quarta-feira, 29 de julho de 2015

Volubilidade dos Fenômenos*


"Desde esse dia, cada instante de minha vida adquiriu para mim o sabor de novidade de um dom absolutamente inefável. Assim vivi numa quase perpétua estupefação apaixonada. Alcançava muito depressa a embriaguez e comprazia-me em andar numa espécie de aturdimento.

Por certo quis beijar tudo o que encontrei de riso nos lábios; quis beber o que encontrei de sangue nas faces, de lágrimas nos olhos; e morder a polpa de todos os frutos que dos galhos se inclinaram para mim. Em cada albergue uma fome me saudava; diante de cada fonte uma sede me esperava - uma sede particular diante de cada uma - e almejara outras palavras para marcar meus outros desejos

de marcha, onde se abria uma estrada;
de repouso, onde me convidava a sombra;
de nado, à margem das águas profundas;
de amor ou de sono ao pé de cada leito.

Botei intrepidamente a mão em todas as coisas e acreditei ter direitos sobre cada objeto de meus desejos. (Demais, o que almejamos, Nathanael, não é tanto a posse, é o amor.) Que toda coisa se irise diante de mim! Que toda beleza se revista e se matize de meu amor."

(*) Texto de André Gide em "Os Frutos da Terra"
Imagem de Wolney Fernandes

terça-feira, 28 de julho de 2015

O Paciente Inglês


"Tudo que eu queria era andar numa terra que não tivesse mapas"

A frase acima encerra um dos parágrafos mais bonitos de "O Paciente Inglês". Nessas poucas palavras residem os principais temas que atravessam essa história de amor escrita por Michael Ondaatje. Em suas entrelinhas estão o desejo de mudança, o nomadismo proeminente dessa vontade e as tramas multiculturais pelas quais os personagens são enredados.

"Há um mês especial na vida deles durante o qual dormem um ao lado do outro. Um celibato formal entre os dois. Descobrindo que no amor pode haver toda uma civilização, todo um país aberto à frente deles."

Nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial acompanhamos a trajetória de Hana, enfermeira canadense que decide cuidar sozinha de um homem ferido numa vila abandonada na Toscana. Vão se juntar a ela e seu paciente, um espião italiano chamado Caravaggio e Kip, um indiano cujo ofício é desarmar bombas escondidas naquele território devastado pela guerra. O passado dessas quatro figuras solitárias é desnudado, deixando à mostra as inquietações e as mazelas que carregam depois do conflito mundial que acabaram de testemunhar. 

"Caravaggio fica ali sentado em silêncio, os pensamentos perdidos entre os ciscos flutuantes. A guerra o desequilibrou e não é capaz de voltar para nenhum outro mundo desse jeito, com o aprumo ilusório que a morfina promete."

Confinados num espaço abandonado e à mercê de uma melancolia que orienta o modo de vida naquele momento, esses personagens tentam sair, cada um a seu modo, do espaço limitado e demarcado pelas diferenças geográficas que, de certa forma, acabaram por definir seus destinos.

Escrito de modo não linear e entrecruzando tempos verbais e narrativas distintas, o livro é permeado por cenas que, à princípio, podem soar como episódicas, mas que, aos poucos, revelam conexões inteligentemente arquitetadas. Como ponto central, temos a história do misterioso paciente que teve seu corpo queimado depois de um terrível acidente aéreo. É pela revelação sutil do que aconteceu a esse personagem que temos acesso aos demais fatos que afetam cada uma daquelas pessoas.

A escrita de Ondaatje é refinada e salpicada de referências advindas da arte e isso faz da história um almoxarifado com boas indicações literárias e musicais (confira a playlist no final desse texto). Os personagens carregam uma certa erudição que acaba por nos ajudar na compreensão de suas motivações ao longo da história. Há, por exemplo, um livro de Heródoto, cultuado pelo paciente inglês que vai salpicando a narrativa com citações e amarrando cada detalhe com maestria. Os amantes de literatura irão se deliciar com o modo com o qual os livros se revelam importantes para a condução da vida daquelas pessoas. Há uma biblioteca no local onde se passa a história e as cenas envolvendo leituras são particularmente belas. 

"Ela parou de ler e ergueu os olhos. Saindo da areia movediça. Ela estava evoluindo. Era assim que o poder mudava de mãos. Enquanto isso, com a ajuda de uma anedota, eu me apaixonava. Palavras, Caravaggio. Elas têm um poder."

Outra característica marcante são os espaços em branco deixados entre uma cena e outra, como se o autor quisesse que preenchêssemos esses espaços fazendo de nós, uma espécie de co-autores. Minha experiência de leitura foi curiosa porque nas primeiras cinquenta páginas eu não conseguia adentrar na história e na segunda metade do livro eu simplesmente não conseguia sair dela. Creio que a diferença dessas aproximações só aconteceu quando eu passei a fazer pontes entre uma cena e outra. Foi só quando eu me propus a preencher os vazios deixados pelas cenas criadas pelo autor que a leitura rendeu. Escutei as músicas citadas, vasculhei as imagens marcantes e mergulhei nas referências literárias apresentadas no texto e isso ajudou bastante nessa imersão que o livro possibilita. 

Aliás, a versão cinematográfica da obra se aproveita desse recurso e faz isso com muita propriedade, recheando cada uma dessas possibilidades interpretativas com sentidos que, a meu ver, estão muito bem alinhados com aqueles que eu mesmo fui criando enquanto lia. Desse modo, livro e filme se complementam com uma precisão bem rara de se ver em adaptações do gênero. A principal diferença entre um e outro reside no final, mas a alteração feita no cinema é tão boa que me fez desejar vê-la no livro.

"Morrer significa que a gente passa para a terceira pessoa?"

Terminei a leitura muito apegado aos personagens e com aquela vontade de ficar um pouco mais naquela paisagem iluminada por uma vela e pelos clarões das explosões. Ler "O Paciente Inglês" possibilitou-me diversos deslocamentos internos [a imagem do Davi e Golias ainda me inquieta] e propiciou uma das melhores leituras do ano.

Pra terminar, uma pequena playlist sugerida nas páginas do livro e capturada nas cenas do filme:
2. My Romance - Lorenz Hart e Richard Rodgers
3. Honeysuckle Rose - Django Reinhardt
4. The Wang Wang Blues - Benny Goodman
5. Rupert Bear - Gabriel Yared

sexta-feira, 24 de julho de 2015

A maturidade na palma da mão


"Existe um quadro de Caravaggio, feito no final da vida. Davi com a cabeça de Golias. Nele, o jovem guerreiro, com o braço bem esticado, segura a cabeça do gigante Golias, velha e destroçada. Mas não é essa a verdadeira tristeza no quadro. Presume-se que o rosto de Davi seja um retrato de Caravaggio quando jovem e a cabeça do Golias, o seu retrato na época em que pintou o quadro, um velho. O jovem julgando a idade na ponta de seu braço estendido. O julgamento da própria mortalidade."

Depois de ler esse trecho e olhar para a pintura passei a me perguntar: Como o Wolney de vinte anos atrás contemplaria o Wolney de agora? Que tipo de Golias eu me tornei?

Trecho do livro "O Paciente Inglês" de Michael Ondaatje
Pintura de Caravaggio

segunda-feira, 13 de julho de 2015

terça-feira, 23 de junho de 2015

Hanói - Felicidade Sussurrada


Primeiro foi "Rakushisha" que delicadamente revelou-me a escrita precisa da Adriana Lisboa. Depois veio "Um Beijo de Columbina" com sua capacidade de surpreender a cada nova página. "Azul-Corvo" me fez entender o quanto a autora consegue criar personagens cativantes e agora, "Hanói" me faz proclamar em sussurros de puro encanto que Adriana Lisboa passou a ser uma das minhas escritoras favoritas.

"Esbarramos, trocamos um olhar, uma palavra, seguimos em frente. E a marca fica, o registro daquele evento na memória de um universo ao qual tudo importa."

"Hanói" começa com um anúncio de morte, mas cada parágrafo do livro parece recitar a beleza da vida em suas reentrâncias. O trompetista David mora em Chicago e esbarra em Alex ao receber a notícia de uma doença terminal. Alex é uma garota com ascendência oriental e cujo amadurecimento foi acionado por uma gravidez precoce. Os dramas desses dois jovens são entrelaçados por uma história de deslocamentos e renúncias onde os novos arranjos que eles se vêem obrigados a fazer se cumprem pela vontade de não entregar os pontos, mas de seguir adiante.

