domingo, 8 de agosto de 2010

Sobre domingos e pinóquios

Era domingo, como hoje. Em uma cartolina rosada meu pai havia desenhado um Pinóquio para mim. Era desenho sem cor, mas os traços precisos e marcados pelo capricho ventilavam carinhos paternos, tão sutis como rascunhos feitos "de leve".

A história do boneco de madeira que queria virar menino era minha preferida e a promessa de tê-lo na parede perto da minha cama foi feita muito anteriormente àquela data. Talvez por isso, a sensação experimentada naquela tarde de domingo foi tão incrível a ponto de retornar amiúde em nacos de lembranças minhas.

O mais velho de dez irmãos, meu pai encabeçava uma lista de talentos distribuídos por uma família numerosa. Sua caligrafia retilínia era sinal de sua destreza com a caneta e de sua intimidade com as artes do fazer. Desenhava sim, mas o desenho nunca foi sua paixão. O desenho aparecia só para acudir os projetos que ele, vez por outra, inventava: balança para pesar ouro, mesinhas de centro feitas em granito, apetrechos de tocar viola etc.

Este é o 18º dia dos pais sem meu pai. Nesse tempo venho tentado delinear quais as imagens da nossa relação que ainda cultivo e o Pinóquio desenhado na cartolina rosa sempre encabeça a pequena lista. Acho que ele nunca soube porque eu também nunca disse, mas nos traços daquele desenho, de certa forma, fui sulcado por duas vontades que ainda carrego: a de desenhar e a de dizer a ele o que eu mesmo desejava ouvir.

Imagem: Wolney Fernandes

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