sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Pit Stop



Apressado, o moço que leva o carrinho parece ignorar o aviso de parada estendido em letras garrafais na parede ao lado. Não fosse o vento, tão raro por estas bandas nos últimos dias, ele seguiria sem aprender nada com a brisa.

Eu, de dentro do carro, aprendo [de novo!] que a vida só acontece [de verdade] nas pausas.

Não quero que o vento me faça parar. O que eu quero mesmo é que o vento me encontre parado para que, incansavelmente, eu possa aproveitá-lo.

Fotos: Wolney Fernandes

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Morto de Fome


O Café da Tia Nair é um dos lugares que eu mais frequento aqui no centro de Goiânia. Além de um bolo de laranja primoroso, o lugar é agradável e a dona é a simpatia em pessoa. Costuma puxar papo para saber se o suco está gostoso, para avisar quando o pão de queijo acabou de sair do forno e outras delicadezas do tipo.

Faminto, nesse final de tarde de segunda, cheguei no café para esperar um amiga e pedi o costumeiro bolo de laranja que, para mim, é a prata da casa.

Não demorou até a dona começar a circular pelas mesas muito sorridente e atenciosa. Na mesa, bem ao lado da minha, ela explicou para duas moças que estava feliz porque o Aécio tinha garantido sua vaga no segundo turno e que, finalmente, o Brasil iria sair da lama na qual se encontra!

Nesse ponto, engoli seco, mas o pior ainda estava por vir. Sorrindo após a adesão das moças ao seu comentário ela complementou: "Essa Dilma que vá morar em Cuba. E que leve junto o Lula e todos os mortos de fome desse país."

O bolo de laranja se fez amargo na minha boca diante do comentário carregado de preconceito. Como bem alertou o Afonso Medeiros em uma postagem no facebook: "No único momento em que se discute política no país (bem ou mal, mas se discute), muitos não sentem nem vergonha de expor seus mais íntimos e recalcados preconceitos".

Minha tristeza diante daquela cena se prolongou e, agora, beira um medo profundo. Nesses dias, em meio a tantas desumanidades só me resta a certeza de que não volto mais ali. Mal sabe a dona do comentário (ou talvez até saiba, sim!) que eu, ali, comendo aquele bolo de laranja também era um morto de fome que ela queria ver bem longe.

Imagem capturada aqui.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Academicidades


Deliberações acadêmicas:

"ATENÇÃO!
NÃO inserir linha acima do nome dos componentes da banca na dissertação e tese."

Eu leio e penso: Que as linhas sigam caindo... uma a uma.

A imagem eu achei aqui.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Nome próprio


Para soletrar usando notas musicais.

01. Romeo - Thiago Pethit
02. Laura - Bat For Lashes
03. Daniel - Elton John
04. Jezebel - Depeche Mode
05. Dolores - Frank Sinatra
06. Natasha - Rufus Wainwright
07. Terezinha - Cesaria Evora
08. Rosa Maria - Ceumar & Itamar Assumpção
09. Lola - Mika
10. Eva - Radio Taxi
11. Isaac - Madonna
12. Jimmy - Moriarty
13. João e Maria - Nara Leão
14. Jessica - Regina Spektor
15. Emily - Dan Griffin
16. Fernando - Abba
17. Judy - The Pipettes
18. Napoleão - Ney Matogrosso & Pedro Luís e a Parede
19. Michelle - The Beatles
20. Yolanda - Simone & Chico Buarque
21. Miriam - Norah Jones
22. Léo e Bia - Oswaldo Montenegro
23. Annie - James Blunt
24. Sophia - Laura Marling
25. Isobel - Dido
26. Antonico - Gal Costa
27. Amie - Damien Rice
28. Beatriz - Mônica Salmaso & Pau Brasil
29. Aline - Christophe
30. Seu Nome - Luiza Possi

A foto eu encontrei aqui.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O apanhador de desperdícios*


Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.

Texto: Manoel de Barros
Foto: Wolney Fernandes

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O Pintassilgo - tentativa de nos conectar a uma beleza maior


"Amar demais os objetos pode te destruir. Mas, se você ama uma coisa o suficiente, ela ganha vida própria, não ganha? E o objetivo todo das coisas - das coisas belas - não é te conectarem a uma beleza maior?"

Falar de "O Pintassilgo" de Donna Tartt é falar também da minha paixão por imagens e objetos que, com um tanto de apreço e um pouco de ilusão, guardo comigo numa vontade menina de que, por eles, a vida continue de outro modo. Foi assim com a viola que pertenceu a meu pai, com as cartas de amantes do século passado que encontrei numa feira de antiguidades na Cidade do México, com a bandeira de folia do meu avô e com os livros e fotos que trazem dedicatórias anônimas… A posse desses artefatos faz circular histórias, intimidades, dores, saudades e outros mistérios que se misturam aos meus próprios por razões que eu próprio desconheço.

Com Theo Decker, protagonista do livro, também é assim. A posse de uma pintura que chega às mãos desse garoto de 13 anos vai alterar, significativamente, as escolhas e rumos que ele precisa traçar - ou que traçam pra ele - depois de um trágico acidente vivenciado no Metropolitan Museum, em Nova York.

"O Pintassilgo" do título faz referência direta à uma pequena pintura do século XVII do holandês Carel Fabritius que acaba nas mãos de Theo e segue com ele por toda a trama. Uma história muito bem escrita em quase 800 páginas de reviravoltas que iniciam em Nova York, continuam em Las Vegas e terminam em Amsterdam que é onde o livro começa.

Por um enredo que se move como um jogo de espelhos entre destino e livre arbítrio, o que se vê é um herói atormentado por um evento que vai marcá-lo vida afora. No espaço entre ser o que se deseja e ser aquilo que realmente se é, a autora consegue esboçar questões que ressoam para além do romance.

"Um eu que não se quer. Um coração que não se pode evitar."

A aventura pelo submundo da arte, seus originais e falsificações compõem, com muita propriedade, esse cenário onde perda, obsessão e sobrevivência são sentimentos que sempre vem à tona. Abandonado pelo pai e sozinho diante das perdas que o acidente lhe impõe, Theo se apega à misteriosa pintura que o levará a questionar sua ligação com um passado que ele desconhece e com as relações que irá estabelecer vida afora.


"Se uma pintura realmente afeta e muda sua maneira de ver, de pensar, de sentir, você não pensa 'Ah, eu amo essa pintura porque ela é universal' (...) Não é por isso que alguém ama uma obra de arte. É um sussurro secreto vindo de um beco. (…) Um choque individual no coração."

Embora os "ganchos" sejam bem poucos entre um capítulo e outro, a leitura transcorre de forma fluída muito em função de uma escrita bem articulada e cheia de imagens sutis que ajudam a compor um painel hipnotizante - destaque para as cenas de ação no Metropolitan - que nos leva ao fim do livro com muita rapidez. E é justamente no final onde está o grande escorregão da obra, pois só ali vemos as reflexões do protagonista tomarem forma de uma tacada só e Donna Tartt faz isso de um jeito bem primário. Quase como uma bula explicativa, a autora parece temer outras interpretações que não aquela que ela faz transbordar em páginas desnecessárias.

Theo passa grande parte do livro cometendo os mesmos erros e só no final, com 27 anos, parece reconhecê-los de uma tacada só. A meu ver, teria sido mais sensato espalhar "os aprendizados" [se é que é preciso haver algum] durante a jornada de amadurecido do herói.

Essa pequena decepção [que não estraga o prazer da leitura] me fez pensar que os reconhecimentos e os questionamentos que fazemos vida afora nunca se completam e é justamente em função dessa incompletude que seguimos na tentativa de nos conectarmos "a uma beleza maior". Tenho suspeitado que o grande mistério da vida é essa conexão que pode ser estabelecida, gradativamente, à partir do olhar de um passarinho pintado há muito ou de um abraço desejado e rabiscado com caneta Bic no verso de uma foto.