"Mas as pessoas às vezes vivem mesmo sem ter o bastante para viver."

De origens distintas, Alex e David se ajudam mutuamente e compõem um mosaico de identidades híbridas que funciona como pano de fundo do romance. Alex é filha de mãe vietnamita e mãe de um menino cujo pai é negro. David é latino, filho de mãe mexicana e pai brasileiro. Esse painel multicultural evidencia embates e diferenças, mas é pela semelhança que vemos ecoar o desenvolvimento dos dramas dos protagonistas.

E é justamente no desenvolvimento da história que a escrita da Adriana revela delicadezas e mostra, por meio de ótimas metáforas, as intensidades que os encontros apresentados no livro acionam. A música exerce papel fundamental no modo como a história é narrada e funciona como uma espécie de fator aglutinador diante das diferenças que limitam a comunicação entre as pessoas.

"Não precisariam saber o nome um do outro, não precisariam nem mesmo falar uma sílaba da língua do outro. Não é necessário traduzir ao húngaro ou ao chinês o tema de "Seven Steps to Heaven", por exemplo. David poderia pegar o trompete, e o garoto no piano e eles seriam parte de alguma coisa."

O jazz, muito presente no cotidiano de David, realça sua capacidade de improvisar, de viver de um jeito diferente daquele ao qual está acostumado. Em meio às surpresas sugeridas pelo jazz [escute a playlist no final desse texto], a autora também consegue criar imagens simples, mas extremamente bonitas para as cenas que envolvem um mergulho mais profundo nas emoções dos personagens.

"Ele entrou no mercado asiático, acenou para Alex e pegou um cesto de plástico que encheu com itens pequenos. O critério era um só: que levasse bastante tempo para passar pelo caixa. Por cima, colocou um pé de alface, feito um buquê."

Ou ainda:

"Para ele, contudo, a concha não era espiral logarítmica nem era o documento de identidade de um deus: era a sua infância, era a sua mãe, era aquela praia, aquele verão."

Hanói, "a cidade entre rios" que dá título à obra é, ao mesmo tempo, origem e destino. "O lugar mais bonito do mundo" é local da família vietnamita de Alex e horizonte imaginado e sonhado por David.

Ao entrelaçar elementos cotidianos com dramas tão profundos, Adriana consegue dizer dos sentimentos, sejam eles bons ou ruins, sem necessariamente colocar o dedo na ferida. E quando o faz, o faz com cuidado, respeitando os silêncios e as pausas tão necessárias diante daquilo que as palavras nem sempre dão conta. Seus livros recitam e soletram felicidades, mas o fazem por meio de sussurros. Saber ouvi-los parece ser o melhor da festa.

"A felicidade não era ruidosa nem saía em capa de revista."

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Durante a leitura coletei dez músicas de um conjunto bem vasto que a autora vai referenciando ao contar a história. Cada uma, a seu modo, ajuda no clima e na composição rítmica desse romance cativante. Confira!

01. Sweet Georgia Brown - Ella Fitzgerald
02. A Cor da Esperança - Cartola
03. Radio Song - Esperanza Spalding
04. Maiden Voyage - Herbie Hancock
05. Little Wing - Jimi Hendrix
06. Samba Triste - Jackie & Roy
07. Seven Steps to Heaven - Miles Davis
08. Palhaço - Egberto Gismonti
09. Blue in Green - Ralph Towner & Gary Burton
10. Circle - Miles Davis

Foto: Wolney Fernandes

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Último toque


17 de junho de 2015 - Hoje o meu tempo toca o tempo do meu pai pela última vez, pois passo a ter a idade que ele terá para sempre. Dele, o relógio e toda saudade do mundo.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Ulysses - O que é de gosto é regalo da vida


A ideia era bem simples: começar a ler Ulysses do James Joyce no Bloomsday de 2014 (para entender do que se trata, clique aqui). Apesar de imaginar que a tarefa seria árdua, não pensei que iria demorar um ano para dar conta de acompanhar as 18 horas do dia do Sr. Bloom. Foi a primeira vez que fiquei tanto tempo nas páginas de um livro. E, de antemão, já aviso que foi uma experiência única e permeada por estranhamentos. Foi difícil? Foi. Valeu a pena? Demais! Vou tentar explicar os porquês.

Ulysses foi escrito em 1922 tendo a Odisséia de Homero com base. Toda a história se passa em um único dia: 16 de junho de 1904. No decorrer desse dia, acompanhamos, separadamente, as peripécias do Sr. Bloom e de Stephen Dedalus até eles se encontrarem. Os dois são movidos por toda sorte de acontecimentos - encontros, traições, notícia de morte, visitas em museus e bordéis são embalados por um ritmo ditado pelo fluxo de consciência dos personagens e outros caprichos do autor. E não são poucos os labirintos e estilos permutáveis utilizados por Joyce para contar essa história.

O modo como o autor consegue arquitetar estruturas muito contemporâneas no que diz respeito à forma da escrita impressiona e, por vários trechos, foram essas variações que me ajudaram a avançar na leitura já que pelo conteúdo nem sempre é possível se manter conectado. Ler Ulysses é mais uma experiência estética do que qualquer outra coisa. Desconfio que quem entra no livro querendo compreendê-lo apenas pelos tons da racionalidade não vai conseguir terminá-lo. Há trechos onde a invenção e recriação da língua ditam outros modos de compreensão.

“Coloque o coitadinho do bisavô Craahraarc! Oioioi toumuitcontent craarc toumuitocontentderrevervocês oioi toumuitr crptschs.” [p. 243]


Há, ainda, partituras musicais, trechos escritos com abreviaturas e páginas e páginas sem nenhuma pontuação para aguçar outros sentidos diante da obra. A leitura é desconcertante, exigente e demanda foco. Pela minha experiência não se lê Ulysses sem um mínimo de empenho e é exatamente por isso que é preciso esperar o momento certo para cumprir a travessia. Com isso não quero dizer que é um livro para poucos. De modo algum! Creio que todo mundo consegue atravessá-lo, mas é preciso ter disposição, disciplina e montar estratégias para fazer isso. 

Um dos mecanismos de leitura que mais me ajudou foi não me fixar apenas no conteúdo, mas tentar me envolver com a forma da escrita que é absurdamente inventiva. Gosto de pensar a escritura como um espaço para a subversão, um lugar para triturar o que nos parece impronunciável.

O tom irônico e debochado com o qual Joyce descreve determinadas passagens, por vezes, ajudam a leitura fluir. A impressão que dá é que ele estava se divertindo bastante enquanto escrevia. Temas como a Igreja, a erudição vazia, o sexo e as artes são os alvos principais da fina ironia destilada pelo autor.

"Creem em Dê os Paus, todolaceroso, criador do inferno na terra e em Marujo Tristo, esse filho da luta, que foi concebido pelo escândalo tanto, nasceu da viagem marinha, padeceu o serviço completo, foi cicatrizado, exposto e bem sovado, gritou como um danado, e no terceiro dia relevantou da cama, voltou aos seus, está sentado a boreste de seu país de onde há de vir penar na vida e a postos." [p. 529].

O modo como o autor profana e brinca com obras clássicas é, em grande parte, o melhor da leitura. Quando Joyce pega, por exemplo, um trecho de Hamlet de Shakespeare e o coloca no diálgo que reproduzo abaixo, sinto que ele faz isso com muita propriedade:

“- A lua, o professor MacHugh disse. Ele esqueceu o Hamlet.
- Que vela a vista toda ao longe e espera por que o orbe luminoso da lua fulgure a irradiar sua argêntea efulgência...
- Ai! O senhor Dedalus gritou, ventilando um lamento desesperançado, bosta com cebola! Chega, Ned. A vida é curta demais.” [p. 259] 


São muitas as referências a outras obras que entremeiam as passagens do livro e é um perigo se ater a todas elas. Quando percebi que as tais referências estavam deixando a leitura ainda mais intrincada, minha estratégia foi marcar aquilo que instigou minha curiosidade para, depois da leitura concluída, voltar e esmiuçar cada uma delas.

