terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Sem esperas

Na descida do elevador encontro o velhinho do 12º andar. Cabelos brancos, camisa engomada, calça presa por um cinto lustroso e garboso. Na mão um guarda-chuva e do lado uma mala denuncia seus planos de viagem.

Ele me lança aquele olhar de puxar conversa e sem responder direito meu cumprimento já dá um salve à chuva que cai torrencialmente lá fora. Pergunto se ele vai aproveitar o período das festas de final de ano e ele responde com todo gosto: "Estou indo para o norte, visitar filho e netos".

O elevador chega ao térreo e eu, todo solícito, me prontifico para ajudá-lo com a mala. Educadamente ele faz um sinal com a mão e já emenda puxando a bagagem pela escada afora: "Já enfrentei o pós-guerra e não vai ser a 'porra' de uma mala que vai me impedir de descer estas escadas. Meu filho já sabe: nada de me pegar no aeroporto. Gosto de fazer tudo sozinho. Me sinto útil".

Já na calçada, junto a uma piscadela, completa em tom de brincadeira: "Não se preocupe, não! Eu sou um velho que fala o que pensa. A idade permite". O táxi o espera e antes que o motorista o ajude com a bagagem ele já está dentro do veículo. "Bom Ano Novo pra você!" - diz pra mim enquanto coloca o cinto de segurança.

Retribuo com um desejo de boa viagem e abro meu guarda-chuva. Sem olhar para os lados, atravesso a avenida já invejando aquela velhice desbocada e sem esperas em aeroportos.

Foto de David Meyer. Achei aqui.

Um comentário:

Paralelas disse...

um bom texto, escrito por um "observador nato", sobre um personagem bem relevante...abraço