Foto: Wolney Fernandes
Pintura de Carel Fabritius

sábado, 20 de setembro de 2014

Letra sem melodia


Um pedacinho de papel brinca de desafiar os carros no meio da rua: leve e feliz. Sobe, desce, passeia na altura da janela do terceiro andar, faz um looping e se mete entre um carro vermelho e outro prata. Fragmentos dessa manhã de sábado, quente e sem qualquer plano pronto para o resto de toda a vida.

- Um dia de cada vez. Não é assim?

O coração, sem sossego, bate em disritimia. A barba tenta esconder, sem sucesso, o trincar dos dentes em desalinho. O passeio disfarça, por breves esquinas, a pouca vontade de ficar em casa. O mormaço desse tempo que se prepara para parir a primavera comprime todas as minhas vontades. Se é que resta alguma. Ando com vontade de nada. Isso sim!

Essa sinceridade sem premeditação denuncia um quase calar-se no meio da frase, incomoda às vezes, mas inspira a não deixar meias verdades entre os lábios e a garganta.

- Língua não é pra isso, eu bem sei!

Assim, sem meias verdades ou meios planos ou pensamentos meio tortos é que vale ter um emaranhado de saudade daquilo que ainda não vivi.

- São metáforas, baby. Vem cá que eu te explico.

E depois de tanto tempo, me descubro um homem cheio de metáforas, uma letra de música que ainda não conhece a melodia.

Foto de Ben Zack

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Canções de "O Quinto Beatle"


"O Quinto Beatle" é uma Graphic Novel baseada em recortes da vida de Brian Epstein, visionário que descobriu e guiou os Beatles a um estrelato sem precedentes nos anos 1960. Brilhantemente escrita também à partir de [outras] referências musicais daquele período, a narrativa é muito bem elaborada e consegue entrelaçar várias canções como pano de fundo para uma história repleta de sonhos, apagamentos e outras delicadezas.
Escuta só!

01. Wondrous Place - Billy Fury
02. Love Of The Loved - Cilla Black
03. Anyone Who Had a Heart - Cilla Black
04. If Love Were All - Hellen Merrill
05. Blue Skies - Irving Berlin
06. We Love You, Beatles - The Carefrees
07. All You Need Is Love - The Beatles

Imagem capturada aqui.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Entre a delicadeza e a brutalidade de "Nossos Ossos"


"Quando eu morrer me enterrem dentro do coração de meu pai." 
[Amarildo Anzolin]

Feito movimento espiralado, o final de "Nossos Ossos" me remeteu, novamente, ao seu começo. Uma espécie de repetição sugerida pelo modo como a trama é estruturada. Minha vontade de releitura imediata, de escavar a escrita de Marcelino Freire foi impulsionada pelo desejo de buscar significados perdidos entre um parágrafo e outro, entre uma palavra e outra. Como se na dureza do que estava escrito ali houvesse uma fragilidade que precisava ser apurada.

O livro conta a história de Heleno, dramaturgo pernambucano que consolida sua carreira em São Paulo. Diante do assassinato de um amante e de uma crise interna, ele precisa lidar com o desejo e a burocracia de remeter o cadáver "do boy" para o interior do Nordeste. O livro é dividido em duas partes e capítulos bem curtos que se alternam entre a saga vivenciada no presente e algumas memórias desfiadas entre a infância e a chegada do protagonista na capital paulista.

Tendo o sofrimento como marca determinante para narrar a história de seu protagonista, Marcelino Freire deixa entrever doçuras e fragilidades entre as frestas abertas pela luxúria e ironia constantes. Uma gama de matizes emocionais que deixam o livro bem mais complexo do que aparenta. 

"Capa de couro bovino, espada de fêmur, saiote de cóccix e uma máscara natural, a minha cara borrada de carvão, gesticulava feito um demônio, assustava a todos com a minha voz de trovão saída do estômago, em pé, eu, sobre uma pedra, no deserto que foi a minha infância. 
Minha dramaturgia veio daí, hoje eu entendo, desses falecimentos construí meus personagens errantes, desgraçados mas confiantes, touros brabos, povo que se põe ereto e ressuscitado, uma galeria teimosa de almas que moram entre a graça e a desgraça."

A decisão do autor em estruturar os parágrafos só com o uso de vírgulas incomoda no início, mas logo a gente entra no ritmo e a leitura parece fluir com mais facilidade. Marcelino explica melhor esse recurso em uma entrevista que pode ser vista aqui.

Há ainda uma espécie de denúncia social diante da violência e da intolerância que rondam imigrantes, homossexuais e qualquer pessoa que não se limita a "rezar" segundo a cartilha da heteronormatividade. No entanto, essa denúncia não é permeada pelo compadecimento, mas pelo desnudamento de situações de dor que expõem, paulatinamente, as mazelas de uma sociedade machista e violenta. Há alguns escorregões aqui e ali, como por exemplo a notícia de que um dos personagens é soropositivo e que, a meu ver, é desnecessária para o andamento da história que, na altura dessa revelação, já se apresenta muito bem encaminhada. 

A escrita, que oscila entre a delicadeza e a brutalidade é capaz de criar imagens marcantes - "(...) seu rosto era feito de um pergaminho, estava escrito, nos livros mais esquecidos, tanto sofrimento". É preciso fôlego para dar conta das cores intensas com as quais o autor pinta o retorno do seu personagem à sua terra natal. 

"(...) por que a gente, em vez de ser enterrado em um chão, seco, não faz do oceano o nosso leito derradeiro, nosso abismo prateado, um céu ao fundo, vertical, abaixo, cheio de estrelas, luas, astros, planetas desconhecidos?"

Com o porte de uma novela, "Nossos Ossos" parece carecer de mais páginas e talvez também tenha sido isso que me levou à uma releitura imediata, com mais pausas, como se precisasse de mais tempo para chegar àquele final.

Sim, é um daqueles finais que nos deixam atordoados diante das revelações que ele contém. 

Mesmo amparado por um derradeiro recurso que abre brechas para dúvidas e inquietações acerca do que foi lido, o livro é honesto e marca, com qualidade, a estreia do autor nesse formato. Vale a pena uma conferida!
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"Nossos Ossos" foi uma leitura compartilhada com o Bruno LazzFar do canal Des Palavreando.

Quando é difícil ser só espectador


O moço não estava nem aí pro movimento de ônibus e carros e pessoas apressadas pra chegar em seus destinos variados. Foi ali, na Avenida 10, umas quase dez horas e ele estava sujo, cabelo arrepiado, olhar de fome, encostado na parede limpa da igreja. Olhos no céu, pés no chão e todo cuidado do mundo em empinar, como uma pipa, uma sacolinha de supermercado cheia de ar que voava sob os cuidados do vento. Resmungava sei lá o quê.

Não sei ao certo, mas aquilo provocou em mim uma pausa que durou bem mais que o tempo do sinal vermelho.

Tem horas que é difícil demais ser só espectador. Talvez por isso a minha opção em ser roteirista. Ficou apenas um pensamento: se a história fosse minha, eu iria conseguir olhar para o céu?

A foto eu achei aqui.

O Apocalipse dos Trabalhadores


Maria da Graça e Quitéria são diaristas, - ou "mulheres a dias" como se diz em Portugal - fazem bico como carpideiras e protagonizam "O Apocalipse dos Trabalhadores", livro de Valter Hugo Mãe que eu acabei de ler.

Aprisionadas em um cotidiano opressivo, as duas sonham, cada uma à sua maneira, futuros distintos de um presente ausente de sentidos.