O que torna essa obra singular é seu caráter híbrido, aberto e desconcertante. Um romance experimental por onde o autor vai desfiando modos de escrever que se complementam, mesmo que por atrito. Observe esses dois trechos e suas disparidades estilísticas:

"Olho nos polícia. Como? Viu ele hoje num enreto? Amigo seu esticou as canelas? Crendiospai! Coitadim do criolim! Cê não me diga uma coisa dessa, Pold, meu comparsa! I êis chorô qui jorraro u'as lágrima uns chôru moiádu purquiumamígu Padney foi levádu num sácu prêtu?" [p. 663]

"Destarte, estando o senhor Bloom lastreado pela circunstância de que um dos botões de trás de sua calça havia, para variar o veterano anexim, batido os botões, conquanto, assumindo plenamente o espírito da coisa, ele heroicamente fizesse pouco do infortúnio." [p. 868]

Ao final da décima oitava hora do dia, já se leu de tudo um pouco sem que essas marcações estejam aparentes, pois a narrativa se mistura em degradês difíceis de serem definidos. O que me ajudou bastante quando eu me via perdido foi um esquema que agrupa cada hora do dia em uma tabela de referências incluída na apresentação da edição que eu li que foi essa da Penguin/Companhia que pode ser visualizada no início desse texto.

A terceira e última parte de Ulysses retoma uma narrativa mais linear e insere perguntas de toda ordem para perscrutar sentimentos vivenciados durante o dia pelos protagonistas. Uma espécie de exame de consciência que o Sr. Bloom faz antes de adormecer. São questões existenciais, listas, orçamentos e toda sorte de curiosidades. Uma delas em especial resume a experiência vivenciada pelos personagens principais - o maduro Sr. Bloom e o jovem Stephen Dedalus - em palavras que também poderiam ser atribuídas ao próprio autor:

"Teria Bloom descoberto fatores comuns de similiaridade entre suas reações respectivamente semelhantes e dissemelhantes à experiência? Ambos eram sensíveis a impressões artísticas musicais em preferência a plásticas ou pictoricas. (...) Ambos obdurados por precoce treinamento doméstico e por hereditária tenacidade de resistência heterodoxa professavam sua descrença em várias doutrinas religiosas ortodoxas, nacionais, sociais e éticas."

Enfim, ao propor labirintos linguísticos em Ulysses, James Joyce evidencia sua apurada erudição, que nunca vem desprovida de questionamentos e está sempre conectada com aquilo que o cerca e que permeia seu cotidiano. Numa atuação invejável, o autor exibe uma capacidade técnica ao mesmo tempo que parece divertir-se com o próprio ofício. 

"O que é de gosto é regalo da vida" [p. 598]

Conseguir chegar ao fim desse calhamaço me deixou com uma sensação diferente de qualquer outra que tive diante de uma obra literária. Uma espécie de amor bandido, daqueles que maltratam mais que acariciam e, ainda assim, você não larga. Passei um ano nadando nas águas dessa escrita que ora me permitiu mergulhos profundos, ora me lançou para a superfície numa movimentação inquieta, difícil e ainda assim, permeada por descobrimentos que hão de me acompanhar vida afora. Sobrevivi. Ufa!

Imagem: Wolney Fernandes

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Olhe nos meus olhos


Tenho especial interesse por narrativas em primeira pessoa e cada vez mais tenho buscado referências que possam me mostrar outros jeitos de ver/ser/estar no mundo. "Olhe nos meus olhos" (título da edição brasileira, pois essa que carrego na foto é portuguesa) é um bom exemplo de como é preciso estar atento para as diferenças que nossas humanidades carregam. Portador da síndrome de Asperger, uma espécie de rastro do autismo que confere um conjunto de peculiaridades a seus portadores, John Elder Robison foi motivado a escrever suas percepções e reações diante de situações cotidianas e fez delas essa obra fascinante.

O livro é um relato sincero, e acima de tudo, muito bem articulado em torno de uma visão de mundo que confere uma lógica totalmente distinta daquela a qual estamos acostumados. Os Aspergers são muito práticos e nada políticos e isso gera problemas de convivência. "Me olha direito, rapaz!" foi praticamente um mantra que John Elder ouviu durante toda a infância e adolescência e que, de certo modo, foi o disparador para que se percebesse diferente das outras pessoas.

"Nem sequer percebia o que queria dizer olhar alguém direito. E no entanto sentia-me envergonhado, porque as pessoas esperavam que eu o fizesse, e eu sabia disso e não fazia. Então o que havia de errado comigo?"

Pelas páginas do livro, o autor vai desfiando fatos da infância, da convivência com pais problemáticos e da dificuldade em se ver perdido em meio a diagnósticos que nunca davam conta de abarcar seus anseios e limitações. Ele só foi diagnosticado com Asperger aos 40 anos. Entendemos a cabeça de John porque ele explica o tempo todo o que pensa, qual o motivo para alguns comportamentos e como ele encara os acontecimentos da vida.

"Sinto imensa dificuldade  em decifrar pessoas. Sou incapaz de olhar para alguém e perceber se gosta de mim, ou se está zangado, ou simplesmente à espera de que eu diga qualquer coisa. Não tenho problemas desses com as máquinas."

Comecei a leitura do livro gostando bastante, mas ali pela página 100 quando ele sai de casa e vai trabalhar como engenheiro de som, a leitura pareceu ficar meio truncada, as descrições feitas por John Elder me pareceram técnicas demais e por vezes, entediantes. No entanto, umas cem páginas depois nos vem a explicação para a mudança no tom da narrativa:

"As minhas notas dessa época são monótonas e desprovidas de inflexão ou de emoção. Eu não escrevia acerca dos meus sentimentos porque não os compreendia. Presentemente, uma maior percepção da minha vida emocional permite-me expressá-la, tanto verbalmente como por escrito."

E daí em diante o livro retoma sua atmosfera inicial e culmina com uma descrição emocionante de como ele conseguiu se adaptar e se [re]aproximar daquilo que, de certa forma, foi obrigado a abandonar. Achei particularmente bonita a parte em que ele reflete como o contato com a arte (músicos e pessoal de efeitos especiais) se revelou uma sorte porque foi aceito e bem acolhido, uma vez que, nessa área, as pessoas não se assustam tanto com a diferença.

Dividida em trinta partes, a narrativa pode até soar episódica, pois é mesmo muito difícil condensar uma vida inteira em 300 páginas. No entanto, vale uma espiada, até para aqueles que, diferente de mim, não sentem certa afinidade com vários dos comportamentos descritos no livro.

"A síndrome de Asperger não é uma doença, é uma maneira de ser. Não há nenhuma cura, nem é preciso. Há, no entanto, a necessidade de conhecimento e de adaptação por parte das crianças com Asperger, de suas famílias e de seus amigos."

P.S.: Duas outras referências trazidas à luz durante a leitura de "Olhe nos meus olhos":
a) A apresentação do livro é feita pelo irmão de John Elder, o também escritor Augusten Burroughs que escreveu suas memórias em um livro chamado "Correndo com Tesouras" que ainda não conheço, mas fiquei com vontade de ler.
b) A indicação do livro "O estranho caso do cachorro morto" de Mark Haddon, que eu já li e, apesar de ser uma obra de ficção, contém muitas informações sobre o trabalho do autor com crianças autistas.

Foto: Wolney Fernandes

domingo, 31 de maio de 2015

O Som e a Fúria


O livro chegou em casa em um período repleto de leituras obrigatórias. Junto com o livro só o peso de um nome: William Faulkner. Sabe autor que todo mundo já leu, menos você? Pois é. Como de costume, espiei com as mãos, cheirei com os olhos e me deixei levar pela curiosidade das primeiras linhas. Era uma manhã de sábado e eu nada sabia do enredo de "O Som e Fúria". Entre estranhamentos iniciais e uma vontade de saber como me livrar daquele emaranhado de vozes fui capturado e, quando dei por mim, estava em meio ao labirinto sedutor que constitui a linguagem de Faulkner.

“O Som e a Fúria” começa como um jorro de consciência que nasce de um trecho da peça Macbeth, de Shakespeare, em que se diz que a vida é "uma história cheia de som e fúria, contada por um idiota e vazia de significado". E é assim, pela visão de um deficiente mental é que somos inseridos na história decadente da família Compson. Benjy, o narrador "retardado" da primeira parte, não fala, mas sua narrativa é marcada por uma polifonia de sentidos.

