domingo, 31 de março de 2013

No embalo das Imperfeições


Ando sem vontade de fazer a barba, nem cortar o cabelo. Sorrio do meu eventual desapego e me divirto com minhas negligências estratégicas, meus pequenos desvios de caráter. Não ando afim de lavar meus sapatos e não estou nem aí para o caos do quarto ou do barulho do colchão. Sinto vontade de erguer um altar à preguiça e a procrastinação. Mesmo em domingos ensolarados não me movo do travesseiro e do edredom. Durmo na alta madrugada, muito embora meu sono entrecortado me acorde antes das oito da manhã. Não sinto vontade de voltar pra casa depois de um dia difícil.

Amanhã, além de segunda-feira também é dia primeiro e meus planos de vida saudável e arrumações profissionais parecem perdidos em meio a tantas contas a pagar. A rotina desce mordendo os calcanhares e me vejo de lá a cá, perdido em mil obrigações fúteis. As relações de trabalho obrigam a me submerter à servilidade do rapaz de recados, a desligar o telefone diante de novos pedidos e encomendas.

Os amigos brilham em volta e até mandam notícias para dizer que eu poderia estar ali e acolá. Estarei, em breve, agora que março finda só me resta este mergulho vertiginoso até junho, meu novo ano novo, e a esperança recorrente de que, sim, vai melhorar. Não sei onde será meu reveillon e muito menos para quem venderei minha alma [e quem sabe o corpo, se sorte tiver] a preço de liquidação.

Tenho entrado no elevador e esquecido de anotar os instantes que colocam sorrisos em mim. Finjo uma pretensa segurança enquanto escovo os dentes, adio a faxina enquanto o caos se instala pelo peito e, na espera de algo que ainda parece estar a milhares de quilômetros, sigo dançando sozinho pelo quarto. Só ali, no meio dos acordes que me embalam é que tenho conseguido abalar minhas inúmeras imperfeições.

Foto: Wolney Fernandes

Um comentário:

Anônimo disse...

Muita identificação com meu atual momento. Como a postagem é de 2013, espero que já tenha passado. Eu ainda estou.

Carlos Vieira