"toda a minha vida trabalhei, desde os meus doze anos que lavo roupa e limpo casas em toda a parte e não sei fazer mais nada. não sei fazer amor. eu não sei fazer amor."

Maria da Graça, mesmo casada, é apaixonada pelo senhor Ferreira, um velho que ama a obra de Rilke e passa os dias ouvindo Requiems variados. Quitéria, mesmo pragmática em relação ao amor, acaba enxergando em Andriy, um jovem imigrante ucraniano, a possibilidade de transformar sua necessidade sexual em amor.

Cada apocalipse diário vivenciado pelas amigas é também permeado pelo desejo de não ficar apenas às portas do paraíso, mas de adentrá-lo. Impulsionadas pela certeza de uma vida mais feliz, as duas buscam preencher seus dias com amores colecionados ao sabor da esperança e da certeza da morte.

O livro possui um tom de humor que permeia principalmente os primeiros capítulos. As noites em que Quitéria e Maria da Graça passam velando defuntos são escritas com uma agilidade que impressiona. Os diálogos entre as duas são muito mordazes e capazes de espalhar sorrisos por várias páginas. Há também os sonhos de Maria da Graça com São Pedro diante da porta do céu que faz cócegas a cada parágrafo. 

A escrita primorosa do autor parece nos conduzir progressivamente a um descortinar de tristezas embaladas por alegrias fugazes, pequeninas e diárias. Ao final do livro, percebemos que o tom de humor dá lugar a uma certa melancolia que parece (só parece) encobrir as esperanças cultivadas lá no início.

"acordou pesada. levantou muito ligeiramente a cabeça e começou logo a chorar. era um choro pequeno, de tristeza muito habituada, uma tristeza a vir quotidianamente para sempre, para completar o tempo que ainda teria de viver."

Capaz de criar situações de beleza ímpar, Valter Hugo Mãe consegue fazer da história dessas trabalhadoras portuguesas, a história de muitos, de seres apaixonados para quem o sentido da vida é uma esperança que está sempre no horizonte e, quase nunca, ao alcance da mão.  

Me impressionou bastante como o autor humaniza seus personagens, sem que a gente sinta pena ou os enxergue apenas como estereótipos. Mesmo depois de conseguir "esfregar o coração no chão", continuo achando que a escrita do Valter foi a melhor descoberta literária do ano.

"dizia-lhe, obrigado, quitéria, muito obrigado. e ela desfazia-se em coração e não imaginara nunca que aquele gesto poderia ser o mais mudador de toda a sua vida. aceitou aquele abraço pelo lado mais interior do amor, rasgando com o passado a costumeira ferocidade. [...] e agradeceu-lhe como pôde pela oportunidade única de se humanizar daquela maneira e percebeu a inteligência mais secreta de todas. esta é a inteligência mais secreta de todas, o amor."

Foto: Wolney Fernandes

domingo, 7 de setembro de 2014

Companheiro de viagem


Fui um dos derradeiros a entrar no avião. Do meu lado, um senhor que podia ser meu avô estava concentrado em olhar para a pequena tela instalada na poltrona da frente.

Pedi licença para me acomodar e ele, dono de uma simpatia silenciosa, olhou-me com um sorriso sereno. Enquanto apertava os cintos, ele sentou novamente e continuou a observar as imagens da TV de bordo. Na tela, um canal de rádio desses em que a música é acompanhada por fotos que se alternam, feito slides de powerpoint programados para repetir um conjunto de imagens. Notei que ele estava sem fones de ouvidos e, tentando um jeito de puxar conversa, ofereci os meus. Ele recusou!

Diante da recusa, minha tímida vontade de conversar se recolheu para as páginas do livro que eu tinha em mãos e decolamos os dois, lado a lado, em um silêncio que só aquele céu parecia caber. 

Meus olhos se mantinham no livro, mas a atenção insistia em observar aquele senhor ao meu lado numa aproximação insana que minha imaginação parecia repetir incessantemente: "E se ele fosse meu avô?" - Estaríamos conversando ou em silêncio? Ele teria aceito meu fone? Por que estaríamos viajando juntos? Ele gostaria de saber a trama do livro que eu lia? Que músicas ele estaria ouvindo? Eu teria insistido pra ele sentar na janela? Ele teria comentado sobre a paisagem que se distanciava de nós?

Num dado ponto da viagem, o senhor se remexeu na poltrona para ajeitar as pernas e resmungou. Aproveitei aquele muxoxo para fazer um breve comentário sobre a falta de espaço cada vez mais evidente em voos do tipo. Olhou me por um momento, mas não emitiu palavra alguma à respeito.

Em meio a possibilidades inventadas, decidi que era hora de me concentrar na leitura, recolher minha imaginação e deixá-la de castigo até segunda ordem.

Já absorto na trama do livro, fui surpreendido pela aeromoça que se aproximou para anotar pedidos de bebida. Imaginando que a pergunta tinha sido feita para ambos, eu e "meu avô temporário" respondemos em uníssono: Coca-cola!

Sorrimos os dois e cada um voltou ao seu silêncio particular. Abri o livro novamente e, antes de retornar àquelas páginas, olhei para a janela do avião com uma saudade daquilo que não vivi. 

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Lavoura Arcaica - Breviário de belezas e perturbações


Livro para o desafio literário: Os Componentes da Banda

Eu que já não rezo há bastante tempo, ao ler algumas partes de "Lavoura Arcaica"me senti recitando uma oração. A escrita de Raduan Nassar é tão apurada e precisa que cada palavra parece lapidada e minuciosamente escolhida para estar naquele ponto específico. É como se o texto inteiro dependesse dessa única fórmula e diante da possibilidade de retirar qualquer palavra do lugar, houvesse uma espécie de desmoronamento de capítulos inteiros.

Essa arquitetura apurada da escrita, a grande intertextualidade com temas e arquétipos bíblicos e até algumas repetições ampliaram essa sensação de estar diante de um texto sagrado.

"o tempo é largo, o tempo é grande, o tempo é generoso, o tempo é farto, é sempre abundante em suas entregas: amaina nossas aflições, dilui a tensão dos preocupados, suspende a dor aos torturados, traz a luz aos que vivem nas trevas, (...) em tudo ele nos atende, mas as dores da nossa vontade só chegarão ao santo alívio seguindo esta lei inexorável: a obediência absoluta à soberania inconstestável do tempo (...) é através da paciência que nos purifica, em águas mansas é que devemos nos banhar, encharcando nossos corpos de instantes apaziguados, fruindo religiosamente a embriaguez da espera no consumo sem descanso desse fruto universal"

Com estrutura decalcada, mas invertida, da parábola do Filho Pródigo, a trama gira em torno de uma família orientada por um pai rigoroso e cuja partida de um dos filhos contribui para seu desequilíbrio interno. O livro começa quando Pedro ("Tu és Pedro e sobre essa pedra edificarei a minha igreja" Mt. 16,18), o irmão mais velho, chega para levar André, o irmão desgarrado, de volta ao seio da família. Os fatos que levaram André a deixar a casa vão sendo revelados, aos poucos, e trazendo com eles as transgressões e perturbações de um protagonista atormentado por um segredo que ele carrega há muito.

Alternando entre o repúdio e a complacência, André vai esmiuçando a figura da família como uma sociedade inviolável e de como essa ideia sulca feridas incuráveis em quem submete os próprios sonhos e desejos à manutenção dessa imagem.

"que culpa temos nós se fomos duramente atingidos pelo vírus fatal dos afagos desmedidos? que culpa temos nós se tantas folhas tenras escondiam a haste mórbida desta rama? que culpa temos nós se fomos acertados para cair na trama desta armadilha?" [129]

Me impressionou bastante o modo como o autor consegue dar contornos poéticos e sagrados às questões relacionadas ao corpo numa outra inversão à máxima utilizada pela tradição cristã onde é a alma que merece toda pompa e circunstância. No livro, o corpo assume uma inteireza diante das grandes decisões que conduzem André a escrever sua história sob outra cartilha que não àquela ditada pelo pai.

"pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo." [p. 7]

Sem definir um tempo cronológico, Raduan instaura outros tempos dentro de cada parte de "Lavoura Arcaica" fazendo com que a gente navegue por seus capítulos, ora impulsionados por uma escrita sem pontuação e ora por um ritmo mais lento e pensativo, também imposto pelo uso preciso da linguagem. Há de se destacar também a simbiose dos personagens com os ambientes que os abrigam. Uma obra cuja forma e conteúdo comungam de modo muito íntimo.

Refletir sobre os personagens dessa história tão bem contada é pensar sobre as convenções trazidas e passadas de geração a geração. A correção do caráter e a necessidade de cuidar da união da família, o andar correto sob as leis da religião e a não transgressão das regras sociais são paradigmas mantidos pelo patriarca e quebrados, um por um, pelos atos de André que, humano como nós, se inquieta diante dos próprios desejos e os considera ao invés de ignorá-los.

"colherei, uma a uma, as libélulas que desovam no Teu púbis, lavarei Teus pés em água azul recendendo alfazema, e, com meus olhos afetivos, sem me tardar, irei remendando a carne aberta no meio dos Teus dedos; Te insuflarei ainda o ar quente dos meus pulmões e, quando o vaso mais delgado vier a correr, Tu verás então Tua pele rota e chupada encher-se de açucar e Tu boca dura e escancarada transformar-se num pomo maduro." [p. 103]

Ler "Lavoura Arcaica" - como eu disse no início - foi uma experiência religiosa tamanho o mergulho e o comprometido que a obra parece exigir de quem a lê. A diferença é que, ao chegar ao seu final, não precisei voltar ao começo para que ela se renovasse, pois diferente das orações, muitas vezes recitadas sem sentido, as palavras de Raduan além de remexerem em concepções internas, também tatuaram arrepios na minha pele.

P.S.: Há uma adaptação do livro feita para o cinema pelas mãos sensíveis de Luiz Fernando Carvalho. O filme completo está disponível no YouTube e vale uma conferida, pois uma de suas inúmeras qualidades é a manutenção fiel do texto do Raduan na transposição para as telas. Para assistir, clique aqui.

Imagem: Wolney Fernandes

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Amarelos despencados e amores perfeitos


Atravessei a Avenida Anhanguera no meio da tarde. Calor, tumulto, pressa, buzinas e ipês. Sim, uma fileira abusadamente florida. Parei. Olhei o céu e a calçada, ambos salpicados de amarelo. Tão bonita a cadência das flores que caíam desenhando no ar uma canção silenciosa.

Minhas vistas só decifraram isso daquele amarelo despencado, mas havia um sentimento fortuito tão gostoso de sentir que nem sei...

Fiquei pensando que se o mundo tem um manual, essa parte deve estar lá nas letrinhas miúdas do rodapé, daquelas que pouca gente lê.

Será que é nessa parte que também estão as considerações sobre os amores perfeitos?

Voltei pra casa decidido a encontrar uma lupa!

Imagem: Wolney Fernandes

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Memórias Literárias - Parte 1


Dia desses, mapeando os primeiros livros que eu li quando criança, tive vontade de ler todos eles nas edições antigas. Um jeito de trazer o passado para o presente e levar o presente para brincar no passado.

Ali pelos nove anos, os gibis já não eram suficientes e minha vontade de leitura encontrou outros caminhos com a chegada da Ciranda de Livros na escola da minha cidadezinha. A possibilidade de levar o livro comigo pra casa parecia fundada naquela felicidade clandestina que Clarice Lispector descreveu: "Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo."

Três livros me marcaram bastante neste período:
1. O Menino Maluquinho - Ziraldo
2. A Bolsa Amarela - Lygia Bojunga Nunes
3. Caçadas de Pedrinho - Monteiro Lobato

Em casa não havia dinheiro para se gastar com livros. Desse modo, os poucos que eu conseguia comprar eram lidos e relidos à exaustão. E desse período, alguns títulos do Círculo do Livro me acompanharam por muito tempo:
4. Heidi - Johanna Spyri
5. Outra vez Heidi - Johanna Spyri
6. Uma História de Amor - Carlos Heitor Cony

Os dois últimos títulos que compõem essa cartografia de memórias literárias eu consegui porque amigos me emprestaram. Foram esses dois títulos que me conduziram à adolescência:
7. A Montanha Encantada - Maria José Duplé
8. O Caso da Borboleta Atíria - Lúcia Machado de Almeida

À partir daí, meu pequeno mundo nunca mais foi o mesmo. Meus olhos já queriam saber o que havia do outro lado do rio e minha vontade já não cabia nos limites do meu povoado. "Não era mais um menino com um livro", era um homem com vontade de céu!

E você? Quais os livros marcaram sua infância? Que lembranças eles carregam em suas páginas?

Imagem: Wolney Fernandes

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Teletransporte


Cabia mais do que se podia prever naquele sorriso fechado e no apertar dos olhos grandes. Esse era o sinal pouco preocupado em disfarçar a vontade de desordenar o mundo só para testar os limites entre a teoria e a prática, entre o real e o fictício. Naquele tempo, tudo no mundo tinha um quê de faltar algo, nem que fosse um suspiro comprido e carregado de vontades.

Pular de cima da árvore com um guarda-chuva e torcer com toda força do mundo para voar carregado pela brisa; virar o chinelo ao contrário e correr até a porta para impedir o azar de entrar; tomar banho depois de almoçar e não passar mal; misturar leite com manga na mesma batida e jogar baralho escondido durante a quaresma sem ser atormentado pelo capeta... Bons tempos em que o desafio era só provar ao mundo que as teorias da avó eram ultrapassadas.

Experimento, agora, o contrário: estico o sorriso, aperto os olhos grandes, esqueço os limites da física e tento brincar de teletransporte.

Vai que dá certo!

Imagem de Beth Hoeckel

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

"Viver é viver de outra maneira"


"Existem momentos na vida em que a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se vê é indispensável para continuar a olhar ou a refletir." 
[Michel Foucault]

Eu só queria passar mais um Dia dos Pais sem que a euforia e as demonstrações de carinho em torno dessa data me afetassem tanto. Então, longe das redes sociais, mergulhei no livro de Mathieu Lindon que, pela temática, me parecia um bom lugar para encontrar refúgio.

"O que amar quer dizer" (CosacNaify, 2014) é um retrato afetuoso de Michel Foucault, decalcado da amizade do autor do livro com o filósofo francês no início dos anos 80. Afoito, em parte pela curiosidade em saber da vida íntima de um dos maiores pensadores do século XX, comecei a leitura e nada me preparou para o que eu encontraria nas 285 páginas desta edição.

"Pode vir cuidar das rosas quando eu não estiver aqui."

A história narrada por Lindon tem o encontro com Foucault como ponto de apoio, mas o que sua escrita reflete é muito mais sobre seu próprio amadurecimento frente a essa amizade do que qualquer outro desnudamento por parte da vida desregrada de Michel, encerrada pela AIDS em 1984. E mais, essa relação de confiança serve também como espelho para refletir as nuances que se assemelhavam e se diferenciavam daquela que o autor travava com o próprio pai. Esse jogo de reflexos vai, aos poucos, revelando as escolhas que Mathieu foi levado a fazer vida afora. 

"A gratidão é um sentimento suave demais para se guardar."