“Ela pegou na minha mão e corremos pelas folhas barulhentas e cheias de sol. Subimos os degraus, saímos do frio claro e entramos no frio escuro. (…) Caddy tinha cheiro de árvore”

Essa primeira parte, em especial, constitui um desafio maior pois exige que o leitor assuma o papel de alguém íntimo que não precisa de explicações, que não se situa em uma ordem cronológica ou um conhecimento prévio do que está por vir. Somos arremessados em meio a esse fluxo de memórias, ódio, ciúme e agonia genuínos. E de lá não se consegue mais sair. Há sim, resquícios de uma trama, mas é como se tudo estivesse embaralhado na cabeça do narrador.

Na segunda parte, talvez a minha preferida, passamos a acompanhar os pensamentos de Quentin, o irmão perturbado por um amor proibido e que foi estudar em Harvard. Pela construção complexa de um dia na vida dessa personagem, reflexões acerca do tempo parece ser aquilo que move a consciência que ele tem de si próprio. E é visceral a relação estabelecida entre o amor que Quentin carrega e a medida do tempo que lhe resta. Ele quer um amor eterno, imperecível, mas como lidar com o desejo de eternidade?

“Porque o pai disse que os relógios matam o tempo. Ele disse o tempo morre sempre que é medido por pequenas engrenagens; é só quando o tempo pára que o tempo vive.”

Depois da segunda parte, a narrativa se fixa em Jason, o filho inescrupuloso que não se conforma com as escolhas da irmã Caddy e faz disso uma batalha com tudo e com todos que o rodeiam. Preconceituoso e movido por uma ganância que o faz roubar a própria mãe, Jason é constituído por uma fúria que nos leva a entender um pouco mais dos fatos caóticos apresentados nas partes iniciais do livro. A sua narração é a mais linear, mas ao mesmo tempo o desconforto permanece através do confronto com o cinismo demasiadamente humano da personagem.

E por fim, a quarta e última voz é narrada em terceira pessoa, mas focada em Dilsey, a empregada negra que funciona como uma espécie de alicerce para a família Compson. Dotada de um senso de realidade e humanidade exacerbados, é por ela que vislumbramos, de modo sutil e belo, o esclarecimento desse quebra-cabeças criado por Faulkner.  

Numa escala menor, "O Som e a Fúria" parece abordar temas variados: suicídio, família, conflitos raciais no Sul dos Estados Unidos... mas há um fio condutor no que se refere a obra que diz respeito à sua linguagem inventiva, complexa e ainda assim fluida o suficiente para envolver o leitor em um labirinto de sensações. Cada pedacinho que parece solto à princípio, vai formando um rico mosaico da natureza humana à medida que se a trama se adensa. Cada capítulo terminado me fez querer reler o que foi lido e avançar para o desconhecido num movimento espiralado que se assemelha a dança celeste que vemos no quadro "A Noite Estrelada" de Van Gogh.

É preciso deixar-se carregar pelo vendaval de pensamentos, imagens e sensações que o livro contém.  Não é a toa que entramos pela história pelo seu clímax e saímos dela através de um único momento delicado, de tranquilidade ímpar, vivenciado pelo retardado Benjy. Mais do que uma experiência puramente racional, "O Som e a Fúria" foi, pra mim, sem sombra de dúvida, uma experiência sensorial de onde eu não queria mais sair.

Imagem: Wolney Fernandes

quinta-feira, 21 de maio de 2015

O som desses dias todos


01. Madrugada sem Sono - Gisela João
02. False Hope - Laura Marling
03. What have I done to deserve this? - Pet Shop Boys
04. Say You Will - Trails and Ways
05. Virou - Tulipa Ruiz
06. I Can Change - Brandon Flowers
07. Stand By Your Man - Lynn Anderson
08. Amor Marginal - Johnny Hooker
09. Born to be Blue - Chet Baker
10. Transatlanticism - Death Cab For Cutie


Colagem de Eugenia Loli

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Sobre a beleza dos começos


Quando os começos dos livros já contêm toda beleza do mundo:

Um Homem Só
[Chistopher Isherwood]
"Despertar começa com o dizer-se sou agora. Aquilo que acordou fica, então, deitado por algum tempo, contemplando, lá em cima, o teto e, cá embaixo, a si mesmo, até reconhecer o eu e, portanto , deduzir eu soueu agora sou."

Noites de Alface
[Vanessa Barbara]
"Quando Ada morreu, as roupas ainda não tinham secado. O elástico das calças continuavam úmido, as meias grossas, as camisetas e as toalhas de rosto penduradas do avesso, nada estava pronto. Havia um lenço de molho dento do balde. Os potes recicláveis lavados na pia, a cama desfeita, os pacotes de biscoito aberto, em cima do sofá - Ada tinha ido embora sem regar as plantas. As coisas da casa prendiam a respiração e esperavam. Desde então, a casa sem Ada é de gavetas vazias."

Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres
[Clarice Lispector]
","

O Filho de Mil Homens 
[Valter Hugo Mãe]
"Um homem chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter um filho. Chamava-se Crisóstomo. Estava sozinho, os seus amores haviam falhado e sentia que tudo lhe faltava pela metade, como se tivesse apenas metade dos olhos, metade do peito e metade das pernas, metade da casa e dos talheres, metade dos dias, metade das palavras para se explicar às pessoas. Via-se metade ao espelho e achava tudo demasiado breve, precipitado, como se as coisas lhe fugissem, a esconderem-se para evitar a sua companhia. Via-se metade ao espelho porque se via sem mais ninguém, carregado de ausências e de silêncios como os precipícios ou poços fundos. Para dentro do homem era um sem fim, e pouco ou nada do que continha lhe servia de felicidade. Para dentro do homem o homem caía."

Lavoura Arcaica
[Raduan Nassar]
"Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo."

A Bolsa Amarela
[Lygia Bojunga]
"Eu tenho que achar um lugar pra esconder as minhas vontades."

Bonsai
[Alejandro Zambra]
"No final ela morre e ele fica sozinho"

A Morte do Pai
[Karl Ove Knausgard]
"Para o coração a vida é simples: ele bate enquanto puder. E então para."

Essa postagem foi inspirada nesse vídeo da Aline Aimee.
Foto:  Wolney Fernandes

Cultivo


Que o cultivo daquilo que somos e fazemos revele modos de sobrevivências em terrenos onde a aridez impera.

Imagem de Sigurdur Gudmundsson

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Os Dias Lindos


"Não basta sentir a chegada dos dias lindos. É necessário proclamar: "Os dias ficaram lindos".

Acontece em Abril, nessa curva do mês que descamba para a segunda metade. Os boletins meteorológicos não se lembraram de anunciá-lo em linguagem especial. Nenhuma autoridade, munida de organismo publicitário, tirou partido do acontecimento. Discretos, silenciosos, chegaram os dias lindos.

E aboliram, sem providências drásticas, o estatuto do calor. [...]

A cor. Redescobrimos o azul correto, o azul azul, que há meses se despedaçara em manchas cinzentas no branco sujo do espaço. O azul reconstituiu-se na luz filtrada, decantada, que lava também os matizes empobrecidos das coisas naturais e das fabricadas. A cor é mais cor, na pureza deste ar que ousa desafiar vapores, emanações e fuligens da era tecnológica. E o raio de sol benevolente, pousando no objeto, tem alguma coisa de carícia.

(...) certos  dias de abril e maio são mais lindos do que os outros dias em geral, e nos integram num conjunto harmonioso, em que somos ao mesmo tempo ar, luz, suavidade e gente."

[Carlos Drummond de Andrade]

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Os Resíduos do Dia


Há de se explicitar que Stevens é um homem triste. No entanto, essa tristeza parece invisível aos olhos dele mesmo. Narrador da sua própria história, o protagonista de "Resíduos do Dia" - livro de Kazuo Ishiguro - é um mordomo inglês que dedicou grande parte da vida em servir Darlington Hall, na Inglaterra do início do século XX.

"Decerto, um grande mordomo é grande em virtude de sua capacidade de habitar seu papel profissional - e de habitá-lo até o fim. Não se deixa abalar por acontecimentos externos, por mais surpreendentes, alarmantes ou constrangedores que sejam. [...] Trata-se, como disse, de uma questão de dignidade."

