domingo, 21 de março de 2010

Outros modos de ver

Minha impaciência típica de filas que não andam fizeram com que eu perdesse o ínicio dos trailers do filme de sábado à noite. Entrei na sala escura apressadamente e me deparei com ela, perdida, olhando para cima e procurando algo ou alguém na invisibilidade de passos bem lentos. Tentei fazer uma ultrapassagem, mas a moça de camiseta amarela e óculos escuros me impedia de chegar à poltrona 19 da fila L.

Resmunguei e revirei os olhos soltando um suspiro e um pensamento impaciente - "Hunpf! Sem óculos escuros tenho certeza que chegaria ao seu lugar sem atrapalhar os ávidos cinéfilos que como eu não concebem entrar no cinema já com as luzes apagadas." - Parei por dois segundos e, em uma manobra de cintura, degraus e equilibrio de coca-cola, consegui fazer a ultrapassagem já aliviado por deixá-la para trás.

Já acomodado e feliz, percebi, alguns minutos depois que a mesma moça chegou acompanhada de um dos funcionários do cinema que a conduziu até a poltrona da fila bem à minha frente. Com surpresa notei que os óculos escuros na penumbra não eram charme e nem tampouco falta de noção. A garota de blusa amarela, mesmo cega, estava ali para 'assistir' o filme. Eu sim, naquele momento me sentindo completamente sem noção, afundei na poltrona e fui abraçado por minha insensibilidade a outros modos de ver.

Imagem: Wolney Fernandes

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