Por entre a descoberta do corpo, da sexualidade, das drogas, dos livros, das amizades, dos amantes, de viagens sem data de retorno, o que a escrita do autor deixa entrever é uma abertura dentro da sua bibliografia para celebrar o "prazer de viver sem saber que isso era crescer". Com Foucault, o tímido Mathieu descobre ser capaz de ter amigos fora do círculo familiar e, assim, libertar-se dos ressentimentos para receber e retribuir o amor de seu pai de modo muito peculiar.

"Só espero que quando chegar a hora eu sinta que não lhe causei nenhum grande dano, o que me dará o direito de lhe pedir, com um beijo, que me esqueça."

Pela primeira vez, eu, Wolney, entendi que falar de esquecimento é também falar de amor. Logo eu que sempre me desdobrei para lembrar, ao terminar o livro passei a me perguntar: O que é preciso esquecer para que os mortos não se fechem em seus próprios túmulos? 

Há 23 anos, meu próprio pai também me ensinou a morte e todos os apagamentos advindos desse fato imutável, inclusive o meu próprio. Meu pai morreu, o tempo passou e há anos penso em como me relacionar com ele, uma vez que, desde então, só eu alimento nossa relação. 

"Minha imaginação não serve para mais nada. Sim, os seres que amamos morrem e não ressuscitam."

Faz tempo que a morte ecoa em mim um tom que me aterroriza porque tenho me prendido a ela por aquilo que ela me negou. Talvez seja a hora de reconhecê-la pelos desvios que ela criou e, de outros modos, também me concentrar nas reminiscências advindas desses trieiros que me provocam a ser feliz, vivo, agora. 

"Como acreditar no que é, sem dúvida, a verdade?"

O livro escrito por Mathieu, 30 anos depois de ter vivido entre dois homens - o próprio pai e Foucault - "sem nunca tentar substituir um por outro" não nos dá uma resposta pronta, mas aponta um jeito bonito de ver/entender a si próprio à partir do amor que nos é oferecido de modos distintos. Cada um a seu modo, plantaram nele (e em mim) a certeza de "é preciso tempo para compreender o que amar quer dizer".

Seja qual for o valor dos diversos protagonistas da história [re]contada por Lindon o que sei é que, por eles, me dou conta de que é possível redimensionar a experiência vivida e encontrar jeitos de poder dar à luz ao meu próprio pai sem, com isso, aplainar seus defeitos e/ou exacerbar suas qualidades. 

Tramar literatura e vida é o que eu tenho tentado fazer com os livros que me atravessam. "Tenho a sensação paradoxal de que, estando neles (nos livros), nada me atinge, ao passo que eles me perturbam de forma doentia, vítima de uma sensibilidade extrema à escrita."

De certa forma [ou de muitas formas], meu envolvimento com esse livro borra os limites da literatura com a vida. E, apropriadamente, ao associar pequenas epifanias cotidianas à leituras de Proust, Victor Hugo, Adalbert Stiffer e outros autores que mantivera contato durante parte da sua formação, Mathieu Lindon ensina como fazer brotar, do lado de cá, as ramificações ternas e eternas de uma obra pungente. Por suas reflexões literárias foi possível me entender como um "herói de um romance de aprendizado perpétuo, de reeducação permanente".

Eu teria gostado de poder dizer ao meu pai o quanto sua falta, feroz ou suavemente, moldou o homem que eu sou. Diante da impossibilidade de fazê-lo e apoiado no esquecimento de uma imagem da morte que eu mesmo criei, sigo, então, na certeza de que "viver é viver de outra maneira".

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Seminário dos Ratos


Livro para o desafio literário: Os Componentes da Banda

“Seminário dos Ratos” foi um daqueles livros enigmáticos em que durante a leitura eu não tinha certeza se estava gostando ou não. Ao passar de um conto a outro, a impressão que eu tinha era de estar diante de uma obra mediana da Lygia Fagundes Telles. Acho que essa impressão se acentuou porque eu tinha lido a “A Estrutura da Bolha de Sabão” da mesma autora e gostado mais, uma vez que os temas dos contos me pareciam mais palatáveis.

No entanto, terminada a leitura de "Seminário dos Ratos" era como se eu não conseguisse me desvencilhar daquilo que tinha lido em cada conto e, como costumo fazer, deixei passar alguns dias até poder emitir uma impressão mais apurada sobre o livro.

Também não sei se consigo fazer isso agora, mas já posso afirmar que “Seminário dos Ratos” é sim, uma obra incrível. Os 13 contos reunidos parecem dar conta de apontar a instabilidade pela qual passam as mais diferentes posições do mundo. É como se sujeito e situação fossem interdependentes e a relação dos dois atuassem como uma sinfonia perfeita sem que um prevaleça sobre o outro. Esse estado cambiante em que cada personagem se encontra, ora sujeito da ação, ora subordinado pela mesma situação, me fez elaborar sentidos muito próximos da minha realidade.

E é impressionante como Lygia consegue dar conta de tanta realidade utilizando o insólito, o surreal e o fantástico. Amores plantados por toda vida, acertos de contas com o passado e o encontro com a morte parecem visões milimetricamente arquitetadas para habitar nosso imaginário mesmo depois dos pontos finais.

“As Formigas” já figura entre os contos de terror mais assustadores que já li, “Herbarium” tem a doçura dos primeiros encantos que enlaçam nosso coração diante do primeiro amor e “Pomba Enamorada” é dolorido e bonito na medida de um amor não correspondido e que se estende por toda uma vida. A morte anunciada em sonho e descrita em “A mão no ombro” nos faz pensar na fragilidade de cada acordar e nas dimensões existentes nos sabores experimentados durante o café da manhã.

Há tanto nas linhas tão bem elaboradas de cada diálogo que poderia ficar horas desfiando as inúmeras camadas que possuem. Um deles, em especial, me emocionou sobremaneira e é do conto “Lua Crescente em Amsterdã”:

- Quando acaba o amor, sopra o vento e a gente vira outra coisa - respondeu ele.
- Que coisa?
- Sei lá. Não quero voltar a ser gente (...) Queria ser passarinho, vi um dia um passarinho bem de perto e achei que devia ser simples a vida de um passarinho de penas azuis, os olhinhos lustrosos. Acho que eu queria ser aquele passarinho.
- Nunca me teria como companheira, nunca. Gosto de mel, acho que quero ser borboleta. É fácil a vida de borboleta?
- É curta."
[p. 104]

Na edição da Companhia das Letras há ainda um posfácio incrível do José Castello que traz a melhor de todas as histórias em torno da autora. Ao narrar uma volta do cinema cercada pelo medo de ser morta por um motoqueiro desconhecido, Lygia sacode nossos pensamentos ao evidenciar que amor e morte se confundem, pois “medo e paixão ocupam um só lugar. Avesso e direito. Uma coisa só.”

Precisa dizer mais?

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Tempo de Guerra


"Volta pra calçada porque eles vão passar o pneu em cima do seu pé" - A senhora me alertou quando eu discretamente ensaiei esperar o sinal verde no cantinho da esquina. Com cara de poucos amigos e reverberando uma impaciência no modo como trocava os pés a cada dois segundos, desfiou histórias de atropelamentos vistos e imaginados por ela, ali, naquela faixa para pedestres.

Enquanto atravessávamos juntos, (ela abrindo o caminho, é claro!) continuou inquisidora como se estivéssemos num campo de batalha:

"Você mora por aqui?" - Balancei a cabeça que sim enquanto ela esbravejava: "Eu moro naquela favela ali!" apontou, com o queixo, um dos edifícios mais imponentes do centro.

"Um inferno! Ainda bem que estou me mudando desse país de merda!"

Ao chegar do outro lado da rua, corrigiu: "O problema aqui é o povo! Odeio brasileiro!" E adentrou a portaria do prédio já resmungando com o porteiro e batendo o portão.

