quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Metafísica do amor


Pedi um chá de maçã para acompanhar o pedaço de torta de limão e abri o livro na página 10.

"O que vou ser depois que eu morrer? Eu vou perder os meus pensamentos?"*

Na TV ligada às minhas costas as imagens, mudas, eram lidas pelo recurso da tecla sap. O som que ecoava pelo lugar era o burburinho de conversas paralelas misturado ao barulho que os talheres orquestravam e, à minha frente, aquela questão existencial posta por letras tão bem alinhadas. Frente a ela, meus olhos buscaram outras paisagens porque meus pensamentos não conseguiam sair daquelas 58 palavras.

Foi então que os vi. Sentados de frente um para o outro, aquele casal tinha a ousadia de permanecer alheio a toda minha inquietude diante do embate metafísico que eu, silenciosamente, acabava de travar com as palavras de João Paulo Cuenca.

A paisagem que se seguiu era cartografada por beijos, afagos e olhares que não se desprendiam um do outro. Fiquei hipnotizado e, talvez tenha sido exatamente aquilo que meus olhos procuravam para me distanciar de minhas agonias tão chatas.

Meu coração, serenado diante daquelas vertigens apaixonadas, delicadamente reconduziu meus olhos para a leitura da crônica. Antes do final, eu já sabia que as respostas para aquelas duas questões estavam no fato de poder mudá-las, trocá-las, substituí-las por outras perguntas. E que esse movimento de troca me garantiria fôlego para chegar ao final do caminho.

Se apaixonado, então, a travessia pela vida poderia ser bem mais simples.

Foto: Wolney Fernandes
(*) Citação do livro "A última madrugada" de João Paulo Cuenca

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