segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Precipitação e desordem

Ocupo de pequenas alegrias o espaço que era para ser vazio. Cúmplice de mim mesmo, costuro meus desejos, horários e silêncios para além dos olhos alheios.

Ainda mora em mim aquele quintal misterioso onde aprendi o sublime e o trágico da vida - arame farpado, brinquedo inventado, brincadeira improvisada, chão de liberdades - tudo é tristemente feliz e em seu lugar. Afinal, [des]cobrir o mundo é uma extensão densa e enviesada desse quintal selvagem e transbordante que carrego dentro de mim.

Tudo é baldio nesses buracos de realidade, fantasia e espinhos. Mesmo assim, eu me viro brincando sozinho e cumprindo a sentença decretada pelas distâncias que sempre me acompanham.

Amei, mal-amei, des-amei e, por isso, sigo atravessado por meus crimes. Embora eu saiba que a solidão seja rito de passagem, começo a promulgar que amar é precipitação e desordem.

Foto: Wolney Fernandes

3 comentários:

Deire Assis disse...

É inquietude. É fora do lugar. É antes, primeiro...

Odailso Berté disse...

Nesse momento, não sei dizer o que é, do que se trata, o que abrange, no que consiste, o que permite, o que possibilita. Apenas lembro como era, o jeito que foi, os gestos que se desfizeram, a dor e o medo que deixou, as imagens que ainda persistem...

Odailso Berté disse...

Lembro... de um Nero desconcertado ateando fogo por toda minha ROMA - do avesso. Deixando em ruínas a ROMA - ao contrário - edificada espaçadamente, mas com esmero. Vejo que fico sem saber o que dizer a esse Nero... Queimo? Acolho? Entendo? Reconstruo ROMA de trás pra frente? Sobre ROMA, leio avessos, letras embaralhadas e perguntas.