!

Imagem: Wolney Fernandes

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Vietnã



Mulher, como você se chama? – Não sei.
Quando você nasceu, de onde você vem? – Não sei.
Para que cavou uma toca na terra? – Não sei.
Desde quanto está aqui escondida? – Não sei.
Por que mordeu o meu dedo anular? – Não sei.
Não sabe que não vamos te fazer nenhum mal? – Não sei.
De que lado você está? – Não sei.
É a guerra, você tem que escolher. – Não sei.
Esses são teus filhos? – São.


Poema de Wislawa Szymborska
A imagem eu achei aqui

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

De acordo com a própria vontade


O coração é uma máquina de fazer vontades que precisa voltar à fonte das alegrias infinitas. O passado dorme no presente e, às vezes, lembra-se de acordar. A memória é a maior das nossas teimosias.

Já fui de pedra e agora sou de carne e osso. E o peixe que carrego no braço nunca mais vai se esquivar. Tal como o meu sorriso.


Imagem: Wolney Fernandes
Colagem disponível na Plus Galeria

Os Dias Lindos


"Não basta sentir a chegada dos dias lindos. É necessário proclamar: Os dias ficaram lindos."

Tomo emprestado as primeiras linhas da crônica que dá nome ao livro do Drummond para dizer, com toda convicção, que esse texto é uma proclamação de como meus dias ficaram lindos ao entrar em contato com essa obra do autor.

Os dias lindos reune textos publicados no Jornal do Brasil pelo escritor mineiro durante a década de sessenta e setenta. Os textos que compõem essa edição foram divididos em seis grandes sessões temáticas: burocracia, linguagem, passagem do ano, cartas, matutações e histórias. Foi com surpresa que descobri um Drummond irônico, mordaz, bem humorado e extremamente atual no que diz respeito à escolha dos temas e ao tom que ele escolhe dar aos textos.

"Dos escritores não sinto pena. São pessoas que geralmente não têm o que fazer, tanto que passam o tempo escrevendo. Muitos levam esse vício até noite alta, quando os indivíduos normais dormem ou estão nas boates."

Seu olhar atento às minúcias do cotidiano - como dedicar uma crônica aos pêlos que nascem da orelha - e à partir dessas miudezas, escavar profundidades é algo recorrente. Cada parágrafo parece acomodar intensidades diferentes que se movimentam entre a ironia e a poesia.

"E João Brandão, um entre tantos Brandões anônimos, repetidos, vê e sente que a tudo está ligado e tudo nele se liga, de bom e de mau, com a perspectiva da esperança para curar suas misérias, com o fundo e tumultuado desejo de explicar-se a si mesmo na aparente falta de explicação (o nexo oculto) de tudo."

Dominando, com muita propriedade, o uso da língua portuguesa, Drummond brinca com as palavras propondo desafios para si próprio e para nós, leitores. Bons exemplos desse exercício de escrita aparece em uma crônica que ele constrói inteira só utilizando versos de marchinhas de carnaval, ou em textos como "O homem no condicional" cuja cadência se dá pela utilização da partícula "se".

"Se faço uma crônica em se, sei lá se lhe sentirão o sentido."

Ou então na cadência das expressões idiomáticas que utilizam a palavra "mão".

"Que seu concurso seria uma mão na roda; que tivesse paciência e desse uma mãozinha, mesmo de mão beijada, pois o clube não falara em pagamento; enfim, que aguentasse a mão, mesmo que isso fosse uma tremenda mão de obra, para que os velhinhos convidadores não ficassem de mãos abanando, ou com uma mão atrás e outra adiante, ou ainda, para falar mais claramente, na mão."

Outro aspecto que me chamou a atenção foi a pertinência das reflexões feitas pelo poeta em torno de temas muito bem escolhidos que, apesar de terem sido escritos há 50/40 anos atrás, continuam atuais. A crônica em que um pai questiona o uso de um "gravador" nas aulas do colégio do filho, poderia muito bem servir à quem tem aversão às novas tecnologias do nosso tempo.

Entre profetismos, cotidianos, risadas e tratados para a vida, o livro conseguiu me fazer estender a leitura na tentativa de permanecer naquelas páginas por muito mais tempo, economizando cada texto para o dia seguinte. O Drummond poeta já era meu velho conhecido, o cronista passa, agora, para aquele canto do coração onde se guarda só a beleza dos dias lindos.

Ah, e ele também proclama que os tais dias lindos estão ali, na curva entre abril e maio, mas que a boniteza que eles carregam podem se esconder naqueles momentos em que, "livres do peso dos acontecimentos mundiais, trágicos e esmagadores", habilitamos nosso olhar também para o céu na tentativa de "degustar a finura da atmosfera e a limpidez das imagens recortadas na luz" e, assim, "nos integrar num conjunto harmonioso, em que somos ao mesmo tempo ar, luz, suavidade e gente."

Foto: Wolney Fernandes

Saudade


A morte obriga-nos a crescer, assim, de repente. Para os que continuam vivos, a morte também tem algo de definitivo porque há de se aprender a viver de novo. Como se nos pedissem para fingir que não sabemos fazer contas complicadas, falar inglês, escrever palavras como "exceção" ou "telúrico" e tudo o que fomos aprendendo pelo caminho.

A morte pede-nos para fingir porque só assim a vida pode continuar suportável. A morte lembra-nos todos os dias que a nossa infância não mais será o que foi, seja qual for a nossa idade. E ainda nos pede para termos muito cuidado com a palavra "saudade".

Imagem: detalhe da obra "Saudade" de Almeida Júnior 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Talvez


Separados por quase um século e muitos quilômetros, com estilos artísticos e palavras diferentes, talvez façam a mesma pergunta.


