quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Sobre altares, reformas e apagamentos


As asas eram de renda vazada e não serviam para voar. Mas quem precisa voar quando os pés já tocam o céu? No meu paraíso particular eu dividi o altar com São Sebastião tendo flores de plástico ao meu redor e arcos ogivais ornados com bandeirolas ao fundo.

O azul da veste parecia encomendado à mais caprichosa costureira para fazer par com os ornamentos daquele altar de encantos, reentrâncias e brancuras. Pecado era pisar naquele céu de branco anil da toalha tão bem cuidada pelas mãos de Dona Cândida. Mesmo assim, ali estava eu, com dois anos, empoleirado no paraíso, embrenhado em atenções e ornado com fita de cetim.

Da minha ascenção ao céus eu me lembro pouco. Precisei das memórias da minha mãe para refazer todo o percurso que circunda a foto que abre este texto porque minhas lembranças estão todas plantadas em terrenos bem mais profanos. Aos pés desse mesmo altar, meus joelhos se dobraram várias vezes ao longo da minha infância e juventude. Tentativas vãs, hoje eu bem sei, de outra vez ter um par de asas que me autorizasse novo pouso no altar do Divino.

Sobre esse mesmo altar também ofertei flores a Virgem Maria, encantado com o significado dado a cada uma delas pelos versos tão bem ensaiados por Dona Vita e entoados pelas moças da cidade:

"Ao lado das rosas,
com nítida alvura,
se mostre o jasmim,
sinal de candura!"

Por ocasião da coroação de Nossa Senhora, aqueles cantos ecoavam por toda igreja e enchiam meus olhos com purpurina, coroas de papel laminado e cestas de papel de seda. O grande altar central, onde ficava a imagem da padroeira, era vestido de branco e servia de céu para as virgens pisarem, solenemente, no mês de maio.


Adulto, já órfão daquela vontade de céu, eu gostava mesmo era de sentar naqueles bancos e deixar meus olhos passearem por aquelas belezas impregnadas pelas memórias de quem já fez daquela igreja - com "i" minúsculo mesmo - extensão da própria casa. De cor, eu sabia dizer os desenhos de cada canto, soletrava os sons coloridos que os tablados de madeira faziam ressoar e sentia o cheiro das tantas vezes que a vida se fez rito naquele lugar: batismos, dia das mães e dos pais, novenas, via-sacras, casamentos, mortes, cantorias...

Naquele pedacinho de céu, minhas memórias, desavisadas, pareciam encontrar aconchegos em cada canto. Até pensei que elas habitariam aquele lugar sagrado para sempre. Paraíso inatingível, e por isso mesmo, intocável, eterno. Mas, a Igreja, essa sim, com "I" maiúsculo de Instituição, expulsou cada uma de minhas lembranças de lá. Inquisitora, botou porta afora com apenas uma reforma, minhas memórias e suas nuances individuais e coletivas. Os fazeres e suores que entalharam aqueles altares saíram do presbitério para o terreno do fundo - purgatório onde agonizam imagens, perfumes, sons, situações e pessoas que não quero esquecer.


E foi assim, entre pedaços quebrados e contornos esquecidos, que encontrei aquele pedacinho de céu jogado entre as tralhas que restaram da reforma que fizeram na pequena igreja da minha cidade natal nos últimos meses. Da necessidade de uma reforma, eu nunca duvidei ou sequer ouso questionar. Minha indignação se refaz diante do modo como os trabalhos foram orquestrados. Dessa orquestração, eu esperava uma sinfonia que cantasse respeito com a trajetória do lugar, com as memórias do povo, com as celebrações da minha gente, com a minha própria história.

Ao invés disso, o som que fica é o da manipulação, do abafamento e da invisibilidade - características da ação dessa Igreja que aliena sob o discurso da libertação e que se apropria das histórias alheias para aplainá-las sob o peso da cruz.


Ironicamente, daquela igreja onde eu tinha memórias espalhadas em cada canto só sobrou a fachada. Casca sem miolo. Pão amanhecido sem as cores e os sabores da vida. Caixote sem as flores, os laços de fita ou as bandeirinhas coloridas. Hoje, mesmo com asas para voar, eu não teria espaço para brincar ao lado de São Sebastião.

Imagens: Wolney Fernandes

2 comentários:

Afonso Medeiros disse...

Quando te leio ou te vejo assim, tenho a nítida impressão de que ecoas as phantasmagorias de minha própria memória... (Afonso).

laura neves disse...

Já se passaram anos da "reforma",e hoje tenho a impressão de estar em um lugar que não é meu, que não me pertence. Trocou, não faz parte de Lagolândia.
Seu texto é perfeito, traz os engasgos que muitos tem guardado.