segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Viagem Insólita

Meia hora depois que partimos de Goiânia me ajeitei na poltrona do ônibus, coloquei Nara Leão pra tocar no meu mp3 player e fechei os olhos. Pronto! – Pensei com meus botões – se depender do meu cansaço, só acordo em Florianópolis.Infelizmente não foi bem assim.

Meu otimismo latente sempre me engana nestas situações. Em uma viagem de 24 horas em um ônibus com 46 universitários da Faculdade de Artes Visuais o que eu menos poderia esperar era sossego. Eu até já imaginava uma bagunça e hesitei antes de me inscrever na viagem, porém o fato de não pagar nada falou mais alto.

Ao conhecer a coordenadora da viagem fiquei mais sossegado. No alto dos seus quarenta e tantos anos, com um filho de vinte e poucos, se apresentava bem articulada e com conhecimento de causa para lidar com um bando de jovens eufóricos para chegar ao congresso. Nesse caso específico é preciso entender que, para a maioria dos passageiros, congresso=praia.Relaxei. Ao som da voz doce de Nara, adormeci.

Acordei de supetão com a coordenadora da viagem sacudindo uma lata de cerveja na minha frente, rindo a toa e dizendo: “Molha os dentes aí! (molhar dentes!?). No susto, recusei e antes de me dar conta da situação direito ela gritou pra todo mundo ouvir: “O pessoal aqui bebe remédio controlado! Quem tem um Gardenal aí pra eles?”.

O “pessoal” a que ela se referia éramos eu e minha colega de mestrado que embarcou comigo nesta viagem insólita para um congresso onde iríamos apresentar nossos artigos.Aquele anúncio da nossa caretice pro ônibus inteiro me fez tomar pé da real situação. Do meio até o final do veículo rolava uma espécie de festa regada à cerveja, música alta e performances. Um aluno com os shorts enrolados na cueca dançava no cilindro que servia de suporte para a descida da escadinha enquanto três fotógrafas faziam o registro da cena peculiar.Na TV, ao invés do filme de ação (não me façam lembrar o nome) que arbitrariamente foi colocado pra passar o tempo, vi a Gretchen em seu filme pornô “La Conga”. Sim, aquela mesma Gretchen que foi presa fazendo boca-de-urna em Senador Canedo nas ultimas eleições.Nem Dante descreveria essa visão do inferno com tamanho realismo. Imaginem a Sra. Gretchen, com aquela boca que não fecha mais de tanta plástica, nua, rebolando e cantando “La Conga” em cima de um cara pelado.

Sob protestos, alguém teve o bom senso de tirar o filme e quando estava me recuperando daquela imagem que vai povoar meus pesadelos de agora em diante, ouvi um grito de uma louca que, sentada na poltrona atrás da minha, cantava: “Galopeeeeeeeeeiiiiiiiiiiiraaaaaaaa...”Essa era a única parte da música que ela sabia e repetia da forma mais esganiçada possível. Olhei pra ela e tive pena do namorado que a acompanhava. No mínimo ele já estava sem tímpanos. Coitado! Não esboçava reação nenhuma diante dos gritos da amada. Na última “Galopeira” tive a impressão de ver uma amídala dela sendo lançada até a cabine do motorista.Foi então que a coordenadora (tenho que rever meus conceitos sobre coordenação) mandou aumentar o volume do DVD que, agora, substituía o da Gretchen. Tive que me segurar para não lançar-me janela afora quando vi Gino e Geno cantando e pulando como duas paquitas loucas. E pensar que meu avô tinha um disco dessa dupla, há novecentos e cinqüenta anos atrás. Quem ressuscitou esses dois?

Minha sorte foi a parada para o almoço. O auê foi interrompido e o povo sossegou um pouco.Desisti do meu mp3 até porque minha cabeça já não agüentava mais ouvir nada. Lancei mão da Revista Trip que estava na mochila, mas não passei do editorial e logo adormeci. De supetão, acordei novamente com a “bendita” coordenadora com uma marmitex cheia de torresmo na minha frente. A sensação de “deja vu” indicou que desta vez deveria aceitar para não correr o risco de me ver exposto novamente a comentários nada sutis. Devo confessar que estava bem gostoso. Então tracei um plano para prosseguir dormindo apesar da “Festa - parte 2” que se anunciava. Minha fraca resistência a bebida poderia ser bem útil. “Bebo e desmaio, daí não vejo nem ouço nada”. Pensei.

Meu plano começaria na parada para o jantar. Já eram quase 22 horas quando paramos num posto para comer. Minha cabeça ainda doía, mas percebi que o pessoal estava mais tranqüilo. Talvez a calmaria fosse conseqüência da fome. Ao terminar o jantar, desisti do plano da bebida. Meu otimismo (também preciso rever isso) me fez intuir que após a janta, todos, já cansados, iriam dormir de imediato como foi no almoço.

Qual não foi minha surpresa quando já no ônibus, alguém grita assim:- Bota a Gretchen! Vamos ver a “conga” da Gretchen!Nem vi direito quando pulei da poltrona e argumentei: Gente! Chega de TV por hoje! Pra minha surpresa, ganhei vários adeptos que também protestaram contra a Conga da Gretchen. Realmente, a experiência tinha sido traumática para muitos.Então a coordenadora, que nesta hora passou de “bendita” para “maldita” pulou na frente do aparelho e lançou mão de um DVD de Edson e Hudson pra animar o povo e não deixar ninguém dormir. O desespero sobre mim se abateu. Já tinha aberto mão do plano da bebida e nem sequer tinha um plano B na manga. De repente o DVD parou na metade da primeira música. Vibrei! Resolvi apelar pro vodu, mau-olhado, mandinga e tudo o mais que pudesse impedir aquele troço de funcionar. Deu certo. Nem sob as preces dos adeptos o disco pirata não rodava.Pensar que meu mal-olhado tinha funcionado foi um alívio pra minha dor de cabeça e isso me acalmou.

Quando ia me ajeitar pro sono da madrugada uma voz do além lembrou: “O fulano trouxe violão”. Gelei. Ao vivo poderia ser pior. Ainda mais se a moça com uma amídala só resolvesse chamar a Galopeira de volta.Surpreendentemente, a seresta não foi ruim. O moço do violão era afinadinho e o repertório era bem eclético. Até arrisquei cantarolar junto no “todo mundo”. Depois de uns 40 minutos de cantoria começou uma chuva fina e a temperatura baixou. Estávamos entrando no estado do Paraná. Isso fez a turma se aquietar. Luzes apagadas, me ajeitei na poltrona e quando já estava quase adormecendo escuto Ave-Maria de Schubert sendo cantarolada em tom clássico por alguém que resolveu balbuciar além desta, outras canções de repertório erudito. Vai entender...

Esbocei um sorriso bem particular sem conseguir conter o sono e pensei sem deixar meu otimismo vibrar: “Amanhã tem mais”.

Imagem: 'The Black Demon' de Salvador Dali ilustrando a Divina Comédia.

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