À esquerda: Viajante Sobre o Mar de Névoa [Caspar David Friedrich]
À direita: Jovem mulher na Costa [Edvard Munch]

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Esconderijos do Tempo - Memórias Literárias 2


Um dos meus projetos literários é revisitar os livros que contribuíram para minha formação como leitor desde a descoberta das letras até aquelas leituras que atravessaram a adolescência e juventude. Eu um primeiro levantamento feito em agosto de 2014, eu mapeei livros infantis que embalaram meus primeiros anos quando, ainda menino, descobri que era possível ter o mundo em minhas mãos. Nesta segunda empreitada, as memórias foram desdobradas em anos posteriores quando a adolescência deu lugar aos quereres de um Wolney avoado que gostava de olhar para o tempo e ler enquanto comia queijo com rapadura.

Os quadrinhos cresceram junto comigo. Se a leituras dos gibis da Turma da Mônica já não me seduziam, as adaptações de clássicos da literatura me apresentaram escritores consagrados mundialmente e as aventuras de cowboy, em páginas vagabundas, sacudiam meus dias modorrentos. As lembranças mais intensas são de:
1. David Copperfield - Charles Dickens
2. Tarzan - Edgar Rice Burroughs
3. Tex - Vários autores

Os empréstimos foram minha salvação. Como o dinheiro para se gastar com livros era bem pouco ou quase nada, por um grande período da minha juventude eu lia muitos livros emprestados. Da vizinha que trazia romances da cidade grande eu li quase todos as "Sabrinas, Júlias e Biancas" que eu pude. Mesmo sabendo que a estrutura não mudava, eu me divertia lendo as obscenidades contidas em "membros entumecidos" e outras expressões do tipo. Da minha professora de português eu li uma edição adaptada de 4. O Retrato de Dorian Gray e fui arrebatado. Ler Oscar Wilde me fez ver que havia muita coisa para além dos romances de banca. 

Quando finalmente tive acesso a uma biblioteca pública, tive vontade de acampar entre aquelas estantes. Todas as sextas-feiras, religiosamente, eu pegava de dois a três livros para ler durante a semana. Foi nesse período que descobri Agatha Christie, Arthur Conan Doyle e atravessei uma variedade de autores nacionais sempre motivado pelas tarefas do ensino médio. Os títulos dessa fase áurea que eu guardei, com mais ênfase na memória foram: 
5. Convite para um homicídio - Agatha Christie
6. Um estudo em vermelho - Conan Doyle
7. O Colecionador - John Fowles
8. Helena - Machado de Assis
9. Cinco Minutos - José de Alencar

A esposa de um dos meus tios tinha na casa dela um livro com a Marylin Monroe na capa que enchia meus olhos com um fascínio difícil de explicar. No entanto, meu tio morava em outra cidade e a leitura do livro foi feita aos pouquinhos, nas visitas esporádicas à casa dele. Foi meu primeiro contato com uma biografia e descobrir segredos acerca daquela estrela de cinema me abriu os olhos para um tipo de história pautada na realidade. 
10. Marylin - Norman Mailer

Relembrar os fatos em torno da leitura desses livros sempre me comove, me instiga e me faz querer reler todos eles nas edições antigas como se nelas, o tempo estivesse escondido e à espera da minha vontade para se abrir em fendas afetivas. 

Foto: Wolney Fernandes

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Formas de Voltar para Casa


"É melhor pensar que tudo isso foi uma história de amor."

Reconciliação é a palavra que atravessa todo o livro "Formas de voltar para casa" do chileno Alejandro Zambra. Seja no âmbito privado ou no social, a trama recompõe encontros com o passado por meio de relacionamentos amorosos, filiais e patrióticos. A história gira em torno de um narrador que tece reflexões sobre seu próprio processo de escrita e seu personagem - um professor que reencontra uma amiga de infância e, à partir desse encontro, revisita o passado. Alternando entre um e outro, Zambra consegue tecer situações alusivas à ditadura chilena e as derivações compostas tanto pelas pessoas que efetivamente se envolveram, quanto por aquelas que ficaram à margem dos conflitos daquele período.

"Enquanto os adultos matavam ou eram mortos, nós fazíamos desenhos num canto. Enquanto o país se fazia em pedaços, nós aprendíamos a falar, a andar, a dobrar guardanapos em forma de barcos."

O livro posiciona seu narrador entre o passado e o presente, realçando seu caráter reflexivo diante dos fatos vividos e dos aprendizados derivados dessa experiência. Os planos individuais e coletivos, mesmo alternados, possuem ecos que reforçam a influência de um sobre o outro e que se desdobram dentro de um desenho mais amplo. No entanto, essa relação de forças é, primordialmente apresentada no âmbito particular e é aqui que, a meu ver, está a genialidade da história, pois o autor consegue dizer do macro, focando as particularidades e as sutilezas de um cotidiano simples. Não é à toa que a primeira parte do livro seja intitulada de "Personagens Secundários".

Zambra é detentor de uma linguagem enxuta, sem firulas e isso marca com precisão cada trecho do livro, pois todas as partes parecem necessárias ao enriquecimento da trama. Além disso, as imagens e os recursos metafóricos utilizados também funcionam muito bem. É assim na cena do terremoto, um abalo que coloca no mesmo cenário tanto a família militante quanto o núcleo familiar que se posiciona à margem das questões políticas. É assim também quando o autor cria uma relação de equivalência entre a figura dos pais e a do país. As reconciliações familiares, tanto da mocinha que precisa voltar dos Estados Unidos para o Chile quanto do protagonista que passa a questionar a indiferença dos pais à ditadura, são mostras contundentes dessa boa utilização de metáforas para ajudar no andamento da história.

