sábado, 9 de julho de 2011

Olhar embriagado

Depois da esquina, na barraquinha do engraxate, homens e mulheres interrompem seus itinerários diários para fazer os sapatos reluzirem o embaraçado da cidade. Engraxar e lustrar sapatos por aqui é lei. No banheiro do hotel, parecendo um inciso silencioso deste código, há entre os sabonetes e xampus, uma pomada para tal operação. Meu tênis, desenchavido, parece me lembrar que o ideal seria andar pelas ruas com sapato de couro reluzente.

Na banca para cortar cabelo, há dezenas de cortes-modelo dispostos em fotos coladas uma ao lado da outra. Cliente chega, escolhe o corte pela foto e sai alinhado a caminhar entre as buzinas que cruzam as ruas caóticas da Cidade de México. Na viela antes do metrô, o sex-shop é vizinho das barracas com comidas variadas de cores contrastantes, cheiros inconfundíveis e gostos desconhecidos. No metrô, enquanto a personagem de uma novela mexicana embebe os cílios com rímel preto, uma senhora mendiga, canta dolorosamente as dores de uma vida de privações.

Os policiais, verdadeiros bufões, empertigados em cima de caixotes, olham de cima o casal de namoradas em demonstrações públicas de afeto. Se há funcionários marchando pelos corredores do aeroporto [um! dois! um! dois! um...), há também os dançarinos que enfeitam as fachadas de salsa e merengue das casas noturnas da Zona Rosa. Os mariachis, de terno e gravata, embalam almoços de final de tarde com canções de amor que desenham os dramas de um povo muito acolhedor.

Vista de cima, o traçado cartesiano das ruas pode até esconder o embaraçado e o colorido da cidade. Porém, bastam dois dias para que as cores, situações e pessoas de contrastes variados, surjam em generosas doses que embriagam o olhar. Dame otro tequila, por favor!

Fotos: Wolney Fernandes

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