sábado, 30 de julho de 2011

Registrar para existir?

Na última viagem que fiz, minha primeira promessa era não me deixar enforcar pela alça da câmera fotográfica. Segundo meu próprio direcionamento, o registro seria feito só depois de saborear cada pedacinho de vista, pessoa ou situação que perfumasse meus olhos. Tudo que eu queria era viver a experiência sem uma lente se interpondo entre mim e o fato vivenciado. Ainda assim, cerca de mil e duzentas(!) fotografias foi o saldo dos 15 dias que fiquei fora.

Para quê tudo isso? É sempre a pergunta que me faço ao descarregar as fotos no computador. Será que deixar de documentar minhas experiências e emoções fará com que eu me esqueça delas de forma mais rápida? E mais! Se não divulgar estes momentos em redes sociais, blogs e outras traquitanas por aí, eles deixam de existir?

Claro que a resposta é não, mas pelo andar da carruagem, me parece que tudo que não for registrado e divulgado desaparecerá de nossa memória. Aniversários, sorrisos, namoros, sessões de cinema, despedidas, desenhos rabiscados no caderninho, passeios, estranhamentos, bonitezas... ocasiões importantes que, por vezes, se transmutam em situações fugidias, pela necessidade de documentação.

Escrevo isso e a urgência desse tempo que vivemos me faz ter a sensação de que sou um velho saudosista sem a noção da revolução que as novas tecnologias fizeram no campo da imagem. No entanto, mesmo em dias como os nossos, é preciso pensar que a vida também acontece sem provas documentais.

Foto: Wolney Fernandes

3 comentários:

EFGoyaz disse...

Excelente! É como se nós, seres humanos, tivéssemos a necessidade vital de nos expressarmos. Até aí, tudo bem. Mas acontece que as fotografias, assim como essas minhas palavras, são a transformação de audição em falatório. E dizem que a sabedoria advém muito mais da audição do que do falatório. Não sei se o objetivo das pessoas é se tornarem sábias, mas eu acredito mesmo que é nocivo deixar de viver a realidade primária para viver segundas ou terceiras, cada qual coadas por invencionices humanas. Dentre elas, o próprio pensamento.

Lili disse...

Oi Wolney,
Não consigo me lembrar de alguns bons filmes que vi, nem de todos os bons livros que li; fotografias jamais conseguiriam revelar o que sentimos naquele instante e se colocássemos em palavras escritas tudo o que vivemos, quem as lesse talvez não conseguisse alcançar nosso voo, porque é o olhar de quem vê que faz a foto, é o coração de quem lê que interpreta, e a vida quase sempre acontece enquanto estamos distraídos. Todas as noites peço a Deus: desligai, ó Pai, o meu piloto automático!
Gosto das suas fotos de viagem :-)
Beijin,

Leonardo Figueiredo disse...

A mente lembra, a fotografia faz relembrar. Dizem que a fotografia digital banaliza a arte/ fotografia. Acredito que não. Até mesmos os mais antigos ensaios fotograficos levavam horas e rolos de filme para se chegar a uma unica capa de revista. Dai vem suas mil e tantas imagens, é a busca da captação no momento certo, gerando a imagem inesquecível.