Com frescor, o livro realça um tema árido, como é o tema da ditadura, que mesmo servindo como pano de fundo nunca resvala na pieguice e nem diminuiu ou aplaina suas consequências. A história (de amor?) que nós é apresentada é repleta de imagens bonitas e evocativas e talvez a que mais tenha me emocionado seja a da camisa que traz em suas entrelinhas sentidos que ultrapassam aqueles dispostos pela história:

"Guardei as camisas de meu pai numa gaveta durante meses. Desde então aconteceram muitas coisas. (...) Olho agora essas camisas, estendo-as sobre a cama. Gosto de uma em especial, cor azul petróleo. Acabo de prová-la, definitivamente fica pequena em mim. Olho-me no espelho e penso que a roupa dos pais deveria sempre ficar grande em nós. Mas penso também que precisava disso; que às vezes precisamos nos vestir com a roupa dos pais e nos olhar demoradamente no espelho."

Vestir-se com a roupa dos pais [ou do país de origem], muitas vezes significa voltar e, nessa volta, reconciliar-se com uma história onde, na maioria das vezes, somos [ou fomos] simples coadjuvantes. Tão simples e, ao mesmo tempo, tão dolorido assim.

Foto de Leonard Freed - Running to school, 1965

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Playlist Literária


Entre as páginas de alguns dos últimos livros lidos, topei com canções citadas pelos personagens. A ideia, aqui, foi reuni-las em uma playlist. Sente só!

01. I've told every little star - Linda Scott [no livro A Chave de Casa]
02. Bang Bang - My Baby Shout me Down - Nancy Sinatra [no livro A Chave de Casa]
03. Where is my mind - Emmy the Great [no livro Formas de Voltar pra Casa]
04. Riding for the feeling - Bill Callahan [no livro Formas de Voltar pra Casa]
05. All my little words - The Magnetic Fields [no livro Formas de Voltar pra Casa]
06. Solitude - Billie Holiday [no livro O Inventor da Solidão]
07. Una furtiva lagrima - Enrico Caruso [no livro A Hora da Estrela]

Imagem capturada aqui.


domingo, 25 de janeiro de 2015

A Chave de Casa


"Como é cruel (e bonito) que a vida continue depois de você."

Uma neta recebe do avô a chave da casa que ele deixou na Turquia antes de emigrar para o Brasil. Uma mulher revive os dramas de uma relação amorosa com feridas que parecem impossíveis de cicatrizar. Uma filha faz memória da morte e da doença da mãe reverberando histórias de um passado imerso em exílios, dores e outras intensidades.

Intercalando essas três linhas narrativas, Tatiana Salem Levy borda, com delicadeza, sua própria identidade no livro "A Chave de Casa".  Ao empreender uma escrita de si, a autora consegue entrelaçar amor, memória, medo, sexo e outros temas fundantes da natureza humana.

"Nasci no exílio: e por isso sou assim: sem pátria, sem nome. Por isso sou sólida, áspera, bruta. Nasci longe de mim, fora da minha terra - mas, afinal, quem sou eu? Que terra é a minha?"

Cada história é contada como se estivéssemos diante de estilhaços de memória que, aos poucos, vão compondo um mosaico em torno da narradora. Impulsionada a percorrer seu passado, ela parte em busca da casa apontada pelo avô num país estranho, mas onde também estão fincadas suas raízes. Neta de judeus vindos da Turquia, nascida em Portugal e brasileira desde a primeira infância, a autora parece colocar espelhos diante de si mesma para encarar e interrogar suas dores e escarafunchar seus desejos.

Pouco à vontade diante do desenho intrincado que se cria entre o ser mulher, judia, brasileira, filha e amante, a protagonista vai revelando suas intimidades de modo muito verdadeiro - ou pelos menos com aquilo que há de verdade na literatura - e isso nos conecta a ela num ótimo jogo de identificações revelando uma espécie de universalidade naquilo que é tão particular.

O tom melancólico da escrita de Tatiana é colocado em cheque pela autora quando ela própria cria diálogos com a mãe morta em um contraponto deveras interessante sobre as tintas que uma escrita pode pintar sobre a realidade ou sobre o que sentimos/pensamos/fazemos:

"[Por que levar tudo para o lado da dor? Por que sempre assim, desde pequena? A história do seu avô não é feita só de perdas. Essa história que você conta também tem outras histórias. Por que não narra, por exemplo, a alegria de desembarcar em terra tão acolhedora como a nossa? Por que não conta que foi a partida que deu a ele tudo o que construiu? Que, ao desembarcar no Brasil, seu avô encontrou uma tranquilidade que não tinha antes? Por que insistir em palavras tão doídas?]"

O livro é um belíssimo mapeamento sobre intimidade, memória e sobre o que significa ser quem se é diante daquilo que, mesmo dolorido ou escamoteado, também nos constitui. E é bonito porque a história chega a dar pistas, mas nunca responde totalmente, as questões que orbitam em torno desse anseio que nos acompanha e nos faz caminhar à procura de uma casa cuja fechadura aceite nossa chave.

Foto: Wolney Fernandes

Epígrafe


quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Maratona Literária - A Tentação do Impossível*


Aproveitando os dias de pernas pro ar, resolvi fazer uma maratona literária que consistiu em ler um livro por dia durante dez dias. A ideia principal foi tirar o atraso com leituras que eu gostaria de ter feito há tempos e não consegui. A escolha dos títulos para a maratona obedeceu ao seguinte critério: escolher livros recebidos de presente e que não ultrapassassem 120 páginas (que é a média de páginas que consigo ler, com tranquilidade, em um dia).

A maratona terminou hoje e no geral foi bem tranquila. Excetuando, é claro, a leitura do livro "A Obscena Senhora D" da Hilda Hilst que precisou de dois dias para ser lido. Como foi o primeiro livro que eu li da Hilda, não imaginei que fosse precisar de pausa para digerir todo o furacão de emoções advindos da escrita visceral da autora. No entanto, acabei por correr um pouquinho no dia seguinte e tudo se ajeitou. Gostei da experiência e pretendo repeti-la num futuro próximo. Abaixo segue o resumo das impressões sobre cada um dos livros lidos. Uma espécie de diário que eu fui compartilhando, durante a maratona, na minha timeline lá no Facebook.


