sábado, 4 de maio de 2013

Deslumbramentos de cabeceira


Na mesinha ao lado cama, há sempre três ou quatro livros que leio, alternadamente, segundo uma ordem ditada pelo caos da minha vontade que muda a cada adormecer. Os deslumbramentos das últimas semanas tem sido assim:


01. O Olho da Rua [Eliane Brum]
"É tão estranho", ela diz. "Eu passei a vida inteira batendo ponto, com horário pra tudo. Quando me aposentei, arranquei o relógio de pulso e joguei fora. Finalmente eu seria livre. Aí apareceu essa doença. Quando tive tempo, descobri que meu tempo tinha acabado".

02. A Vida Privada das Árvores [Alejandro Zambra]
Sabe-se que muito em breve Ernesto não voltará mais. Imagina-se desconcertada, e depois furiosa, e finalmente invadida por uma decisiva quietude. Tudo bem, era sem compromisso, como deve ser: ama-se para deixar-se de amar e se deixa de amar para começar a amar outros, ou para ficar sozinho, por um tempo ou para sempre. Esse é o dogma. O único dogma.

03. O Filho da Mãe [Bernardo Carvalho]
Nas montanhas, todo homem tem um kunak, um amigo estrangeiro que o salvará da morte e que ele também tem a obrigação de salvar. Nenhum homem será completo enquanto não encontrar o seu kunak. Só então poderá seguir o próprio caminho em paz, sabendo que existe no mundo alguém, como ele, com quem ele pode contar na vida e na morte. As quimeras morrem para que sobreviva o pacto dos que não podem contar nem com Deus nem com os anjos.

04. Toda Poesia [Paulo Leminski]
tudo em mim
anda a mil
tudo assim
tudo por um fio
tudo feito
tudo estivesse no cio
tudo pisando macio
tudo psiu

tudo em minha volta
anda às tontas
como se as coisas
fossem todas
afinal de contas

Foto: Wolney Fernandes

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