sábado, 21 de agosto de 2010

Confusas limitações

De repente, a vida muda. Geralmente é madrugada, quando o silêncio se completa e aqui nesse quarto entulhado - protetor da vida que eu tenho medo de levar - busco o porquê das mudanças, sem sucesso.

Por assim dizer, numa tentativa patética de não mais vasculhar os entremeios e pontos de todas as marcas que a vida nos dá sem direito de recusas. Minha falta de habilidade em fazer desenho de mim mesmo me paralisa frente àquilo que muda. Emudeço diante do embaralhamento de meus próprios traços. E vejo mais um filme, e choro, e escuto outra música que ninguém conhece.

Mudar, pra mim, significa expressar-me francamente, sem entrelinhas ou técnicas subliminares para disfarçar minha sentimentalidade empacada pelo medo. Quando isso acontece, quase sempre acabo criando grandes vales entre mim e aqueles/as que amo. Dói ter as feridas abertas. Dói mais ainda quando é minha própria mão quem risca a pele com ponta de faca.

Por isso o ato de escrever aparece-me hoje como nudez indesejada, uma obrigação arbitrária e ainda assim, irresistível. E expurgo pensamentos melancólicos para que minhas idéias me transformem naquele que tudo pode.

Muito ainda haveria de ser dito. Contudo, poucas linhas depois, aqui estou. Teimoso apenas para reforçar tudo o que não sei dizer com palavras.

Imagem: "A Ponte de Heráclito" de René Magritte

Um comentário:

Cristiano Casado disse...

É na madrugada que eu também escuto o mais completo silêncio e reflito sobre essas mudanças. Pena que durante o dia o barulho não me traz informação alguma, necessária para compreender, aliás,só me confunde mais.