Dia 01. Festa no Covil
Autor: Juan Pablo Villalobos
Um garoto, filho de um chefão do narcotráfico mexicano, narra seu cotidiano solitário entre as atividades comandadas pelo pai. O modo como o autor decidiu contar essa história de violência pelo olhar de um menino é o que faz toda a diferença. A narrativa é tocante e, por vezes, hilária, alternando entre a candura e a crueldade. Uma beleza de começo!

Dia 02. O Menino do Dedo Verde
Autor: Maurice Druon
Acabei de preencher uma lacuna na minha história como leitor ao concluir a leitura desse livro que é repleto de imagens evocativas sobre o modo de atuarmos no mundo. Escrita deliciosa, inventiva e que serve tanto para crianças quanto para adultos. Miraflores já é meu lugar preferido e o jardineiro Bigode eu também seguiria por todos os lugares possíveis. Achei bonito!

Dia 03. O Púcaro Búlgaro
Autor: Campos de Carvalho
Estranhamento é a palavra de ordem quando se começa a ler esse livro. Sua narrativa surreal nos coloca diante de personagens que nem de longe beiram à realidade, mas nem por isso, são enfadonhos. Pelo contrário, é exatamente as peculiaridades de uma história sem pé nem cabeça que faz do livro uma leitura singular. Na trama, o autor, querendo provar a existência de um púcaro búlgaro, decide recrutar voluntários para uma expedição para a Bulgária. Em grande parte do livro, acompanhamos um diário que nos conta os pormenores dessa preparação em um texto regado à muito humor negro e uma crítica afiada ao modo de vida do brasileiro em 1964, ano em que o livro foi escrito. Ri alto com a ousadia do autor que, entre outras pérolas, propõe um jogo sagaz com a língua portuguesa. Genial, genial!

Dia 04 - Casa 12
Autora: Letícia Constant
O livro é uma espécie de diário onde a autora, assumindo a voz de menina, relembra fatos da sua infância vivida em São Paulo no final dos anos 50. Cotidiano familiar, galeria de amigos, brincadeiras em casa e na escola, relação com vizinhos e toda sorte de acontecimentos dão o tom da narrativa, por vezes, repetitiva. Me incomodou um certo tom machista que o livro tende a realçar quando fala do papel da mulher e seus deveres para com a casa e o marido. Pode ser alguma referência aos costumes da referida década onde se passa a história. No mais, o livro me pareceu um bom modo de guardar lembranças de um tempo que deixa saudades. Destaque para as ilustrações feitas com recortes de revistas antigas feitas por Elisa Cardoso.

Dia 05 (e parte do dia 06) - A Obscena Senhora D
Autora: Hilda Hilst
Livro lido para o desafio "Os Componentes da Banda"
A Senhora D do título passa a viver no vão de uma escada enquanto trava rituais especulativos acerca de votos amorosos e outros devaneios na busca de sentidos para a perda do amante. Uma narrativa perturbadora e cortante. Nada é facil dentro dessas 90 páginas, tanto que não consegui ler em apenas um dia como era a proposta inicial. Primeiro livro da autora e já fiquei instigado para ler outras coisas dela. Força, Wolney, Força!

Dia 06 - Um Beijo de Colombina
Autora: Adriana Lisboa
A escrita delicada da Adriana Lisboa eu conheci no ano passado quando li o ótimo "Rakushisha". Foi uma alegria reencontrar a autora nesse livro mais antigo e perceber que a delicadeza e os silêncios são características que também aparecem aqui nesta história de amor entre a escritora Teresa e um professor de latim. Pela voz do professor, acompanhamos um homem tentando entender essa relação e lidando com as presenças, as ausências e as saudades que lhe atravessam. Utilizando um recurso metalinguístico (que faz toda a diferença no final) nos inserimos na vida do casal com todas as nuances de uma relação tranquila, mas intensa. Tendo a poesia de Manoel Bandeira como fio condutor da trama, a escrita é surpreendente porque consegue falar das minúcias mais banais e fazer de cada uma delas, um evento... uma tessitura de reflexões. Seja pela poesia do Bandeira empregada de forma genial na narrativa, seja pela dor da perda ou pela beleza do encontro, as identificações foram tantas que, até agora, esse livro foi, sem sombras de dúvidas, a melhor leitura desse desafio. Recomendo!

Dia 07 - Podem me chamar de Simbá
Autor: Francisco Castro
Paulo é um menino com dez anos que conta a história de sua relação com o avô que tem Alzheimer. O livro é cheio de altos e baixos (mais baixos do que altos é verdade) e a relação dos dois acaba caindo nos clichês do gênero ao apresentar personagens unidimensionais. Como pano de fundo, há a história de "Simbá, o Marujo" que não funciona no decorrer da narrativa. Me incomodou também a escrita em primeira pessoa. Ao assumir a voz do menino de dez anos o autor se perde e não consegue convencer que se trata de uma criança contando a história. Enfim... até agora, o pior livro do desafio.

Dia 08 - O Potencial erótico de minha mulher
Autor: David Foenkinos
Apesar do título esquisito e da capa estranha, cheguei até esse livro porque li o ótimo "A Delicadeza" do mesmo autor. E foi uma leitura curiosa essa de agora porque a escrita é bem distinta. Apesar de diferente, não é uma escrita ruim, mas nessa obra, encontrei um Foenkinos muito bem humorado e com um pé no surrealismo (a apalpadora de testículos me fez dar altas risadas). Foi bem divertido ver como o autor consegue um tom diferenciado e bem mais apropriado ao tema. O que não funcionou muito desta vez foi o desenvolvimento da história. Gostei bastante do início do livro, mas depois achei que a história descambou para um lado que foi se distanciando cada vez mais do meu interesse. Na trama, depois de uma tentativa de suicídio frustrada (e isto não é spoiler porque está na primeira página do livro), Hector decide mudar sua vida. Colecionador compulsivo, ele começa a frequentar um grupo que o ajuda a superar o vício de ajuntar coisas até que encontra Brigitte, cuja sensualidade mexe com suas convicções mais remotas de colecionador.

