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quarta-feira, 29 de julho de 2009

Balanços

Querida Sofia!

Dia desses alguém lembrou você em uma de minhas conversas e fui tomado pelos momentos perdidos nos quais não mais senti vontade de lhe escrever. Estranho foi imaginar que nunca mais minhas inquietudes pudessem chegar até você. Senti uma espécie de escoamento de lembranças e por isso estou aqui novamente. Devo me desculpar pela sinceridade? Ou melhor, será que estou sendo sincero na medida que a ocasião merece?

Outro dia me peguei desejoso de meias verdades. É, cansei de desfiar o discurso da sinceridade porque, de repente, numa manhã, quando ela chega assim sem avisar, dilacera minhas quietudes. Sinceridade nua e crua machuca. Prefiro que ela venha revestida de verdades rendadas e, por favor, diga-me que essa afirmação não é só minha. Ou é?

Eu estou velho. Sim e nem se dê ao trabalho de discursar sobre juventudes tardias. Outro dia entrei no parquinho e uma moça gritou: "Só pode criança nesse balanço". Nunca me senti tão velho, nunca me senti tão pesado. Minha infância nunca mais será a mesma depois daquilo. Então, eu cheguei até aqui, velho.

Um velho que vive mais de lembranças do que de esperanças. É bom lembrar do moço que fui. É bom também chegar aqui neste meu pequeno altar emancipado e celebrar quase sem forças uma antiga reza para um Deus que foi embora. Entre todos esses pensamentos bagunçados, Sofia, ficam as lembranças de um tempo quase sagrado, não fossem tão profanos meus desejos. E mesmo quando falta a promessa, é nesta oração possível que ainda percebo o quanto estou vivo e sou o resto de tudo que amei.

Gosto de te escrever porque sempre termino assim, meio velho, mas menino.

Sou um ser de saudade – o fui sempre e agora ela mora aqui comigo.
Abraços prolongados!

Wolney

Imagem capturada em http://lineneto.wordpress.com/2008/12/05/balanco/

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