segunda-feira, 18 de maio de 2009

Bronzeado de Madrugadas

Querida Sofia!

Tempo demais se passou desde nossa última carta. O silêncio se interpôs sem explicações rasas nesse período de ausências. Mas agora, de novo, o som do teclado tenta me levar até você. Ainda está aí?

Acabei de chegar da rua. O sol incide e estou bronzeado de madrugadas. E é isso. Numa madrugada repleta de esforços por sentidos, conexões sedentas por desfechos, saídas, conclusões... o dia amanhece e meu corpo trás um suspiro. Preciso seguir minhas mãos, para não me perder no corredor do prédio e nessa vida tão circular.

Na verdade, eu estou escrevendo isso para mim mesmo, porque vai ser muito díficil dormir sem algum tipo de palavreamento para tirar do meu corpo essa ardência inquietante. Escrever talvez me ajude a caminhar para um lugar onde não conseguirei chegar com a razão. Entre uma frase e outra a consciência começa a questionar-me coisas estúpidas. O que bebi? O que ingeri? Eu não gostaria de responder, mas a consciência também procede de maneira semi-autônoma, como se o questionamento ecoasse incomodando até eu me dispor a responder: Sim, confesso que há um pouco de álcool nessa escrita.

É bom manter minha cabeça ocupada de entender esse frenesi de mim. E a vontade agora é gozar várias vezes vendo pornografias espalhadas pelo quarto. Tudo é devaneio, é ilusão, um estado alterado de consciência, uma coisa qualquer. A consciência não é vilã de nada. Ela está aqui, meio boba, sem entender muita coisa. No entanto, é ela que tira de mim a vontade de apagar as lembranças. Mesmo as dolorosas.

Já sentiu vontade de poder complementar as lembranças, Sofia? Eu sim. Vivo querendo continuar pequenos trechos, escrever comentários, fazer desenhos ilustrando ou colorir algumas de minhas memórias, ou mesmo acrescentar notas de rodapé. Talvez com estes recursos eu consiga rasurar minha solidão. Me acostumei desde sempre a não ser sozinho, estando sozinho. Mas o costume não ameniza as coisas.

Vou me deitar!
Meus olhos cansados e embriagados não conseguem focar um final mais esfuziante para esta carta tão difusa... por vezes confusa. É melhor dormir sem lembranças. É melhor saborear o giro que o quarto dá e deixar meu corpo se elevar em prazeres fugidios.

Não me acorde antes do meio-dia!

Wolney

Cena do Filme "Brilho eterno de uma mente sem lembranças". Imagem capturada em http://ratosehomens.blogspot.com/2008/08/brilho-eterno-de-uma-mente-sem-lembrana.html

Um comentário:

Cristiano Casado disse...

Viva e viva a la Tequila!