Entendi que, para ela, o sinal vermelho era uma constante. Foi assim que, ao ganhar a próxima esquina, diante do sinal verde, recitei baixinho:

"Que eu sempre encontre um modo de me apaziguar. De não estar o tempo todo em guerra com o mundo e, principalmente: ali, nas primeiras horas da manhã, que eu não me odiasse tanto.

A imagem eu achei aqui.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Top Friday


Hoje, juntei as sete primeiras músicas que apareceram no feed do meu facebook e acabei com uma playlist deliciosa. Escuta só!

01. You - Keaton Henson [da timeline do Jorge A. Santana]
02. Take me to Church - Kiesza [da timeline do Ricardo Rodrigues]
03. There's a place in hell for me and my friends - Morrissey [da timeline da Isabela Preto Junqueira]
04. True Colors - Cindy Lauper [da timeline do Raul Castro]
05. You Can't Hurry Love - The Supremes [da timeline da Lúrian Louise]
06. I Blame Myself - Sky Ferreira [da timeline do Acrop Acrop]
07. Come Get it Bae - Pharrell Williams e Miley Cyrus [da timeline do Vitor Marques]

Imagem capturada aqui.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Os Componentes da Banda* - Desafio Literário


A Tatiana Feltrin do Vlog Tiny Little Things mostrou os 100 livros essenciais da Literatura Brasileira segundo uma lista compilada pela Revista Bravo e propôs um desafio: ler todas as obras que compõem essa lista. Eu achei a ideia ótima, mas entre os desejos de leitura e o tempo escasso para dar conta de todas elas, resolvi adaptar o desafio para a minha realidade.

Então, eu fiz assim: percorri toda a lista, item por item, buscando na minha estante os títulos que eu já tinha aqui em casa. No total, 17 livros. Alguns já lidos e que eu desejo reler para o desafio e outros que estão comigo há tempos à espera de bons motivos para serem devorados. Se os motivos não se aprontam, eu mesmo os desenho!

Os títulos que irão compor esse desafio literário, pela ordem que aparecem na foto, são:

1. Grande Sertão Veredas - Guimarães Rosa
2. Morte e Vida Severina - João Cabral de Melo Neto
3. 200 Crônicas Escolhidas - Rubem Braga
4. A Vida como ela é...  - Nelson Rodrigues
5. O Analista de Bagé - Luís Fernando Veríssimo
6. O Pica-Pau Amarelo - Monteiro Lobato
7. Dom Casmurro - Machado de Assis
8. Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis
9. Baú de Ossos - Pedro Nava
10. Seminário dos Ratos - Lygia Fagundes Telles OK (Escrevi sobre o livro aqui)
11. O Encontro Marcado - Fernando Sabino
12. Bagagem - Adélia Prado
13. São Bernardo - Graciliano Ramos
14. Vidas Secas - Graciliano Ramos
15. Os Cavalinhos de Platiplanto - José J. Veiga
16. Lavoura Arcaica - Raduan Nassar OK (Escrevi sobre o livro aqui)
17. Morangos Mofados - Caio Fernando Abreu

Primeira Atualização - Livro que estava emprestado no dia da foto:
18. A Obscena Senhora D - Hilda Hilst

Segunda atualização - Na empolgação, resolvi que vou incluir na lista os títulos que tenho no Kindle:
19. A Escrava Isaura - Bernardo Guimarães
20. A Moreninha - Joaquim Manuel de Macedo
21. Espumas Flutuantes - Castro Alves
22. Eu - Augusto dos Anjos
23. Gabriela Cravo e Canela - Jorge Amado
24. Macunaíma - Mário de Andrade
25. Noite na Taverna - Álvares de Azevedo
26. O Cortiço - Aluísio de Azevedo
27. Os Ratos - Dyonelio Machado
28. Os Sertões - Euclides da Cunha
29. Romance da Pedra do Reino - Ariano Suassuna
30. Viva o Povo Brasileiro - João Ubaldo Ribeiro
31. A Paixão segundo GH - Clarice Lispector
32. As Meninas - Lygia Fagundes Telles

Não vou estabelecer nem tempo e nem uma sequência para orientar a leitura. Deixo essa escolha ao bel prazer das minhas vontades e dos acasos que a vida soprar. 
Vamos comigo?

(*) Esse título bonito eu peguei do livro da Adélia Prado.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Beijo Roubado


Virei a esquina, já bem pertinho de casa e avistei o casal apaixonado a trocar beijos numa tarde qualquer. Fiquei ali com eles. Desconhecido, testemunha a metamorfosear o que via em cantigas de amor.

Enquanto o sinal verde ordenava "atravesse!", eu empaquei.

Guardei para mim aquele momento que era só deles. Quem dera pudesse encontrar toda a felicidade do mundo escondida no céu da boca. Desejei compartilhar a imagem, mas em algum lugar aqui dentro, alguma coisa muito frágil, um quase nada me soprava pudores.

Sempre que eu olhava para a foto no álbum do meu celular, lembrava do conselho dado pelo Walderes diante de uma imagem semelhante: "Você ainda vai revelar segredos impronunciáveis ao flagrar beijos pelas esquinas!"

Visível, ainda que impronunciável, aquela intimidade se derramava pela calçada afora. O instante foi apenas um resquício que eu peguei pra mim.

Desculpa, Walderes!

Alguns dias depois e nenhuma fagulha daquele pudor que eu mesmo ensaiara, a foto embelezava, em preto e branco, o álbum do meu instagram.

Para a minha surpresa, sete dias após a publicação, os protagonistas do beijo, anônimos pra mim, chegaram até a foto! Diante da imagem roubada - tão minha! - celebraram o afeto, compartilharam o beijo e vislumbraram corações ao redor daquela felicidade tão deles.

Que mundo pequeno e bonito esse nosso.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

A Desumanização


Sempre que termino de ler um livro de Valter Hugo Mãe fico com a sensação de que a língua portuguesa é o idioma mais bonito do mundo.

“Só existe a beleza se existir interlocutor. A beleza da lagoa é sempre alguém. Porque a beleza da lagoa só acontece porque a posso partilhar. (...) A beleza é sempre alguém, no sentido em que ela se concretiza apenas pela expectativa da reunião com o outro.”

“A Desumanização” é o mais recente livro do aclamado escritor português e parece o mais coeso e pungente dos que li até agora. No entanto, talvez seja o mais difícil de acessar pela liberdade com a qual o autor realiza sua escrita, notoriamente um pouco mais alargada no seu sentido poético. As frases curtas parecem poemas que se ligam uns aos outros para perscrutar a dor em suas características mais diversas. Lançado em setembro de 2013 e publicado no Brasil no primeiro semestre de 2014, o livro apresenta uma história embalada pela tristeza de uma solidão espiritual ambientada nos fiordes islandeses.

Halla, uma menina de 11 anos que perdeu sua irmã gêmea, desfia amadurecimentos a partir do sentimento de perda que a acompanha e da convivência com a dor de carregar o peso de duas almas.

“Tudo em meu redor se dividiu por metade com a morte.”

Por ser muito próxima da irmã morta, Halla se vê sozinha e desamparada. Sigridur, “a irmã plantada”, era quem orientava os passos de Halla rumo a um futuro sonhado fora daquele lugar.

“Quando for grande, Halla, não quero ser cozinheira das baleias. Não vou ficar aqui encalhada a fazer doces para que elas se consolem. Quando for grande quero ser longe.”

Ela traçava planos para ambas e isso acaba cavando um vazio no peito da “irmã menos morta” que se vê solitária e sem direções possíveis. A pulsação de vida parecia característica daquela que se foi e isso acaba deixando a menina sem referências. Para piorar a situação, os pais das gêmeas, incapazes de se curar dos exageros da morte, acabam por abandonar a filha viva de modos distintos: a mãe pela negação e o pai pela apatia e constante perda da alegria anterior. A relação familiar fica diferente e isso intensifica a dor do momento vivido por Halla.