Dia 09 - As Vozes do Sótão
Autor: Paulo Rodrigues
Damiano é um alfaiate que ouve vozes e, à partir delas, faz um mergulho em suas memórias atravessadas pelas dores experimentadas na infância. O livro é dividido em duas parte (uma se passa no Brasil e outra no Uruguai) reverberando deslocamentos, fugas e travessias interiores. A escrita de Paulo Rodrigues me surpreendeu bastante porque é sofisticada e dolorida. As diferentes vozes adotadas para um mesmo personagem, embora não lineares, funcionam como um fluxo confluente que estabelece cruzamentos interessantes no momento certo! Gostei mais da primeira parte do que da segunda, mas nada que comprometa a boa experiência de leitura. Uma grata surpresa nesta etapa final do desafio.

Dia 10 - Miserere
Autora: Adélia Prado
Miserere é o livro mais recente da Adélia Prado onde a poeta destaca fragmentos de uma relação entre aquilo que é divino e aquilo que é humano. O livro é respingado pela fragilidade da vida, por um sentimento de descompasso entre o corpo e o espírito e pela visão focada no cotidiano que é uma das característica da autora que eu mais gosto. Mais não sei dizer, só sentir.

(*) O título da maratona eu peguei do livro do Mário Vargas Llosa.
Foto: Wolney Fernandes

O Retorno


Ainda não me esqueci da senha. Abro a porta devagar, quase com medo, aquele medo bobo que a imaginação se recusa a preencher. Tiro uma teia de aranha dos cantos, desejando que a aranha já tenha encontrado outro canto. Passo os dedos de leve pelo coração e dou passos cuidadosos para continuar ouvindo suas batidas. Não vá pisar em algum sentimento que tenha esboçado ou em alguma epígrafe rascunhada anteriormente. Pelo caminho tropeço num Wolney que está fora do lugar, como um sapato esquecido. Devia ter acendido a luz, mas tenho esta mania de andar às escuras pra dentro de mim mesmo. Olho pela janela enquanto tento adivinhar quem terá regado meus desejos durante a minha ausência.

Imagem: Wolney Fernandes

Atlas das Nuvens


"Atlas das Nuvens" exerce um fascínio ímpar na minha vida de leitor. Primeiro porque é do inglês David Mitchell que é um dos meus autores preferidos. "O Menino de Lugar Nenhum", do mesmo autor, ainda reverbera intensidades aqui dentro do peito. Depois, pela estrutura formal que o livro apresenta. Sabe aquelas bonecas russas que estão abrigadas uma dentro da outra? Pois é! "Atlas das Nuvens" é a reunião de seis histórias que se abrem à partir de premissas inventivas e mídias diferentes [um diário, um livro, um filme...] que em diferentes épocas se referenciam mutuamente.

O livro começa com um diário escrito em 1850 por um viajante que está atravessando o Oceano Pacífico quando, de repente, você descobre que esse diário está sendo lido por um jovem compositor que vive no período entre guerras, já no século XX. As cartas desse jovem compositor fazem parte da trama de um livro policial que se passa na década de 70. Esse livro chega às mãos de um editor que vive em nossa época e cuja história mirabolante se transforma em um filme. Esse mesmo filme, no futuro, será uma parte importante do testamento de uma jovem oriental geneticamente modificada. E, por fim, os feitos dessa jovem servirão como base para a sexta história ambientada num futuro pós-apocalíptico. UFA!

Tudo funciona como o primeiro movimento de um sinfonia, pois cada uma dessas histórias enuncia, amplia e passa adiante a ideia de conexão entre as coisas e de que nossas ações nunca se cumprem nelas próprias, mas reverberam em multiplicidades que ecoam indefinidamente ao longo do tempo. E ao enunciar o mesmo tema várias vezes, pois as histórias são abertas sequencialmente e depois fechadas em ordem inversa, o autor consegue impregnar cada sequência com os tons e os acontecimentos de cada uma das versões anteriores.

Dito assim, parece complicado, mas eu garanto que não é. "Atlas das Nuvens" além de um livro divertido, inteligente e repleto de aventuras, também nos convoca a pensar o tempo de forma espiralada e nos impulsiona a entender que passado e futuro se atualizam pela experiência que se faz no presente. Além disso, à medida que avançamos e retornamos, traços peculiares da nossa natureza humana são realçados para nos lembrar que em nossas fragilidades é onde reside toda a força propulsora da vida.

"E só com o teu último suspiro é que hás de perceber que a tua vida não é mais que uma gota num oceano sem limites! E, contudo, o que é o oceano senão uma profusão de gotas?"

A leitura é fluida e me impressionou bastante o modo como Mitchell consegue dar a cada uma das histórias um tom diferenciado na escrita. Um exercício elegante sobre recursos distintos de narração. Na sequência que compõe o miolo do livro, por exemplo, o autor adota um modo bem coloquial para realçar aspectos da oralidade que é tão importante para a história.

"Olhei as nuvens oscilando, deitado no chão daquel' caiaque. As almas cruzam os tempos com' as nuvens cruzam os céus e, embora nem a forma d' uma nuvem, nem a cor, nem o tamanho fiquem na mesma, continua a ser uma nuvem, e é o memo coas almas. Quem pode saber donde veio soprad' a nuvem ò' de quem será a alma amanhã?"

