quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O Filho de Mil Homens


"Um homem chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter um filho."

Assim começa "O Filho de Mil Homens", livro do escritor português Valter Hugo Mãe que investiga novas relações familiares questionando a estrutura familiar tradicional. A história começa com o desejo de ser pai do pescador Crisóstomo e se estende pelas trajetórias de outros personagens diferentes, renegados e, exatamente por isso, infelizes.

Uma anã, um órfão, um gay e uma moça desvirginada compõem parte dessa galeria de proscritos que vivem sob o peso do julgamento de uma sociedade conservadora que não consegue conviver com as diferenças. Embora o autor não demarque um período histórico, fica muito claro que a trama se desenvolve de maneira muito próxima àquilo que testemunhamos na atualidade.

A solidão desses personagens é o ponto de partida para um desdobramento que vai aproximá-los, de modos muito distintos, deles mesmos. Uma busca pela felicidade é empreendida à partir de situações de esvaziamento, de perda de identidade e do prazer de viver.

"Não era mulher de reclamar grandes atenções, e por isso não retinha nada de especial. Era como aproveitar o amor possível. O amor dos infelizes."

De certa forma, os estigmas que pairam sob cada uma dessas pessoas são exacerbados pelos olhos dos outros à partir do uso da própria sexualidade. A anã, que perde o apoio social quando decide deixar o posto de "coitadinha" para vivenciar, em plenitude, o que significa ser mulher; o "homem maricas" que a própria condição parece instaurar um ódio gratuito nas pessoas que o rodeiam, inclusive na própria mãe; e a moça pura que ao perder a virgindade está fadada à viver só e infeliz.

"Era uma mulher carregada de ausências e silêncios. Para dentro da Isaura era um sem fim e pouco do que continha lhe servia para a felicidade. Para dentro da Isaura a Isaura caía."

Os laços que unem os destinos desses personagens sustentam a história. Apesar do enredo não ser tão instigante - e na segunda metade do livro isso fica mais evidente - grande parte dos assombros e encantamentos está em acompanhar a trajetória de cada um deles e o modo como "o outro" pode exercer um papel primordial no entendimento do que significa ser humano e ser feliz. Do meio para o final do livro, as emoções mudam de tom e, quando reencontramos o Crisóstomo, já estamos enredados por sua vontade genuína de ser pai de mil homens. 

É interessante o contraponto feito pelo autor ao explicitar preconceitos em torno do que é tido como diferente e confrontá-los com a experiência de transformação gerada por relações afetivas construídas exatamente pelo respeito à essa diferença. Crisálidas prestes a se romperem em vôos coloridos e diversificados. 

"Ser o que se pode é a felicidade. Não adianta sonhar com o que é feito apenas de fantasia e querer aspirar ao impossível. A felicidade é a aceitação do que se é e se pode ser."

"O Filho de Mil Homens" é um livro de tristezas, mas não aquelas que se afundam em si mesmas. As tristezas reveladas por Valter Hugo Mãe funcionam como camadas que se misturam a cotidianidades e a destinos muito próximos da realidade. Com destreza invejável, o autor consegue balancear drama e humor em doses certeiras (o capítulo 11 particularmente me fez dar boas risadas) e sua prosa poética, sempre repleta de termos e expressões inteligentes, me fez parar por diversas vezes para suspirar, para reler um parágrafo ou mesmo olhar pra janela em busca de espaço para fazer todos os sentidos caberem no meu peito.

"Farto como estava de ser sozinho, aprendera que a família também se inventava"

Terminei a leitura uma vontade de que todo mundo pudesse ler esse livro, cuja trama, tão atual, parece afinar nossas humanidades pelo ritmo das batidas do coração. Para terminar com chave de ouro, a nota do autor, depois do final da história nos dá a justa medida de como literatura e vida parecem indissociáveis. 

"Hoje é do que tenho mais saudade. Desse sentimento, que na sua plenitude talvez se reverte às crianças, de acreditar que alguém cuida de nós segundo o nosso mérito. Quando se perde essa convicção, fica-se irremediavelmente sozinho. Os pais e os filhos são o único modo de interferir positivamente nessa solidão."

Imagem: Wolney Fernandes

Um comentário:

Célia Varela Bezerra disse...

Gostei muito do seu texto e ao terminar a leitura do livro também me venho a vontade de que. mil, milhares, milhões de pessoas o lessem. Nesse cenário de disseminação de ódio aos diferentes, os personagens do livro nos comove na trajetória de cada um expressar o desejo de ser gente, gente inteira. E a revolução se dá na capacidade de amar a nossa precária humanidade.