“A minha mãe, por seu lado, perdera o modo de se apaziguar. Rejeitava cada coisa. Era rigorosa, não desculpava ninguém e não se desculpava. Estava em guerra. Não sabia nada, na verdade, punha as mãos às cegas no mundo. Como se estivesse viva num mundo morto.”

O fato da menina também passar por transformações físicas típicas da sua idade, intensifica o caráter transformador que o percorre toda a narrativa. Outro fator pungente desse processo é o lugar onde a história se passa e o modo como é apresentado pelo autor.

A Islândia se desenha como uma paisagem forte e mística. Com um quê de lugar misterioso e incompreensível. O antagonismo entre o gelo dos glaciais e o fogo dos vulcões ao mesmo tempo deslumbra e dá medo. A imagem que se evoca da natureza em todo o livro é muito bonita e a relação entre os que vivem naquela terra e a própria terra parecem simbióticos, reforçando o caráter vivo do lugar que condiciona muito a vida dos personagens e o desenvolvimento da história.

“Chamávamos-lhes deus ou Islândia sem ter como atribuir a cada nome um significado. As palavras eram inúteis para abordar algo que estava proibido à pequenez humana. Qualquer nome não passava de uma blasfêmia, como qualquer ideia que quiséssemos guardar segura acerca da grandeza de deus, da Islândia ou da morte."

Todos esses fatores acumulados vão contando a história dessa menina que, sem sombra de dúvidas, é uma das personagens mais fortes que eu já acompanhei. E é estranho porque ela é apenas uma criança precisando assumir uma sabedoria, um modo de se expor à vida mapeando cada mudança que a atravessa. Ela muda ao longo da narrativa e a gente evolui com ela ao transferir seu olhar do mundo para nossa própria realidade.

Tanto pela escrita, quanto pelo enredo, o livro é arrebatador e vai desconstruindo as coisas e acrescentando a elas uma grande carga poética que permanece conosco mesmo depois de terminada a leitura. É também muito impressionante o modo como Valter Hugo Mãe consegue falar de amor, sobretudo na dor e na perda, à partir de um olhar infantil que olha para o mundo como se conseguisse apreender somente a essência daquilo nos cerca.

“Não guardes vazios os meus lugares. Deixa-me ir. Olha pelo meu pai. Se ele te falar dos poemas, ouve tudo. É a única coisa que conta, a poesia. No lugar da Islândia colocar um poema. No lugar do coração colocar um poema. Depois, dizê-lo uma e outra vez, até ser tudo.”

Depois de ler isso, o mundo parece fazer mais sentido. As certezas que “A Desumanização” planta na gente são todas de ordem pulsantes. Daquelas que ultrapassam as fronteiras das páginas do livro e transbordam pelas diferentes formas como passamos a encarar a vida. Uma jóia rara, lapidada com o cuidado e a relevância que todo leitor merece.
________________
Livro: A Desumanização [5/5]
Autor: Valter Hugo Mãe
Editora CosacNaify

Foto: Wolney Fernandes

domingo, 22 de junho de 2014

Como respirar debaixo d`água


Como respirar debaixo d'água em 17 lições:

01. Vista pro mar - Silva
02. Bobagem - Céu
03. Façamos - Elza Soares e Chico Buarque
04. Concha do mar - Ana Clara Horta
05. De papo pro ar - Ney Matogrosso
06. Ouro de Tolo - Caetano Veloso
07. A Verdade sobre o Tempo - Pato Fu
08. Não é proibido - Marisa Monte
09. Envelhecer - Arnaldo Antunes
10. Vira Pó - Karina Buhr
11. Tempos Modernos - Lulu Santos
12. Vagalumes Cegos - Cícero
13. De Graça - Marcelo Jeneci
14. Voa liberdade - Jessé
15. Brincar de Viver - Maria Bethânia
16. Questão de Tempo - Nara Leão
17. Preciso me encontrar - Cartola

terça-feira, 17 de junho de 2014

Poema para Walderes


Dezessete. Essa data pode ser nosso poema. Uma rima onde tudo está contido: a alegria que a vida realça e a saudade que a morte desdobra. E assim, ficamos os dois para sempre neste dia. Eu porque nasci e você porque morreu. Meu aniversário de vida é seu aniversário de morte. Um memorial daquilo que foi e é parte importante também agora. Estendidos como versos, dor e contentamento se recitam mutuamente, em uníssono. E assim, os dias dezessetes passam a ser essa garantia de nunca esquecer. 

Plantado de volta na terra que te pariu, ainda estende suas raízes até o chão das minhas tristezas e faz desabrochar presentes... faz chover doçuras e circular perfume de agoras.

Imagem de René Magritte

Dezessete


Tem dias que cada passo dado, cada movimento que o peito faz e cada mergulho em pensamentos que te assolam merecem ser embalados por uma canção.
Hoje é um desses dias!

01. Lucky Man - The Verve
02. Live and Learn - The Cardigans
03. Hero - Family of the Year
04. Green Lights - Aloe Blacc
05. Nowhere Man - The Beatles
06. Real Life - Cat Power
07. It's Amazing - Jem
08. Scenic World - Beirut
09. Waves - Blondfire
10. The Symphony - Snow Patrol
11. Memoir - Charlotte Gainsbourg
12. Blowing in the Wind - Bob Dylan
13. Feel it All - KT Tunstall
14. Uptight Downtown - La Roux
15. It's My Life - Bon Jovi
16. It's Wonderful LIfe - Black
17. Que Sera Sera - Doris Day

E é bom que seja assim!

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Vermelho Amargo


De cunho autobiográfico, Vermelho Amargo se insere naquela categoria de livros que nos rasgam a carne pela beleza e dor guardadas em seu conteúdo.

Por meio das fatias de tomates que a madrasta corta e dispõe no prato do menino que perdeu a mãe, somos arremessados em lembranças de uma infância cheia de vazios, mas ao mesmo tempo, permeada por deslumbramentos.

Uma narrativa breve e profundamente marcada pela perda. Exatamente por isso, densa, de cortar o coração e muito poética.

Mais não consigo dizer. Talvez esse vídeo e os trechos destacados abaixo digam melhor:

"Quando invertida, a palavra aroma é amora. Aroma é uma amora se espiando no espelho. Vejo a palavra enquanto ela se nega a me ver. A mesma palavra que me desvela, me esconde."

"Aturdido por ter a alma como carga, e suportá-la para viver o eterno que existia depois de mim."

"Sobre os dias, a ausência da mãe ganhava corpo. O tempo - capaz de trocar a roupa do mundo - não consumia sua lembrança. Quando se ama, em cada dia o morto nasce mais."

"Ao amar, desvendei a serventia do corpo, para além de guarda a alma imortal. (...) No amor, meu corpo delatou a presença da alma, que veio morar na superfície de minha pele."

"Passarinho é uma vírgula pontuando o céu."

"Viver exige perguntas e eu, mudo, não sabia responder."

"Não dar palavras ao desejo é ocultá-lo na solidão."

"A memória suporta o passado por reinventá-lo incansavelmente."

"Um sonho fora do sono persistia em mim. Nasci afogado por ele: o de desvendar o mar. Afundar-me em sua grandeza, salgar-me em sua salmora, esconder-me em suas ondas, surgir desafogado onde nem eu me sabia."
_______________
Livro: Vermelho Amargo [5/5]Autor: Bartolomeu Campos de Queirós
Editora Cosac Naify

Foto: Wolney Fernandes

terça-feira, 15 de abril de 2014

Pausa


Um livro para ler, um artigo para terminar, prazos apertados, notificações facebookianas deixando a manhã movimentada e o tempo, escasso, escorrendo por entre os dedos.