Infelizmente, o livro nunca foi lançado no Brasil, mesmo depois da adaptação cinematográfica (a meu ver, desastrosa) dos Wachowskis e de Tom Tykwer que aqui ficou com o título reducionista de "A Viagem". A minha edição é portuguesa, mas ouvi rumores de que há uma tradução sendo preparada pela Cia. das Letras. Oremos!

Imagem: Wolney Fernandes

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Exorcismo


Meus olhos estacionaram na simultaneidade do dia e da noite contida na obra L’Empire dês Lumières de René Magritte. Será dia? Será noite? Quem estará em casa? 

A luz natural e a luz artificial estão presentes como se a noite e o dia tivessem deixado de se esconder um do outro, simultaneamente revelados nesta imagem que parece ter vida dupla. Apesar de tanta luz, há algo de incômodo na temperatura da paisagem. Um arrepio, sei lá... Talvez a descoberta de que, mesmo abrindo a porta à luz, não conseguimos expulsar os nossos demônios.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Pé de Beijo


"Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada."


Versos de Adélia Prado
Foto minha

sábado, 10 de janeiro de 2015

Projetos de leituras para 2015 e vida afora


Em 2015 eu desejo organizar melhor minhas leituras. Eu sei que esse desejo pode soar como uma utopia meio besta já que minha vontade para ler um livro depende de uma série de fatores muitas vezes nascidos à revelia de projetos firmados no início do ano. No entanto, percebo que os projetos de leitura me ajudam a ultrapassar alguns limites impostos por uma certa comodidade que me assola na hora de escolher um livro para ler. 

Quando escolhemos o que vamos ler, por vezes, não nos damos conta de algumas ciladas que passam despercebidas. No meu caso, desejo prestar mais atenção na questão do gênero, da etnia, da religião e do estilo, entendendo que estes pontos podem escamotear fronteiras e situações hegemônicas. A motivação por trás dessa organização está no desejo de conhecer autores/as novos, de entender que literatura se faz no mundo todo e não somente no continente europeu, de ler livros clássicos e contemporâneos, de não me deixar levar pela onda midiática em torno do livro da moda, de me aventurar por estilos pouco explorados... Enfim, de sair da minha zona de conforto e conhecer outras formas de ver.

Quero também movimentar minha estante, pois minha biblioteca é imensa e tenho notado que alguns livros tem ficado esquecidos nos cantos escuros das pilhas que se avolumam e que, por um motivo ou outro, vou deixando pra depois e esse depois nunca chega. A ideia então é começar pelos livros que já tenho aqui e não sair como um desvairado à procura de livros novos. 

Alguns desses projetos eu já comecei e outros ainda estão em construção. Alguns eu pretendo fazer em 2015 e outros eu desejo levar para a vida afora. Sem obrigatoriedades ou qualquer outra entrave que me distancie do prazer de ler. De todo modo, já fica o convite para quem desejar participar e/ou customizar algum dos desafios listados a seguir. Vem comigo?

01. Os Componentes da Banda [para ler mais literatura nacional] - Toda a explicação desse desafio literário e os livros que fazem parte dele você pode acessar aqui.

02. Os Dias Lindos [para ler mais contos, crônicas e poesia] - No balanço anual de leituras percebi que leio poucos contos e poesia. Em 2015, quero mudar isso e a ideia é fazer um projeto de leitura diária com esses estilos. Ler um conto, uma crônica ou poesia por dia numa espécie de ofício literário. Os livros vão se alternar conforme a vontade de cada dia. O título do projeto eu peguei do livro do Drummond.

03. Atlas das Nuvens [para ler mais obras provenientes de outras regiões cuja literatura eu desconheço] - Em 2015, meu olhar estará atento para a escolha de livros que tenham sido escritos em outros países diferentes daqueles ditados por meu olhar eurocêntrico. A proposta e a vontade é ler pelo menos um livro por mês que tenha sido escrito em algum lugar diferente daqueles que eu já esteja acostumado. Este projeto depende ainda da minha disposição em separar na estante, alguns títulos que caibam nesse desafio. Tão logo eu consiga fazer isso, faço um update nesta postagem. Como de costume, o título do projeto tem como fonte o livro do David Mitchell que é o xodó da vez.

04. Não me abandone jamais [para ler mais clássicos] - Esse projeto eu já comecei em junho do ano passado quando me propus, junto com amigos do clube de leitura a destrinchar Ulysses do James Joyce. A leitura continua, vagarosa e sempre e com algumas percepções anotadas aqui. Um aspecto que pretendo valorizar nesse desafio é exatamente essa questão do tempo. Não apressar a leitura e me debruçar sobre as intensidades que elas vão deixando em mim para saboreá-las e entremeá-las com a vida. Quero buscar também referências acerca da obra e, sempre que possível, cruzar informações variadas para mergulhar um pouco mais nos sentidos diversos que elas suscitam. Apesar de ter muitos clássicos (leia-se calhamaços) na estante, eu tendo a protelar a leitura dos mesmos em função da literatura contemporânea que vai atropelando essas obras escritas no passado. Vamos ver se consigo equilibrar isso. Dentro desse projeto, pretendo também atravessar os sete volumes de "Em Busca do Tempo Perdido" do Proust começando agora em janeiro. O título desse projeto é o mesmo do ótimo livro do Kazuo Ishiguro.

05. Esconderijos do tempo [para reler os livros guardados na minha memória afetiva] - A ideia aqui é revisitar os livros que contribuíram para minha formação como leitor desde a descoberta das letras até aquelas leituras que atravessaram a adolescência e juventude. Uma primeira compilação já foi feita aqui e o título do projeto eu peguei do Mário Quintana.

Uma nota: Os desafios um, dois e três serão conduzidos, numa primeira rodada, por um critério de escolha que privilegiará os livros escritos por mulheres.  