De modo tocante, acompanhamos as lembranças desse protagonista e seu modo peculiar em lidar com as próprias emoções. Camuflados pelas obrigações atribuídas a seu papel, os sentimentos de Stevens se mantêm nas entrelinhas daquilo que nunca é pronunciado. E aqui há de se ressaltar a delicadeza com a qual o autor trata esses sentimentos, [re]velando-os com uma sutileza que impressiona.

Guardados nas pausas e nas dúvidas daquilo que é lembrado pelo mordomo em uma viagem de cinco dias, os acontecimentos do livro vão descortinando os bastidores de um relacionamento entre Stevens e uma antiga governanta com quem trabalhou anos antes. Os diálogos travados entre os dois realçam o talento de Ishiguro no desenvolvimento da história, pois em cada fala estão contidos, ao mesmo tempo, os limites e os horizontes desses personagens.

A natureza solitária e contida do protagonista combinada com a forte personalidade da governanta constituem um embate sublime sobre o entrelaçamento das diferenças. Fiquei particularmente comovido com a reflexão sobre público e privado, desejo e responsabilidade contida nas páginas desse romance que já figura entre um dos livros mais bonitos que eu já li.

As mudanças vivenciadas no período pós-guerra são realçadas pela figura do novo patrão de Stevens - um jovem americano que assume a propriedade que outrora pertenceu a Lord Darlington a quem era voltada toda a devoção do mordomo. Daí nascem algumas das cenas mais hilárias do livro por trazer à tona essa necessidade, mesmo que permeada por certa relutância, de encarar o novo e o diferente.

"Se sua casa está pegando foto, você não reune a criadagem na saleta e discute durante uma hora as várias opções de fuga, não é? Isso pode ter sido bom um dia, mas o mundo agora é um lugar complicado."

O princípio de dignidade vastamente perseguido por Stevens faz com que ele se esqueça de olhar para a vida em sua complexidade e descabimento. Ao colocar as obrigações, herdadas pelo pai também mordomo, acima de qualquer outra possibilidade, o que se vê é a figura de um homem fiel, mas perdido num sentimento de inadequação diante de um mundo em mudança.

"Pergunte a qualquer um e vai ver só. A noite é a melhor parte do dia."

Refinamento e melancolia dão o tom dessa história onde o profissionalismo exacerbado parece podar qualquer vestígio de felicidade. Os resíduos do título, muito bem explorados na parte final do romance, apontam para frente como se sugerissem um outro jeito de estar no mundo. Difícil é mudar quando nos resta apenas a noite de um dia inteiro tomado por anulamentos.

Foto: Wolney Fernandes

terça-feira, 7 de abril de 2015

Em meio ao ensaio

Em meio ao ensaio, a mão se estende e aponta, com fúria, a brandura da noite que eu não consigo enxergar.






Fotos: Wolney Fernandes

sábado, 4 de abril de 2015

Anúncio de Páscoa


Os anúncios pascais eram acesos em círios que se derretiam em homilias vazias de sentido. Chama oca que aquecia os preceitos em detrimento da experiência incrível que é saborear o mundo por meio daquilo que se é e não do que se parece ser.

Para agora, sem círio, sem fogueira nem chama, mas dentro de mim mesmo e para fora daquilo que me oprime, meu anúncio pascal é proclamado e atualizado nas palavras de Guimarães Rosa:

"O Menino não entendia. A mata, as mais negras árvores, eram um montão demais; o mundo.
Trevava.
Voava, porém, a luzinha verde, vindo mesmo da mata, o primeiro vagalume. Sim, o vagalume, sim, era lindo! - tão pequenino, no ar, um instante só, alto, distante, indo-se. Era, outra vez em quando, a Alegria."

Imagem capturada aqui: forum.rise-n-fall.com

domingo, 22 de março de 2015

Os Mil Outonos de Jacob De Zoet


O David Mitchell eu conheci em 2008 quando li "Menino de Lugar Nenhum" e o livro se tornou um dos meus favoritos. Depois eu passei pelo incrível Atlas das Nuvens, mas quando li a sinopse de "Os Mil Outonos de Jacob De Zoet" me bateu uma frustração porque se tratava de um livro de aventura - gênero que não me atrai muito - com trama passada no Japão no final do século XVIII onde meu interesse é praticamente nulo. Mesmo reticente eu resolvi conferir o livro que acabou me conquistando, página a página, no modo detalhado como o autor consegue contar a história de um jovem escrituário que deixa sua vida na Europa e parte para o Oriente em busca de fortuna na feitoria mantida por holandeses às margens da costa de Nagasaki.

Envolto em negociações firmadas entre o pensamento ocidental e o oriental, Jacob é responsável pelo registro daquilo que acontece no local. O jovem é um protagonista solitário que, diante das dificuldades de se enturmar, funciona como ponte para que a gente compreenda as diferenças entre uma cultura e outra. Motivado por um idealismo mantido por sua história de vida, Jacob amadurece diante dos acontecimentos que testemunha e que não são poucos.

Organizado em cinco partes, o livro mantém uma estrutura que parece um palimpsesto de camadas flutuantes, uma vez que os coadjuvantes da primeira parte são trazidos à tona, na segunda, para revelar segredos e nos fazer mergulhar em pormenores obscuros da história. Essa movimentação entre as camadas narrativas é fluida o suficiente para manter o interesse do leitor e, por vezes, apresenta ganchos que tornam impossível fazer paradas durante a leitura. Em alguns pontos, os fatos apresentados suspendem sua respiração e logo em seguida, um corte na narrativa faz você se enfurecer por não ter as respostas para aquela suspensão na sequência. Desse modo, cenas inteiras mostradas no início só vão fazer sentido no final e isso pode acabar deixando rastros de frustração caso não se consiga atravessar as 568 páginas do livro.

"O desejo induz os pais a terem bebês tanto quanto o imprevisto, a obrigação (...) mas talvez os mais bem-aventurados sejam aqueles que nascem do impensado pensamento de que o abismo intolerável que separa os amantes só pode ser transposto pelos ossos e pela cartilagem de um novo ser."

Me impressionou bastante a riqueza de detalhes dada pelo autor ao se referir a um período muito específico da história do Japão e de um cotidiano muitas vezes envolto em mistério. Isso faz a narrativa ficar crível, mesmo se tratando de um livro de ficção. O modo como Mitchell orquestra sua aventura é permeado com delicadezas que se desprendem daquilo que os personagens trazem de mais íntimo. E aí reside uma das tantas qualidades do autor que consegue dar tridimensionalidade dramática ao mais insignificante dos coadjuvantes, apresentando cada um deles com seus medos, anseios e frustrações.

"De um instante para outro, desaparecemos, Shiroyama pensa. Há profundidades por trás das planitudes."

Apesar dessa riqueza de detalhes, nada é gratuito no livro. Da cor ruiva dos cabelos de Jacob até o modo peculiar de servir o chá são descritos com propósitos muitos específicos que, além de enriquecer a trama, funcionam como chaves de leitura para os temas abordados pelo autor. E eles são muitos. Ao entrelaçar as duas culturas, Mitchell aproveita as brechas para levantar discussões em torno de preceitos científicos e religiosos, da intolerância racial e das humanidades que independem de tons de pele ou nacionalidades e ainda questiona a redução do papel da mulher dentro de uma sociedade predominantemente machista.

"Dê-me coragem, Jacob reza. 'Minha vida está nas mãos de Deus.' 
Ah, quanto sofrimento essas palavras breves e fervorosas podem trazer."

No entanto, nada é panfletário e diferentes pontos de vistas são apresentados com uma desenvoltura invejável. Alternando esses diferentes enfoques narrativos, o livro apresenta um recheio bem diversificado. E tem de tudo: aventura com navegadores, mercenários e samurais, romances arrebatadores e triângulos amorosos, vilões ardilosos e um suspense construído com a mais fina ironia que eu já testemunhei.

"O melhor médico de Middelburg guarda um semblante sombrio, mas está satisfeito por ter feito tudo o que era possível pelo paciente durante o breve e lucrativo período da doença e porque poderá chegar em casa a tempo do jantar."