Em meio ao barulho da construção ao lado, da buzina incessante no estacionamento, da pressa no meu peito e do parágrafo que precisa ser lido, ouço um som entrar pela janela.


Lembro do meu pai.

A música intensifica uma saudade e, aos poucos, vai plantando silêncios onde só há espaço para barulhos. Se ainda estivesse aqui, meu pai faria 64 anos neste 14/04/2014.

Senti vontade de conversar com ele.

"Ah, Chalana sem querer
Tu aumentas minha dor."

Fecho o livro e o computador. O parágrafo fica pra depois porque a vida sempre parece mais bonita nas pausas.

Imagem de Sophie Jodoin

sábado, 12 de abril de 2014

As Horas


Ler “As Horas” de Michael Cunningham depois de ver o filme foi uma experiência, no mínimo, curiosa. Digo isso porque o longa de 2002 é um dos meus filmes preferidos da vida e depois de assisti-lo inúmeras vezes, já o tenho guardado na memória em forma e conteúdo. Assim, ao avançar pelos capítulos do livro, as personagens já tinham rostos conhecidos, os cenários e diálogos pareciam familiares e, por vezes, parecia ouvir a trilha de Phillip Glass em vários parágrafos.

Essa é uma daquelas raras exceções em que o filme está à altura do livro. E é fácil compreender porque a história foi parar no cinema, uma vez que a escrita de Cunningham se assemelha a um roteiro cinematográfico.

Com maestria invejável, o autor costura as histórias de Virginia Woolf, Laura Brown e Clarissa Vaughn tendo como fio o romance Mrs. Dalloway. Três narrativas simultâneas que se complementam e tecem um painel dolorido sobre inadequações vivenciadas em meio ao fluxo incessante de situações banais do dia a dia.

Em 1923, Virginia Woolf tenta fugir dos sintomas de distúrbios mentais que a perseguem enquanto escreve o livro Mrs. Dalloway. Sua busca por um dia a dia “normal” ressoa no cotidiano de Laura Brown que, em 1949, encena o papel de dona de casa perfeita sem que seus sonhos e desejos estejam contemplados nesta tarefa. Ao ler o romance de Virginia, Laura parece tomar as palavras do livro como aquelas que descrevem seu destino.

Completando a tríade, na Manhattan do final do século XX, encontramos Clarissa que, em medidas idênticas revive os dramas de Mrs. Dalloway enquanto prepara uma festa para o amigo e ex-amante Richard, poeta, gay e aidético terminal.

O modo como estas mulheres vivenciam seus dramas domésticos é o que compõe o painel melancólico de sonhos perdidos, deixados no passado e impossíveis de se retomar. Todas as histórias lidam com a difícil – e nem sempre possível – escolha entre aquilo que está no plano dos desejos e aquilo que a realidade circunscreve.

Me impressionou bastante o modo como o autor conseguiu criar algo tão original a partir de uma obra já escrita e muito complexa. Pela composição de três mulheres (uma real e as outras fictícias) ele nos faz olhar para nossa própria realidade questionando o que ficou para trás e o que ainda nos resta daquilo que idealizamos para nossas próprias vidas.

Há ainda algumas curiosidades interessantes que permearam a leitura. Uma delas tem relação com o filme: Quando Clarissa é apresentada no livro, ela passeia pela ruas de Nova York e se depara com um set de filmagem. Ao ver uma estrela de cinema entrar em um trailer ela julga ser Meryl Streep, exatamente a atriz que viria a dar vida a personagem no longa de Stephen Daldry anos depois do livro ter sido escrito.

“As Horas” também foi a primeira opção de titulo para o romance “Mrs. Dalloway”, mas Virginia acabou optando em não usá-lo.

Enfim, livro imperdível e altamente recomendável.
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Livro: As Horas [5/5]
Autor: Michael Cunningham 
Editora: Companhia das Letras

Foto: Wolney Fernandes

terça-feira, 8 de abril de 2014

Mrs. Dalloway


Lembro de ter começado a ler Mrs. Dalloway há alguns anos atrás e abandonado a leitura por conta de uma complexidade que, na época, me pareceu intransponível. Desta vez, consegui dar cabo do livro inteiro, mas ainda assim não foi uma leitura fácil. Acabei descobrindo que a tal complexidade que tinha me impedido de terminá-lo na primeira vez, nada mais é do que a escrita em fluxo de consciência. Através desse fluxo, somos guiados pelo rol de personagens e temos acesso aos pensamentos, às angústias, à vida deles, sem que isso seja sinalizado de forma muito precisa. Por várias vezes, precisei voltar alguns parágrafos para ligar os pensamentos aos seus respectivos donos. No entanto, depois que terminei a leitura, percebi que esse ir e vir foi uma parte importante da experiência de ler esse livro. Não resta dúvidas de que Mrs. Dalloway é uma leitura que, realmente, requer um pouco mais de atenção e exige do leitor um maior envolvimento.

Ambientado na Londres da década de 20, o livro acompanha um dia na vida da Clarissa Dalloway quando ela resolve dar uma festa. Durante o transcorrer do dia, marcado pontualmente pelas batidas do Big Ben, Clarissa evoca a própria juventude enquanto se envolve nos preparativos da festa e, de alguma forma, seu caminho se cruza com vários outros personagens: Septimus Smith, um ex-combatente da primeira guerra mundial, está literalmente à beira da loucura e considerando suicídio. Peter Walsh está de volta da Índia para falar com seus advogados sobre um caso de divórcio e por aí vai.

Apesar do livro todo se passar em um dia, eu achei que os personagens são muito bem construídos e muito plausíveis. Acho que boa parte disso deve-se ao fato de que temos acesso aos pensamentos deles enquanto ainda estão tomando forma. E depois que nos acostumamos, esse recurso acaba criando uma dinâmica muito interessante, pois conseguimos apreender um pouco da “essência” de cada personagem já que suas ações são narradas segundo essa lógica que é bem parecida com a vida real. Um bom exemplo disso é o momento em que Richard, marido de Clarissa, decide comprar flores para a esposa porque ele conclui que a ama muito. O legal desse fato é todo o processo do pensamento dele se desenvolvendo e o que ocorre até o momento dele chegar na frente de Clarissa e fazer isso (ou não fazer, conforme acompanhamos o desfecho dessa parte). O que parece uma ação bem simples, quando acompanhada pela trama do pensamento de Richard, desde o momento da decisão da compra das flores, até estar diante da esposa para dizer o que ele concluiu é um processo que se revela intrincado e repleto de pormenores que é muito bom de acompanhar. E é assim porque é permeado por dúvidas, contextos, receios e outras variáveis num desenho muito próximo do que acontece na realidade.

O romance também termina em aberto e a sensação que eu fiquei é de que deixei algo passar, pois acabei de ler e minha vontade era voltar à história de algum modo. Na sequência, li o livro “As Horas” cuja trama foi montada tendo Mrs. Dalloway como base e confesso que me ajudou muito a entender o modo e a forma com a qual Virginia elaborou cada conflito descrito na trama. Tanto que terminei o livro do Michael Cunningham e voltei ao livro da Virginia para reler certas partes que me soaram mais fortes ainda do que na primeira vez. Sem dúvida, Mrs. Dalloway é um livro muito bem escrito e, apesar dessa dinâmica diferenciada, é de uma sensibilidade assustadora. Valeu a pena ter insistido e me deixado levar pela correnteza de pensamentos muito bem delineados por Virginia Woolf. É um livro que precisa ser lido e relido!
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Livro: Mrs. Dalloway [5/5]
Autora: Virgínia Woolf 
Editora: CosacNaify

Foto: Wolney Fernandes