Um desejo: Que mais gente se anime a prestar atenção nas escolhas que faz quando o desejo de ler atravessar todos os afazeres do dia-a-dia. Boas leituras a todos/as e um 2015 repleto de muitas descobertas!

Foto: Wolney Fernandes

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Continuar...


Por mais que eu queira, não sei chutar o balde e mandar tudo pelos ares. O discurso de "largar tudo" e  ligar o "phoda-se", embora muito tentador, não funciona pra mim. E confesso que foi com uma certa alegria que descobri isso. No final das contas, sempre me vejo um tantinho mais feliz diante da minha rotina, por mais inóspita que ela possa parecer se vista do lado de fora.

No início de 2014 eu fiz um texto sobre meus quereres de ano novo e tudo o que escrevi ali continua valendo. Alguns dos itens eu consegui observar com mais cuidado, outros eu nem dei importância e vários deles continuam como propostas que sigo levando entre tentativa e erro. Repito: nada de página em branco. Os rabiscos de antes me ajudam a rascunhar possibilidades mínimas, corriqueiras, mas que tem funcionado como chaves para me ajudar a abandonar o que não me faz feliz. Tenho aprendido que as continuidades são necessárias, mais do que as rupturas, pois me livram das ansiedades de querer mudar tudo de forma radical.

O ano terminou junto a uma grande mudança: pela primeira vez na vida estou sem um trabalho formal. E por formal entenda aquele emprego com carteira assinada, com horários para cumprir e ponto para bater. Essa mudança só foi possível, em parte, porque já era uma vontade cultivada, em outra porque as circunstâncias me levaram a isso. Ou seja, não foi uma decisão tomada por mim de forma integral, mas um conjunto de fatores que me levaram a ela. Num tempo em que se busca a estabilidade, o que se desenha por aqui é o instável, o desconhecido, horizontes indefinidos. O que, à priori, me pareceu um grande abismo, começa, agora a se desenhar como um campo vasto por onde eu posso me movimentar com mais liberdade.

Liberdade é legal, né? É, mas dá medo e exige da gente outros jeitos de ser. Vivo aprendendo que "viver é viver de outra maneira", mas esse aprendizado, além de interminável é custoso que só. Decididamente, 2014 foi um ano em que a vida orientou meu olhar para mim mesmo e, essa orientação nunca vem com manual de instruções. Tá certo que não sei chutar o balde e a essa altura da vida nem quero aprender, mas tudo o que sei trago comigo e a proposta é continuar com uma atenção voltada para algumas pequenas pistas que sigo juntando pelo caminho:

a) Não há glamour em estar sempre ocupado.
b) Não há falta de tempo que me impeça de fazer o que eu gosto.
c) Ser artista não é uma condição sobre a qual eu possa negociar ou deixar de lado.
d) Ficar de "mimimi" não ajuda, mas saber dizer "não" me orienta a cuidar do que realmente me faz feliz.
e) Ser e não parecer que se é.

Drummond, nos últimos parágrafos de uma crônica intitulada "Vacina de Ano Novo" conta a seguinte história:

"João Brandão, que às vezes é modelo de sabedoria relativa (a absoluta consiste em deixar a fantasia agir), contou-me que todo ano recebe um cartão nestes termos: "CALMA RAPAZ". "E quem é que te manda este cartão? perguntei-lhe. "Eu mesmo. Entro na fila, compro o selo, boto na caixa. Porque se eu não fizer isto, ninguém o fará por mim. Ao receber a mensagem considero-a mandada por um amigo vigilante e discreto, e faço fé na Pausa e continuação: "Tem me ajudado muito. Você já reparou que ninguém deseja calma a ninguém, na época de desejar coisas? Deseja-se prosperidade, paz, amor, isso e aquilo ('tudo de bom pra você'), mas todos se esquecem de desejar calma para saborear esse tudo de bom, se por milagre ele acontecer, e principalmente o nada de bom, que às vezes acontece no lugar dele. Como você está vendo, não chega a ser um voto que eu dirijo a mim próprio, pelo correio. É uma vacina". Vacinemo-nos, amigos."

Embora vacinado, ainda me pego entre ansiedades do que virá, me esquecendo de colocar a vida no presente e de ter calma para mudar o que preciso for. Como bem me alertou uma amiga querida "é preciso dar vasão aos preciosos recomeços, reencontros de pedaços de guardados esquecidos ou dos nunca imaginados... você é casa habitada pelos ecos dos possíveis."

Obrigado, Rosi! Essa é a única certeza que levo de 2014 para 2015.

Imagem: Wolney Fernandes

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

As intensidades das leituras de 2014


Em 2014 eu li muito. Li como nos velhos tempos em que uma leitura era seguida da outra sem hiatos e, às vezes, até simultaneamente. Li por prazer, sem prazos estabelecidos e guiado por uma vontade que me deixava bem livre para fazer minhas escolhas. Li no banheiro, nas filas e em cada brecha que os dias deixavam. Li de tudo: ficção, não ficção, quadrinhos, livros teóricos e infantis. Em 2014 também comecei a brincar com os livros, a fazer deles mais do que um pensamento fechado em suas páginas. Passei a misturá-los com a vida, a fazer arte com as leituras que plantaram arrepios em mim. Comecei também a partilhar minhas leituras no desejo mais singelo de que elas pudessem ventilar vontades em outras pessoas de serem lidas assim como eu fui. Partilhei no desejo de pousar de outro modo, de vibrar em intensidades diferentes daquelas que me trouxeram até aqui. Foram 105 livros no total e esse texto é um resumo daquilo que foi mais intenso, daquilo que fez caber pássaros no meu peito.