Através de uma escrita sensível, Mitchell conseguiu mais uma vez emocionar-me em diversos pontos da narrativa, mas uma em especial eu gostaria de registrar que é o encontro amoroso entre Jacob e a parteira Orito, fruto do seu interesse. Os dois se encontram em uma horta e a cena envolve ramos de alecrim, significado dos nomes e o sabor de um caqui que toma contornos eróticos ao ser degustado pelo protagonista:

"Sem faca ou colher à mão, ele prende a pontinha da casca cerosa entre os indicadores e a rasga; o suco escorre pelo corte; ele lambe os pingos adocicados, suga para fora um naco gotejante de carne filamentosa e o prende suavemente, suavemente, contra o céu da boca, onde a poupa desintegra em jasmim fermentado, canela oleosa, melão perfumado, ameixas derretidas... e no coração da fruta ele encontra dez ou quinze pedras chatas, da mesma cor marrom e formato dos olhos asiáticos. (...) e como um diapasão posto a vibrar, Jacob reverbera com as partes e com o todo de Orito, com tudo o que faz com que ela seja ela. (...) A Criação não terminou na sexta noite, ocorre ao jovem. A Criação se desdobra ao redor de nós, apesar de nós e através de nós, na velocidade dos dias e das noites, e gostamos de chamá-la de Amor."

Precisa dizer mais?

Precisa! Só mais uma coisa: se você não gosta de spoilers como eu, evite ler as orelhas desta edição porque ela traz um acontecimento importante por onde todo o andamento da trama é apoiado.

Foto: Wolney Fernandes

sexta-feira, 20 de março de 2015

Em busca do tempo perdido


A experiência de ler Proust pela primeira vez foi permeada por sentimentos controversos e já digo, de antemão, que é preciso persistência para atravessar as lembranças desfiadas pelo autor nesse primeiro volume da série "Em busca do tempo perdido". Não quero dizer com isso que seja uma leitura difícil em função de um rebuscamento ou uma erudição que se findam nelas mesmas. Não é! A questão é que Proust escreve sobre detalhes e divaga, com muita propriedade, sobre resquícios do efêmero. Mais do que acontecimentos, o que importa em sua escrita parece ser a experiência que se extrai desses mesmos acontecimentos. O narrador da história se detém na observação profunda daquilo que aguça seus sentidos e investiga as sensações e as memórias que se descolam deles.

"Em breve, maquinalmente, acabrunhado com aquele triste dia e a perspectiva de mais um dia tão sombrio como o primeiro, levei aos lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madalena. Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta migalhas do bolo, tocou meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim."

E assim, desde a luz que o desperta pela manhã até o gosto da "madalena" que se dissolve na boca transmutam-se em descrições elaboradas com um apuro estético de encher as vistas. As palavras, cuidadosamente lapidadas, compõem uma espécie de mosaico ornamentado pela experiência do sensível que se desdobra diante de um sabor, de um som, de um cheiro, de um lugar...

"Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde me teria vindo aquela poderosa alegria? Senti que estava ligada ao gosto do chá e do bolo, mas que o ultrapassava infinitamente e não devia ser da mesma natureza. De onde vinha? Que significava? Onde apreendê-la?"

O livro é dividido em três partes. Na primeira delas [minha preferida, diga-se de passagem] diante de um fiapo de história somos apresentados pelos personagens que orbitam em torno do narrador e que irão exercer alguma influência sobre ele no futuro. Há os membros da família, passando pelos avós e os tios mais distantes, mas não só. Pela figura do Sr. Swann, um amigo da família, passamos também a acompanhar outra gama de personagens que serão os protagonistas da segunda parte do livro. E foi exatamente nesse ponto da narrativa que comecei a ter que me esforçar um pouco mais na leitura, uma vez que o autor parece andar em círculos para contar a história de amor entre Swann e Odete e de como o amor pode se retrair diante de um ciúme desmedido.

"Antes, sonhava-se possuir o coração da mulher amada; mais tarde, sentir que se possui o coração de uma mulher pode bastar para que nos enamoremos dela. E como antes de tudo se procura no amor um prazer subjetivo, assim, nessa idade em que seria de esperar que o gosto pela beleza feminina constituísse a maior parte desse sentimento, pode nascer o amor sem que tenha havido em sua base um desejo prévio. Nessa época da vida já se foi atingido várias vezes pelo amor e este já não evolui por si mesmo segundo as suas próprias leis desconhecidas e fatais, ante o nosso coração atônito e passivo."

Há de se entender a insistência do autor em investigar a natureza desses dois sentimentos gigantescos, mas foi aqui que senti que a leitura começou a se arrastar. O movimento em torno da vida social parisiense do início do século XX é ricamente escancarado e isso ajudou bastante a manter meu interesse pelo livro. Mexericos, arranjos sociais, traições e toda sorte de infortúnios advindos de um convívio em festas e jantares não deixam "a peteca" cair. Há de se ressaltar também os diálogos afiados e muito bem elaborados que fazem o texto vivo e pulsante.

Na terceira parte do livro encontramos o narrador, já adolescente, e acompanhamos as belezas do primeiro amor incrustadas em referências cotidianas e que aguçam a curiosidade para se enveredar pelo segundo volume. Ultimamente andava com uma preguiça fenomenal em ler séries literárias, mas Proust conseguiu soprar pra longe esse meu desânimo. Apesar de lenta, a leitura de "No Caminho de Swann" foi repleta de bons momentos. É, sem dúvida, um livro incrível, mas difícil de atravessar em função dessa relação tão íntima com os detalhes e divagações que parecem infindáveis dentro da escrita que, a meu ver é o ponto alto da obra. Proust tem a capacidade de suspender nossos pensamentos congregando todos os sentidos para aquilo que lemos.

Ao terminar de ler, fiquei pensando que a dimensão da sensibilidade descrita por Proust toca naquilo que compõe a matéria-prima da arte. É pelos sentidos que experimentamos o mundo e ao se debruçar naquilo que ele chama de lembranças involuntárias, acaba por nos provocar a olhar para dentro de nós mesmos [bem lá no fundo] e, então percebermos, na partícula mais ínfima daquilo que nos constitui, um universo inteiro a explorar.

"Os lugares que conhecemos não pertencem tampouco ao mundo do espaço, onde os situamos para maior facilidade. Não eram mais que uma delgada fatia no meio de impressões contíguas que formavam a nossa vida de então; a recordação de certa imagem não é senão saudade de certo instante."

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 19 de março de 2015

O que me falta é nada


O território demarcado por meu papel como artista, mesmo no campo da arte, sempre foi uma zona de risco, de desconforto e inadequação. E não tem sido diferente agora. Os sentidos invisíveis que fazem circular meus desejos poéticos se cumprem em revoluções internas, mas se entopem toda vez que preciso deles para continuar. E aquilo que eu sou se retrai em silêncios pronunciados na dureza de quem tem que conjurar: “só desta vez” ou “só até terminar isso ou aquilo”. Nessa pretensa efemeridade, meio cheio de tudo, mas oco daquilo que me refaz, faço caber tornados e ventanias em recipientes onde também preciso me equilibrar. O que me falta é nada. É só ar.

Foto de Nino Cais

segunda-feira, 2 de março de 2015

A Vida na Hora - Poemas de Wislawa Szymborska


Porque afinal cada começo 
é só uma continuação
e o livro dos eventos 
está sempre aberto ao meio.

Os poemas de Wislawa Szymborska (pronuncia-se Vissuáva Chembórska) me fez vir aqui para escrever sobre um livro de poesia. Tarefa árdua e um tanto nova para alguém que, como eu, mergulha nos versos e, por vezes, não deseja (ou não consegue) mais emergir. Caso os parágrafos abaixo não façam sentido algum, peço desculpas porque daqui do meio dos versos a realidade parece bem mais assombrosa e repleta de fabulações.

Não há devassidão maior que o pensamento.

Sob o signo da simplicidade, os poemas de Wislawa dão conta das profundezas contidas nas coisas miúdas e daquilo que preenche os dias mais comuns. Seus versos carregam um frescor e uma alternância entre a dor e a beleza das experiências vividas. Conseguem estreitar laços entre o privado e o político e ainda possuem uma capacidade de questionar as dúvidas que rondam nossa capacidade de ordenar o mundo.

Sem apelar por nenhum tipo de sentimentalismo, a poeta nascida na Polônia e ganhadora do Nobel de Literatura orienta nosso olhar para o prosaico sob um ângulo inusitado. 

Comparada com as nuvens
a vida parece muito sólida,
quase perene, praticamente eterna.
[...]
Sobre a tua vida inteira
e a minha, ainda incompleta,
elas passam pomposas como sempre passaram.

