quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O Pintassilgo - tentativa de nos conectar a uma beleza maior


"Amar demais os objetos pode te destruir. Mas, se você ama uma coisa o suficiente, ela ganha vida própria, não ganha? E o objetivo todo das coisas - das coisas belas - não é te conectarem a uma beleza maior?"

Falar de "O Pintassilgo" de Donna Tartt é falar também da minha paixão por imagens e objetos que, com um tanto de apreço e um pouco de ilusão, guardo comigo numa vontade menina de que, por eles, a vida continue de outro modo. Foi assim com a viola que pertenceu a meu pai, com as cartas de amantes do século passado que encontrei numa feira de antiguidades na Cidade do México, com a bandeira de folia do meu avô e com os livros e fotos que trazem dedicatórias anônimas… A posse desses artefatos faz circular histórias, intimidades, dores, saudades e outros mistérios que se misturam aos meus próprios por razões que eu próprio desconheço.

Com Theo Decker, protagonista do livro, também é assim. A posse de uma pintura que chega às mãos desse garoto de 13 anos vai alterar, significativamente, as escolhas e rumos que ele precisa traçar - ou que traçam pra ele - depois de um trágico acidente vivenciado no Metropolitan Museum, em Nova York.

"O Pintassilgo" do título faz referência direta à uma pequena pintura do século XVII do holandês Carel Fabritius que acaba nas mãos de Theo e segue com ele por toda a trama. Uma história muito bem escrita em quase 800 páginas de reviravoltas que iniciam em Nova York, continuam em Las Vegas e terminam em Amsterdam que é onde o livro começa.

Por um enredo que se move como um jogo de espelhos entre destino e livre arbítrio, o que se vê é um herói atormentado por um evento que vai marcá-lo vida afora. No espaço entre ser o que se deseja e ser aquilo que realmente se é, a autora consegue esboçar questões que ressoam para além do romance.

"Um eu que não se quer. Um coração que não se pode evitar."

A aventura pelo submundo da arte, seus originais e falsificações compõem, com muita propriedade, esse cenário onde perda, obsessão e sobrevivência são sentimentos que sempre vem à tona. Abandonado pelo pai e sozinho diante das perdas que o acidente lhe impõe, Theo se apega à misteriosa pintura que o levará a questionar sua ligação com um passado que ele desconhece e com as relações que irá estabelecer vida afora.


"Se uma pintura realmente afeta e muda sua maneira de ver, de pensar, de sentir, você não pensa 'Ah, eu amo essa pintura porque ela é universal' (...) Não é por isso que alguém ama uma obra de arte. É um sussurro secreto vindo de um beco. (…) Um choque individual no coração."

Embora os "ganchos" sejam bem poucos entre um capítulo e outro, a leitura transcorre de forma fluída muito em função de uma escrita bem articulada e cheia de imagens sutis que ajudam a compor um painel hipnotizante - destaque para as cenas de ação no Metropolitan - que nos leva ao fim do livro com muita rapidez. E é justamente no final onde está o grande escorregão da obra, pois só ali vemos as reflexões do protagonista tomarem forma de uma tacada só e Donna Tartt faz isso de um jeito bem primário. Quase como uma bula explicativa, a autora parece temer outras interpretações que não aquela que ela faz transbordar em páginas desnecessárias.

Theo passa grande parte do livro cometendo os mesmos erros e só no final, com 27 anos, parece reconhecê-los de uma tacada só. A meu ver, teria sido mais sensato espalhar "os aprendizados" [se é que é preciso haver algum] durante a jornada de amadurecido do herói.

Essa pequena decepção [que não estraga o prazer da leitura] me fez pensar que os reconhecimentos e os questionamentos que fazemos vida afora nunca se completam e é justamente em função dessa incompletude que seguimos na tentativa de nos conectarmos "a uma beleza maior". Tenho suspeitado que o grande mistério da vida é essa conexão que pode ser estabelecida, gradativamente, à partir do olhar de um passarinho pintado há muito ou de um abraço desejado e rabiscado com caneta Bic no verso de uma foto.

Foto: Wolney Fernandes
Pintura de Carel Fabritius

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