As melhores leituras do ano (ponto)
1. A Desumanização - Valter Hugo Mãe
2. O que amar quer dizer - Mathieu Lindon
3. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres - Clarice Lispector
4. Lavoura Arcaica - Raduan Nassar
5. O Inventor da Solidão - Paul Auster

Outras intensidades
1. Não dava nada, mas acabei achando tudo - A máquina de fazer espanhóis [Valter Hugo Mãe]
2. Achei que era tudo e acabou em nada - Sérgio Y. vai à América [Alexandre Vidal Porto]
3. Se a vida fosse um livro de contos - Iniciantes [Raymond Carver]
4. Um quadrinho para morar - Fun Home [Alison Bechdel]
5. Se a delicadeza tivesse um nome: Rakushisha [Adriana Lisboa]
6. Meu coração é do tamanho de um livro - No meu peito não cabem pássaros [Nuno Camarneiro]
7. Soco no estômago - Os Verbos Auxiliares do Coração [Péter Esterházy]
8. Fiquei sem chão depois do ponto final - Nossos Ossos [Marcelino Freire]
9. Se 2014 fosse um livro - O Pintassilgo [Donna Tartt]
10. Por que me arrastas por tuas páginas? - O Homem Duplicado [José Saramago]
11. A edição dos sonhos - Opisanie Swiata [Verônica Stigger/CosacNaify]
12. Das páginas para a tela - A Garota Exemplar  [Gillian Flynn]
13. Poesia é voar fora da asa - Bagagem [Adélia Prado]
14. Não me abandone jamais - Mrs. Dalloway [Virgínia Woolf]
15. Quero ser quando crescer - Valter Hugo Mãe

O livro como objeto de arte









Mais fotos no meu instagram: @wolneyfernandes

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

As Mortes Sucessivas


Quando minha irmã morreu eu chorei muito
e me consolei depressa. Tinha um vestido novo
e moitas no quintal onde eu ia existir.
Quando minha mãe morreu, me consolei mais lento.
Tinha uma perturbação recém-achada:
meus seios conformavam dois montículos
e eu fiquei muito nua,
cruzando os braços sobre eles é que eu chorava.
Quando meu pai morreu, nunca mais me consolei.
Busquei retratos antigos, procurei conhecidos,
parentes, que me lembrassem sua fala,
seu modo de apertar os lábios e ter certeza.
Reproduzi o encolhido do seu corpo
em seu último sono e repeti as palavras
que ele disse quando toquei seus pés:
'deixa, tá bom assim'.
Quem me consolará desta lembrança?
Meus seios cumpriram
e as moitas onde existo
são pura sarça ardente de memória.

[Adélia Prado]

Para ver a própria autora recitando o poema, clique aqui e avance até 0:36 do vídeo.

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sábado, 20 de dezembro de 2014

Balanço Cinematográfico - Os filmes de 2014


A contabilidade fechou assim: 50 sessões no cinema e 67 sessões em casa, totalizando 117 filmes assistidos em 2014. Em meio a essa soma, eu consegui listar aqueles que, de uma forma ou de outra, deixaram meu ano muito mais intenso.
    
Só pra lembrar: mesmo estando numerados, não há uma ordem de preferência e que nem todos os títulos foram lançados em 2014, mas se estão aqui é porque tive contato com eles neste ano. 

Os melhores filmes do ano:
1. Ela 
2. Boyhood - Da Infância à Juventude
3. Praia do Futuro 
4. O Grande Hotel Budapeste 
5. O Homem Duplicado

Os melhores filmes que (quase) ninguém viu:
1. Pelo Malo 
2. Alabama Monroe
3. Amantes Eternos 
4. Entre Nós
5. Um Estranho no Lago

Os melhores filmes que assisti em casa:
1. Santiago
2. Contato
3. À Prova de Morte
4. Louca Obsessão
5. Clube da Luta

As bombas do ano [melhor nem passar perto]:
1. Noé 
2. Malévola 
3. Um Conto do Destino
4. Uma nova chance para amar
5. Caçadores de Obras Primas

Constrangimentos do ano:
1. Malévola "despertando" a Bela Adormecida no filme "Malévola"
2. O romance água com açúcar de "Divergente"
3. Bebel Gilberto de cupido em Rio Eu Te Amo
4. Os 10 últimos minutos de Interestelar
5. Os monstros (anjos caídos) de "Nóe"

Cenas inesquecíveis:
1. O resgate de Magneto em "X-Men - Dias de um futuro esquecido"
2. A dança ao som de Aline em "Praia do Futuro"
3. Emma Thompson se deixando seduzir pela música "Let`s Go Fly a Kite" em "Walt nos bastidores de Mary Poppins"
4. Scarlett Johansson seduzindo suas presas em "Sob a Pele"
5. Princesa Elza construindo seu castelo de gelo em "Frozen"

Personagens inesquecíveis:
1. Adèle (Adèle Exarchopoulos) e suas descobertas sobre si mesma em "Azul é a cor mais quente"
2. Amy (Rosamund Pike) e sua beleza enigmática nos remetendo às louras de Hitchcock em "Garota Exemplar"
3. O romântico Theodore (Joaquin Phoenix) de "Ela"
4. Leonardo (Guilherme Lobo), o garoto cego de "Hoje eu quero voltar sozinho"
5. A Philomena de Judi Dench e sua força sem fim em "Philomena"

Os clássicos de sempre vistos neste ano:
1. O Bebê de Rosemary 
2. A Piscina 
3. Quem tem medo de Virgínia Woolf?
4. Um Barco e Nove Destinos
5. A Felicidade não se compra 

Os cartazes mais incríveis:
1. Ela
2. Nebraska
3. Um Estranho no Lago
4. Ninfomaníaca
5. O Homem Duplicado 

Os filmes que me fizeram escrever a respeito:
01. Ela
02. Trapaça 
03. O Lobo de Wall Street
04. 12 anos de escravidão 
05. Philomena
06. Clube de Compras Dallas
07. Nebraska
08. Capitão Phillips
09. Praia do Futuro
10. Lucy
11. Noé

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