Não têm obrigação de conosco findar.
Não precisam ser vistas para navegar.

Há traços de uma intensa preocupação com o gênero, pois a perspectiva de vários poemas são desenhadas para marcar um olhar feminino.

Vietnã
Mulher, como você se chama? – Não sei.
Quando você nasceu, de onde você vem? – Não sei.
Para que cavou uma toca na terra? – Não sei.
Desde quanto está aqui escondida? – Não sei.
Por que mordeu o meu dedo anular? – Não sei.
Não sabe que não vamos te fazer nenhum mal? – Não sei.
De que lado você está? – Não sei.
É a guerra, você tem que escolher. – Não sei.
Esses são teus filhos? – São.


Entre o peso dos temas e a leveza de sua escrita, residem a ironia e um olhar teatral para aquilo que nos move. A poesia de Wislawa coloca o foco na vida como se ela se movimentasse entre o palco e as coxias fazendo os sentidos transitarem entre lá e cá numa mistura visceral que pede licença para "que a felicidade não se ofenda por tomá-la como minha".

A Vida na Hora
A vida na hora.
Cena sem ensaio.
Corpo sem medida.
Cabeça sem reflexão.

Não sei o papel que desempenho.
Só sei que é meu, impermutável.

De que se trata a peça
devo adivinhar já em cena.

Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco, me explicando,
é tanto mais humilhante.
As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.

Não dá para retirar as palavras e os reflexos,
inacabada a contagem das estrelas,
o caráter como o casaco às pressas abotoado-eis os efeitos deploráveis desta urgência.

Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira
antes ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
Mas já se avisinha a sexta com um roteiro que não conheço.

Isto é justo-pergunto
(com a voz rouca
porque nem sequer me foi dado pigarrear
nos bastidores).

É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
feita em acomodações provisórias. Não.
De pé em meio à cena vejo como é sólida.
Me impressiona a precisão de cada acessório.
O palco giratório já opera há muito tempo.
Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.
E o que quer que eu faça,
vai se transformar para sempre naquilo que fiz.


Foto: Wolney Fernandes
Trechos dos poemas: Amor à primeira vista; Opinião sobre a pornografia; Nuvens; Sob uma estrela pequenina.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Achados


Uma pista ali, um filme visto aqui e logo uma playlist com músicas novas se materializa.

01. Walk unafraid - R.E.M.
02. Good day bad - Meshell Ndegeocello
03. Primavera - Carlos Lyra
04. When I fall - Lizz Wright
05. O doce e o amargo - Secos & Molhados
06. I'll have to dance with Cassie - God Help The Girl
07. A different room - Travis
08. La nuit n'en finit plus - Petula Clark
09. Earned it - The Weekend
10. Happy - Marina & The Diamonds
11. Felicidade - Noel Rosa
12. Mon coeur s'ouvre a ta voix - Maria Callas

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

"Oh, arte! - O que não faço por você!"


"Seria de enlouquecer imediatamente qualquer um fraco de alma, e logo eu ficaria também caso tivesse de me embotar por dias inteiros; então - arrancado com as raízes do solo do meu fazer, como agora -, para não ficar louco, comecei a pintar, com o dedo trêmulo mergulhado na saliva amarga e usando as manchas do cimento, paisagens e cabeças nas paredes da cela, e fiquei olhando-as secar aos poucos, empalidecer e sumir nas profundezas da alvenaria, como se apagadas por uma mão invisível, fantasticamente forte.

Agora, felizmente, tenho de novo material para desenhar e escrever. Consigo trabalhar e assim suportarei o que senão seria insuportável. Para isso me ajoelhei, me humilhei, supliquei, orei, mendiguei, e teria ganido, caso não houvesse outra saída. Oh, arte! - O que não faço por você!"


[Em abril de 1912, o artista austríaco Egon Schiele fez desenhos e escreveu um diário durante os vinte e quatro dias em que esteve na prisão. Os dois parágrafos acima fazem parte da primeira página desse registro.]

Imagem: "A laranja era a única luz", 1912, Egon Schiele

Stoner


"...como se o amor e o saber fosse um só processo."

William Stoner vem de uma família humilde que mora no interior dos Estados Unidos e cujo trabalho se efetiva na lida com a terra apenas para a subsistência. Tendo seu destino já traçado na medida do cotidiano sofrido experimentado por seus progenitores, Stoner é surpreendido pelo próprio pai quando este lhe oferece a oportunidade de estudar. Em meio a dificuldades, a faculdade [mais especificamente a literatura] acaba por mudar os horizontes vislumbrado pelo protagonista a ponto dele questionar seu lugar no mundo.

Esse mote pode parecer banal demais se dito assim em um único parágrafo, mas é, sem nenhuma dúvida, a realidade de muitos [a minha, inclusive!]. Mas é à partir daí que a história desse ótimo livro do americano John Williams se desenrola. É claro que a identificação com a história contribuiu bastante para estreitar minha relação com a obra, mas tenho a impressão que ela possui tantas outras camadas capazes de abrir entradas para que algum tipo de aproximação aconteça que minha vontade é reler e ver se isso se confirma.

Confesso que me incomodou um pouco o fato do autor sempre antecipar os acontecimentos que virão a seguir. No primeiro parágrafo do livro já se tem um resumo de como foi a vida toda do protagonista e em vários outros pontos da narrativa, Williams resume o que vai desenvolver depois. No entanto, esse desenvolvimento conseguiu me envolver de modo satisfatório e, em alguns momentos, até me surpreender.

Há de se ressaltar que, por investigar nossas humanidades, Stoner não é um livro fácil. Não que tenha uma escrita hermética ou algo parecido, muito pelo contrário! A dificuldade, aqui, reside no clima melancólico que permeia toda a história e nem sempre é confortável acompanhá-la ou perceber as perdas e as injustiças que transitam em torno dela. Stoner é um homem bom e sereno que se descobre professor, mas que também carrega consigo uma solidão de dimensões continentais e, mesmo depois de ser marido e pai, não abandona esse sentimento. E dói perceber que a consciência do próprio lugar e da própria história de vida não garante facilidades diante das certezas (nem sempre dóceis) que o tempo vai sulcando na vida do herói.

"Em seu quadragésimo terceiro ano William Stoner aprendeu o que outros, muito mais jovens que ele, tinham aprendido antes dele: que a pessoa que se ama no começo não é a pessoa que enfim se ama, e que o amor não é um fim, mas um processo atráves do qual uma pessoa experimenta conhecer outra."

O ambiente acadêmico que serve de pano de fundo para a história é retratado de modo muito fiel em seus encantamentos, em seus jogos de poder e nas relações que transitam [quase sempre] entre a vontade de fazer diferença e a resignação diante daquilo que é impossível mudar. Escrita na metade da década de 1950 e ambientada no período entre guerras, a narrativa chega a espantar por ser tão atual no que diz respeito da vida dentro de uma universidade. A experiência do autor que também foi professor por trinta anos, consegue gerar esse sentimento de verdade diante das situações vividas por um acadêmico. No que diz respeito aos processos, às regulações e aos labirintos burocráticos, chega a dar medo perceber que depois de cem anos muita coisa continua ressoando de modo idêntico ao que se faz, atualmente, nos corredores universitários.

Com um final difícil de encarar, Stoner resvala naquele sentimento profundo que dá sentido às nossas escolhas e permite questionar os limites construídos entre a razão e a experiência. A história do camponês solitário que encontra na literatura um sentido para a vida mostra, com precisão dolorida, como a vida acadêmica pode aplainar nossos sentidos, nossas paixões e a matéria vital daquilo que nos [co]move. É preciso vigilância constante para que seja de outro modo. Vigiemos!

Imagem: Wolney Fernandes

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Vietnã



Mulher, como você se chama? – Não sei.
Quando você nasceu, de onde você vem? – Não sei.
Para que cavou uma toca na terra? – Não sei.
Desde quanto está aqui escondida? – Não sei.
Por que mordeu o meu dedo anular? – Não sei.
Não sabe que não vamos te fazer nenhum mal? – Não sei.
De que lado você está? – Não sei.
É a guerra, você tem que escolher. – Não sei.
Esses são teus filhos? – São.


