sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Janela Indiscreta


É noite de sexta. A brisa fresca me conduz até a janela do quarto. Enquanto a boca articula conversas sem fim ao telefone, meus olhos são pegos de surpresa quando noto que o vizinho do prédio ao lado, sem camisa, dança em frente ao espelho.

Simultaneamente, na porta da Igreja Batista, uma noiva desce do carro preto sem se importar com o vento que carrega seu véu para longe. Cercada por ajudantes prestativas, ela se posiciona na entrada do templo enquanto o fino tecido é recolocado em seu lugar.

Percebo que o vizinho dançarino empunha o que me parece um microfone improvisado e, além da dança, inicia uma performance digna de um show de rock.

Uma senhora sai da padaria andando lentamente e tenho a impressão que irá demorar uma semana para atravessar a rua. A noiva desaparece na nave da Igreja enquanto ouço sons de trompetes misturados ao burburinho de vozes em torno da piscina do condomínio de luxo que fica do outro lado da rua. Um casal, na sacada, olha a noite, enquanto conversam.

Já não escuto mais o som do coro da Igreja. As luzes de freio dos carros que contornam a Praça Cívica vão diminuindo à medida que o sinal se esverdeia. A velhinha ainda está na metade do caminho quando termino de falar ao telefone. 

Apoteose no show que o vizinho cantor executa. De cima da própria cama, imagino eu, ele dá um salto até o chão se contorcendo até desaparecer do campo de vista da janela. Tenho vontade de aplaudir, mas ele volta à cena e me faz perceber que o show ainda não terminou. 

Alguém pediu bis e eu nem notei.

Foto: Wolney Fernandes

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