sexta-feira, 10 de abril de 2009

O natal que eu celebro na páscoa

Tinha algo ali que me inebriava. Talvez o cheiro da parafina queimada misturado ao ardume fétido de côco dos morcegos que habitavam o teto da igreja. Talvez os contornos das flores de plástico e o colorido psicodélico dos altares pintados de rosa, azul e laranja. Talvez fosse simplesmente os olhos de vidro da imagem de Nossa Senhora do Rosário que brilhavam para mim e, como em um encanto hipnótico, me conduzissem àquele lugar todas as vezes que o sino badalava anunciando a hora da reza.

Sentado naqueles bancos de madeira rústica pintados de azul eu era um menino feliz. E por mais que procure, hoje, uma materialização que explique meu estado de alegria e felicidade diante da missa que o Pe. Jesus conduzia sem pressa, simplesmente não consigo. As respostas prontas que eu não entendia direito, mas repetia com profunda convicção, e as ladainhas em latim puxadas pela dona Vita faziam eu ter a certeza de que era exatamente ali que eu gostaria de estar pra sempre.

Deus habitava pertinho de mim. Ali no meu catecismo de capa branca, com a imagem de Jesus traçada em azul, eu podia carregá-lo. E nossos encontros eram simples. Deus me pegava pela mão quando minha vela era acesa. Juntos, eu e Ele, caminhávamos em procissão em torno da praça ouvindo "Ave-Marias" murmuradas em fila. Ele me alimentava quando pétalas de rosas brancas viravam Seu corpo nas missas que eu secretamente celebrava no quintal de casa. As incoerências não existiam, pois não havia nenhuma cobrança, nem da minha parte, nem da Dele. E assim, nossa amizade se fortalecia naquela cumplicidade mútua de meninos do interior.

Naquela época, para mim Deus era mais menino do que propriamente um deus que tinha o poder sobre a morte. A grande festa da liturgia que me rodeava não era a Páscoa, mas sim o Natal. Quaresma terminava no sábado da aleluia e pronto! Domingo era apenas o dia das normalidades, onde não se conjurava milagres de ressurreição.

No Natal tudo era festa, quando Deus-menino invadia as casas de quem quisesse fazer um presépio para recebê-lo. Na primeira vez, eu mesmo preparei o lugar que Ele habitaria: Um canto da parede da sala com meus brinquedos compunha com os aromas dos jasmins colhidos no brejo, um altar para recebê-lo. Simples assim. Sem agonias, traições ou mortes. Só alegrias pela chegada.

Hoje já não sei como me encontrar com Deus nos lugares onde dizem ser a casa d'Ele. É por isso, que em véspera de Páscoa, eu me junto a Alberto Caeiro para me postar desejoso daquele encontro em que nossas mãos se juntem novamente, como no Natal. E que meus brinquedos o alegrem tanto quanto me fazem feliz.
Eu e Deus-menino.
Aquele que foge do céu, para comigo morar:

"[...] No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura [...]
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo. [...]

Feliz Natal a todos/as!

Foto: Wolney Fernandes

Um comentário:

Adriano Antunes disse...

Olha como a vida é. Estava eu certo domingo passeando por uma feira (Bric da Redenção) famosa aqui em Porto Alegre e me deparei com uma estátua viva que ao tilintar de uma moeda recitava poemas. Encantei-me quando, daquela imagem de bronze falso brotaram as palavras do poema por ti postado. Encantado, comentei com meu amigo que desconhecia o autor mas que desejava muito conhecer sua obra. Meu amigo que filmou tudo com sua precisa máquina prometeu descobrir. Até esse momento vivi na espera de um dia esbarrar novamente com esse poema... e olha ele aí... exatamente como ouvi, exatamente como sinto, exatamente como acredito. Você iluminou meu dia. Um abração!