Poema de Wislawa Szymborska
A imagem eu achei aqui

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

De acordo com a própria vontade


O coração é uma máquina de fazer vontades que precisa voltar à fonte das alegrias infinitas. O passado dorme no presente e, às vezes, lembra-se de acordar. A memória é a maior das nossas teimosias.

Já fui de pedra e agora sou de carne e osso. E o peixe que carrego no braço nunca mais vai se esquivar. Tal como o meu sorriso.


Imagem: Wolney Fernandes
Colagem disponível na Plus Galeria

Os Dias Lindos


"Não basta sentir a chegada dos dias lindos. É necessário proclamar: Os dias ficaram lindos."

Tomo emprestado as primeiras linhas da crônica que dá nome ao livro do Drummond para dizer, com toda convicção, que esse texto é uma proclamação de como meus dias ficaram lindos ao entrar em contato com essa obra do autor.

Os dias lindos reune textos publicados no Jornal do Brasil pelo escritor mineiro durante a década de sessenta e setenta. Os textos que compõem essa edição foram divididos em seis grandes sessões temáticas: burocracia, linguagem, passagem do ano, cartas, matutações e histórias. Foi com surpresa que descobri um Drummond irônico, mordaz, bem humorado e extremamente atual no que diz respeito à escolha dos temas e ao tom que ele escolhe dar aos textos.

"Dos escritores não sinto pena. São pessoas que geralmente não têm o que fazer, tanto que passam o tempo escrevendo. Muitos levam esse vício até noite alta, quando os indivíduos normais dormem ou estão nas boates."

Seu olhar atento às minúcias do cotidiano - como dedicar uma crônica aos pêlos que nascem da orelha - e à partir dessas miudezas, escavar profundidades é algo recorrente. Cada parágrafo parece acomodar intensidades diferentes que se movimentam entre a ironia e a poesia.

"E João Brandão, um entre tantos Brandões anônimos, repetidos, vê e sente que a tudo está ligado e tudo nele se liga, de bom e de mau, com a perspectiva da esperança para curar suas misérias, com o fundo e tumultuado desejo de explicar-se a si mesmo na aparente falta de explicação (o nexo oculto) de tudo."

Dominando, com muita propriedade, o uso da língua portuguesa, Drummond brinca com as palavras propondo desafios para si próprio e para nós, leitores. Bons exemplos desse exercício de escrita aparece em uma crônica que ele constrói inteira só utilizando versos de marchinhas de carnaval, ou em textos como "O homem no condicional" cuja cadência se dá pela utilização da partícula "se".

"Se faço uma crônica em se, sei lá se lhe sentirão o sentido."

Ou então na cadência das expressões idiomáticas que utilizam a palavra "mão".

"Que seu concurso seria uma mão na roda; que tivesse paciência e desse uma mãozinha, mesmo de mão beijada, pois o clube não falara em pagamento; enfim, que aguentasse a mão, mesmo que isso fosse uma tremenda mão de obra, para que os velhinhos convidadores não ficassem de mãos abanando, ou com uma mão atrás e outra adiante, ou ainda, para falar mais claramente, na mão."

Outro aspecto que me chamou a atenção foi a pertinência das reflexões feitas pelo poeta em torno de temas muito bem escolhidos que, apesar de terem sido escritos há 50/40 anos atrás, continuam atuais. A crônica em que um pai questiona o uso de um "gravador" nas aulas do colégio do filho, poderia muito bem servir à quem tem aversão às novas tecnologias do nosso tempo.

Entre profetismos, cotidianos, risadas e tratados para a vida, o livro conseguiu me fazer estender a leitura na tentativa de permanecer naquelas páginas por muito mais tempo, economizando cada texto para o dia seguinte. O Drummond poeta já era meu velho conhecido, o cronista passa, agora, para aquele canto do coração onde se guarda só a beleza dos dias lindos.

Ah, e ele também proclama que os tais dias lindos estão ali, na curva entre abril e maio, mas que a boniteza que eles carregam podem se esconder naqueles momentos em que, "livres do peso dos acontecimentos mundiais, trágicos e esmagadores", habilitamos nosso olhar também para o céu na tentativa de "degustar a finura da atmosfera e a limpidez das imagens recortadas na luz" e, assim, "nos integrar num conjunto harmonioso, em que somos ao mesmo tempo ar, luz, suavidade e gente."

Foto: Wolney Fernandes

Saudade


A morte obriga-nos a crescer, assim, de repente. Para os que continuam vivos, a morte também tem algo de definitivo porque há de se aprender a viver de novo. Como se nos pedissem para fingir que não sabemos fazer contas complicadas, falar inglês, escrever palavras como "exceção" ou "telúrico" e tudo o que fomos aprendendo pelo caminho.

A morte pede-nos para fingir porque só assim a vida pode continuar suportável. A morte lembra-nos todos os dias que a nossa infância não mais será o que foi, seja qual for a nossa idade. E ainda nos pede para termos muito cuidado com a palavra "saudade".

Imagem: detalhe da obra "Saudade" de Almeida Júnior 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Talvez


Separados por quase um século e muitos quilômetros, com estilos artísticos e palavras diferentes, talvez façam a mesma pergunta.


À esquerda: Viajante Sobre o Mar de Névoa [Caspar David Friedrich]
À direita: Jovem mulher na Costa [Edvard Munch]

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Esconderijos do Tempo - Memórias Literárias 2


Um dos meus projetos literários é revisitar os livros que contribuíram para minha formação como leitor desde a descoberta das letras até aquelas leituras que atravessaram a adolescência e juventude. Em um primeiro levantamento feito em agosto de 2014, eu mapeei livros infantis que embalaram meus primeiros anos quando, ainda menino, descobri que era possível ter o mundo em minhas mãos. Nesta segunda empreitada, as memórias foram desdobradas em anos posteriores quando a adolescência deu lugar aos quereres de um Wolney avoado que gostava de olhar para o tempo e ler enquanto comia queijo com rapadura.

Os quadrinhos cresceram junto comigo. Se a leituras dos gibis da Turma da Mônica já não me seduziam, as adaptações de clássicos da literatura me apresentaram escritores consagrados mundialmente e as aventuras de cowboy, em páginas vagabundas, sacudiam meus dias modorrentos. As lembranças mais intensas são de:
1. David Copperfield - Charles Dickens
2. Tarzan - Edgar Rice Burroughs
3. Tex - Vários autores

Os empréstimos foram minha salvação. Como o dinheiro para se gastar com livros era bem pouco ou quase nada, por um grande período da minha juventude eu lia muitos livros emprestados. Da vizinha que trazia romances da cidade grande eu li quase todos as "Sabrinas, Júlias e Biancas" que eu pude. Mesmo sabendo que a estrutura não mudava, eu me divertia lendo as obscenidades contidas em "membros entumecidos" e outras expressões do tipo. Da minha professora de português eu li uma edição adaptada de 4. O Retrato de Dorian Gray e fui arrebatado. Ler Oscar Wilde me fez ver que havia muita coisa para além dos romances de banca. 

Quando finalmente tive acesso a uma biblioteca pública, tive vontade de acampar entre aquelas estantes. Todas as sextas-feiras, religiosamente, eu pegava de dois a três livros para ler durante a semana. Foi nesse período que descobri Agatha Christie, Arthur Conan Doyle e atravessei uma variedade de autores nacionais sempre motivado pelas tarefas do ensino médio. Os títulos dessa fase áurea que eu guardei, com mais ênfase na memória foram: 
5. Convite para um homicídio - Agatha Christie
6. Um estudo em vermelho - Conan Doyle
7. O Colecionador - John Fowles
8. Helena - Machado de Assis
9. Cinco Minutos - José de Alencar

A esposa de um dos meus tios tinha na casa dela um livro com a Marylin Monroe na capa que enchia meus olhos com um fascínio difícil de explicar. No entanto, meu tio morava em outra cidade e a leitura do livro foi feita aos pouquinhos, nas visitas esporádicas à casa dele. Foi meu primeiro contato com uma biografia e descobrir segredos acerca daquela estrela de cinema me abriu os olhos para um tipo de história pautada na realidade. 
10. Marylin - Norman Mailer

Relembrar os fatos em torno da leitura desses livros sempre me comove, me instiga e me faz querer reler todos eles nas edições antigas como se nelas, o tempo estivesse escondido e à espera da minha vontade para se abrir em fendas afetivas. 

Foto: Wolney Fernandes