terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Olhos vestidos de Rosa

Prólogo
Os passos largos e ligeiros indicavam o atraso para o evento. Na porta do auditório, os olhos vasculharam rapidamente o ambiente a procura de um lugar pra sentar. Enxergou, do lado esquerdo, uma fileira de cadeiras com apenas duas pessoas.
Passou por elas e sentou-se na última, bem pertinho da parede. As pessoas que iriam conduzir a discussão ainda estavam tentando fazer funcionar uma apresentação no computador.
Respirou fundo. Um respiro de alívio, destes que fazem o coração acalmar e o ânimo se aquietar. Só então pôde olhar à sua volta. Depois de vasculhar o ambiente, deteve-se nos olhos miudinhos, mas intensos que olhavam em sua direção de maneira diferente. Por alguns segundos resolveu encará-los, mas virou o rosto pra tirar o caderno de anotações da pasta, que trazia entre suas coisas, ainda sem ter certeza da intenção daquele olhar misterioso.

Tomo 1
Da porta da sala dava pra enxergar todo o corredor. As paredes recobertas com cartazes e trabalhos manuais faziam o ambiente ficar ainda mais carregado. Sua sala era a última, mas dava para enxergar a primeira. Lá estava o mesmo olhar, agora não tão desconhecido, mas distante e tão tímido como o seu próprio. Andou vagarosamente pelo corredor fingindo olhar os cartazes só pra chegar mais perto, mas seu jeito introvertido não permitia sequer, trocar um "oi". No entanto, dali de onde estava já dava para ver a covinha que acompanhava aqueles pequenos olhos e, vez por outra, se desenhava do lado esquerdo do rosto.

Tomo 2
Ao descer as escadas viu que uma chuva quieta e constante deixava a paisagem desconhecida meio incolor. Com passos rápidos resolveu vencer a timidez e se aproximar pra uma conversa que, de início pareceu banal, mas foi ficando consistente à medida que caminhavam juntos debaixo do mesmo guarda-chuva. Semelhanças foram estabelecidas, apresentações feitas, cumplicidades partilhadas e novos olhares trocados seguidos por risos contidos de mútuo encantamento. Olhos admirados e elogiados. Camiseta rosa. Cheiro bom. Sorriso de luz.

Tomo 3
O início da noite já se desenhava lá fora. Dentro da lanchonete, o chocolate perdia o sabor à medida que o tempo ia se esvaindo trazendo aquela sensação de impotência. Raros minutos de doce cumplicidade tornaram-se mais intensos na breve despedida. Os olhares não mais se cruzariam e a covinha seria apenas uma lembrança dúbia: ela se formava no lado direito ou no lado esquerdo do rosto?

Tomo 4
Sentado diante da tela do notebook, a imagem da camiseta rosa era sempre a primeira coisa a invadir suas lembranças e pensamentos. 31 dias. Os pensamentos rasgavam e as palavras cortavam. Às vezes nem era preciso pensar, nem ler. Bastava supor. A mutilação acontecia sem que as lâminas tivessem sido postas à mesa. A "alma dúbia" foi, aos poucos, arremessada para o infinito. Em seu lugar apenas o destino para traçar novos olhares e (im)possibilidades. Sobre isso não tinha nada a falar nem supor. Era apenas um pensamento que rasgava e palavras que, escritas, faziam sangrar os dedos.

Epílogo
O olhar que lançou pela janela alcançou a lua. Suspirou buscando para si aquela mesma sensação de calma e quietude.

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