domingo, 6 de fevereiro de 2011

Primo do Padre

Diante do nome do arcebispo de Goiânia eu levantei a cabeça e, torcendo para não ter escutado direito, indaguei assustado: "Quem vai presidir a celebração?" Tios, tias e primos me olharam com assombro e, sem dó, confirmaram: Dom Washington!

Eu, em minha atual e por vezes insensata vocação para dizer o que me vem à cabeça profanei o santo nome do bispo em vão. Junto àquela profanação devo ter feito uma careta deveras preocupante, pois mais que depressa alguém do lado de lá da mesa lançou-me um consolo "fulano de tal também não gosta do jeito dele celebrar". Ao passo que, ainda sem conseguir frear a língua, completei: "E existe alguém que goste?".

Convém dizer que sou primo de um padre e, por muito tempo, fui também católico fiel e militante pastoral. Porém, depois de tempo demais sem ir a missa (nem ouso dizer o quanto para não correr o risco de nova profanação), meu jejum eucarístico teve fim no último domingo. Meu primo que, por muito tempo, foi pároco no Piauí, reuniu parte da família para a celebração de posse em seu retorno às terras goianas junto a uma comunidade do Jardim Nova Esperança.

Estávamos todos reunidos em sua nova casa paroquial, minutos antes da missa, quando a idéia de ficar duas horas sentado diante de D. Washington me apavorou. Eu sempre imaginei que seria reconduzido ao rebanho de maneira simples e, confesso que a premissa de celebrar junto aos meus em uma igreja pequena na periferia de Goiânia me pareceu um retorno bem adequado aos meus tempos de vida em comunidade.

Na verdade, minha implicância com o arcebispo é apenas um reflexo da minha decepção com a instituição que ele representa. Talvez por isso, aquela vontade de me encantar de novo e voltar a experimentar os sentidos tão bem orquestrados por uma celebração eucarística parecia não caber no mesmo lugar que ele estivesse. Eu desejava voltar para uma Igreja bem diferente daquela que ele conduz.

A saída foi ignorá-lo. E até onde eu pude, foi o exercício que me manteve por quase duas horas e meia ali diante dos [des]conhecimentos de antes. Meu olhar passeava pelos rostos das pessoas presentes à procura de resquícios daquela fé que as mantinham de pé, no calor, ou correndo pelos corredores estreitos para afinar todos os preparativos que envolvem o rito litúrgico.

Sendo primo do padre empossado, tive cadeira reservada e fui citado pelo menos umas três vezes, juntamente com o restante da família, no decorrer da celebração. Ao meu lado, dando uma de penetra no seleto grupo familiar, sentou-se seu Chico. Foi colocado ali pela irmã mais nova que o deixou para ir acomodar-se do outro lado da pequena igreja. Idoso, quase cego e com uma das mãos imobilizada ele permanceu atento, se colocando de prontidão para o senta-levanta característico do rito. Se não sabia a letra dos cantos, sussurrava a melodia. Se lhe faltava forças para entrar na fila da comunhão, conseguia atenção dos ministros para lhe trazerem pessoalmente a eucaristia.

Aos poucos, e sem saber, a postura de seu Chico foi me trazendo de volta a beleza contida no perfume das flores, nas canções que insistiam em colocar estrofes na minha boca, nas cores do painel antigo pintado na parede lateral e na vontade de dar as boas-vindas ao meu primo, amigo de infância e de tantas lembranças boas partihadas pelos quintais da casa da vó.

Ao final da celebração, até o abraço forçado que o arcebispo me impôs pareceu não me retirar daquele lugar prenho de bons sentidos. Minha alma católica proibiu-me de comungar em espécie no momento reservado para a comunhão, mas foi no bolinho de milho, servido depois da missa, que a fé de seu Chico encontrou o meu paladar para habitar.

Foto: Painel da Igreja N. Sra. da Esperança

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