quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Ponto de continuação


Faltava uma esquina só. Na fome típica do trânsito do meio-dia, avistei a Kombi, parada, metade na rua, metade na calçada. O sinal fechou. Então eu pude ler no adesivo colado no vidro traseiro daquele veículo:

"Saudade do meu pai"

Nos minutos seguintes, me apropriei daquela saudade e pensei na ausência do meu próprio pai nesses vinte e dois anos desde a sua morte. Deu vontade de saber como seria uma conversa nossa, que irritações seriam derivadas de manias, minhas e dele, e se seus cabelos já estariam brancos. Dentro dessa vontade, descobri que sou forte nos outros e frágil em mim mesmo. Todas as vezes que tentei ir embora daquela saudade, não consegui.

Chorei um pouquinho só. Não pela impossibilidade de respostas, por incompreensão, mágoas ou desvios, mas pela vontade de colo.

O choro foi de saudade.

Tentei tirar uma foto, mas o sentimento colado na traseira da Kombi ficou ilegível diante da buzina que já gritava a pressa do sinal verde. Não me prolonguei. O choro foi curto, mas depois tive tempo de escrevê-lo. Aquela saudade foi apenas um ponto de continuação. Um pequeno milagre para entender que meu pai é a parte de mim mais resistente ao mundo.

Foto: Wolney Fernandes

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